Esta tese perseguiu o objetivo de analisar e fazer considerações sobre a graduação em psicologia e suas reestruturações curriculares recentes a partir da noção de governamentalidade, considerando o neoliberalismo como uma forma de governo instituído como contingência para pensar e realizar estas reestruturações. Através de uma contextualização sobre as reformulações na educação superior dentro e fora do Brasil, procurou dar ao leitor condições de visibilidade da conjuntura sobre a qual aconteceram estas reestruturações. Mesmo este campo específico das graduações em psicologia frente às diretrizes curriculares, tomado como contexto de pesquisa foi revisitado em seus acontecimentos.
A fundamentação teórica do trabalho que articulou-se a partir do conceito de governamentalidade em M. Foucault e alcançou a psicologia não somente pelo campo de investigação tratar-se dos cursos de graduação do psicólogo, mas pela forma como este conceito e este autor implicam a subjetividade e os modos de subjetivação no debate sobre como nos tornamos sujeitos neoliberais.
Com um diagrama inspirado no ALEPH de J.L. Borges, a metodologia convocou documentos e operadores transversais como constituintes de um ponto de acesso, um ponto de visibilidade, uma perspectiva sobre o universo das reestruturações. Ao finalizar a análise a partir deste ALEPH, foi possível apontar uma série de considerações sobre a presença de um governamentalidade de tipo neoliberal nos cursos reformados de graduação em psicologia. Também alguns efeitos para o cotidiano das formações, seus protagonistas e a relação com as práticas profissionais.
Dentre estas considerações analíticas, destacam-se os desafios transversais postos à graduação a partir da consideração da educação como um produto ou um serviço no mercado e o quanto a psicologia tem proximidade, distância, facilidades ou deficiências para responder a esta demanda. Mesmo que as reestruturações deflagradas pela crise do capitalismo em 1960 impliquem transformações que colocam em destaque o comportamento, características da
subjetividade, as relações e o capital humano, entre outros, foi possível problematizar porque não há garantias de um lugar esclarecido ou diferenciado para a psicologia nesta competitividade.
Outro destaque são as contribuições sobre as ressignificações à luz de uma racionalidade econômica de conceitos e princípios debatidos entre as diferentes psicologias presentes nos P.P.P.s. Conceitos e princípios que estiveram sempre presentes na afirmação pelo caráter político das práticas da psicologia e que assumem um deslocamento sutil, mas imenso, na direção de um governo neoliberal.
Pão é muito lembrar que estas considerações foram feitas sem o propósito de achar culpados pelas mazelas do mundo - e que geralmente não nos inclui. Esteve sempre presente a preocupação de conferir às estratégias, tecnologias e efeitos da forma de governo neoliberal, a condição de uma possibilidade de vida, uma verdade, um emergente. Com isso, é possível sustentar que na mesma intensidade e ao mesmo tempo da ação de uma força de assujeitamento pode afirmar-se a potência de uma força de ser outro.
Partindo desta concepção é que se faz possível uma última consideração de fechamento desta tese. Em todos os documentos convocados e lidos para este trabalho, não somente os escolhidos na composição do ALEPH; em outros conhecidos pelo autor ao longo de aproximadamente vinte anos de docência e cinco diferentes cursos de graduação e mesmo na vivência destas práticas de formação e como profissional, a presença da crítica como uma ação ou qualidade desejável ao psicólogo está presente. Pão por acaso fez parte deste trabalho a problematização de seu lugar nos P.P.P.s como uma ferramenta de mercado.
Em 1978, contemporaneamente ao curso Segurança, território e população, Foucault aproxima-se de Paul Veyne e a história da Antiguidade. Seu interesse pelos gregos e romanos provoca um deslocamento no pensamento sobre o projeto de uma História da Sexualidade (BRITTO, 2007). O autor continua a problematizar o tema do governo, mas a partir dos estudos que compõe suas últimas produções, o tema do governo que naquele momento era investigado como governo da vida, dobra-se em um governo de si.
É no âmbito geral do “governo” que se localiza, portanto, esta importante inflexão eu vai das abordagens sobre o “governo da vida” àquelas sobre o “governo de si” nos trabalhos de Foucault. Inflexão, pois com os escritos sobre a ética não se dá uma mudança de direção relativamente aos escritos anteriores. Trata-se, antes, de uma dobra no interior do tema do governo. (FOPSECA, 2008, p. 243)
Estes interesses e estudos na dimensão de uma ética e estética de uma subjetivação se materializam na publicação da História da Sexualidade II – o uso dos prazeres e História da
Sexualidade III – o cuidado de si e em e em cursos como Hermenêutica do sujeito e Discurso e verdade: problematização da Parrhesia (PORTOCARRERO, 2008).
Considerado em que medida se pode apreender um lugar de implicação entre o governo da vida e o governo de si, Fonseca (2008) propõe buscá-la na noção de crítica desenvolvida pelo autor. Chegamos então à conferência proferida por Foucault ainda em 1978 na Sociedade Francesa de Filosofia, com o título “Qu’est-ce que la Critique? [Critique et Aufklärung]”. Trata-se de uma leitura que Foucault faz do texto “Resposta à pergunta: o que é o esclarecimento.” de Emmanuel Kant que faz nascer uma nova dimensão ética na sua consideração sobre este autor e a modernidade ao mesmo tempo em que procura apresentar uma trajetória da definição do que é a crítica. (BRITTO, 2007)
Como uma conferência expressiva do movimento entre o governo da vida e governo de si, na busca por esta definição, o autor afirma que as preocupações sobre as artes de governar entendidas como governamentalidade, não podem ser dissociadas da questão: “como não ser governado?” (FOUCAULT, 1990, p.3). Mais especificamente, não se trata de opor à governamentalidade a posição de não ser governado absolutamente. Trata-se de afirmar que, nas preocupações com as formas de governar, existe a presença da questão que busca respostas sobre como não ser governado desta forma, por estes princípios, por tais procedimentos e regras, buscando estes objetivos. A isto o autor chama de atitude crítica. E à crítica propõe uma primeira definição enquanto uma caracterização geral: “a arte de não de tal forma governado” (idem, p. 4).
Assim, importa para este trabalho ressaltar que o caráter crítico presente nos princípios que sustentam a formação e a prática profissional da psicologia, já referido anteriormente, é um exemplo claro do quanto a busca por autonomia e qualidade política não depende da invenção de novos termos ou especialidades; de novas áreas ou diretrizes, mas está implicada na forma como significamos eticamente esta prática crítica que já é desejada.
Definir a crítica que está presente de forma contínua nos objetivos dos cursos de psicologia, nos perfis dos egressos, na competência dos profissionais como uma implicação entre o governo da vida e o governo de si, como uma desconfiança, uma suspeita sobre a governamentalidade e uma atitude em não ser de tal forma governado pode ser uma estratégia fundamental na invenção de outros modos de ser psicólogo.
Esta tese tem esta pretensão. De contribuir para este exercício crítico sobre a formação em psicologia, mais especialmente as graduações. Espera situar-se no que parece ser uma implicação entre a governamentalidade e a possibilidade de singularização. Implicar-se num entre a forma de governo neoliberal e outros modos de existência.
O filme que foi relatado no início destas considerações dividiu opiniões, como acontece freqüentemente com obras de arte que valem a pena e provocam afecções. Esta tese não tem a pretensão ou a potência de uma obra de arte, por isso, espera encontrar um leitor disponível à sua leitura. Mesmo assim, espera constituir-se como uma contribuição do campo acadêmico e científico para afirmar a ética da vida como uma obra de arte.
“O pensamento de Foucault situa-se nos limites da ética e da estética da vida através da hipótese da atitude crítica e da re-invenção do sujeito, de sua autotransformação para o governo de si e dos outros, pensamento que conduz suas análises para a possibilidade de novas formas de subjetivação e outras formas de estilização da vida. (PORTOCARRERO, 2008, p. 421)
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