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Kazıkların Sınıflandırılması

4. KAZIKLI TEMELLER

4.1 Kazıkların Sınıflandırılması

excedentes para importações, por exemplo, o que não estimulava o consumo e consequentemente o desenvolvimento de um mercado interno que pudesse atender a esta eventual demanda.

Ao contrário do que ocorria nas colônias de grandes plantações, em que parte substancial dos gastos de consumo estava concentrada numa reduzida classe de proprietários e se satisfazia com importações, nas colônias do norte dos EUA os gastos de consumo se distribuíam pelo conjunto da população, sendo relativamente grande o mercado dos objetos de uso comum (FURTADO, 2007, p. 61).

Num segundo momento e à medida que a importância relativa do açúcar declina, surgindo outras culturas emergentes, a exemplo do café, o eixo de desenvolvimento econômico se desloca para o sul e sudeste, regiões que ofereciam melhores condições de clima e de terra para a produção deste produto. É bem verdade que atualmente os fatores geográficos inicialmente levantados relativos à qualidade da terra, a baixos índices de pluviosidade, às doenças tropicais dentre outros, podem na maioria dos casos ser corrigidos através de modernas técnicas agrícolas e das demais tecnologias que estão disponíveis à sociedade moderna, o que para alguns estudiosos leva por terra a teoria da geografia, contudo, como mencionado por Acemoglu e Robinson, é incontestável que estes fatores trazem uma desvantagem comparativa. Outrossim, a discussão que abre-se é que mesmo com as desvantagens comparativas da Região Nordeste neste aspecto e que foram agravadas pelo processo histórico de concentração fundiária e pela monocultura, outras partes do mundo conseguiram superar dificuldades similares ou até mesmo piores. Em suma, a geografia pode ser uma fonte de explicação de caráter histórico, mas não condena um país ou região ao atraso e ao subdesenvolvimento, principalmente em tempos contemporâneos.

2.3 A hipótese da Cultura

Ainda na busca de explicações para o baixo desenvolvimento econômico do Brasil e da Região Nordeste, trataremos de teoria bastante difundida no meio acadêmico, que é a da questão cultural. Nesta teoria, alguns locais são mais

desenvolvidos que outros devido a questões de ordem cultural, estando inseridos neste contexto não apenas as religiões, mas também outros tipos de crenças, valores e ética. É importante diferenciar a questão cultural da genética. A idéia da existência de uma raça superior à outra, deixou há bastante tempo de ter respaldo, não estando presente em obras mais recentes. Para Galvão (2010), “o conjunto de determinantes sob a classificação de cultura compreende as crenças, os valores, os costumes e as preferências que influenciam tanto o comportamento econômico individual quanto o da sociedade como um todo”. Galvão ressalta também parte do texto de Acemoglu (2008, p.159), onde esse autor destaca que as diferenças culturais entre países e regiões também podem explicar de maneira relevante os diferentes desempenhos obtidos por cada um. Destaca ainda que a cultura, na amplitude do termo, afeta o desempenho econômico de duas maneiras:

“De um lado, por influenciar as decisões dos indivíduos ou da sociedade em relação às escolhas entre consumir e poupar. O resultado dessas escolhas influencia o nível do investimento e da poupança, as estruturas de mercado e do emprego e a disposição para acumular capital físico e humano. De outro, por afetar a construção de redes sociais baseadas na cooperação e na confiança entre indivíduos e grupos sociais, que são consideradas como fundamentais no processo de desenvolvimento (ACEMOGLU, 2008, p. 159)” (GALVÃO, 2010, p.91).

Galvão destaca ainda outro aspecto que liga a cultua com o crescimento econômico “é apresentado na forma da acumulação de certos valores que estimulam a cooperação e os vínculos de solidariedade social. Conceitos como cultura cívica, civismo e tradições cívicas são amplamente discutidos na literatura”. O autor menciona também estudos que buscam entender as diferenças de desenvolvimento econômico existentes na Itália, onde o Norte e o centro (regiões industrializadas) diferem bastante do sul de Nápoles (região conhecida como Mezzogiorno) ainda bastante atrasada economicamente para os padrões europeus. Mencionando Putnam (2000a), salienta por conseguinte que as regiões do Norte da Itália teriam desenvolvido desde a época medieval “uma cultura de civismo, manifestada em fortes sentimentos de cooperação e solidariedade, que teriam sido cruciais, em período moderno, para a emergência dos famosos distritos industriais ou arranjos produtivos locais”. Em contraponto, a inexistência desta cultura seria a responsável pela quase ausência desses distritos no Sul, conclui. Buscando uma exemplificação prática dentro da realidade brasileira, a região Sul vê com bons olhos

o cooperativismo, sendo uma maneira bastante estimulada entre a sua população como forma de reduzir custos de produção, melhorar preços de produtos, acessar mercados mais qualificados e que exigem uma “maior escala”, além dos benefícios relacionados à convivência em grupos; em oposição, o cooperativismo na região Nordeste ainda é pouco disseminado e talvez parte das explicações para isto possa ser encontrada no exemplo Italiano anteriormente mencionado.

Para Agemoglu & Robinson (2012), dentre alguns defensores da hipótese da cultura, é comum ouvir reflexões sobre a disciplina japonesa, o que teria favorecido o seu desenvolvimento econômico. A pobreza no continente africano estaria relacionada dentre outras questões, ao fato de aquele povo ser desprovido de boa ética para o trabalho, sendo adepto de práticas restritivas às novas tecnologias. Também é disseminado por muitos que um dos fatores causadores do atraso da América Latina seria o caráter libertino do seu povo, oriundo da chamada “cultura ibérica”, sempre privilegiando deixar as coisas para depois. No campo das religiões, o sociólogo alemão Max Weber, na obra “A ética protestante e o espírito do capitalismo” ([1920], 2004), destaca a tese de que a ética e as idéias puritanas influenciaram o desenvolvimento do capitalismo. Segundo o autor, na Igreja Católica Romana, a devoção estava associada à rejeição dos assuntos mundanos, incluindo a economia. O mesmo não teria ocorrido no Protestantismo, onde a idéia positiva do enriquecimento teria favorecido o crescimento econômico dos países onde havia esta predominância, a exemplo dos EUA e de vários países da Europa. Mesmo em países onde havia uma divisão entre o catolicismo e o protestantismo, como é o caso da própria Alemanha (país de origem de Weber) e da França, seria possível observar diferenças no comportamento de cada grupo. Weber menciona que dentro dos extratos sociais mais elevados - a chamada Burguesia -, havia a predominância de indivíduos que professavam a religião protestante.

Basta uma vista de olhos pelas estatísticas ocupacionais de um país pluriconfessional para constatar a notável frequência de um fenômeno por diversas vezes vivamente discutido na imprensa e na literatura católica bem como nos congressos católicos da Alemanha: O caráter predominantemente protestante dos proprietários do capital e empresários, assim como das camadas superiores da mão de obra qualificada, notadamente do pessoal de mais alta qualificação técnica ou comercial das empresas modernas (WEBER, 2004, p. 29).

Weber reconhece a influência de uma eventual predominância dos protestantes entre os mais afortunados pelo processo histórico de formação e de transferência hereditária da posse de riqueza, o que favoreceria a perpetuação posterior entre as gerações seguintes, contudo, não consegue encontrar uma relação de causalidade na escolha pelas profissões.

[...] entre bacharelandos católicos a porcentagem daqueles que saem dos estabelecimentos modernos, Realgymnaisen, Real-schulen, hiihere Biirgerschulen etc., especialmente destinados e orientados a preparar para estudos técnicos e as profissões comerciais e industriais, em poucas palavras, para a vida burguesa de negócios, fique uma vez mais notadamente muito atrás da dos protestantes e que a formação oferecida pelos Gymnasienhumanisticos tenha preferência dos católicos – esse é um fenômeno que não fica explicado pela diferença de fortuna, mas pelo contrário, é a ele que se deve recorrer para explicar, por sua vez, o reduzido interesse dos católicos pela aquisição capitalista (WEBER, 2004, p. 32).

A esse processo cultural sobre como o “capital” é visto, poderia também ser parte das explicações para o atraso relativo da região Nordeste e do Brasil? É reconhecida a formação católica patriarcal em terras brasileiras e sobretudo em terras nordestinas ao longo do período colonial – tendo sido uma das suas marcas mais fortes - conforme amplamente presente na obra de Gilberto Freyre. Este espírito católico e a não valorização do “culto ao capital” pode ser visto tanto no enfoque da causa como também da conseqüência. Ainda sobre este aspecto, Weber tenta tratar o capitalismo não apenas como sistema econômico ou modo de produção, mas o capitalismo enquanto “espírito”, ou seja, um modelo de cultura que norteia a vida das pessoas. Neste sentido, a cultura brasileira e nordestina, guardadas determinadas ressalvas, não poderia ser categorizada como de “espírito capitalista”. Bastando para isto comparar nos dias atuais o volume de jovens que ingressam nas universidades em relação às áreas de estudo mais procuradas, ou até mesmo as áreas com maior carência de profissionais e perceberá um maior foco nas chamadas áreas humanas.

A herança dos chamados povos ibéricos ou hispânicos leva autores a incluir também dentre as principais características do povo, a questão da falta de uma disciplina organizada, o hábito de deixar tudo para a última hora, conforme já mencionado, dentre outros. No Brasil, esses traços ganharam novas perspectivas, contribuindo até mesmo para o surgimento de outras questões, a exemplo do tão

alardeado “jeitinho brasileiro”. Este jeitinho, presente na obra de Sérgio Buarque de Holanda ([1936], 1995) na figura do chamado “Homem Cordial”, retrata uma característica do brasileiro que num primeiro momento pode ser vista positivamente, afinal, aborda a cordialidade como um traço marcante da sociedade; contudo, esta cordialidade não necessariamente estaria vinculada à gentileza, mas associada a agir pela “emoção” no lugar da “razão”, não vendo distinção entre o público e o privado, detestando formalidades, pondo de lado a ética e a civilidade. Holanda destaca que o brasileiro desenvolveu uma grande propensão à informalidade, devendo-se a isto o fato de que as instituições do país teriam sido concebidas de forma coercitiva e unilateral, não havendo diálogo entre governantes e governados. Por sua vez, Holanda (1995) argumenta que “os detentores do poder transformam o Estado em uma ampliação do círculo familiar, (...) ou de agrupamentos de certas vontades particularistas, de que a família é o melhor exemplo. Não existindo desta maneira, entre o círculo familiar e o Estado, uma gradação, mas antes uma descontinuidade e até uma oposição”.

Outra característica brasileira, servindo para exemplificar um pouco da herança patriarcal, pode ser compreendida a partir da famosa pergunta: “você sabe com quem está falando?” Este tipo de comportamento e insinuação advinda da falta de impessoalidade no lidar com a coisa pública ou coletiva, também estaria relacionada à herança ibérica, na qual o cidadão sente-se mais protegido por conhecer alguém “importante” do que propriamente pela confiabilidade nas instituições. Esse traço, abordado na obra de Holanda, como poderá ser visto adiante, foi amplificado pelo processo de evolução histórica do país.

O Brasil é um exemplo emblemático em termos de diversidade cultural. Sua singularidade dificulta até mesmo a definição clara das principais características sobre quem são e quais os hábitos dos brasileiros. A compreensão deste fator requer uma análise mais aprofundada, inclusive sobre as origens dos colonizadores, povo que transplantou inicialmente sua cultura para as terras do sul. Raymundo Faoro ([1957], 1995), na obra intitulada “Os donos do Poder”, revê este processo salientando que a Península Ibérica formou, plasmou e constituiu a sociedade sob o império da guerra. Faoro também destaca os diversos povos que mais adiante deram origem ao império português, passando pela ocupação germânica, logo em seguida vencida pelos mouros. “Das ruínas do império visigótico, logo em seguida transformada em pequenos reinos, transmitiu sua fisionomia aos tempos modernos”

(FAORO, 1995, p.2). Como pode ser observado, o caráter guerreiro do povo sempre é destacado por Faoro.

Dos fins do século XI ao XIII, as batalhas, todos os dias empreendidas, sustentadas ao mesmo tempo contra os sarracenos e espanhóis, garantiram a existência do reino. Da junção dos elementos sarracenos e leonês, ambos conquistados através de guerras (...) constituem a fonte dessa civilização (FAORO, 1995, p.2).

No processo de formação do povo brasileiro, observam-se além da figura do Português - cuja origem é bastante diversa - outras influências, a exemplo do índio, negro, além de mais recentemente ter sido forte a imigração de novos europeus, árabes, asiáticos, dentre outros. Tudo isto colaborando para o aumento da diversidade social e cultural do seu povo. A compreensão deste novo povo que surge em terras sul-americanas é imprescindível na busca por informações sobre os desdobramentos sociais e econômicos posteriores. Darcy Ribeiro, um dos mais respeitados estudiosos sobre o país, destaca na obra ‘O povo Brasileiro’ (2006), que “surgimos da confluência, do entrechoque e do caldeamento do invasor português com índios silvícolas e campineiros com negros africanos, uns e outros aliciados como escravos”. Ribeiro complementa que:

Nessa confluência, que se dá sob a regência dos portugueses, matrizes raciais díspares, tradições culturais distintas, formações sociais defasadas se enfrentam e se fundem para dar lugar a um novo povo, num novo modelo de estruturação societária. Novo porque surge como uma etnia nacional, diferenciada culturalmente de suas matrizes formadores, fortemente mestiçada, dinamizada por uma cultura sincrética e singularizada pela redefinição de traços culturais delas oriundos. (RIBEIRO, 2006, p. 17).

O surgimento do povo brasileiro enquanto possuidor de uma cultura própria, é um fenômeno recente e ao mesmo tempo intrigante, afinal trata-se de um país ainda jovem e com uma diversidade bastante elevada, como fica claro pelas menções anteriores. Neste sentido, haveria uma característica específica em termos culturais do povo brasileiro? Talvez neste momento a resposta a esta dúvida não seja algo tão relevante. De qualquer forma, é importante destacar a complexidade para se classificar algo como sendo tipicamente brasileiro, afinal, há poucas décadas o país recebeu um enorme contingente populacional das mais variadas partes do mundo. Gilberto Freyre (2006), mencionando Spengler, salienta que “uma raça não se

transporta de um continente a outro; seria preciso que se transportasse com ela o meio físico” (p.34).

Assim sendo, em maior ou menor medida, a compreensão do processo cultural brasileiro deve sempre considerar as mudanças impostas pelo “meio”. Outrossim, para compreendermos a atual sociedade e seu processo de formação cultural, além de informações dos povos que lhe deram origem é fundamental compreender o processo histórico de desenvolvimento econômico e social pelo qual o país perpassou.

O autor Jared Diamond, defende em sua obra: “armas, germes e aço”, a ideia sobre a qual a existência de um ambiente favorável à produção de alimentos teria sido fator fundamental para o desenvolvimento posterior de diversos locais pelo mundo. A sustentação desta hipótese ocorre pelo fato de que inicialmente as sociedades eram nômades, de modo que os povos não fixavam-se em nenhum lugar. Por sua vez, os homens eram caçadores coletores, e à medida que os alimentos escasseavam em um determinado local, as pessoas transferiam-se para outros em busca de mais água e alimentos. Esse modo de vida que durou alguns milhares de anos, era um fator impeditivo para o desenvolvimento de uma sociedade mais organizada e complexa, onde houvesse uma burocracia minimamente organizada. Somente após tornar-se sedentário o homem começa a acelerar o processo evolutivo. É justamente na passagem do homem caçador coletor (nômade) para o sedentarismo, que a produção de alimentos exerceu influência preponderante. Diamond (2012) argumenta que somente algumas regiões do mundo desenvolveram a produção de alimentos de maneira independente, e o fizeram em períodos diferentes da história. Neste sentido, as áreas ambientalmente propícias à produção de alimentos, tiveram uma vantagem inicial no processo de evolução, pelo fato de nelas terem surgido também as primeiras sociedades sedentárias. Exemplos desses locais são: o sudeste da Ásia, também conhecido como Crescente Fértil; China; Mesoamérica (o centro e o sul do México e áreas adjacentes da América Central); os Andes, na América do Sul, e possivelmente a Bacia Amazônica; e o leste dos Estados Unidos. Neste sentido, e o mais importante para esta seção do trabalho é que, segundo Diamond, os povos de algumas áreas ambientalmente adequadas à produção de alimentos nunca desenvolveram a atividade agrícola durante a pré-história, “tendo insistido em permanecer caçadores-coletores até que outros povos mais evoluídos os varreram do mapa”. O autor aborda a importância do

pioneirismo na produção de alimentos, sendo que, para ele, este fator contribuiu para que esses povos se adiantassem no caminho que conduzia a armas, germes e aço e conseqüentemente a padrões culturais mais avançados.

A partir das informações acima, é perceptível a importância do fator ambiental (a produção de alimentos) no desenvolvimento de um povo e consequentemente em sua evolução cultural e econômica. É neste contexto que se pode inserir a realidade da Região Nordeste e do Brasil, refletindo sobre como a chamada monocultura do açúcar foi prejudicial ao desenvolvimento brasileiro, dentre outros fatores, pelo fato de ter prejudicado a melhor ocupação espacial do país, desestimulando o desenvolvimento de sociedades em seu interior, tendo privilegiado inicialmente as regiões costeiras, além de ter desencorajado a produção de gêneros alimentícios e de outras culturas econômicas mais democráticas, temas que serão abordadas mais adiante.

Em “Raízes do Brasil”, versando sobre a influência da cultura no processo de desenvolvimento econômico, Sérgio Buarque de Holanda (1995), em referência ao país destaca que os elementos anárquicos sempre frutificaram aqui facilmente, com a cumplicidade ou a indolência displicente das instituições e costumes. “À frouxidão da estrutura social, à falta de hierarquia organizada devem-se alguns dos episódios mais singulares da história das nações hispânicas, incluindo-se nelas Portugal e Brasil” (HOLANDA, 1995, p. 33).

Sobre as nações Ibéricas, Buarque de Holanda (1995) destaca que nelas, diferentemente de algumas terras protestantes, havia uma falta de racionalização da vida, de modo que o princípio unificador foi sempre representado pelos governos. Isto favoreceria nos tempos modernos, por exemplo, o surgimento de ditaduras militares. Outra questão levantada pelo autor, a partir de uma análise dos povos ibéricos é a “invencível repulsa que sempre lhes inspirou toda moral fundada no culto ao trabalho” (p.38). Holanda continua, salientando que só muito recentemente, com o prestígio maior das instituições do Norte, é que essa ética do trabalho chegou a conquistar algum terreno entre eles. “Mas as resistências que encontrou e ainda encontra têm sido tão vivas e perseverantes, que é lícito duvidar de seu êxito completo” (HOLANDA, 1995 p.38).

Ainda tratando sobre a questão cultural, chamando atenção para os aspectos mais endógenos em relação ao país, Gilberto Freyre, em “Casa Grande e Senzala” (2006), relata por exemplo, como se deu a formação da chamada

sociedade patriarcal, onde praticamente tudo o que ocorria na colônia era centralizado em torno da figura do senhor de engenho, conforme descrição a seguir: “A Casa Grande, completada pela senzala, representa todo um sistema econômico, social, político: de produção (a monocultura latifundiária); de trabalho (a escravidão); de transporte (o carro de boi, o banguê, a rede, o cavalo); de religião (o catolicismo de família, com o capelão subordinado ao pater famílias, culto dos mortos etc.); [...] de política (o compadrismo). Foi ainda fortaleza, banco, cemitério, hospedaria, escola, santa-casa de misericórdia amparando os velhos e as viúvas, recolhendo órfãos” (FREYRE, 2006, p.36).

A singularidade dos estudos realizados por Gilberto Freyre na busca inclusive pelos mais relevantes traços culturais do país, a exemplo da descrição anterior, merecem destaque tendo em vista que apesar de centralizar em torno da casa-grande e do senhor de engenho, o autor consegue dar uma amplitude inimaginável num primeiro momento a uma questão que acabou por influenciar o Brasil de maneira tão marcante, de modo que os traços da época são carregados pela sociedade até os dias atuais. A monocultura, como bem coloca Freyre, marcou decisivamente a sociedade que se formava, dentre outros motivos por ter concentrado excessivamente o poder nas mãos dos donos de terras. O autor, ao demonstrar a grande influência dos senhores de engenho na colônia, cita que a casa-grande venceu a Igreja, nos impulsos que esta a princípio manifestou para ser a dona da terra. “Vencido o jesuíta, o senhor de engenho ficou dominando a colônia quase sozinho. O verdadeiro dono do Brasil. Mais do que os vice-reis e os bispos”, conclui Freyre.

Gilberto Freyre salienta também a influência das técnicas de produção sobre a estrutura das sociedades. Neste sentido, a monocultura do açúcar, amplamente desenvolvida no país, sobretudo no início da colonização, é mencionada pelo autor

Benzer Belgeler