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A. Sermaye Piyasası Kurulu’nun Ġdari Yaptırımlarına KarĢı Açılacak Ġptal Davaları

2. Esasa ĠliĢkin Denetim

A preocupação com a preservação do patrimônio vem desde o século XVIII, intensificada com a Revolução Industrial quando ocorreram muitas descaracterizações nos monumentos e tecidos urbanos devido ao grande crescimento e a metropolização das cidades (CHOAY, 2002).

Na década de 1930, quando a Carta de Atenas foi escrita, a idéia de patrimônio ainda tradicional, era associada ao excepcional, a uma grande valorização do monumento isolado, de caráter imobilista, surgindo aos poucos a idéia de preservação do entorno, mas com grande ênfase na valorização do monumento em si. A paisagem era valorizada como ambiência de um bem de valor cultural excepcional. Em 1933, os modernistas, na também chamada Carta de Atenas, mantendo a idéia imobilista do excepcional, consideravam que deveriam ser preservados e transmitidos para os séculos futuros aqueles monumentos de “valores histórico e sentimental e que traziam manifestações plásticas do mais alto grau de

intensidade do gênio humano”(IPHAN, 2004, p.52).

Em escala internacional, a associação do patrimônio cultural com a natureza iniciou-

se em 1956, através de estudos realizados pela UNESCO – United Nations

Educational, Scientific and Cultural Organization. Em 1962, com a Conferência Geral

da UNESCO em Paris, relativa à proteção da beleza e do caráter das paisagens e sítios, foram elaboradas recomendações para salvaguarda do valor estético das

paisagens e dos sítios naturais ou criados pelo homem, de forma a frear a descaracterização acelerada pela urbanização, considerando se tratar de um bem necessário à vida do homem, tanto em caráter cultural e físico, como moral e espiritual.

Em maio de 1964, a Carta de Veneza, ainda ligada à noção de monumento excepcional, o conceito de patrimônio vai se ampliando, começando a se preocupar cada vez mais com o entorno, considerando a relação dos bens históricos e artísticos com o meio no qual se insere. O bem perde em “riqueza” quando fora de seu contexto de criação, sendo a paisagem lida como um pano de fundo a um bem arquitetônico ou artístico, considerado mais importante.

O tema relativo ao patrimônio natural volta a aparecer na Conferência de Washington, em 1965, que procurou estimular a cooperação internacional para proteção das áreas naturais e paisagísticas e os sítios históricos para o presente e o futuro da humanidade.

De 1964 a 1967, foram realizados estudos pela Comissão Franceschini – comissão italiana encarregada de realizar estudos para a tutela e valorização do patrimônio histórico e artístico italiano – onde foram elaborados conceitos de bens patrimoniais, incluindo bens paisagísticos e urbanísticos. Os bens paisagísticos eram aqueles bens naturais, de caráter relevante para a história natural ou que documentassem a transformação cívica do ambiente pela ação do homem e os bens urbanísticos, estruturas de assentamentos de particular valor, testemunhos vivos de uma civilização.

No Brasil, no Compromisso de Salvador, em outubro de 1971, a valorização dos conjuntos urbanos e sua ambiência, do patrimônio imaterial, mostra a adesão ao conceito ampliado de patrimônio e cultura, que estava em processo de desenvolvimento. Além disso, instituiu-se medidas de defesa não só ao patrimônio histórico, artístico e arqueológico, mas também ao patrimônio natural do país.

Com a ampliação dos conceitos de patrimônio e preservação, surgiram e se desenvolveram outros conceitos como “paisagem urbana” e “patrimônio ambiental”, valorizando cada vez mais o entorno dos monumentos e a complexidade das malhas urbanas. O conceito de cultura também foi expandido, respeitando e valorizando

todo tipo de manifestação cultural, seja erudita e também popular. A paisagem urbana é considerada patrimônio ambiental, pois a cidade é a extensão vital do homem. A paisagem urbana, servindo à qualidade de vida das pessoas, influi na recuperação intrapsíquica e no prazer intelectual do ser humano.

Indicando a viabilidade da associação entre natureza e cultura, em se tratando de bens patrimoniais, a Declaração de Estocolmo, produzida em junho de 1972, considera que a capacidade de renovação do planeta deve ser mantida, e o homem deve garantir tal capacidade através de um planejamento de desenvolvimento econômico e social sustentável. Essa ideia é sustentada e ampliada na Convenção sobre a salvaguarda do patrimônio mundial, cultural e natural, realizada em Paris, também em 1972, tendo os conceitos de patrimônio cultural e patrimônio natural definidos. O duplo aspecto cultural e natural na interação do homem com a natureza e a necessidade da existência do equilíbrio entre ambos, mostram a complementaridade entre natureza e cultura.

A Convenção de Paris possui o propósito de assegurar a identificação, proteção, conservação, interpretação e transmissão para as futuras gerações, do patrimônio cultural e natural de “valor universal excepcional”. A convenção descreve a diferença existente entre os conceitos de patrimônio cultural e patrimônio ambiental e cria o “Comitê” e a “Lista do Patrimônio Mundial”:

Artigo 1º- Para os fins da presente convenção serão considerados como “patrimônio cultural”: os monumentos, obras arquitetônicas, de escultura ou de pintura monumentais, elementos ou estruturas de natureza arqueológica, inscrições em cavernas e grupos de elementos que tenham um valor universal excepcional do ponto de vista da história, da arte ou da ciência; os conjuntos: grupos de construções isoladas ou reunidas que, em virtude de sua arquitetura, unidade ou integração na paisagem, tenham um valor universal excepcional do ponto de vista da história, da arte ou da ciência; os sítios: obras do homem ou obras conjugadas do homem e da natureza, bem como as áreas que incluam sítios arqueológicos, de valor universal excepcional do ponto de vista histórico, estético, etnológico ou antropológico.

Artigo 2º- Para os fins da presente convenção serão considerados como “patrimônio natural”: os monumentos naturais construídos por formações físicas e biológicas ou por grupos de tais formações, que tenham valor universal excepcional do ponto de vista estético ou científico; as formações geológicas e fisiográficas e as zonas nitidamente delimitadas que constituam o habitat de espécies animais e vegetais ameaçadas e que tenham valor universal excepcional do ponto de vista da ciência ou da conservação; os sítios naturais ou as zonas naturais estritamente delimitadas, que tenham valor universal excepcional do ponto de vista da ciência, da conservação ou da beleza natural.

Percebemos que na categoria de ‘patrimônio cultural’, ao considerar os sítios que retratam o trabalho em conjunto do homem e da natureza, já existia a ideia que atualmente se relaciona ao conceito de paisagem cultural.

As primeiras inscrições na Lista do Patrimônio Mundial ocorreram em 1978. O Comitê do Patrimônio Mundial também criou a “Lista do Patrimônio Mundial em Perigo” e publica, após revisões periódicas, as “Orientações para a implementação da Convenção do Patrimônio Mundial”. Para se definir o valor excepcional de um bem, seja ele cultural ou natural, o Comitê criou a lista de critérios44, específicos para cada categoria, e que os bens devem satisfazer, ao menos, um desses critérios. Nota-se, neste momento, o antagonismo dos bens naturais e dos bens culturais. O patrimônio mundial abrigava duas correntes, a que se preocupava com os sítios culturais e a dos conservacionistas da natureza, que pregavam que quanto menor a interferência do homem no ambiente natural, mais bem qualificada seria a área. Mas, alguns bens podiam ser inscritos tanto na categoria cultural, como na natural, sendo assim, foi criada a categoria de bem misto. Na 34ª sessão do Comitê do Patrimônio Mundial da UNESCO, realizada em Brasília em julho e agosto de 2010, a Zona de Conservação Ngorongoro, na Tanzânia, originalmente inscrito em 1979 como bem natural, foi estendido também a bem cultural, configurando-se como um bem misto, sendo o mais recente desta categoria.

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Em 1982, dez anos após a Declaração de Estocolmo, a Organização das Nações Unidas para o Meio Ambiente realiza a Declaração de Nairóbi, que reforça as recomendações de proteção ao meio ambiente, tratado-o como um bem cultural. Assim como na Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (CMMAD) da ONU, em 1987, no relatório “Nosso Futuro Comum”, conhecido como Relatório Brundtland, desenvolvimento sustentável foi definido como o desenvolvimento que atende às necessidades do presente sem comprometer as necessidades das gerações futuras (CMMAD, 1998).

A discussão relativa ao desenvolvimento sustentável continuou na Carta do Rio, de 1992, onde foram discutidas ações para um desenvolvimento sustentável. A Carta do Rio de 1992 introduziu uma visão mais ampla em se tratando de conservação do meio ambiente, incluindo os processos sociais, econômicos e culturais, além dos objetos específicos como a flora, a fauna, etc (SLAIBI, 2005). A Conferência do Rio considera a paisagem reflexo da identidade e da diversidade de um povo, devido ao seu caráter de paisagem cultural e natural, e também um recurso econômico criador de empregos e vinculados a um turismo sustentável. Nessa conferência foi elaborado o documento “Agenda 21”.

Toda essa discussão acumulada no decorrer das realizações dessas conferências acabou gerando o conceito de “Paisagem Cultural”, que engloba os fatores naturais e humanos e a combinação de ambos. O conceito de Patrimônio Cultural inclui os lugares de valor histórico, paisagístico, ecológico, que os grupos reconhecem como representantes de seu povo. Conclui-se que o meio ambiente é a “casa” do homem, construída por variados bens materiais e imateriais, incluindo os de caráter cultural45. Entre os anos de 1992 e 2001 foram realizadas alguns encontros pelo mundo relacionados ao tema Paisagem Cultural, onde foram sugeridas metodologias de classificação e avaliação das paisagens culturais, assim como discutidos instrumentos legais de conservação e gestão. Como exemplo, no encontro realizado na Polônia, em outubro de 1999, recomendou-se a cooperação entre os níveis local, regional, nacional e internacional, assim como a discussão sobre “técnicas

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Para mais informações ver: CASTRIOTA, Leonardo Barci. Paisagem cultural e técnicas agrícolas tradicionais: preservação e sustentabilidade no Serro (MG). In: Patrimônio Cultural: Conceitos, Políticas, Instrumentos. São Paulo: AnnaBlume; Belo Horizonte: IEDS, 2009, p. 65-76.

específicas de uso sustentável da terra”. No encontro também foi ressaltada a importância de se levar em consideração as especificidades de cada região.

Voltando à Lista do Patrimônio Mundial, até maio de 2011, a lista incluía 911 bens que faziam parte do patrimônio cultural e natural, que o Comitê do Patrimônio Mundial considera como tendo valor universal excepcional (WHC, 2011). Estas incluem 704 bens culturais [Cultural site], 180 bens naturais [Natural site] e 27 mistos

[Mixed site] em 151 Estados-Partes (WHC, 2011). Os últimos são incluídos em

ambos os critérios natural e cultural.

No Brasil, existem várias áreas de caráter ambiental que são consideradas Patrimônio Mundial pela UNESCO, inscritas como patrimônio natural. Os bens integram uma das categorias apontadas na Convenção sobre a Salvaguarda do Patrimônio Mundial, Cultural e Natural. São eles: Parque Nacional de Iguaçu, em Foz do Iguaçu, PR (1986); Parque Nacional Serra da Capivara, em São Raimundo Nonato, PI (1991); Mata Atlântica – Reserva do Sudeste, SP/PR (1999); Costa do Descobrimento / Reservas da Mata Atlântica, BA/ES (1999); Parque Nacional do Jaú, AM (2000); Complexo de Áreas Protegidas do Pantanal, MT/MS (2000); Áreas Protegidas do Cerrado: Chapada dos Veadeiros e Parque Nacional das Emas, GO (2001); Ilhas Atlânticas Brasileiras: Reserva de Fernando de Noronha e Atol das Rocas, PE/RN (2001).

Em 2005, o governo brasileiro enviou à UNESCO a relação dos candidatos a figurarem a Lista do Patrimônio Mundial, incluindo a candidatura do Parque Nacional da Serra da Capivara e Áreas de Preservação Permanente, já inscrito como bem natural, também no critério cultural, configurando em um bem misto. Além da Serra da Capivara, também eram candidatos a bens mistos: Complexo do Vale do Alto Ribeira, SP; Cavernas do Peruaçu, Área de Preservação Ambiental Federal / Parque Estadual Veredas do Peruaçu, MG (RIBEIRO, 2007). Nenhuma inscrição foi realizada.

Além das paisagens naturais brasileiras inscritas na Lista do Patrimônio Mundial, as paisagens e sítios que representam feições típicas da nossa natureza, associadas à obra humana, amostras de fisionomia dos sistemas naturais brasileiros e de formações geológicas típicas, também são paisagens passíveis de acautelamento.

Benzer Belgeler