Partimos do princípio de que a análise dos dados representa uma das etapas mais significativas do processo investigativo, porque nela estão contidas as informações vinculadas ao objeto e aos objetivos traçados. Nessa atitude analítica sobre os dados relevantes da realidade investigada, o pesquisador empreende
ações interpretativas que continuamente o levam dos materiais do corpus aos objetivos e vice-versa. Esses movimentos de idas e vindas dos dados aos objetivos constituem-se como guias para a investigação. A esse propósito, Gatti (2005, p. 44) considera que a análise dos dados é um processo de idas e vindas, caracterizado como atividades
[...] de procura de caminhos, em meio ao volume das informações levantadas. Rotas de análise são seguidas, e estas se abrem em novas rotas ou atalhos, exigindo dos pesquisadores um esforço para não perder de vista seus propósitos e manter a capacidade de julgar a pertinência dos rumos analíticos em sua contribuição ao exame do problema.
Dessa forma, buscamos meios de análise que pudessem atender aos objetivos da pesquisa, procurando analisar o material empírico. Sabemos que todo procedimento analítico fundamenta-se em pressupostos teóricos, todavia informamos que as teorias de qualquer natureza foram trazidas no momento das análises em função dos dados da realidade investigada e a título de explicações ou esclarecimentos que possam elucidar questões suscitadas pelo presente estudo. Portanto, na organização das partes do texto, não daremos destaque aos fundamentos teóricos em um capítulo específico, como aparece rotineiramente nas investigações, mas estes estarão diluídos nas análises.
Inicialmente, tomamos os dados coletados através dos diversos instrumentos referentes à fase de observação – Estágio I –, cuja ementa da disciplina dirige as atividades dos alunos para a realização de um diagnóstico da escola nos seus aspectos administrativos e pedagógicos, relacionados ao ensino de Língua Portuguesa, com o intuito de proporcionar aos alunos-mestres vivências no cotidiano escolar, conforme o Projeto Político-Pedagógico do curso de Letras (2006, p. 106).
Nas demais fases, Estágio II – participação – e Estágios III e IV – regência no ensino fundamental e no ensino médio –, procedemos à análise pautada nas orientações contidas nas ementas das referidas disciplinas (Anexo 2) e nos objetivos da pesquisa, uma vez que esse modo de organizar o material empírico nos permitiu manusear as informações de modo satisfatório, facilitando a interpretação dos dados referentes à atuação dos alunos-mestres no momento de suas experiências práticas em sala de aula.
Para agilizar o processo analítico, fizemos a codificação de todos os instrumentos e dos informantes, conforme explicitamos no Quadro 3 a seguir.
Quadro 3 – Codificação dos informantes e dos instrumentos
Codificação dos informantes Significados
TES 1, TES 2, TES 3 e TES 4 Transcrição do encontro de socialização (1, 2, 3 e 4),
referente às diversas fases do estágio
E 1, E 2, E 3 e E 4 Entrevista 1, 2, 3, 4
R 1, R 2, R 3 e R 4 Relatório 1, 2, 3, 4
Inf. Informante
DCA Diário de campo dos alunos
DCP Diário de campo da pesquisadora
Fragmentos Trechos retirados dos diversos instrumentais
Itálico e sublinha Destaque dos trechos ilustrativos do que está sendo discutido
Negrito Ênfase nas falas dos informantes contidas nos
fragmento. Fonte: Dados da pesquisa.
Após a codificação, partimos para o tratamento dos dados em forma de grades de análise, que nos permitiram empreender uma busca dos significados atribuídos pelos alunos-mestres ao estágio realizado nas instituições escolares. Para tanto, levantamos as seguintes questões que serviram como guias para o processo analítico: a) Qual a relação das vivências no contexto escolar com o processo de formação profissional? b) Como é o olhar do estagiário sobre o professor regente? c) Como caracteriza as relações interpessoais entre professor e aluno? d) Como qualifica o fazer pedagógico do professor regente e o seu próprio saber fazer? e) Como percebe os conhecimentos dos aspectos administrativos e pedagógicos da escola em relação ao processo de ensino e aprendizagem? f) Como ocorre a transposição didática dos saberes acadêmicos nas diversas fases do estágio? g) Como articula na prática os pressupostos de língua/uso com os objetivos de ensino? h) Como constrói a identidade de professor?
Com relação a essas questões, Bogdan e Bilken (1994, p. 208) afirmam que inseri-las na investigação é um procedimento relevante porque serve para “orientar e ajudar a organizar a coleta de dados”, como também para guiar a realização das análises pretendidas.
Para facilitar a análise, construímos grades em que figuram as informações dos quatro períodos de estágio, quais sejam: Grade I – Codificação das entrevistas; Grade II – Transcrição dos encontros de socialização; Grade III – Relatórios finais; e Grade IV – Diários de campo, conforme apresentamos no modelo abaixo.
GRADE DE ANÁLISE I – Codificação das entrevistas
Tópico de
análise Informante Fragmentos
Comentários analíticos descritivos
Comentários analíticos interpretativos
As grades foram compostas pelos tópicos de análise gerados a partir dos objetivos de pesquisa, pela identificação dos informantes e pelos fragmentos de textos retirados das entrevistas, dos encontros e dos relatórios. Além desses elementos, os comentários descritivos e os interpretativos compuseram esse instrumento de análise. Esclarecemos que nos descritivos registramos os comentários dos alunos-mestres em forma de apreciações positivas ou negativas, críticas, reflexões, sugestões e ressalvas, como também apresentamos os comentários analíticos interpretativos que constam das análises da pesquisadora sobre as ações dos informantes, conforme exemplificamos a seguir:
Quadro 4 – Exemplo de codificação das entrevistas Tópicos de
análise Inf. Fragmentos
Comentários
descritivos Interpretativos Comentários
Vivência no contexto escolar e processo de formação Inf. 4
Após vivenciar a experiência de regência no ensino médio, percebi que nessa fase o aluno já está mais amadurecido com relação ao estudo, no sentido de participação na sala de aula. Essa etapa me ajudou muito porque me fez sentir como é dar aula para o ensino médio e perceber que é na prática que sentimos as dificuldades e nos damos conta de como é difícil encontrar respostas para solucionar alguns problemas que encontramos na sala de aula. Como ponto positivo, aponto a oportunidade única de nos inserirmos na sala de aula como regentes da ação pedagógica e nos sentindo como professora. Contudo, como ponto negativo, aponto a questão de não ter uma disciplina que focalize a metodologia em sala de aula, voltada para sugestões de aulas dinâmicas, ajudando também na formatação de nossos planos de aula, melhorando-os.
Apreciação positiva Reflexão crítica Apreciação negativa
Reflete sobre a posição mais participativa do aluno nesse nível de ensino.
Aponta que no fazer pedagógico o aluno- mestre sente realmente o que significa ser professor.
Apresenta crítica à grade curricular, apontando a necessidade de inserir uma disciplina de metodologia.
O que nos causa estranheza, pois o currículo atual contempla essa disciplina. Daí, questionarmos como as disciplinas de Didática e Metodologia estão sendo ministradas e como a carga horária do componente curricular das disciplinas está sendo utilizada.
Após essa etapa, procuramos analisar os textos produzidos pelos alunos- mestres para identificar os significados que eles atribuíram aos diversos elementos que constituíram a prática pedagógica, buscando eventuais consonâncias ou dissonâncias entre as vozes dos alunos-mestres e os discursos oficiais dos autores e pesquisadores que se dedicam à problemática do ensino de Língua Portuguesa e à formação de professores.