• Sonuç bulunamadı

No contexto atual, com diversas leis específicas em prol da criança, como, por exemplo, a nível internacional, a Convenção dos Direitos da Criança (1989) e, a nível nacional, o Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA (1990); com um amplo campo da academia dedicando-se exclusivamente ao estudo da infância; e com uma tão vasta e diversa produção cultural para a infância, a ideia de que um dia essa etapa da vida não tenha sido considerada, ou seja, em que não se tinha a consciência de sua particularidade, em que a infância não existia enquanto categoria social de estatuto próprio parece-nos algo inconcebível. No entanto, essa era a realidade durante a Idade Média e até o século XVII, quando o sentimento de infância veio se exprimir definitivamente, conforme mostra ARIÈS (1981) a partir de estudo iconográfico.

Tomar, neste trabalho, como aporte, o estudo de ARIÈS (1981), assim como os de Sarmento (2003a, 2003), significa que trataremos da infância como uma construção social. Nessa perspectiva, que é a da Sociologia da Infância, emancipa-se a infância como objeto teórico e considera-se a criança como ser social pleno, dotado de capacidade de ação e culturalmente criativo (SARMENTO, 2003a). Além disso, concebe-se a infância como categoria social geracional a qual reflete as possibilidades e os constrangimentos da estrutura social (SARMENTO, 2005, p. 361). Desse modo,

as ideias e as representações sociais sobre as crianças, bem como as condições de sua existência, estão a sofrer transformações significativas, em homologia com as mudanças que ocorrem na estruturação espaço-tempo nas vidas cotidianas, na estrutura familiar, na escola, nos mass-media e no espaço público ( SARMENTO, 2003, p. 1).

É nesse contexto que surgem as produções culturais destinadas à infância, como a canção para crianças, que, ao mesmo tempo, retratam essa concepção de infância e também atuam em sua construção. Desse modo, estudar o Discurso Literomusical Brasileiro para Crianças requer, desde o início, considerar a infância, ou seja, uma categoria social em função da qual esse discurso é produzido e que se pretende atingir, seja reiterando ou propondo determinadas características que servem para configurar o que se concebe como infância.

A seguir, apresentaremos, com base em ARIÈS (1981), o surgimento do sentimento de infância a partir da Idade Média e, na sequência, a perspectiva de Sarmento (2003a, 2003) acerca da reinstitucionalização da infância na contemporaneidade e acerca das culturas da infância. Em seguida, trataremos da concepção de cultura lúdica, segundo Brougère (1998a).

2.1.1 O reconhecimento da infância

Sobre a indiferenciação entre crianças e adultos durante a Idade Média, ARIÈS (1981) mostra que a criança mal alcançava os sete anos, quando sobrevivia até aí, e já era imersa no mundo dos adultos, compartilhando indistintamente com estes de atividades e costumes da época, como, por exemplo, vestindo-se como os outros homens e mulheres de mesma condição, exercendo profissões, manuseando armas, participando de jogos, de brincadeiras e de festas. Portanto, não se reconhecia e nem se respeitava a infância. As crianças não passavam de “homens de tamanho reduzido”. O pesquisador fundamenta essa tese através de estudo iconográfico, o qual mostra que “até por volta do século XII, a arte medieval desconhecia a infância ou não tentava representá-la. É difícil crer que essa ausência se devesse à incompetência ou à falta de habilidade. É mais provável que não houvesse lugar para a infância nesse mundo (p. 39)”.

A aprendizagem de valores e de conhecimentos por parte das crianças, assim como sua socialização, não eram responsabilidades da família e nem garantidas pela mesma, pois logo, aos sete anos, eram afastadas dos pais para, normalmente, conviverem com outra família, a partir da qual se daria a construção dos conhecimentos necessários para a época. Os filhos podiam voltar para o meio familiar depois de adultos, mas isso dificilmente acontecia.

Por isso, no contexto familiar, o sentimento do amor não exista ou não era manifestado. À função afetiva sempre se sobrepunha a sobrevivência em grupo, a proteção da

honra e da vida, a conservação dos bens, a cooperação etc. A afeição não era prioridade nem entre marido e mulher e nem entre estes e os filhos. No entanto, se não havia espaço assegurado para esse sentimento no seio da família,

as trocas afetivas e as comunicações sociais eram realizadas, portanto, fora da família, num "meio”' muito denso e quente, composto de vizinhos, amigos, amos e criados, crianças e velhos, mulheres e homens, em que a inclinação se podia manifestar mais livremente. As famílias conjugais se diluíam nesse meio (ARIÈS, 1981, p. 4).

Vê-se, desse modo, que tanto a criança quanto a família dispersavam-se no meio da sociedade, não havendo, assim, um espaço que lhes fosse próprio. Nesse período, as crianças eram sempre substituíveis. Logo, não havia comoção quando elas morriam ou eram mortas, e eram altas as taxas de mortalidade infantil e comuns as práticas de infanticídio.

No entanto, a partir do século XVI, passou-se a verificar, nos primeiros anos de vida da criança, um sentimento superficial de infância a que o pesquisador denominou “paparicação”, que consistia em ver na criança inocência e graça, uma fonte de diversão e relaxamento para o adulto. A esse sentimento, viria associar-se um outro, o de exasperação, gestado entre os educadores e moralistas do século seguinte, preocupados com a disciplina e a racionalidade dos costumes. Esse novo sentimento passou a conceber a infância não mais por sua graça e inocência, mas pelo seu psicológico e pela sua necessidade de moralização, ao mesmo tempo, buscando preservar a criança e discipliná-la.

Enquanto o primeiro sentimento de infância, “a paparicação”, surgiu no seio familiar, o segundo adveio de uma fonte externa, dos eclesiásticos ou dos homens da lei e dos moralistas. No entanto, esse segundo sentimento logo passou para o meio familiar.

A criança tornou-se, então, o centro familiar, tendo sua vida preservada e cuidada, saindo do anonimato a que tinha sido submetida anteriormente. Vestia-se agora distintamente dos adultos e buscava-se preservar sua moralidade, por exemplo, proibindo-lhe determinados jogos, considerados maus, como os de azar e os violentos, e recomendando-lhe outros reconhecidos como bons. Nesse período, manifestou-se apreço pelos hábitos e pela fala das crianças pequenas, que receberam novas denominações (bambins, pitchouns efanfans) e tiveram seu vocabulário empregado pelos adultos.

Junto com esse sentimento nascido entre os homens da lei e os moralistas ocorreu uma mudança definitiva e imperativa: o surgimento da escola e de uma literatura pedagógica infantil distinta dos livros para adultos, o que significa que as crianças passaram a ser separadas dos adultos e a aprendizagem não se dava mais diretamente na prática cotidiana.

Essa separação e essa chamada à razão das crianças deve ser interpretada como uma das faces do grande movimento de moralização dos homens promovido pelos reformadores católicos ou protestantes ligados à Igreja, às leis ou ao Estado. Mas ela não teria sido realmente possível sem a cumplicidade sentimental das famílias (ARIÈS, 1981, p. 5).

Esse sentimento pelos filhos era demonstrado, nesse período, através da preocupação com a aprendizagem/escolarização deles, ultrapassando o cuidado anterior que se dava em função dos bens e da honra.

ARIÈS mostra que esses novos sentimentos da infância passaram a ser retratados iconograficamente. “Foi no século XVII que os retratos de crianças sozinhas se tornaram numerosos e comuns. Foi também nesse século que os retratos de família, muito mais antigos, tenderam a se organizar em torno da criança, que se tornou o centro da composição” (p. 52). Concomitante à gestação do sentimento de infância, a família também se reestruturava, ocupando um novo lugar na sociedade, ou seja, a família passou por uma profunda transformação à medida que modificou suas relações internas com as crianças. Conforme o historiador, o surgimento do sentimento da infância é uma expressão particular do sentimento da família, sendo, portanto, inseparáveis.

Desse modo,

entre o fim da Idade Média e os séculos XVI e XVII, a criança havia conquistado um lugar junto de seus pais, lugar este a que não poderia ter aspirado no tempo em que o costume mandava que fosse confiada a estranhos. Essa volta das crianças ao lar foi um grande acontecimento: ela deu à família do século XVII sua principal característica, que a distinguiu das famílias medievais. A criança tornou-se um elemento indispensável da vida quotidiana, e os adultos passaram a se preocupar com sua educação, carreira e futuro. Ela não era ainda o pivô de todo o sistema, mas tornara-se uma personagem muito mais consistente (ARIÈS, 1981, p. 41).

Segundo o estudioso, essa família do século XVII não se tratava ainda da família moderna, pois ainda conservava grande sociabilidade, não havendo privacidade em relação àqueles que não pertenciam à família, mas que tinham acesso à casa. Por outro lado, a família moderna constitui-se na privacidade, restringindo-se, normalmente, a pais e filhos.

Vimos, portanto, que a ideia de infância é uma ideia moderna e que ela se deu na conjugação com a família e a escola. Contudo, de acordo com Ariès (1981), a ideia de infância e todos os avanços em prol das crianças se restringiram por muito tempo apenas às classes abastadas e, especificamente, aos meninos. Nas classes desfavorecidas, a família continuaria ainda por muito tempo sem ter sua particularidade diante da sociedade em geral e as crianças, sendo confundidas com os adultos, usando o mesmo traje destes, exercendo os

mesmos trabalhos, praticando os mesmos jogos etc. Essa indistinção entre adultos e crianças ainda se fez presente durante longa data mesmo ainda nas classes abastadas, quando se tratava das meninas, que continuaram sendo educadas pela prática e pelo costume imersas no universo adulto, diferentemente dos meninos que passaram a ter acesso à escola.

Por outro lado, o que se percebe hoje em dia é que a ideia de infância se estendeu a todas as camadas sociais, contudo, com ressalvas, pois, mesmo sendo essa ideia irrefutável, é fato que muitas crianças, quase invariavelmente crianças pobres, ainda sofrem com a falta de reconhecimento dos seus direitos e respeito aos mesmos, embora esses direitos sejam assegurados por leis.

Benzer Belgeler