4. DEĞİŞKEN DİRENÇ ve BASINÇ (GERİLME) ALGILAYICILARI /
4.3. Piezo Elektrik Algılayıcılar/Dönüştürücüler
Em entrevista, Bartolomeu afirmou que “Na cultura ocidental, havia o Caos. Aí Ele chegou e disse: ‘Faça-se a luz’. E a luz se fez. Ou seja, o caos foi organizado pela palavra. A palavra tem essa função em nossa cultura: organizar o mundo.” (QUEIRÓS, 2009, p. 55).
Portanto, se a palavra organiza o mundo, é pela estrutura dos discursos que o ser humano se incute nele, (re)produzindo-o em comunhão com o outro. Para haver discurso, precisa haver interlocução, enunciador e enunciatário, considerando que “o texto só existe quando concebido na dualidade que o define – objeto de significação e objeto de comunicação.”
(BARROS, 2005, p. 12). Assim, os sentidos de um texto são construídos a partir de mecanismos internos e externos, como os fatores contextuais que envolvem questões sócio-históricas, bem como o enunciatário, que traz a sua subjetividade.
Entre enunciador e enunciatário o texto vai ganhando sentido, em virtude da interlocução que é estabelecida. O leitor adentra a escrita daquele que escreve, “inscrevendo-se entre as suas palavras e os seus silêncios.” (QUEIRÓS, 2012a, p. 61). Pelas subjetividades, cada enunciatário vai imprimindo ao texto as suas próprias experiências, a partir do que foi inscrito. “Texto e leitor ultrapassam a solidão individual para se enlaçarem pelas interações. Esse abraço a partir do texto é a soma das diferenças, movida pela emoção, estabelecendo um encontro fraterno e possível entre leitor e escritor.” (QUEIRÓS, 2012a, p. 61).
Ainda sobre esse movimento dialógico entre leitor e escritor, Bartolomeu Campos de Queirós afirma: “Acredito que ler é configurar uma terceira história, construída parceiramente a partir do impulso movedor contido na fragilidade humana, quando dela se toma posse.” (QUEIRÓS, 2012a, p. 62). Assim, enunciador e enunciatário se comunicam a partir do discurso, onde o primeiro enuncia e o segundo se inscreve nele, em seu fazer interpretativo. Nesse sentido, Bartolomeu pontua que: “à medida que escrevo e o leitor se inscreve no texto é que elaboramos um terceiro tempo, democraticamente.” (QUEIRÓS, 2012a, p. 66).
Todo discurso pressupõe um enunciatário. O sentido do texto vai sendo construído entre o quê e como foi enunciado, numa soma de subjetividades, já que os sujeitos da enunciação são dois: o enunciador e o enunciatário. “Há sempre um diálogo subjetivo entre escritor e leitor. Na subjetividade dos diálogos, nasce um terceiro livro que ficará por escrever.” (QUEIRÓS, 2012a, p. 74).
Ainda sobre o sentido do texto, e corroborando com a relação enunciador- enunciatário, na mesma entrevista já citada, Bartolomeu afirmou:
Eu, escritor, não sei o que escrevo – é o leitor quem dá sentido. Repare: há vários significados quando escrevo ‘a casa é bonita’. Para determinada criança, ‘casa bonita’ é aquela que tem pai e mãe. Para outra, é a casa que tem colchão para dormir. O escritor nunca sabe o que é a ‘casa bonita’ - o leitor é quem sabe. O leitor toma a palavra. A literatura dá autonomia ao leitor na medida em que dá a palavra, empresta voz. (QUEIRÓS, 2009, p. 54).
No que se refere ao significado da palavra sentido, o dicionário de Semiótica (GREIMAS; COURTÉS, 2016, p. 456) traz, dentre outras acepções, a de que é “aquilo que
fundamenta a atividade humana enquanto intencionalidade”. Então o enunciador apresenta uma intenção que não necessariamente coaduna com a do enunciatário, mas há relações entre elas. Porque, segundo Fiorin (2016a, p. 112), “As diversas leituras que o texto aceita já estão nele inscritas como possibilidades.” E Bartolomeu fortalece: “Ao ler um texto percebemos as possibilidades que a escritura contribui, e o movimento que ela sonha em processar no leitor.” (QUEIRÓS, 2012a, p. 71).
Assim, a construção de sentido ocorre através de interações entre enunciador e enunciatário. Este emprega sua leitura de mundo, seus conhecimentos prévios, linguísticos e textuais, bem como suas subjetividades; e aquele imprime no discurso inteligibilidade, organiza o texto linguisticamente, deixando em aberto as possíveis interpretações. Ainda sobre o sentido do texto construído pelo leitor a partir do discurso dado, Bartolomeu Campos de Queirós afirma:
Ler é mover-se pela curiosidade, irmanar-se com o autor, guiado por uma destemida emoção. É construir junto com o autor uma terceira obra que jamais será escrita, mas gravada no silêncio. E o silêncio é o espaço das operações. A escrita literária não ignora os leitores. Ela sabe que é pelas experiências vividas, pelas dúvidas silenciosas, pelas fantasias escondidas que os leitores conversam com o texto. (QUEIRÓS, 2012a, p. 91).
Os enunciados não apenas contam, mas trazem sensações do tempo passado e visões de mundo de quem enuncia. E os sentidos de verdade vão sendo construídos também pelo enunciatário, que, segundo Greimas e Courtés, tem um papel importante na comunicação:
[…] O enunciatário não é apenas destinatário da comunicação, mas também sujeito produtor do discurso, por ser a “leitura” um ato de linguagem (ato de significar) da mesma maneira que a produção do discurso propriamente dito. O termo “sujeito da enunciação”, empregada frequentemente como sinônimo de enunciador, cobre de fato as duas posições actanciais de enunciador e de enunciatário. (GREIMAS; COURTÉS, 2016, p. 171).
Essa visão da importância do leitor na construção do sentido do texto é partilhada por Bartolomeu Campos de Queirós, quando afirma que “A leitura guarda espaço para o leitor imaginar sua própria humanidade e apropriar-se de sua fragilidade, com seus sonhos, seus devaneios e sua experiência. A leitura acorda no sujeito dizeres insuspeitados enquanto redimensiona seus anseios.” (QUEIRÓS, 2012a, p. 61). Assim, o enunciatário participa da construção do discurso enunciado, coadunando com o sentido.
Os sentidos dos discursos, vale ressaltar, circunscrevem-se a uma tridimensionalidade: a actancial, a espacial e a temporal. Já que estamos considerando o discurso memorialístico, consideramos os efeitos de sentido da temporalidade. Segundo a semiótica, “A temporalização consiste, como seu nome indica, em produzir o efeito de sentido ‘temporalidade’ e em transformar, assim, uma organização narrativa em história.” (GREIMAS; COURTÉS, 2016, p. 497). Poeticamente, Bartolomeu apresenta o entendimento de que toda narrativa, inclusive a da própria vida, está inserida nesses tempos, recorrendo à fantasia como forma de acesso ao não- presente: “Tomei ciência, por meio da leitura, que somos um verbo encarnado. E como o verbo, a vida se constrói em três tempos: passado, futuro e presente. Mas todo verbo exige um sujeito. E li ainda que não temos acesso ao futuro nem ao passado a não ser recorrendo à fantasia.” (QUEIRÓS, 2007, p. 58-59).
A fantasia, nesse sentido, está diretamente relacionada à memória, onde o sujeito encontra substâncias entre o vivido ou o sonhado para falar do tempo passado ou sugerir o que virá. “A memória e a espera estão, pois, incluídas num presente alargado.” (FIORIN, 2016b, p. 117). Sobre memória e fantasia, Bartolomeu afirma: “A vida é um fio, a memória é seu novelo. Enrolo – no novelo da memória - o vivido e o sonhado. Se desenrolo o novelo da memória, não sei se tudo foi real ou não passou de fantasia”. (QUEIRÓS, 2012a, p. 5).
Segundo Fiorin (2016b), “a narração implica a memória. Por conseguinte, quando contamos, o que sai de nossa memória não é a realidade mesma, que não é mais, mas palavras nascidas das imagens que formamos dessas realidades, que, atravessando nosso espírito, deixaram traços de sua passagem”. (FIORIN, 2016a, p. 117).
O recurso da memória é uma instância discursiva forte, nas obras de Bartolomeu Campos de Queirós. Por ela, o autor vai tecendo o seu fio narrativo, atravessando as infâncias dos leitores, elaborando emoções diante da vida em sobressalto. E nas relações interdiscursivas, realidade e fantasia se misturam, mas o leitor, pelo envolvimento na trama, já aceita tudo como válido.