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5. Piyasa Bozucu Eylemler
Para se entender como a cultura e principalmente a natureza foram tratadas ao longo da trajetória do órgão de preservação nacional, temos que conhecer como ocorreu sua criação e como foram os primeiros anos de sua ação e consolidação. O SPHAN (Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) foi criado em 1936, por intelectuais modernistas que assumiram a implantação de um serviço destinado a proteger obras de arte e de história no país, lidando com o duplo compromisso de um movimento cultural renovador, o movimento modernista, e de um governo autoritário, o Estado Novo, que havia sido instaurado em 193710.
O Estado Novo utilizou-se de recursos de comunicação como revistas, rádio e cinema para mobilização das massas, sendo utilizados símbolos criados para invocar a pátria, como a bandeira e o hino e incentivadas atividades cívicas, com o objetivo de criar uma cultura nacional homogênea. A arquitetura moderna recebeu apoio oficial, com a nomeação do arquiteto Lúcio Costa para a direção da Escola Nacional de Belas Artes, pelo então Ministro da Educação e Saúde, Gustavo Capanema, que apoiou a construção do prédio do Ministério.
Apesar do modernismo, em escala mundial, pregar a ruptura com o passado, o modernismo brasileiro percebeu a necessidade de reelaborar o nosso passado e de
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Para mais informações ver: FONSECA, M. A criação do SPHAN. In: O Patrimônio em Processo. Trajetória da política federal de preservação no Brasil. Rio de Janeiro: Editora UFTJ/MinC-IPHAN, 2005.
construir uma tradição brasileira a partir de uma postura autônoma. Assim, voltaram- se, simultaneamente, para a criação de uma nova linguagem estética, no sentido de ruptura com o passado, e para a construção de uma tradição, no sentido de buscar a continuidade. Os intelectuais modernistas assumiram a função de atores políticos em se tratando da criação da identidade nacional. O patrimônio surge, então, a partir tanto do caráter ao mesmo tempo universal e particular das autênticas expressões artísticas e da autonomia relativa da esfera cultural em relação às outras esferas da vida social11.
Minas Gerais foi considerada por mineiros, cariocas, paulistas e outros como o berço de uma civilização brasileira, e a proteção de seus monumentos históricos e artísticos tornou-se parte da construção da tradição nacional. O barroco mineiro foi valorizado como a primeira manifestação cultural tipicamente brasileira.
Desde a década de 1920, os intelectuais da época, preocupados com a ameaça da perda dos monumentos da arte colonial brasileira, agora considerados símbolos nacionais, publicaram artigos e documentos chamando a atenção sobre o assunto. O governo federal, então, criou acervos de monumentos históricos e artísticos, através dos governos dos Estados, e na década de 1920, criou as Inspetorias Estaduais de Monumentos Históricos em Minas Gerais, Bahia e Pernambuco. Em 1934 foi criada a Inspetoria dos Monumentos Nacionais, que foi substituída pela criação do SPHAN.
No ano de 1933, a cidade de Ouro Preto, em Minas Gerais, foi elevada à categoria de monumento nacional12. Em 1936, com a instauração do Estado Novo, o ideário do patrimônio passou a fazer parte do projeto de construção da nação pelo Estado. Em 30 de novembro de 1937 é promulgado o Decreto-Lei nº 25, que cria o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – SPHAN - e regulamenta o instituto do tombamento. Durante muitos anos, tombamento foi confundido com preservação, devido à sua importância na história da preservação do patrimônio cultural do país.
11 Para mais informações ver: CASTRIOTA, Leonardo Barci.
Nas encruzilhadas do desenvolvimento: a trajetória da preservação do patrimônio em Ouro Preto (MG). In: Patrimônio Cultural: Conceitos, Políticas, Instrumentos. São Paulo: AnnaBlume; Belo Horizonte: IEDS, 2009, p. 131-152.
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O Decreto-lei n° 25 de 1937 apresenta diferenças em relação às experiências europeias da época, ao tratar da preservação de bens de forma abrangente, ao invés de contemplá-los isoladamente, e por propor uma única instituição de política preservacionista.
O SPHAN se estruturou em duas divisões técnicas, a Divisão de Estudos e Tombamento (DET) e a Divisão de Conservação e Restauração (DCR). A partir de 1970, então transformada em Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, mantendo a mesma sigla, a SPHAN foi considerada elitista, uma vez que o anteprojeto de Mário de Andrade13 foi preterido em favor do Decreto-lei, de autoria de Rodrigo Melo Franco de Andrade14, na época de sua instituição15.
O anteprojeto de Mário de Andrade possui uma concepção de patrimônio avançada para a época. No conceito de arte, são reunidas as manifestações eruditas e populares, afirmando o caráter ao mesmo tempo particular e nacional como também universal da arte autêntica. A definição de arte utilizada por Mário de Andrade se aproxima da concepção antropológica de cultura e a divisão da arte em oito categorias – arte arqueológica, arte ameríndia, arte popular, arte histórica, arte erudita nacional, arte erudita estrangeira, artes aplicadas nacionais e artes aplicadas estrangeiras - e seu agrupamento nos quatro livros do tombo – Livro do Tombo Arqueológico e Etnográfico, Livro do Tombo Histórico, Livro do Tombo das Belas Artes e Livro do Tombo das Artes Aplicadas - indicava um grande avanço, como também uma ligeira preocupação com a proteção daquelas paisagens agenciadas pela indústria humana.
A valorização do popular é demonstrada no anteprojeto quando todas as obras de arte, tanto as eruditas quanto as populares, arqueológicas, ameríndias e aplicadas,
13 Mário Raul de Moraes Andrade (1893-1945) foi um intelectual brasileiro, paulista, poeta, romancista, musicólogo, crítico de
arte, fotógrafo e historiador. Foi um dos fundadores do modernismo brasileiro e um dos idealizadores da Semana de Arte Moderna de 1922. Considerado um dos criadores da poesia moderna brasileira, com a publicação de seu livro Paulicéia Desvairada, em 1922. Em 1928 escreveu o clássico Macunaíma e foi o diretor-fundador do Departamento Municipal de Cultura de São Paulo.
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Rodrigo Melo Franco de Andrade (1898-1969) foi um jurista, jornalista e escritor brasileiro, mineiro, esteve à frente do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN) desde sua criação em 1937 até 1967, período considerado como a fase heróica da instituição.
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Para mais informações ver: FONSECA, M. O anteprojeto de Mário de Andrade e o decreto-lei no 25. In: O Patrimônio em Processo. Trajetória da política federal de preservação no Brasil. Rio de Janeiro: Editora UFTJ/MinC-IPHAN, 2005.
poderiam ser inscritas nos Livros do Tombo. A função social do órgão de preservação era valorizada e a atuação do Estado deveria ter como finalidade principal a coletivização do saber.
No que diz respeito às paisagens, no Anteprojeto de Mário de Andrade, elas são citadas apenas nas categorias das Artes Arqueológicas e Ameríndias, onde eram
considerados “determinados lugares da natureza, cuja expansão florística,
hidrográfica ou qualquer outra, foi determinada definitivamente pela indústria humana dos Brasis, como cidades lacustres, canais, aldeamentos, caminhos, grutas
trabalhadas, etc.” e da Arte Popular onde paisagens eram “determinados lugares
agenciados de forma definitiva pela indústria popular, como vilejos lacustres da Amazônia, tal môrro do Rio de Janeiro, tal agrupamento de mucambos no Recife, etc.”
O documento de Rodrigo Melo Franco de Andrade, que deu origem ao decreto-lei no 25/37, contemplava a questão legal do direito da propriedade, principal entrave à institucionalização da proteção do patrimônio histórico e artístico nacional, e para a viabilização da proteção legal, era necessário referir-se a coisas (bens móveis e imóveis), o que tornava inadequado o instrumento proposto do tombamento para proteger bens imateriais. O tombamento surgiu como uma forma de compromisso entre o direito individual à propriedade e a defesa do interesse público pela preservação de valores culturais. Essa solução se tornou possível quando a Constituição de 1934 estabeleceu limites ao direito de propriedade, conferindo-lhe uma função social.
Quando de sua instituição, o então SPHAN estabeleceu a criação de quatro Livros do Tombo: Livro do Tombo Histórico, Livro do Tombo das Belas Artes, Livro do Tombo das Artes Aplicadas e Livro do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico. Neste último deveriam ser inscritos aqueles bens “pertencentes às categorias de arte arqueológicas, etnográfica, ameríndia e popular, e bem assim as
mencionadas no § 2º do citado artigo 1º” (IPHAN, 2006). A criação dos Livros do
Tombo se relaciona com o Anteprojeto de lei de Mário de Andrade.
Apesar do anteprojeto de Mário de Andrade não ter sido aprovado, ele influenciou várias realizações do SPHAN, como a formação do valor histórico e artístico das
produções populares na primeira publicação do órgão e na concepção dos museus regionais, que informavam ao visitante sobre a vida social da comunidade. Também
a paisagem, uma vez sendo “fruto de um trabalho coletivo ao longo do tempo”
(RIBEIRO, p. 71, 2007), era entendida por Mário de Andrade, como um bem de valor patrimonial merecedor de proteção. Mário associava a paisagem à etnografia, entendendo-a como uma criação da arte popular, tendo uma concepção ampla de paisagem. Mas, analisando a redação do Decreto-lei n° 25 de 1937, nota-se que áreas consideradas hoje como paisagens culturais, mesmo ainda não tendo o conceito desenvolvido, poderiam ser objeto de acautelamento, devido à abrangência do decreto, a visão ampla em relação à paisagem, próxima ao conceito atual, como abordado anteriormente:
Art. 1º, § 2º - Equiparam-se aos bens a que se refere o presente artigo e são também sujeitos a tombamento os monumentos naturais, bem como os sítios e paisagens que importe conservar e proteger pela feição notável com que tenham sido dotados pela natureza ou agenciados pela indústria humana.
Para se entender os critérios que presidiram à seleção e à valorização de bens para tombamento, são necessários uma pesquisa nos processos de tombamento e nos estudos e pesquisas produzidas. O Decreto-Lei nº 25 de 1937 é propositalmente genérico, sendo a decisão do tombamento feita caso a caso, e cabendo apenas a decisão do avaliador para justificá-las. Além do foco dado ao objeto arquitetônico, o conceito difuso de excepcionalidade justificou a seleção de bens entre vários de uma mesma classe ou época, pois essa atribuição de valor feita caso a caso era competência exclusiva do órgão federal. Em princípio ela se fundamentou nas versões do que o SPHAN considerava como valores culturais, e nas noções de valor nacional e de valor excepcional, o que gerou na prática à constituição do patrimônio no Brasil a partir de uma perspectiva predominantemente estética, com uma preocupação de elaborar critérios para a avaliação do valor artístico dos bens. Percebe-se isso devido à característica de seu corpo técnico na época, com predominância de arquitetos.
Mais tarde, na década de 1940, com a mudança do corpo técnico, agora com a presença de mais historiadores, vê-se um aumento de inscrições no Livro do Tombo Histórico. Assim, ocorreu uma alta prioridade dada aos bens da arquitetura religiosa, correspondendo à grande maioria dos bens tombados, tendo como justificativa o lugar e sentido que tinham as igrejas nas colônias portuguesas, além do que a preservação destas era mais fácil, devido ao conhecimento ou ferramentas correlacionadas existentes16.
Nos primeiros anos de ação do órgão foram poucos os tombamentos que vislumbravam áreas naturais ou aspectos relativos a essas áreas e os bens culturais conjuntamente. Entre os anos de 1938 e 1946, segundo Márcia CHUVA (1998), quase 94% dos bens tombados, em um total de 417 bens tombados no período, eram bens arquitetônicos, enquanto apenas seis eram paisagísticos (Morros do Distrito Federal; Jardins e Morro do Valongo no Rio de Janeiro, Praias de Paquetá, Quinta da Boa Vista, Passeio Público do Rio de Janeiro; e Jardim do Hospital de São João de Deus na Bahia) e um paisagístico científico (Jardim Botânico do Rio de Janeiro). Apesar dos limites colocados, é essencial ressaltar como fundamental as atividades desenvolvidas pela instituição para a formação e proteção do patrimônio nacional.
Apesar de não reconhecido oficialmente, alguns autores como CAMPOFIORITO (1985), CHUVA (1998) e FONSECA (2005), segundo RIBEIRO (2007), mostram que houve uma hierarquização dos Livros do Tombo. Aqueles bens que não possuíam os critérios para serem inscritos no Livro do Tombo das Belas Artes, eram inscritos no Livro do Tombo Histórico ou no Livro do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico. A proteção da paisagem natural era deixada mais a cargo dos órgãos de proteção ambiental como o Departamento de Recursos Naturais Renováveis, criado em 1925 e substituído pelo IBDF (Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal) em 196717.
O tombamento do patrimônio natural se ligava à sua beleza cênica, como visto no Art. 1º, § 2º do Decreto-lei 25/37, o que foi seguido pelo Código Florestal de 1934.
16 Para mais informações ver: SANTOS, Carlos Nelson F. dos.
Preservar não é tombar, renovar não é por tudo abaixo. Revista Projeto. São Paulo, n. 86, abr. 1986.
17 O IBDF (Decreto-lei n° 289/67) sucedeu o Serviço Florestal Brasileiro (Decreto n° 4.421/21). Este último foi o embrião do
Nas primeiras décadas do IPHAN, a paisagem foi valorizada e explorada a partir do paisagismo, de seu caráter planejado, e da paisagem como cenário, panorama, ou pano de fundo, ambiência de bens arquiteturais ou conjuntos arquitetônicos, possivelmente, como já foi dito, devido à predominância de arquitetos no corpo técnico da instituição.
Segundo RIBEIRO (2007), entre as décadas de 1930 e 1960, percebe-se um certo padrão nas inscrições no Livro do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico, segundo seu valor como paisagem, que o autor enumera: “Tombamento de jardins e bem mais diretamente ligados ao paisagismo; Tombamento de conjuntos; Tombamento de monumentos junto a aspectos da natureza que os emolduram; Tombamentos de áreas cujo panorama seja importante para populações que vivem nos arredores.”(RIBEIRO, p. 75; 2007)
O tombamento do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, inscrito no Livro do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico, em 30 de maio de 1938, retrata a relação da paisagem ao paisagismo, da paisagem planejada pelo homem, embora também tenha seu valor histórico e biológico.
Curiosamente, como demonstra RIBEIRO (2007), a cidade de Congonhas, a que mais sofreu com a descaracterização de seu conjunto arquitetônico, foi inscrita somente no Livro do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico, em 1941, ao contrário de outras cidades que foram inscritas nos Livros das Belas Artes, ou como Ouro Preto que foi inscrita no Livro do Tombo das Belas Artes, no Histórico e também no Paisagístico. Na época de sua inscrição, Congonhas ainda fazia parte do Município de Ouro Preto e já sofria com a descaracterização de seu conjunto arquitetônico, mais avançada em relação às demais cidades barrocas mineiras. A denominação ‘paisagístico’ foi encontrada pela primeira vez em 1938, na deliberação do Conselho Consultivo do IPHAN que determinava que deveriam ser tomadas as providências para o tombamento do Conjunto Arquitetônico e Paisagístico da Colina de Olinda. O tombamento paisagístico do bem com essa denominação possibilitava a inclusão da área litorânea, uma vez que a intenção de seu tombamento era preservar a feição histórica e os aspectos naturais do conjunto.
O qualificativo paisagístico também foi usado de forma estratégica, como aconteceu com o Conjunto Arquitetônico e Paisagístico de Pilar de Goiás, inscrito em 20 de março de 1954 nos Livros do Tombo de Belas Artes e no Histórico, como objetivo de
“valorizar o entorno da cidade e dar ao IPHAN condições de fiscalização sobre uma
área bem maior que o centro urbano propriamente dito (...)” (RIBEIRO, p.82; 2007).
Conforme continua exemplificando RIBEIRO (2007), o Conjunto Arquitetônico e Paisagístico de Vassouras, inscrito no Livro do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico, em 1958, incluiu as construções e também a arborização da cidade, agora incluindo exemplares não barrocos, pois era uma cidade do século XIX, sendo sua arborização considerada um elemento da paisagem urbana que se deveria preservar. Nessa época, a mudança de pensamento em relação à preservação do patrimônio cultural começou a incluir aqueles bens de características neoclássicas, antes desvalorizados por serem considerados uma transposição acrítica de modelos europeus.
Nos tombamentos de monumentos junto a aspectos da natureza que os emolduram podemos citar o Conjunto Arquitetônico e Paisagístico Casa e Colégio do Caraça, inscrito em 1955 no Livro Histórico e no Livro Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico e em 1956, o Conjunto Arquitetônico e Paisagístico do Santuário de Nossa Senhora da Piedade, em Caeté, ambos em Minas Gerais, também inscrito nos dois Livros do Tombo. A paisagem ao redor das igrejas foram incluídas no tombamento, como moldura dos principais bens, os arquitetônicos. Nesse caso, a paisagem, possui um papel de valorizar o bem arquitetônico, aumentando sua relevância, sua excepcionalidade através dessa associação.
Finalizando a categorização de RIBEIRO (2007), os tombamentos de áreas cujo panorama seria importante para populações que vivem nos arredores pode ser exemplificado pelo tombamento da Serra do Curral, em Belo Horizonte, processo aberto em 1958, devido ao risco das atividades mineradoras, sendo a serra considerada símbolo da cidade, tendo o seu pico, Pico de Ferro ou Pico de Belo Horizonte desenhado no Brasão de Armas da cidade. O então chefe do 3º Distrito do SPHAN, Sylvio de Vasconcellos, não aprova o tombamento, dentre outros motivos,
alegando a dificuldade de proteção de uma área tão extensa18. Rodrigo Melo Franco de Andrade completa, seguindo a idéia desenvolvimentista hegemônica naquele momento no país, que a não exploração na área poderia afetar o desenvolvimento do país, além de outros bens naturais de maior beleza, não terem sido tombados, mostrando claramente a pouca importância do bem natural se ele não estivesse ligado ao fazer humano. A Serra do Curral foi inscrita no Livro do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico, com uma área reduzida e por seu valor panorâmico, em associação com a identidade da cidade. Essa concepção e valorização da paisagem como vista se mostrou como um problema não só para o IPHAN, devido à dimensão da área a ser preservada, mas também para outros órgãos culturais estaduais e municipais.
A ênfase no valor pictórico na proteção de áreas naturais começou a mudar na década de 1960, com os movimentos ambientalistas internacionais, que estabeleceram valores ecológicos, de conservação dos ecossistemas e da biodiversidade. (SLAIBI, p.42; 2005).
Também a partir dessa época, por influência da Carta de Veneza de 1964, o IPHAN, além da idéia de monumentalidade e integridade arquitetônica, passa a considerar passíveis de tombamento conjuntos urbanos vernaculares, principalmente ligados à formação do território nacional. Ocorreu um número crescente de inscrições de conjuntos urbanos no Livro do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico, incluindo valores históricos e culturais atrelados à idéia de paisagem. Esses sítios urbanos mais modestos levaram a denominação de conjuntos paisagísticos, sendo que os conjuntos urbanos mais significativos em termos de integridade arquitetônica eram chamados de conjuntos arquitetônicos, revelando que a atribuição de valor ainda possuía uma ênfase no caráter visual, predominantemente estético e na ‘superioridade’ do bem arquitetônico.
Nesse período, devido ao crescimento acelerado do país, cresceu a preocupação com a gestão das cidades históricas e com o crescimento do turismo, apontando uma possibilidade de seu uso na preservação destes.
18 Processo de Tombamento 591-T-58 – Arquivo Central do IPHAN. In: RIBEIRO, Rafael Winter.
Paisagem Cultural e Patrimônio. Rio de Janeiro: IPHAN, 2007, p. 88-89.
No final dos anos de 1970 foram instituídos os chamados ‘estudos de entorno’, onde à noção de visibilidade do bem tombado, agora diferente da adotada até então de acordo com o Decreto-lei 25/37, foi agregada a possibilidade de outros olhares sobre o mesmo bem, levando-se em consideração a relação entre o homem e o ambiente e os traços oriundos dessa relação. Alguns centros históricos, antes inscritos somente no Livro de Belas Artes foram também inscritos no Livro do Tombo Histórico e no Livro do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico, proposta feita pelo arquiteto Luiz Fernando Franco, através da informação no 135/86 de 18 de setembro de 1986 (RIBEIRO, 2007).
A inscrição de bens em mais de um Livro do Tombo, pôde ajudar no entendimento de como estes bens foram entendidos na época de seus tombamentos e como agregaram novos olhares, uma vez que, assim como o conceito de cultura evoluiu, o mesmo aconteceu com a forma de valorização das paisagens naturais.
Mas, a transcrição, ou seja, a inscrição de bens inscritos em outros Livros do Tombo para o Livro Histórico e para o Livro Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico, não significou uma mudança em sua gestão pela instituição, mas sim um reconhecimento de novos valores, indicando uma transformação no olhar, onde o caráter de monumentalidade e excepcionalidade deram lugar à idéia do bem “como