De uma maneira geral, os profissionais representaram o homem e a mulher nas diferenças físicas. Expõem a diferença entre homens e mulheres baseados na força e na compleição física. Além disso, fazem referência a roupas e acessórios indicando um mundo masculino e outro feminino. O atributo físico masculino é um argumento usado como representação da superioridade masculina, mas essa diferença e sua correspondente inferioridade é restritamente biológica.
(Discurso do grupo) Um homem representado por uma gravata, porque fisiologicamente ele é mais forte.
(Discurso do grupo) Nós discutimos e colocamos o que cada um pensa na verdade, que o homem e mulher têm diferenças de sexo, visualmente as vestimentas.
(Discurso do grupo) homem representado por uma gravata, porque fisiologicamente ele é mais forte. Não tem como comparar
o corpo, às vezes, fisiologicamente de um homem com uma mulher, ele tem uma estrutura mais forte que a mulher.
É usual ouvir que as mulheres são diferentes dos homens e diferem porque eles são tomados como norma. Primordialmente, a diferença entre os gêneros referia-se a aspectos biológicos entre mulher e homem, tais como física, psíquicas, comportamentais, habilidades e talentos com teorias construídas para comprovar tais afirmativas. Essa diferença serviu para justificar lugares sociais, possibilidades e os destinos de cada gênero (Louro, 1997).
A diferença/desigualdade apresenta-se como uma dicotomia aparentemente verdadeira, pois igualdade — conceito político — supõe a diferença e não há sentido em reivindicar igualdade para sujeitos idênticos e sim equivalência, uma vez que os sujeitos não são idênticos. Para Scott,
“precisamos rejeitar o caráter fixo e permanente da oposição binária, precisamos de uma historicização e de uma desconstrução autênticas dos termos da diferença sexual”. Refere- se à desconstrução de Jacques Derrida, em que “esta crítica significa analisar no seu contexto a maneira como opera qualquer oposição binária, revertendo e deslocando a sua construção hierárquica em lugar de aceitá-la como real, como óbvia ou como estando na natureza das coisas” (Scott, 1995:9).
Para Saffioti (2004), distante de ser natural, a desigualdade se estabelece pela tradição à cultura, pelas estruturas de poder, pelos agentes envolvidos nas relações sociais.
“As diferenças pertencem ao reino na natureza, por mais transformada que esta tenha sido pelo ser humano, enquanto a igualdade nasceu do domínio do político, parece fora do horizonte de uma ideologia de gênero, que naturaliza atribuições sociais, baseando-se nas diferenças sexuais” (Saffioti, 2004:77).
O processo de construção social da inferioridade tem seu correlato na construção social da superioridade. As diferenças correspondem à constituição física do homem como forte, viril e também a seu temperamento durão, em oposição a mulher cuja compleição física é tida como delicada, e seu temperamento é atribuído à docilidade. Mulheres vão sendo educadas para serem frágeis, submissas, boas mães, boas filhas e também boas
esposas; em contrapartida, para os homens a educação tem como base a força, a virilidade, que se traduz em masculinidade.
Para Louro, é imperativo contrapor-se a essa argumentação, não são as características sexuais, mas as formas como essas são representadas ou valorizadas, aquilo que se diz ou se pensa sobre elas, é que vai constituir o que é masculino e o que é feminino numa dada sociedade, num dado momento histórico. Para a compreensão do lugar e as relações de homens e mulheres, importa observar não seu sexo, mas tudo o que socialmente se construiu sobre os sexos (Louro, 1997).
Numa tentativa de desconstruir a desigualdade, nos seus discursos, os trabalhadores de saúde do PSF referem a relação complementar como ideal, pois, para eles, mulheres e homens são seres incompletos. Essa idéia de acrescentar o que falta para torná-lo completo ou perfeito é completamente equivocada, pois tanto aos homens, quanto às mulheres, não lhes falta nada que exija complemento.
(Discurso do grupo) O homem e a mulher um completando o outro, então esse seria o ideal (...)
(Discurso do grupo) quando a vida faz com que eles em algum momento se encontrem devem perceber que um completa o outro
(...)
Essa noção de complementaridade é uma abordagem pré-moderna da conduta humana, pois implica diferenças claramente definidas. Atribuí-las a características fixas de homens e de mulheres, aprisiona ambos em polaridades, ignorando os conhecimentos gerados (Castañeda, 2006).
Na frase abaixo, os profissionais acrescentam à complementaridade, a simbologia, como se, o coração e o amor fossem inerentes do feminino e por sua vez complementares do masculino.
(Discurso do grupo) A mulher simbolizando o coração, a intenção, o amor, então um completando o outro.
Os símbolos culturalmente disponíveis são um dos quatro elementos da diferença percebida pelos sexos. Eles evocam representações múltiplas e freqüentemente contraditórias. A partir da categoria gênero pode-se
perceber a organização concreta e simbólica da vida social e as conexões de poder nas relações entre os sexos. Estas diferenças se fundam em símbolos culturalmente disponíveis que evocam representações simbólicas e mitos. São os conceitos normativos que põem em evidência as interpretações do sentido dos símbolos, que se esforçam para limitar e conter suas possibilidades metafóricas, eles são expressos em doutrinas religiosas, educativas, políticas ou jurídicas e que opõem de maneira binária e inequívoca as concepções de masculino e feminino (Scott, 1995).
Ainda pontuando que as diferenças se situam no campo biológico, os profissionais referem que durante a fase da gestação os homens não entendem as diferenças de gênero, reforçando a ligação da mulher com a natureza, especialmente na gestação.
(Discurso do grupo) Temos uma gestante, uma mulher grávida e seu marido. Esse homem muitas vezes não consegue entender as diferenças que existem entre o gênero masculino e o feminino e todo aquele momento, que vivencia a mulher na gestação.
Sabe-se que a gravidez é um período de muitas transformações na mulher, transformações essas que incluem os sentimentos. Para alguns homens, a maternidade é sinônimo de muitas perdas, o que, ao final se resume em aumento da responsabilidade.