• Sonuç bulunamadı

Polimerlerde karşılaşılan zorlanma ve gerilim ilişkileri

2.3. Polimerlerin Mekanik Özellikleri

2.3.1. Polimerlerde karşılaşılan zorlanma ve gerilim ilişkileri

A primeira mancha na imagem e na memória da FEB e de todos os brasileiros que combateram na Segunda Guerra Mundial foi indiscutivelmente o golpe de 1964. Principalmente para uma parcela da geração de 1960/70 é difícil não associar a FEB ao processo conspiratório, uma vez que a sua oficialidade, Cordeiro de Farias, Golbery do Couto e Silva e Castello Branco, foi peça-chave para a arquitetura e concretização do golpe que derrubou João Goulart. Entretanto, a mancha cresceria ainda mais no decorrer dos governos militares, como conseqüência de dois aspectos: o primeiro diz respeito ao silêncio dos febianos nas associações de ex-combatentes em relação ao Estado de exceção que o Brasil começava a viver. Foram poucos os veteranos da FEB que se rebelaram contra os militares golpistas e, conseqüentemente, também pagaram um alto preço, assim como os partidos e setores da esquerda brasileira; e o segundo, este ainda mais complicado, refere-se à participação direta de alguns febianos no endurecimento do regime militar, respondendo às

166 DULLES (1979), Op. cit., p.334. 167 Idem, p.335.

vezes até pela idealização e operação de atividades de vigilância, prisão, tortura e assassinato daqueles eleitos “inimigos” do regime.

E já o primeiro governo dos militares, o do general Humberto de Alencar Castelo Branco, que durante a Segunda Guerra fora o Chefe Interino do Estado-Maior da FEB, começava a construir os alicerces de um regime truculento, fechado. A liberdade e os direitos do povo brasileiro começavam a esvair-se.

Segundo Dulles, Castello Branco tinha entre os oficiais do Exército um grande prestígio e era respeitado como o instrutor que ministrara a muitos deles ensinamentos que nunca esqueceriam, além de ter construído uma grande reputação na campanha da Itália e após o seu retorno ao Brasil. A circular confidencial do general, datada de 20 de março de 1964 e publicada na imprensa por ocasião da queda de Goulart, causou favorável impressão tanto nos meios civis como nos militares. A imagem de que Castello era o cérebro da “revolução” e de que era um líder que desejava ver a legalidade rigorosamente defendida e respeitada fortificou-se neste momento. Além disto, a ligação de Castello com a ESG dava garantias aos grupos que apoiaram a derrubada de Goulart de que ele estava familiarizado com os estudos sobre o que necessitava ser feito no Brasil, juntamente com amplos pontos de vista e conexões nos meios civis e intelectuais.168 Já para aqueles que sofreram horrores

durante o regime militar, sendo perseguidos, torturados, exilados, tendo amigos assassinados e desaparecidos, a imagem de Castello Branco seria cristalizada definitivamente como o primeiro ditador, aquele que criara as estruturas da repressão. O general que tão bem representava as glórias da FEB na Itália contra o nazi-fascismo, 20 anos depois conspirara contra a democracia no Brasil e tomara o poder. Castello Branco e os outros oficiais materializavam o pensamento e a experiência da FEB, conseqüentemente, a imagem e a memória da FEB ficariam maculadas para toda uma geração de intelectuais e artistas que aprenderiam a associar a FEB às Forças Armadas, e o pior, às atrocidades cometidas pelo regime militar.

E mais tarde desconversar seria a melhor saída para alguns febianos, como fez Cordeiro de Farias, nos anos de 1980, durante uma entrevista concedida aos historiadores Aspásia Camargo e Walter Góes. Ao ser questionado sobre uma grande presença de febianos na lista de oficiais que participaram ativamente da conspiração de 1964, procurou desconversar mencionando sua amizade com Nélson de Melo, ex-combatente e que fez parte

do golpe. Nos anos de 1940, Nélson de Melo era um dos responsáveis pela polícia de Getúlio Vargas, abandonou o cargo e decidiu integrar o corpo expedicionário brasileiro.169

A respeito de Castello Branco no poder, alguns de seus biógrafos insistem na imagem de um presidente reformador que, por força da situação, teve que devotar “tempo a seu penoso

dever [grifo nosso] de decretar punições de indivíduos denunciados como subversivos ou

corruptos”, como escreveu Dulles.170 É verdade que não se pode negar ao general os traços

de um homem moderado e legalista, mas cogitar que ele tenha sido um democrata, como desejam alguns, seria demais. Mas é assim que o define o economista Roberto de Oliveira Campos, na época Ministro do Planejamento do governo Castello Branco. No entender de Campos, as principais características do general seriam “seu amor à legalidade, sua posição equilibrada em relação ao nacionalismo e seu profundo sentimento de justiça”.171 Segundo o

autor, Castello Branco tinha uma grande preocupação com a ordem constitucional, o que poderia ser comprovado pelo fato de logo após ele assumir a Presidência da República e manter, em pleno regime de exceção, o Congresso e o Poder Judiciário funcionando. E durante o seu governo, acrescenta Campos, o general sempre teria procurado todos os meios para devolver a normalidade constitucional ao Brasil. No entanto, por estas e outras, Castello Branco era considerado um “fraco” para os radicais do regime.

Mas não demoraria para que o general se rendesse ao endurecimento tão sonhado pelos militares. Em outubro de 1965, assinava a “contragosto”, diz Campos, o Ato Institucional n.º 2, na tentativa de preservar a unidade das Forças Armadas e garantir a posse de dois governadores eleitos pelo voto popular da oposição. Entretanto, para Campos, o legalismo de Castello Branco ainda seria compreendido e, por final, agradeceríamos de tê-lo como o primeiro presidente militar, homem que “habilmente conseguiu associar os dois elementos de disciplina e transformação: repressão e reformas”. A história lhe daria um novo veredicto, acreditava o ministro:

O veredicto da História dirá provavelmente que a Revolução de 1964 foi especialmente afortunada em ter, Castello Branco, o seu primeiro presidente. É que o movimento nascera antes como uma ideologia negativa, em vez de uma ideologia positiva. Era contra a corrupção e o caos econômico do regime Goulart, contra a infiltração comunista, não oferecia

169 CORDEIRO DE FARIAS, Op. cit., p.347. 170 DULLES, Op. cit., p.25.

171 CAMPOS, Roberto de Oliveira. O Presidente Castello Branco. In: MATTOS, Carlos de Meira. Castello

nenhum programa opcional de reformas. Algumas das altas patentes militares que aspiravam à chefia talvez dessem ênfase maior aos aspectos repressivos do sistema; alguns líderes civis também queriam o poder e exigiam mudança, mas é lícito duvidar de que estivessem preparados para enfrentar as conseqüências da cirurgia drástica que seria mister aplicar. [...]. Castello Branco conseguiu que o movimento se tornasse um exercício em modernização institucional e não mais apenas um dos convencionais putschs [grifos do autor] militares sul-americanos.172

É o que pensa também o general Octavio Costa173 que define Castello Branco como

aquele que construiu as bases do desenvolvimento econômico do país, um chefe militar de “espírito legalista e democrático, que os fatos arrastaram paradoxalmente, à liderança de um golpe de Estado”. Para Octávio Costa, ainda chegaria o dia em que Castello Branco seria recompensado pela história:

A história registrará haver governado com o pensamento voltado para o futuro e haver colocado os alicerces da grande transformação do Brasil a partir de 1964. Como estadista de um período revolucionário, caracterizou- se pelo entranhado amor à democracia. Teve a coragem de fazer tudo aquilo que somente atendesse ao interesse maior do país, de fazer o que deveria ser feito, afrontando conseqüências e incompreensões.174

Pelo visto a história, ou melhor dizendo, a historiografia brasileira não fez a sua lição de casa, como desejam os militares. Castello Branco aparece como aquele que criou as bases para a institucionalização da repressão. No seu governo já começam as punições a civis e militares de oposição ao “movimento revolucionário”, é o general que irá criar o SNI (Serviço Nacional de Informações) — órgão que mais tarde serviria como mecanismo de vigilância da sociedade brasileira — e decretar o AI-2, dando plenos poderes ao presidente e à Justiça Militar. Tampouco o general impediu que os militares radicais conquistassem poder político em seu governo. E para endurecer ainda mais o regime, Castello Branco decretara a Lei de

Imprensa em fevereiro de 1967 e, apenas dois dias antes de passar a faixa presidencial ao

general Costa e Silva — principal representante da “linha dura” — assinou a Lei de Segurança

Nacional, que ajudou a redigir.

172 CAMPOS In: MATTOS (2000), Op. cit., p.70-71.

173 Quando do golpe de 1964, Octávio Costa era tenente-coronel e em 1969 assumira a chefia da Assessoria

Especial de Relações Públicas [AERP] da Presidência da República. De 1974 a 1978 foi subchefe de gabinete do ministro do Exército.

A Lei de Segurança Nacional foi inspirada na doutrina da ESG e se amparava no binômio desenvolvimento e segurança. A partir desta legislação, o caminho ficava limpo para que os militares colocassem em prática a noção de “guerra interna” contra a “ameaça vermelha” e todos aqueles que se opunham ao regime; fechou-se o Congresso Nacional e a Justiça Militar passou a ter poderes para julgar civis; e os jornais e revistas podiam ter sua circulação suspensa por 30 dias. Aí estavam as heranças que Castello Branco deixara para a continuidade do regime que, por sua vez, já vislumbrava um destino para a sociedade brasileira: o aprofundamento do autoritarismo com o decreto do Ato Institucional nº 5 (AI- 5).175

Assim, por mais moderado e legalista que tenha sido Castello Branco, os acontecimentos de seu governo não deixam de denunciar a matriz autoritária positivista que, segundo Eduardo Munhoz Svartman, compunha o universo simbólico de uma parcela do oficialato do Exército brasileiro desde 1930, que ganhou expressão em uma política de modernização conservadora, tendo como alicerce a relação segurança-desenvolvimento.176

Medidas como a “Operação Limpeza” foram colocadas em prática já nos primeiros dias do Brasil sob o comando de Castello Branco. Em 27 de abril de 1964, o general baixara um decreto-lei que instituía os IPMs (Inquéritos Policial-Militares), que a partir de comissões especiais espalhadas por todo o governo tratava de investigar se não haviam subversivos infiltrados nos ministérios, nos órgãos governamentais, nas empresas estatais, nas universidades federais e etc. Os IPMs surgiam como um dispositivo legal para a inaugurada repressão aos opositores do recém regime militar. Identificado o “inimigo interno” e concluído o inquérito, cabia ao presidente a decisão final pela punição.

Enquanto presidente, somaram-se à imagem e à memória de Castello Branco, e porque não dizer à da FEB também, a cassação dos direitos políticos de mais de 2000 brasileiros, a assinatura de mais de 700 leis, 11 emendas constitucionais, 312 decretos-leis,

175 O AI-5 foi o auge do autoritarismo do regime militar, suspendera os direitos civis comuns, até mesmo o

habeas-corpus tinha sido extinto, devolvera ao presidente a competência para cassar mandatos e direitos políticos,

além de total liberdade para decretar e agir como desejasse. Este Ato Institucional significara definitivamente o fechamento do regime e da sociedade brasileira, era o golpe dentro do golpe, diriam alguns autores. Estava decretada a caça às bruxas, a repressão estava oficializada.

176 Durante o Estado Novo de Getúlio Vargas, a geração de militares como Góes Monteiro e Dutra conquistou

poder político e ajudou a articular um governo pautado em um programa nacional-desenvolvimentista, em que a industrialização do Brasil seria condição para a defesa nacional e para a manutenção da ordem que, por sua vez, seria essencial ao progresso do país. Segundo Edmundo C. Coelho, o próprio pensamento que habitou a ESG e auxiliou na consolidação da doutrina de Segurança Nacional, mais tarde no governo Castello Branco, não passava de uma atualização dos preceitos elaborados nos quadros das Forças Armadas ainda na década de 1930. Para mais detalhes ver SVARTMAN, Eduardo Munhoz. A matriz autoritária do governo Castelo Branco: ou da longa duração das idéias positivistas. História: Debates e Tendências, v.4, n.2, Universidade de Passo Fundo, Passo Fundo, RS, p.122-135, dez. 2003.

19.259 decretos e três atos institucionais, além de o general ser o responsável pela Constituição de 1967. Acredita-se que nos primeiros meses do golpe militar, o Exército, a Marinha e a Aeronáutica tenham sido mobilizados, dentro de uma estratégia de contra- ofensiva, para levar a efeito a “Operação Limpeza”, fazendo aproximadamente 50 mil pessoas presas em todo o país. Entretanto, a “Operação Limpeza” também atingiu os círculos militares. Os expurgos nas Forças Armadas tinham como objetivo eliminar todos os militares que apoiaram o governo Goulart e, conseqüentemente, estabelecer a predominância da ESG e da extrema-direita. Até mesmo os militares democratas e nacionalistas foram expulsos, uma vez que podiam se opor a políticas de repressão e de favorecimento de empresas multinacionais. Assim, em 1964 foram 1200 militares expurgados dos quadros da Marinha, Aeronáutica e Exército.177

E para aqueles que ainda desejam lembrar do general Castello Branco como um grande reformador que, de fato, ele foi, pode-se recordar que suas reformas colaboraram para que a militarização do Estado avançasse. A Reforma Administrativa foi um exemplo que, não aprovada na época pelo Congresso, o presidente tratou logo de implantar por meio de decreto-lei.

Segundo João Roberto Martins Filho, esta medida foi a responsável por alterar definitivamente os mecanismos da burocracia estatal e, ao mesmo tempo, criar um novo órgão militar: o Alto Comando das Forças Armadas, que era composto pelos ministros militares, o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas e os chefes dos Estados-Maiores de cada uma das Forças regulares (Exército, Marinha e Aeronáutica), encarregados de assessorar o presidente em questões referentes à política militar e à coordenação de assuntos pertinentes às Forças Armadas. Neste sentido, Castello Branco ajudou no processo de centralização das decisões do governo na mão do presidente, que mais tarde veio se concretizar com a Lei de Segurança Nacional, mencionada anteriormente. Era função da Presidência da República formular e executar todas as políticas de Segurança Nacional do regime militar, enquanto cabia ao Alto Comando das Forças Armadas, Estado-Maior das Forças Armadas, Conselho

177 Segundo Marcelo Ridenti, em 1964 houve uma implacável perseguição aos militares de baixa patente

insubordinados, sendo que na sua maioria todos foram presos, processados e expulsos das instituições armadas que, por sua vez, concomitantemente à repressão, trataram de aumentar os soldos e melhorar um pouco as condições de existência dos subalternos que permaneceram nos quartéis, procurando evitar problemas futuros. Os dados do BNM apontam que 10,9% de todos os processados pela ditadura militar eram militares de baixa patente, perfazendo o total de 803 pessoas, a maioria das quais seria denunciada em 1964 e posteriormente condenada. Destes 803 militares de baixa patente apenas 125 foram indicados pelo regime por vinculação com grupos de esquerda, armados ou não, em que compunham apenas 2,6% dos 4.854 processados. Para mais informações sobre os IPMs e os expurgos dos militares em 1964 consultar RIDENTI, Marcelo. O fantasma da

de Segurança Nacional e Serviço Nacional de Informações apenas o assessoramento. A palavra final era sempre do presidente.178

Tudo caminhava para o endurecimento do regime. Nascia o Ato Institucional nº 2 como resposta às tentativas de “contra-Revolução”. Extinguiam-se todos os partidos políticos do país, concedia-se amplos poderes ao Executivo para decretar o Estado de sítio e intervir nos Estados; aumentava-se o número de membros do STF (Supremo Tribunal Federal), suspendiam-se as garantias constitucionais de funcionários públicos e militares, reintroduzia-se a possibilidade de cassação de direitos políticos de qualquer cidadão brasileiro por dez anos e, por fim, tornavam-se indiretas as eleições presidenciais dali por diante.

Na tentativa de apaziguar a sua consciência e evitar qualquer possível interpretação de que acalentava algum projeto continuísta, Castello Branco, na última hora, acrescentou por conta própria um parágrafo ao ato em que vetava a sua reeleição. Comentara ao seu Ministro da Saúde, Raimundo de Brito, que a grandeza daquele Ato Institucional estava neste parágrafo.179 “Não sou somente presidente de expurgos e prisões”, dizia Castello Branco que

sabia muito bem o peso da opinião pública. Força que ele sentiu quando convidado para fazer um discurso de abertura na reunião extraordinária da Organização dos Estados Americanos (OEA), no Hotel Glória, em Copacabana, no Rio de Janeiro. Na frente do hotel, o general foi recepcionado por um grupo de oito manifestantes que o vaiava e o chamava de ditador. Os Oito da Glória, como ficariam conhecidos, eram todos intelectuais de prestígio nacional, como os escritores Antônio Callado e Carlos Heitor Cony, os cineastas Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade e Mário Carneiro, o jornalista Márcio Moreira Alves, o teatrólogo Flávio Rangel e o ex-embaixador Jayme Azevedo Rodrigues. Todos os manifestantes foram presos pela polícia do DOPS. Esta manifestação mexeria demais com os sentimentos de Castello Branco que, como presidente, tinha uma constante preocupação de como sua imagem seria julgada pela história. Ou seja, para o convicto legalista a denominação de ditador era um grande insulto para aquele que dizia estar empenhado em uma grande renovação democrática do Brasil.180

178 MARTINS FILHO, João Roberto. O palácio e a caserna: a dinâmica militar das crises políticas na ditadura

(1964-1969). São Carlos, SP: EDUFSCar, 1995, p.94-95.

179 LIRA NETO, Op. cit., p.328-346. 180 Idem, p.348-349.

Benzer Belgeler