IV– İNCELEME VE TARHİYAT SAFHASINDA BULUNAN İŞLEMLERE İLİŞKİN HÜKÜMLER 6736 sayılı Kanunun 4 üncü maddesinin;
B- PİŞMANLIKLA YA DA KENDİLİĞİNDEN YAPILAN BEYANLARA İLİŞKİN HÜKÜMLER 6736 sayılı Kanunun 4 üncü maddesinin dokuzuncu fıkrasının;
No início do século XX os historiadores do IHC fizeram um largo debate sobre o processo, e as temporalidades, da ocupação colonial dos sertões dos Cariris cearenses. Toda a controvérsia se processou a partir do estudo de João Brigido dos Santos, “Apontamentos para a História do Cariri”, de 1861, onde assegura que aquele espaço foi “descoberto e principiado a povoar por aventureiros bahianos partidos do Rio São Francisco de 1660 a 1680”304, em pleno contexto da guerra dos bárbaros. Afirmou, ainda, que teria existido um “negro, escravo da Casa da Torre, residente em uma fazenda de crear, na margem do São Francisco, pertencente então aquella Casa”305, foi aprisionado pelos índios Kariri quando este esteve numa expedição por aquelas terras. Foi esse escravo, diz o autor, que “ensinou aos portugueses o caminho do Cariri, e quem para aqui os conduziu por entre as hordas ferozes, as selvas impenetráveis, e os inumeráveis pântanos e ribeiros”306.
Sobre as frentes de conquista e povoamento, Brigido apontou três delas. Para efeito de reconhecimento, a primeira foi efetuada por aventureiros “que já tinham
303AHU. Documentos para o Ceará. Memorial de José de Barros Braga, aspirante ao posto de Capitão-Mor
da Província do Ceará. Caixa 03. Doc.196. 1739.
304 SANTOS, João Brígido dos. Apontamento para a História do Cariri. (Fac-símile a edição de 1861).
Fortaleza: Expressão Gráfica, 2007, p, 07. Sobre essa ocupação Cf: LIMA VERDE, Rosiane. Arqueologia Social Inclusiva: A Fundação Casa Grande e a Gestão do Patrimônio Cultural da Chapada do Araripe – Nova Olinda-Ceará-Brasil. (Tese). Coimbra: 2015.
305 Idem. Ibidem., 306 Id. Ibid.,
explorado os sertões do São Francisco”, que, “descendo pela margem do Salgado, esta primeira bandeira foi acampar no Icó, dominado então pela tribu Calabaça” da nação Kariri. Essa se encontrou com uma que vinha pelo rio do Peixe, que também chegava para reconhecer aqueles sertões. A segunda bandeira parece ter sido conduzida pela família Mendes Lobato, a qual veio “diretamente ao Icó e d’ahi remontando o Salgado, que bem assignava o caminho seguido pelos primeiros invasores, vieram ter á Cachoeira, junto ao brejo Missão Velha”. A terceira, finalmente, foi a que fez “João Corrêa Arnoud, enviado da Casa da Torre, de quem tinha recebido uma doação dos terrenos do Carité, Burity-Grande e Cachoeira”.307
Ao refutar muitas dessas informações, os caminhos e o escravo que direcionou os conquistadores ao Cariri, as críticas de Antonio Bezerra recaíram mais acentuadamente sobre os historiadores que reproduziram quase as mesmas informações que Brigido havia discutido em sua obra. Esses historiadores foram o Senador Pompeu, Pedro Theberge, José Pompeu de Albuquerque Cavalcante, Álvaro de Alencar e Tristão de Alencar Araripe. Apontando os erros na obra de cada um deles, foi enfático ao expor que o “que se escreveu sobre o Cariri não é digno de leitura”308. Em especial, Tristão de Alencar Araripe.
Do ponto de vista do ambiente natural, as nações Kariri que ali habitavam, estavam bem resguardadas do inimigo. Antonio Bezerra destaca que um dos primeiros obstáculos naturais a impedirem os colonos de chegarem aos Cariri antes do século XVIII, por outra via que não a do Jaguaribe, era transpor a chapada do Araripe. Segundo ele,
Na serra Araripe não são menos íngremes as subidas pois que a natureza da rocha e a disposição da montanha é a mesma. Do Crato para Santa Ana do Cariri, e dali para o Crato; da Barbalha para o Jardim pela ladeira de San Joaquim, e do Jardim para a Barbalha pelas ladeiras da Boca da Mata, e pela do Gravatá para o Calda; e ainda da Barbalha pela ladeira do Silverio para Porteiras, para Jardim pela ladeira do Vieira, e sobre todas a do Crato para o Exú, a mais dificil, são horrorosas as travessias, visto como as altitudes são as mesmas 800 a 1000 metros acima do nível do mar, razões que nos levam a não admitir a passagem do explorador Domingos Afonso Mafrense, por aquella serrania.309
Outro obstáculo teria sido a resistência dos índios Kariri, pois “emboscaram- se na serra do Araripe e dela só foram desalojados depois de inúmeras caçadas, o que deveria ter custado bastante”310. Esses obstáculos, somados à ausência de sesmaria
307 Id. Ibid., p. 17-18.
308 BEZERRA, Antonio. Op. Cit., 309Idem. Ibidem., p. 92.
requeridas para o Cariri antes do século XVIII, não significando necessariamente colonos adventícios, persuadia o autor a defender que a única e possível via de conquista e colonização do Cariri era pelo Jaguaribe, pois, por ali seria, de acordo com Bezerra,
o único ponto por onde poderiam exploradores das capitanias vizinhas penetrar no Ceará por esse lado, pois que por outro lugar acima ou abaixo encontrariam o empecilho das serras do Pajeú, do Cachorro –Morto, das balanças ao sul de Umari, e serra do Padre Miguel, fronteiras desse Estado. Para o Ceará, nesse tempo só se conheciam três entradas, pelo Jaguaribe, pelo riacho do Figueiredo, no município do Limoeiro, e pelo rio do Peixe a sair em Umari, no município de Lavras.311
Fazendo o suposto traçado do bandeirante paulista Domingos Jorge Velho pelos sertões de Piranhas e Piancó, assim escreveu:
Pelo Piancó, afluente à direita do Piranhas, tornou a este, e pelo caminho descrito pelo mesmo capitão mor (Domingos Jorge Velho),de terras ásperas e largas travessias sem água, é provável que subisse às nascentes do Patú, afluente à esquerda do referido Piranhas, se internasse as serras ásperas que formam essa região, vindo sair nas serras do riacho Umari, afluente à direita do Apodi; e contornando a serra do Porto-Alegre, transpôs o mesmo Apodi, e encontrou fácil acesso na serra desse nome, passando nos lugares hoje conhecidos por Passagem-Franca, riacho San Pedro, desceu pelo riacho Figueiredo até o Rio Jaguaribe e pelo curso deste abaixo até povoações. Por ali segue a estrada que vai do Ceará para Mossoró, Rio Grande, Paraíba e Pernambuco sem notável elevação. Não sendo por essa passagem, só poderia ter entrado na capitania do Ceará pelo rio do Peixe, vindo sair à povoação do Umari, no município de Lavras, e descendo pelo riacho Pendência, chegaria ao Salgado, afluente do Jaguaribe a direita; mas por ai teria encontrado muita água, pois este rio era permanente até 1816, diz Dr. Marcos Macêdo no seu precioso livro. Acho cedo demais o caminho por ali antes de 1703, quando muito devagar se começou a povoar as terras de Missão Velha e Crato.312 Ainda segundo o autor:
A excepção, pois, das sesmarias concedidas de 1678 a 1699 nos rios Juá, Ceará, Cocó, Pacoti, Choró, Pirangí, Jaguaribe, Banabuiú, e grande parte do território do Rio-grande, que foram dadas pela capitania do Ceará, estas em número de 49, que tive o trabalho de verificar entre 816 que possuo relativamente á parte do sul do Estado, todas as mais foram concedidas nos rios e seus afluentes desta capitania de 1700 em diante. Ora, por aqui se pôde avaliar que onde o colono não tinha o senhorio da terra, não havia imobilidade dos bens e por conseguinte apego ao solo. Não era até então conhecido o interior; e, como já disse começou-se a povoar o Ceará da vizinhança da fortaleza; assim do forte passou ao Aquiras, depois ao Cascavel, depois ao Pirangí, depois ao baixo Jaguaibe, e daí pelo rio acima ao vale do Cariri.313
Dentro de um contexto em que os documentos encerravam a verdade dos fatos, Bezerra compreendeu que a colonização só se configurava com o oficial registro da posse de sesmaria. Mesmo que o território já estivesse povoado, ao que parece, em sua concepção não significava conquista e colonização. Dessa forma, dentre as sesmarias que
311 Ibid., p.93. 312 Ibid., p. 53-54. 313 Ibid., p. 36-37.
Antonio Bezerra consultou, para alegar que a conquista e colonização do Cariri só poderia ter ocorrido pelo Jaguaribe, uma, em especial, foi a que Paulo Coelho de Souza e seus companheiros pediram, em novembro de 1682. A extensão dessas sesmarias ia do sertão do Açu às fronteiras do rio Salgado. Observemos:
Registo de data de Sesmaria de Paulo Coelho de Souza e os mais seus companheiros. Diz Paulo Coelho de Souza Jozeph Coelho de Souza Dona Catharina da Fonseca Dona Phelipa da Fonseca Dona Sebastiana da Fonseca todos moradores na capitania de Pernambuco e na da Paraíba que elles tem descoberto huma sorte de terra pera meterem seus gados; vacuns ebestas cavalares efeito sem dispêndio neste sertão de Asiu donde confronta pello Rio Salgado asima começando dacosta do mar confrontando com o sertão donde esta hua Serra chamda Cabigi edahi pera diante athe serem inteirada na sesmaria que pedem aVm. como verdeiro sesmeiro três legoas de terra em coadra acada hum em nome de S.Alteza qe. Deos gde. Fazendo pião do dito rio Salgado tanto de huma banda como deoutra que vem a ser legoa e meya por banda [...].314
Se realmente essas sesmarias foram devidamente ocupadas e se a produção prosperou consideravelmente, sobretudo pelas ribeiras do Jaguaribe, é possível que em poucos anos os vaqueiros desses sesmeiros tenham alcançado os sertões dos Cariris, não no século XVIII, como defendeu Bezerra, mas ainda no século XVII.
Joaquim Alves, outro estudioso do assunto, consegue perceber uma grande mobilidade de indivíduos se deslocando nas fronteiras entre as capitanias da Paraíba, Pernambuco, Bahia e Sul da do Ceará. Tal movimento se processou não apenas diante das inúmeras possibilidades de sobrevivência que os conquistadores passaram a vislumbrar, mas também dos índios Kariri que resistiam e também se deslocavam.
Rodeada como se encontravam, naqueles tempos, por uma população movediça, de bandeirantes que procuravam terras para instalação dos seus currais, só pode admitir que as ricas terras do Vale do Cariri não tivessem sido visitadas pois, encontrando-se do outro lado da serra, Exú, os viajantes tiveram conhecimentos preciosos dos indígenas habitantes da região. Os homens d’armas do Coronel Araújo de Carvalho que vieram das margens do São Francisco e estacionaram nos campos do Pajeú, continuando viagem até Piancó, receberam em virtude da própria missão que desempenavam, informações sobre as terras de Mauriti, distante 30 quilometros das de Piancó, bem assim das de Milagres e Brejo Santo. Afirmamos que o Vale do Cariri foi visitado nas ultimas décadas do século XVII, por homens de Pernambuco e Baia, não só em virtude do que fica exposto, como igualmente, das datas de sesmaria queridas.315
Foi para reforçar essa discussão e contestar os argumentos de Antonio Bezerra, que o Padre Antonio Gomes de Araújo, historiador caririense, realizou um minucioso estudo e defendeu a tese de que os baianos, provenientes do São Francisco,
314 APEC. Data de Sesmaria de Paulo Coelho de Souza e outros. Vol. 01. Nº 30. Novembro de 1682, p.71-
72.
315 ALVES, Joaquim. O Vale do Cariri. In: Revista do Instituto do Ceará. Tomo LIX. 1945, p. 94-133.
foram pioneiros na conquista e colonização do Cariri. Irineu Pinheiro, outro estudioso do tema, em carta ao referido Padre, aceitou também essa ideia.
Crato,4 de junho de 1950 Pe. Antonio Gomes.
Recebi hoje, a tese que o senhor apresentou ao “Primeiro Congresso de História da Bahia” e que, com muita justiça, foi aprovada. Reitero, aqui já lhe disse verbalmente: sua tese é trabalho valioso para a História do Ceará, especialmente para o Cariri, tanto mais valioso quanto se fundamenta, em boa parte, em dados colhidos, em primeira mão, no arquivo da Cúria do Crato. Em sua tese afirmou que o povoamento regular do Cariri, começou em 1703. Bem empregado o adjetivo regular. Realmente é muito possível, senão certo, que antes de 1703 “data tabu”, em sua expressão, outros tenham atingidos. Sua argumentação é convincente.316
A tese de Padre Gomes, apresentada no congresso, em 1949, resultou no livro “Povoamento do Cariri”, publicado em 1973. Com o objetivo de tentar solucionar os problemas levantados por Antonio Bezerra, e pouco discutidos pelos historiadores cearenses na época, Padre Gomes passou a fazer um meticuloso levantamento de documentos, especialmente nos livros de registros de batizados e de casamentos da Freguesia de Missão Velha, e outros existentes nos arquivos baianos. Através desse levantamento, recolheu
mais de 400 nomes duma área correspondente aos territórios dos modernos municipios de Crato, Barbalha, Milagres, Brejo Santo e Juazeiro do Norte, área que registou 78 batizados de 1742 a 1747 o que representa u’a média de 1800 a 2000 habitantes, tomando-se por critério a proporção racional de cem nascimentos anuais para um grupo de 2000 habitantes. Se considerarmos esses dados e mais o fato de a população apresentar-se muito mais rarefeita nas décadas anteriores à de 1740, concluímos não ter sido somente a cota de baianos integradas na formação do Cariri, exclusão feita das áreas atuais dos municípios de Quixará, Araripe e Campos Sales, deu 600 batizados, de 1748 a 1763.317
Esses caminhos foram responsáveis pelo estabelecimento de povoados onde hoje estão localizadas as cidades de Baixio, Ipaumirim e Umari, ambas no baixo vale do rio Salgado. Outras vias vinham da Capitania de Pernambuco. Sobre elas, é Pompeu Sobrinho quem melhor nos informa:
Algumas destas estradas do meio dia teriam passado por Vila Bela que fica à margem do rio Pajeú, por cujo vale subiam os agenciadores e perseguidores de indio do São Francisco. Partindo desta antiga fazenda, um caminho ia a Belmonte, e pelo vale do rio S. Cristóvão alcançava uma garganta na extrema do Ceará, cuja altitude se conhece atualmente: 550 metros. Dali chegava ao riacho dos Porcos (Macapá, hoje Jati). Do Pajeú, os desbravadores dirigiam-se para a bacia do Piranha, ao norte, no alto sertão da Paraíba. Entre 1690/95 já ali havia estado Domingos Jorge Velho, estabelecido no Piancó, com um
316 Carta de Irineu Pinheiro ao Padre Antonio Gomes de Araújo, em 4, de julho de 1950. In: ARAÚJO,
Padre Antonio Gomes de. A Cidade de Frei Carlos. Crato: Faculdade de Filosofia do Crato. 1971, p.35.
317Idem., Povoamento do Cariri. Crato: Faculdade de Filosofia do crato. Coleção Estudos e Pesquisas.
considerável terço de homens de armas, provavelmente vindo do Piauí, volteando, ao que parece, pelo São Francisco.318
Vila Bela é hoje a cidade de Serra Talhada em Pernambuco, na época colonial foi bastante importante, pois ficava no entroncamento dos caminhos que facilitavam o trânsito de mercadorias para as capitanias de Paraíba e Ceará. Existiam, embora não muito frequentadas, outras vias de possível penetração para aqueles sertões; a saber, por
Um dos vales secundários do São 'Francisco, por onde também os bandeirantes subiam para o norte, é o do riacho Terra-Nova, em cujas cabeceiras está o velho lugar Salgueiro. Por ali passava uma antiga estrada para o Podimirim (trecho meridional do Riacho dos Porcos). Galgava a fronteira cearense, numa garganta com altitude de 480 metros e dirigia-se pelo pequeno vale do riacho Oitis para Macapá, e daí, subindo o riacho dos Porcos, alcançava a serra do Araripe. Todos êstes caminhos concorreram para o povoamento e secundário do Cariri, no comêço do século XVIII.319
O mapa 6 a seguir ilustra um pouco esses caminhos que entrecortavam os sertões na época colonial.
318 POMPEU SOBRINHO, Thomaz. Povoamento do Cariri. Op. Cit., 319 Idem. Ibidem.,
Mapa 6. Principais rotas e povoamentos para os sertões dos Cariris Novos em fins do século XVII e inicio do XVIII. (Mapa elaborado pelo autor).
Como se observa, havia várias vertentes possíveis de penetração colonial para os sertões dos Cariris e Icós. Outra possibilidade, era a de que os conquistadores tenham vindo pelo Norte, sobretudo, quando Domingos Afonso Manfrense passou a conquistar os sertões onde hoje é o Piauí. Dali, provavelmente, percorreram algumas trilhas, mais tarde transformadas na estrada Oeiras-Vila Real de Crato. Além dessa vertente, o rio Brígida, no sertão da capitania de Pernambuco, constitui-se numa outra possibilidade. Pois “Exu, município nos baixos pernambucanos da Serra do Araripe, ocupado no século XVIII pelos colonizadores, ligava-se ao Cabrobó por uma estrada que margina o lado esquerdo do riacho da Brígida através das fazendas ‘Terra Nova’”.320
O certo é que, toda, se não quase toda porção territorial ao sul da Capitania do Ceará (hoje região do Cariri) teve seu povoamento colonial facilitado pelos velhos caminhos dos sertões baianos, de dentro, especialmente pelo do Médio São Francisco, dentre eles Rodela e Cabrobó. Por ali milhares de colonos, seguindo as pegadas deixadas pelos indígenas, subiram os afluentes do São Francisco, sobretudo o Pajeú, chegando no Alto Sertão da capitania da Paraíba (Piancó e Piranhas) e, precipitando-se para as ribeiras do rio Piranhas, alcançaram o curso médio do rio Salgado em Lavras da Mangabeira. Dali, bifurcaram-se subindo para a Serra do Araripe até as fronteiras da capitania do Piauí, já visto em capítulo anterior. Outros chegaram pelas ribeiras do Jaguaribe, nas esteiras da guerra contra os Tapuias. É o caso da família Mendes Lobato, proprietária de várias Sesmarias nos Cariris, procedente do Médio São Francisco, de onde saíram em meados do século XVII os Xocó, estabelecidos no sertão de Rodelas e depois no de Piancó/Piranhas. Ao que tudo indica, essa família seguiu, posteriormente, os mesmos caminhos feitos por esses Tapuias.
Mapa 7. Caminhos formados a partir da Guerra dos Bárbaros
Fonte: Sobreposições de bases em CAD da divisão administrativa dos Estados e da hidrografia do Brasil, PROVÍNCIA DA PARAYBA. In: MORAES, Maria Simone. Formação da Rede Urbana do sertão de Piranha e Piancó, da Capitania da Paraíba Setecentista. (Dissertação). João Pessoa: UFPB, 2012.
As informações mais contundentes de que os colonos tenham chegado nos sertões dos Cariri, nos finais do século XVII, podem ser conferidas nas petições e doações de datas de sesmaria, pois, na escrita de muitas delas de que haviam sido pedidas há mais de dez anos, aproximadamente em 1688, e não haviam sido ocupadas pelos colonos, sendo novamente requeridas por outros sesmeiros. A título de exemplo, temos essa datada de trinta de janeiro de 1704.
[...] Senhor; consta dos livros dos rezistos que em meu poder estão serem dadas as terras q. os suplicantes pedem avarias pessoas a dezasseis anos poco mais ou menos as quais nunca delas tomarão posse nem menos a povoarão com q. estão dessertas edesaproveitadas sem rendimento nenhum a Real Coroa, histo he o q. poso informar Vm. Mandarã o q. for servido Fortaleza trina de janeiro de mil setesentos e quatro [...].321
Embora essas vertentes tenham sido importantes na formação e consolidação dos principais núcleos de povoamento naqueles sertões, a estrada Geral do Jaguaribe ou caminhos do gado, foi, a partir do século XVIII, a que mais concorreu para esse adensamento. Com uma considerável floresta (Araripe), onde nascia os rios dos Porcos, Salgado, Cariús, Rosário, dentre outros de menor porte; em pouco tempo, muitos colonos
321 APEC. Data de Sesmaria de Maria da Assunção Pacheco e Sebastião Pacheco Pereira. Vol. 02. Nº 84.
foram requerendo ali muito mais sesmarias, que, para além da criação de gado, foram utilizadas, mais tarde, em áreas de brejos, como os do Salamanca, Bateiras e Miranda, para plantação da cana de açúcar – cuja produção a partir da segunda metade do século XVIII alavancou a economia daqueles sertões e atraiu cada vez mais um maior número de pessoas.322
Para contradizer Antonio Bezerra, Padre Gomes, mediante registros de batismo e de casamentos, identificou e elencou que, muitos filhos batizados nos sertões dos Cariris e Icós, e também os que contraíram matrimônios, eram, em sua maioria, oriundos de várias localidades dos sertões baianos, especialmente dos povoados de Jeremoabo, Cachoeira, Itapecuru, Inhambupe, Jacobina”323. Com isso, atestou que antes do século XVIII, os baianos já estavam fixados no Sul da Capitania do Ceará. A tabela (01) apresenta exemplos de indivíduos que vieram desses povoados.
Tabela I. Procedência dos indivíduos que contraíram matrimônio no Cariri-século XVIII
Ano Cônjuge Procedência do
cônjuge 1748-1764 Antonio Rodrigues Vieira e Rosa Benta Ele: Jeremoabo
Ela: vila de Moxa- PI
Ana Maria Vieira e Caetano Vieira Ele: Pernambuco Ela: Cariri
Ana(índia) batizada Curral do Bois
Antonio da Costa e Domingas de Almeida Ele: Itapecuru Ela: Cariri
Antonio Tavares e Maria Rodrigues Ele: Missão do Miranda
Ela: Missão do Miranda
Antonio de Barros e Teodosia Lopes de Jesus Ele: Pacé