As disparidades em saúde entre as populações ricas e pobres são, em grande parte, atribuídas à falta de acesso a medicamentos e vacinas, assim como às diferenças na distribuição geográfica de certos agentes de contaminação e de recursos sanitários. Segundo Widdus (2001), historicamente, esses recursos tornam-se disponíveis através da divisão informal de responsabilidades entre entidades públicas e empresas privadas, ambas assumindo atividades de acordo com determinações ou motivações. Esta divisão de atribuições constitui uma parceria definida superficialmente, na qual os resultados desejados pelas partes nunca são negociados explicitamente. Nos países mais desenvolvidos estas negociações são, em geral, bem sucedidas, levando à disponibilidade de uma grande quantidade de medicamentos e vacinas. No entanto, esse sistema não é aplicável às necessidades de saúde específicas das populações mais pobres do mundo.
Diferenças substanciais nas condições de saúde entre as populações sempre existiram e há décadas vêm sendo documentadas. Dados comparativos recentes reforçam as questões humanitárias da desigualdade no acesso aos produtos, serviços e alocação de recursos.
A disparidade nas condições de saúde de populações ricas e pobres resulta numa expectativa de vida entre 77 e 52 anos, respectivamente. As doenças infecciosas contribuem muito para essa situação. As mortes associadas à diarréia e às infecções respiratórias são raras nos países industrializados, sendo, porém, a principal causa da mortalidade infantil nos países em desenvolvimento. As doenças que não ocorrem nos países do primeiro mundo, como a malária e a AIDS em grande escala, pesam enormemente na expectativa de vida de adultos e crianças de regiões menos desenvolvidas. Por sua vez, a morbidade por
falta de atendimento e debilitação dos doentes tem um impacto substancial na produtividade.
O autor cita uma análise de 1990 sobre as diferenças das doenças entre 20% dos países mais ricos e 20% dos mais pobres. Em termos de mortalidade e invalidez, o levantamento acusava que 80% da diferença entre esses dois tipos de população era atribuída a doenças comunicáveis. Isto, de fato, se confirma, uma vez que as incidências de HIV, malária e tuberculose estão aumentando. Além disso, o aumento da expectativa de vida nos países em desenvolvimento pode elevar o número absoluto de doenças não comunicáveis.
A disparidade nas condições de saúde provavelmente é resultante do acesso distinto aos medicamentos disponíveis assim como às instalações sanitárias e à água encanada, que influenciam a transmissão de algumas doenças.
Com respeito à indústria farmacêutica, a necessidade de geração de resultados parece fazer com que estas dêem menos atenção às populações pobres do que às ricas. As empresas desse setor, assim como outras empresas de saúde, têm colaborado muito com o setor público e com organizações da sociedade civil para melhorar o acesso das populações menos privilegiadas aos produtos de saúde. Uma relação de aproximadamente 70 parcerias colaborativas, em sua maioria, de âmbito internacional, foi estabelecida na convenção internacional Geneva-Based Initiative on Public-Private Partnerships for Health. Estas envolvem diversos arranjos, variando com respeito aos participantes, situação legal, governança, gerenciamento, prerrogativas políticas, contribuições e regras operacionais. Sua natureza difere das privatizações, as quais se caracterizam pela provisão, por parte do setor privado, com o objetivo de obter lucro na oferta de serviços de saúde.
As parcerias entre as entidades públicas, as entidades privadas e a sociedade civil contribuem para a melhora da saúde de pessoas carentes, ao combinar as diferentes características e recursos das várias organizações de forma inovadora. As agências públicas beneficiam-se claramente, ao trabalhar em colaboração com o setor privado em áreas onde não possuem experiência, como no desenvolvimento de produtos, no aperfeiçoamento do processo produtivo e com relação ao marketing e à distribuição.
Por outro lado, existem áreas em que o conceito de parceria com visão nos lucros não é adequado, tais como a composição das políticas públicas de saúde e as aprovações de
regulamentação. A finalidade das parcerias deve, portanto, ser considerada com cautela e envolver uma articulação apropriada, justificando-se nas situações em que: as formas tradicionais de trabalho independente tenham impacto limitador no problema; as metas específicas desejadas possam ser aceitas por colaboradores potenciais; exista competência em ambos os setores; os interesses de longo prazo de ambos os setores estejam preenchidos; e, por último, quando as contribuições em conhecimento e recursos estejam razoavelmente equilibradas. Diante dessas condições, os esforços colaborativos entre os setores público e privado gerariam valor adicionado.
Com respeito à influência da renda, Marmot (2002) afirma que esta se relaciona à saúde através do produto nacional bruto dos países, da renda dos indivíduos e das desigualdades de renda entre os países ricos e as áreas geográficas. A questão central é identificar se estes fatores refletem uma associação causal. Em caso afirmativo, a redistribuição de renda melhora a saúde. Por sua vez, o autor aponta que a renda pode estar relacionada à saúde através do efeito direto das condições materiais necessárias à sobrevivência biológica ou através do efeito da participação social e da oportunidade de controlar circunstâncias de vida. Quanto menos bens e serviços são ofertados pela comunidade, mais importante é a renda individual para a saúde. Nos Estados Unidos, uma política de combate à desigualdade de renda através do sistema de tributação, benefícios e provisão pública é justificada.
É oportuno mencionar os arranjos públicos da Inglaterra, os quais tornaram a distribuição de alimentos e de atendimento à saúde eficientes. O National Health Service (NHS) foi criado nos anos da II Guerra Mundial.
O autor cita a idéia de Deaton (2002) de que a redistribuição de renda melhoraria a saúde em geral, ao melhorar mais as condições dos pobres ao invés de piorar as dos ricos. Segundo Marmot, Deaton leva a crer que os benefícios da redistribuição seriam menores pela simples observação da relação entre a renda e a mortalidade. Os economistas descrevem como peso morto o fato de que distribuir um dólar para cada pobre é mais oneroso do que disponibilizar o mesmo valor entre os ricos. Para Deaton, isto se deve à evasão dos impostos.
Ainda conforme o autor, a falta de renda não deve estar relacionada à privação, mas sim aos limites de uma participação plena na comunidade. Nos termos de Sen (2000), em
uma sociedade “suportada”, isto é, com distribuição e provisão pública de bens e serviços, a renda teria menos relevância no aspecto da participação social e da obtenção de serviços. Num ambiente social no qual esses dois fatores dependam da renda individual, a sua falta causa implicações graves.