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Continuando na busca por explicações para o baixo desenvolvimento econômico do Brasil e da Região Nordeste, esta seção tratará de mais uma teoria bastante difundida entre estudiosos, que é a da ignorância ou acaso. Nesta teoria, alguns locais são mais desenvolvidos que outros devido aos governantes não saberem o que fazer para tornar ricos os locais pobres. Segundo Acemoglu & Robinson (2012, p. 50) “esta teoria sustenta que os países pobres devem esta condição ao excesso de falhas no mercado e ao fato de que suas autoridades e economistas desconhecem como livrar-se delas, tendo adotado políticas erradas no passado”. Já os países ricos teriam adotado as políticas econômicas corretas e corrigido eventuais falhas no percurso para o desenvolvimento, concluem os autores. Esta teoria talvez seja uma das mais difundidas ainda nos dias atuais, sendo defendida por respeitados estudiosos sobre o tema.

Dentro da hipótese da ignorância, a solução para a superação do subdesenvolvimento seriam os países passarem a contar com autoridades e governantes “conhecedores” dos reais problemas locais, permitindo desta maneira uma posterior implementação de políticas assertivas para a obtenção da prosperidade. Diversos exemplos são mencionados sobre países que acabaram por implementar políticas que posteriormente foram consideradas desastrosas do ponto de vista de desenvolvimento. Na obra “por que as nações fracassam”, Acemoglu & Robinson (2012) trazem alguns exemplos que para muitos podem ser considerados aspectos relacionados à ignorância, como a situação em que passou a se encontrar Gana, logo após a sua independência da Inglaterra. Com a instalação do governo de Kwame Nkrumah, o país passou a adotar políticas visando o desenvolvimento da indústria estatal, o que se mostrou desastroso posteriormente, conforme demonstra Acemoglu & Robinson, recordando Killick:

A fábrica de calçados (...) pelo transporte de couro teria ligado a fábrica de carne, no norte (através de uma distância de mais de 800 quilômetros), a um curtume no sul, atualmente abandonado; o couro seria então levado de volta para a fábrica de calçados em Kumasi, na área central do país, a cerca de 320 quilômetros do curtume. Uma vez que o principal mercado consumidor fica na região metropolitana de Acra, os sapatos teriam de voltar para o sul, sendo transportados por mais 320 quilômetros (ACEMOGLU & ROBINSON, 2012, p. 51).

O exemplo dado acima trata da tomada de decisões políticas aparentemente irracionais do ponto de vista do desenvolvimento econômico, o que reforça a hipótese da ignorância. Contudo, os autores recordam que não necessariamente as decisões tendem a terem sido adotadas meramente por desconhecimento, mas sim por questões de ordem política. Ao longo dos séculos, vários exemplos são tidos como meramente obras do acaso e que mesmo assim sendo, mudaram sensivelmente o rumo da história de determinados locais. A China talvez seja o exemplo mais emblemático, sendo inclusive mencionada por Acemoglu & Robinson. O país substituiu políticas consideradas comunistas do ponto de vista econômico e que provocavam a fome de milhões de pessoas por outras que estão estimulando o crescimento econômico. Entretanto, segundo os autores, o que poderia ser considerado simplesmente obra do acaso, o fato de o Partido Comunista Chinês finalmente ter compreendido que a propriedade coletiva das terras agrícolas e da indústria, constituíam desestímulos econômicos, na verdade teve sua origem na esfera política. Deng Xiaoping e os seus aliados teriam na verdade o interesse em derrotar os seus oponentes, passando a assumir a liderança e a direção do partido comunista. Neste sentido, concluem os autores: “foi a política que determinou a passagem do comunismo para os incentivos de mercado na China, não orientações melhores ou um melhor entendimento do funcionamento da economia” (ACEMOGLU & ROBINSON, 2012, p. 53).

O exemplo Chinês é esclarecedor e ao mesmo tempo intrigante, afinal, seria mesmo o mundo composto por questões que podem ser explicadas racionalmente e sempre em consequência de outros fatores, ou o acaso também seria algo a considerar, sobretudo quando se tratam de aspectos históricos e que trazem mudanças sensíveis no rumo das sociedades?

Tratemos de exemplos sobre o Nordeste e o Brasil. Algo que sempre entra nas discussões referentes à colonização brasileira é a tentativa de prever como seria o país atualmente se por obra do acaso, ao invés de ter sido colonizado por Portugueses tivesse o seu processo de formação realizado por colônias de povoamento, onde as mais prováveis teriam sido França, Holanda ou Inglaterra. A ocupação das terras americanas constituiu na verdade, uma expansão comercial da Europa. A princípio, as terras brasileiras, por exemplo, ficaram cerca de meio século praticamente inexploradas. Na primeira etapa histórica da exploração européia houve, sobretudo, uma atração pelo ouro anteriormente encontrado, principalmente

por parte dos Espanhóis. Conforme observa Celso Furtado (2007), “o início da ocupação econômica do território brasileiro ocorre em boa medida em conseqüência da pressão política exercida sobre Portugal e Espanha pelas demais nações européias, onde prevalecia o princípio de que espanhóis e portugueses não tinham direito senão àquelas terras que houvessem efetivamente ocupado”. Nesta mesma época, franceses iniciam as primeiras expedições objetivando a criação de uma nova colônia, a qual seria a primeira colônia de povoamento do continente americano – e seria na costa setentrional do Brasil. Os portugueses, acompanhando de perto a movimentação francesa e ainda a partir da miragem do ouro que existia no interior das terras do Brasil, passam então a direcionar esforços para conservar as terras brasileiras.

De mera explorada, a América passa então a constituir parte integrante da economia reprodutiva da Europa, a partir da implementação de uma das especiarias mais apreciadas no mercado europeu: o açúcar, cuja viabilização dá-se em virtude da experiência prévia na exploração da cultura por parte dos portugueses em algumas ilhas do Atlântico. Os excelentes resultados financeiros da colonização agrícola do Brasil abrem perspectivas atraentes à utilização econômica das novas terras. Neste sentido, despertam também o interesse de outras grandes potências da época: Holanda, França e Inglaterra; complementa Furtado. Mesmo diante da cobiça de outros países, Portugal consegue manter o seu domínio sobre as terras brasileiras, influenciando de maneira decisiva o curso tomado pelo país ao longo dos séculos posteriores. Conforme já abordado em capítulos anteriores, o açúcar não apenas viabilizou a utilização das novas terras, como foi também um dos fatores determinantes para a manutenção do domínio português sobre o país. Ademais, esta cultura marcou sensivelmente toda a estrutura social e econômica, tendo sido um divisor de águas na história brasileira.

Conforme observado por Furtado (1959, 2007), a Inglaterra do século XVII apresentava um considerável excedente populacional, graças às modificações ocorridas em sua agricultura iniciadas no século anterior, ao contrário do que ocorrera com Espanha e Portugal, que se viram afligidos por uma permanente escassez de mão de obra quando iniciaram a ocupação da América, diz o autor. A população que fora obrigada a deixar o campo na Inglaterra, vivia em situação precária e com poucas opções para acumular riqueza, tornando-se atraída por conseguinte, mesmo de maneira arriscada e precária a tentar a vida nas colônias da

América do Norte. Diferentemente do que ocorre no Brasil, o tipo de atividade econômica que nelas prevalecia era compatível com pequenas unidades produtivas, de base familiar, sem o compromisso de remunerar vultosos capitais. Trataram-se de colônias de pequenos proprietários, em grande parte autossuficientes, totalmente o oposto do que ocorria no Brasil.

A essas diferenças de estrutura econômica, como bem observa Furtado, teriam necessariamente de corresponder grandes disparidades de comportamento dos grupos sociais dominantes nos dois tipos de colônia. Nas Antilhas inglesas, os grupos dominantes estavam intimamente ligados a poderosos grupos financeiros da Metrópole e tinham inclusive uma enorme influência no Parlamento britânico. Esse entrelaçamento de interesses inclinava os grupos que dirigiam a economia antilhana a considerá-la exclusivamente como parte integrante de importantes empresas manejadas da Inglaterra. As colônias setentrionais, ao contrário, eram dirigidas por grupos, uns ligados a interesses comerciais centralizados em Boston e Nova York – os quais frequentemente entravam em conflito com os interesses metropolitanos -, e outros representativos de populações agrícolas praticamente sem qualquer afinidade de interesses com a Metrópole. Essa independência dos grupos dominantes da Metrópole teria de ser um fator de fundamental importância para o desenvolvimento da colônia, pois conforme verificado pelo autor, “significava que nela havia órgãos políticos capazes de interpretar seus verdadeiros interesses, em vez de apenas refletir as ocorrências do centro econômico dominante” (FURTADO, 2007, p.61). Exercícios de futurologia na tentativa de imaginar se em caso de uma não- colonização ibero-portuguesa, o Brasil estaria em melhor ou pior situação estão sempre no imaginário de especialistas e o desfecho sempre é objeto de controvérsias, contudo, algo em que há concordância é o fato de que estaria o país em situação diferente. Os exemplos acima servem de maneira ilustrativa para exemplificar como circunstâncias históricas e que podem ser classificadas meramente como obras do acaso tiveram papel extremamente importante no rumo tomado pelos países e que interferiram significativamente no desenvolvimento econômico posterior.

A partir de exemplos já abordados por diversas vezes, a cultura do açúcar, para a maioria dos autores, foi um fator de atraso para o desenvolvimento nacional. Contudo, o problema talvez não tenha sido especificamente o cultivo da cana, afinal, tratava-se de uma cultura altamente rentável à época e do ponto de vista racional o

seu cultivo era um bom negócio. Porém, a conseqüência deste ambiente favorável ao cultivo da cana marcou decisivamente a sociedade nascente, dando um rumo à colônia e sendo decisivo na formação cultural e econômica do país. Furtado mais uma vez ratifica que o açúcar não era considerada uma cultura democrática, podendo isto ter condenado o país a equívocos posteriores. Seria isto obra do acaso? Caso as terras brasileiras não fossem propícias à produção de cana e consequentemente o país tivesse se dedicado a outras culturas que favorecessem a criação - ainda no período colonial - de um amplo mercado interno moldando de maneira diferente o perfil das classes dominantes, vide o exemplo americano, como seria o país hoje? Provavelmente estaria um país diferente do ponto de vista cultural e também institucional.

Para o respeitado professor de fisiologia da Escola de Medicina da UCLA (Universidade da Califórnia, Los Angeles), Jared Diamond, estudioso e autor de diversos livros e artigos sobre a evolução da humanidade, o entendimento dos processos de desenvolvimento econômico, precisam ser compreendidos ao longo de uma análise mais histórica e evolutiva das sociedades e do ambiente em que esta sociedade evoluiu. A partir de estudos antigos, remetidos ao surgimento do homem moderno há milhares de anos, o autor aborda em sua obra denominada “Armas, germes e aço”, como fatores por vezes aleatórios e históricos influenciam na característica da sociedade em processo de formação. Isto por sua vez, influenciará a cultura e o desenvolvimento das ferramentas necessárias ao êxito econômico posterior ou não. Diamond (2012) coloca que as sociedades que conseguiram lidar melhor com as armas, os germes e o aço, consequentemente lograram maior êxito econômico posterior e se tornaram sociedades modernas. Buscando nas mais longínquas sociedades, o autor sustenta, por exemplo, como a produção de alimentos foi um dos fatores fundamentais para o desenvolvimento desses três pilares (armas, germes e aço). Comenta ainda que as áreas ambientalmente propícias à produção de alimentos tiveram uma vantagem inicial no processo de evolução, pelo fato de nelas terem surgido também as primeiras sociedades sedentárias.

Finalmente, os povos de algumas áreas ambientalmente adequadas à produção de alimentos nunca desenvolveram nem aprenderam a atividade agrícola durante a pré-história; insistiram em permanecer

caçadores-coletores até que o mundo moderno finalmente os varreu do mapa. Os povos de regiões que largaram na frente na produção de alimentos também se adiantaram no caminho que conduzia a armas, germes e aço. O resultado foi uma longa série de choques históricos entre os que têm e os que não têm (DIAMOND, 2012, p. 101).

O exemplo dado por Diamond referente à produção de alimentos é extremamente relevante para a análise dos fatores aleatórios no desenvolvimento de um determinado local, visto que, apesar de a produção de comida ter sido um fator decisivo no sucesso das primeiras sociedades em formação - tendo posteriormente possibilitado o surgimento de armas, germes e aço; e colocando essas civilizações em uma vantagem comparativa em relação aos que não detinham esses fatores - num segundo momento, isto se dissipou, podendo ser observado que uma vantagem inicial não é garantia de vitória permanente e que uma situação eventualmente desfavorável pode ser superada, sobretudo nos dias atuais.

Para Acemoglu e Robinson (2012), a teoria da ignorância não se sustenta à medida que para solucionar os desafios de todos os países do mundo, então seria preciso apenas colocar especialistas nos governos para solucionar todos os problemas. Por conseguinte, o problema não seria o desconhecimento das autoridades referente às políticas corretas, mas os incentivos e restrições que lhes são impostos pelas instituições políticas e econômicas em suas sociedades, impedindo-os de romper o ciclo, complementam. Para os autores, quando os países rompem com os padrões institucionais que os mantinham condenados à pobreza e conseguem enveredar por um caminho de crescimento econômico, não é porque seus líderes ignorantes de repente se tornaram mais bem informados ou menos egocêntricos, ou porque passaram a ser orientados por melhores economistas. A partir das reflexões anteriores, é possível concluir de maneira óbvia, que caso os líderes da região Nordeste e do Brasil ao longo dos últimos séculos e décadas tivessem adotado estratégias diferentes das que efetivamente foram implementadas, ou até mesmo que outros fatores críticos tivessem acontecido, o panorama da região seria bastante diferente. A região poderia figurar numa posição bem mais confortável do ponto de vista social e econômico. Porém, o oposto também poderia ocorrer, ou seja, que a situação fosse ainda menos favorável que a observada nos dias atuais. Neste sentido, o “acaso” ou a “ignorância” são fatores cientificamente difíceis de mensurar, por lidarem com o imponderável. Outrossim, o

conhecimento das experiências positivas e negativas enfrentadas pela região Nordeste e por outras partes do mundo, são lições bastante valiosas para desenhar um futuro com bases mais sólidas.

Benzer Belgeler