As investigações da Psicologia Social no campo da ES privilegiam o processo de construção de formas alternativas de organização. De acordo com Sato (1999), o ponto de partida das pesquisas orientadas para este objetivo é a própria concepção de organização. Deve-se privilegiar a interação entre pessoas, a costura das regras e processos de trabalho, ao invés do objeto informado como totalidade composta de partes.
Sato (1999) fundamenta explicitamente seu intento teórico a partir de duas concepções formuladas por Peter Spink (1991; 1996): (1) a noção de organização como um “baú dentro do qual comportamentos podem ser observados” (SPINK, 2001), próxima da visão gerencialista, de “uma coisa dentro da qual se pode mexer” (Sato, 1999); (2) a concepção de organização como “processo social, incluindo aí a sua dimensão simbólica” (SATO, 1999), derivada da Antropologia.
De acordo com Spink (1996), o termo “organização” designa uma noção com fundamento num conjunto de processos de ordenação estampados, por exemplo, nas práticas
administrativas; mas, a idéia de que esses processos sejam a própria organização tende a ser apagada. A tendência é tornar a “organização” um objeto separado, com existência concreta: uma coisa – a natureza fluída e imprecisa dá lugar à coisa. Este procedimento tem como conseqüência o abandono crescente de uma visão processual, o que impede a percepção de que a organização é mais um agregado de partes (ações e processos) do que um todo em que as partes estejam contidas. Esta concepção tem apoio em teorias com interesses cognitivos específicos:
A conceituação de organização como um todo concreto é um processo complexo que satisfaz tanto os proponentes da teoria da força motriz da sociedade avançada quanto aqueles que precisam de um bode expiatório a ser apresentado como a causa dos problemas dessa mesma sociedade. Para ambos, e para seus pesquisadores de apoio, o todo da organização é indispensável e a parte é obviamente subordinada ao todo. Mesmo quando não explicitado, os mesmos princípios podem ser detectados nas entrelinhas da maioria dos trabalhos publicados sobre questões organizacionais. (SPINK, 1991).
É a partir de uma crítica das ciências sociais aplicadas, sobretudo da Psicologia Social, que o autor questiona a concepção de organização, argumentando que ela é correlata à expansão de um campo de estudos aplicados – dedicados aos “níveis de meso-análise da sociedade” (SPINK, 1996) – que necessita de um objeto para se legitimar. Assim, o conceito estaria atrelado a uma noção de poder, que caracteriza a formação de um campo cientifico específico, e encontra respaldo em outros grupos, interessados no controle promovido pela centralização do poder e subordinação da parte ao todo, pressupostos na idéia de organização como totalidade:
Organizações são “algo” e este “algo” tem partes; dado que o “algo” é maior do que a parte, o “algo” é mais importante. O comportamento, que é visto como uma parte, acontece dentro deste “algo”, ou organização-todo. A estrutura do todo, da organização formalmente constituída, é diferente das ações do dia-a-dia; do mundo informal e mundano da parte. Segue, portanto, que o primeiro é “obviamente” a base do poder e o segundo da subserviência. (SPINK, 1996).
Em contraposição, aparece o fundamento antropológico numa noção de ”organização” em que o termo ganha sentido genérico, referindo-se “aos processos sociais em agregações humanas, suas religiões, ritos, estrutura familiar e modo de vida” (SPINK, 1996). A atribuição de um conteúdo simbólico a estes processos não acarreta a perda do sentido processual. Não há
reificação nesse caso. A ênfase nos processos e na ação resulta uma visão da vida organizacional em que o dia-a-dia se torna protagonista; a estrutura fica subordinada logicamente à cotidianidade das ações e práticas. O dia-a-dia do trabalho, inserido numa configuração sócio-técnica (espaço físico, maquinaria, tarefas, horários, pressupostos de controle e práticas de interação), pode ser entendido então como um espaço de negociação, a organização é vista como tributária de uma ordem negociada, não necessariamente homogênea, entre os distintos cotidianos “das divisões, setores, departamentos, áreas, etc. (SPINK, 1996). O todo é, assim, associado a um resíduo:
As “organizações” enquanto coisas reificadas como “algo” nada mais são do que a sombra projetada pelo cotidiano em movimento ou as pegadas deixadas pela passagem da ação enquanto atividade humana. A sombra inibe a entrar e a pegada convida a seguir, porém ambas são as conseqüências da ação e não sua origem. (SPINK, 1996).
De um lado, enfatiza-se o sentido de algo que se tornou um objeto, a organização entendida como um continente de conteúdos – comportamentos, processos, práticas, etc.. Nesse caso, o processo de construção da organização é equivalente à construção de uma coisa, “uma determinada forma que almejamos alcançar” (SATO, 1999). De outro lado, não há propriamente uma forma, mas interação de pessoas “para definir objetivos e construir os meios de atingi-los”, criar regras, rotinas e procedimentos. Desta perspectiva, a organização é, por assim dizer, agida e praticada pelas pessoas, num contexto em que duas ordens de realidade se oferecem: a primeira é a história de vida, expectativas, visões de mundo e necessidades materiais particulares pessoais de cada um; a segunda é conformada pelos recursos disponíveis, “tecnologia que se domina, realidade de mercado e racionalidade econômica que vigoram como parâmetros para as relações na sociedade” (SATO, 1999).
Há vantagens em se abordar a organização pelo flanco dos processos sociais. A primeira é o questionamento da harmonia e da ordem como estados normais, pois se a organização é interação todo o tempo, “as mudanças, as situações problemáticas, as soluções, que no momento seguinte transformam-se em problemas, serão o normal e não uma ‘dis-função’” (SATO, 1999). A segunda é a compreensão de que não existe “one best way”, porque a organização é o que as pessoas fazem. A terceira é a possibilidade de antever que os processos são movidos por pessoas e, portanto, há uma ampla variedade de interesses em jogo:
[...] por serem processos movidos por pessoas, grande diversidade de interesses estará presente. São interesses subjetivos, sociais, econômicos e políticos. Chamo de interesse aquilo que importa às pessoas. E esses interesses conformam os objetivos e informam a direção e o sentido das práticas. (SATO, 1999).
O núcleo duro da proposição de Sato (1999) inspira-se na idéia original de Spink (1991; 1996) de processos sociais produzindo-se no lugar daquilo que se costuma chamar ‘organização’. Dessa perspectiva, ‘organização’ é uma referência ao que não existe senão enquanto construção, a organização é algo sempre se fazendo. Daí o conflito, a contradição e a confrontação serem vistos como normais, tanto quanto a cooperação e o acordo. A contradição aparece como motor da organização, vista a um só tempo como agrupamento e dispersão. A oscilação entre confrontação e cooperação é nuclear à dinâmica das interações: “[...] pessoas que se dispõem a partilhar de uma construção comunitária enfrentam-se e podem impedir que o projeto siga em frente” (SATO,1999).
As organizações cooperativas são entendidas, então, como processos sociais:
O processo de construção de organizações cooperativas são processos de interação que envolvem dimensões de natureza simbólica e material, de ordem política, econômica e psicossocial, onde a técnica é muito importante, mas insuficiente. (SATO, 1999).
Esta maneira de compreender os empreendimentos cooperativos suplementa as abordagens até aqui apresentadas com um ingrediente fundamental: a subjetividade humana. É a visão de uma permanente negociação em que a argumentação se coloca como instrumento privilegiado de coordenação, e a atividade dialógico-discursiva é posta no centro do processo organizativo. Observe-se que há privilégio do elemento cognitivo da subjetividade, porque a dinâmica de interações opera principalmente como negociação de significados, vistos como condutores das motivações e ações na organização:
[...] as negociações terão como objeto não apenas as coisas, mas envolverão, sobretudo, negociações de significados que conduzam à escolha dos objetivos... das motivações que os sustentam, dos meios a serem eleitos e construídos... num contexto conformado por uma série de parâmetros de ordem social, política e econômica no qual essas cooperativas populares se inserirão. (SATO, 1999).
Assim, coloca-se a linguagem no centro da cena. Diferentes falantes com diferentes competências lingüísticas amplificam a assimetria do poder na organização. Sato (1999) chama a atenção para a interação entre os militantes da ES e os sujeitos do processo social, na construção das organizações cooperativas. O exemplo de uma comunidade de bairro que interage com uma ONG ilustra bem a questão:
Os líderes da Associação de Amigos de Bairro pediam ajuda a uma ONG no sentido de organizá-los com vistas a conquistar melhoria de condições de vida. Com esse pedido, a verbalização trazia a informação de que as pessoas da comunidade eram incompetentes para isso. (SATO, 1999).
Uma festa de natal organizada por esta mesma comunidade comprovou, entretanto, a real capacidade organizativa do grupo. Num processo cooperativo e ágil “conseguiram oferecer comida e presentes para as crianças, a partir de doações de comerciantes e do trabalho coletivo dos membros da comunidade... e apoio da PM para prover a segurança do lugar” (SATO, 1999). Os conhecimentos aí envolvidos não são poucos, por isso a verbalização diante da ONG expressou uma “visão dos líderes sobre si mesmos e sobre a comunidade” que a prática evidenciou ser equivocada:
A atividade cooperativa aconteceu apesar das diferenças e das divergências existentes... O problema não são essas diferenças, mas sim a comunidade perceber que têm competência e capacidade organizativa que podem ser postas em prática onde as diferenças não impedem um projeto comum. (SATO, 1999).
Eis a centralidade da dimensão cognitiva. Não se trata unicamente de um problema de auto- percepção dos sujeitos, o que está em jogo é a capacidade de traduzir a competência organizativa de um projeto para outro. As interações poderão ser convertidas em habilidades e consubstanciadas em processos organizativos diversos, a depender de uma habilidade central: a capacidade cognitiva de transitar entre diferentes processos sociais.
Uma imagem que nos ajuda a vislumbrar a organização como processo de interação é a de que, apesar de as pessoas estarem juntas, cada uma cria e vê um filme diferente, ainda que sob o mesmo título. E ao se pensar na organização de cooperativas populares, a pergunta que se tem é a seguinte: ‘como criar um roteiro comum a partir de filmes diferentes?’ (SATO, 1999).
Esteves (2007) 7 adota esta abordagem para analisar uma empresa assumida por trabalhadores, convertida em cooperativa autogestionária. A descrição do pesquisador revela a proximidade com a abordagem acima descrita:
A situação em que se desenrola o processo social cotidiano da cooperativa é conformada pelas características do grupo social que vive a situação e pelas circunstancias do ambiente em que a situação ocorre. Para atuar nesse ambiente e conseguir realizar seus objetivos, o grupo conta com uma determinada base técnica e com um repertório cognitivo (constituído pelos conhecimentos e praticas dos participantes). (ESTEVES, 2007, 158).
A ênfase da análise é dada no cotidiano do empreendimento, a forma de contornar as restrições e contingências, a “astúcia de criar alternativas” nas circunstâncias que se apresentam. Esteves (2007) trabalha o conceito de “ratio popular” – “uma maneira de pensar investida numa maneira de agir, uma maneira de combinar indissociável de uma maneira de utilizar” (DE CERTEAU apud ESTEVES, 2007, p.160) – explicando que os significados são criados em meio às circunstâncias. Explica assim as razões que levaram as pessoas a insistirem no projeto de uma cooperativa, enfrentando uma série de entraves econômicos e legais que marcaram a passagem da empresa falida à cooperativa. O processo de construção da organização demandou tenacidade cognitiva dos sujeitos, e isto se configurou devido à “partilha entre os participantes de um método de produção de significados” (ESTEVES, 2007, p. 160).
A confluência de significados é apresentada como resultante de negociações de interesses, divergentes e convergentes, que levaram a um acordo coletivo. A palavra “entendimento”, em referência aos acordos, era o termo utilizado pelos próprios sujeitos pesquisados quando se descreviam negociações e acordos entre eles.
A palavra ‘entendimento’ pode possuir simultaneamente caráter social e cognitivo, o que a torna excepcionalmente adequada à compreensão do método pelo qual os cooperados produzem... novas compreensões e novos acordos. (ESTEVES, 2007, 163).
7
A negociação de interesses no cotidiano do empreendimento é indissociável da negociação de entendimentos a respeito dos vários aspectos atinentes ao seu funcionamento. Este trabalho da ratio popular foi decifrado pelo pesquisador, que formulou a hipótese da existência de eixos cognitivos nos processos sociais em curso, que funcionam como “âncoras cognitivas” (TENBRUNSEL et al., 2004) dos entendimentos e práticas cotidianas. Esteves (2007) propõe a definição fraca de “regras” para as âncoras cognitivas, mas com isso deixa escapar o caráter estruturante que eles aportam às interações sociais constitutivas do empreendimento. Seria mais adequado pensar em meta-regras práticas operativas dos processos sociais de construção dos empreendimentos, uma vez que estamos diante de indutores tácitos de regras e práticas cotidianas.
A primeira âncora cognitiva é “Todos são iguais”, cujo suporte formal está no mecanismo de decisão próprio da estrutura legal cooperativa, que é determinado pela máxima: ‘uma cabeça, um voto’. Esta “regra” é utilizada para garantir a simetria de poder. Permite a livre circulação e a liberdade de fala, fornece a segurança necessária para se exigir transparência da direção e cobrar atitudes mutuamente. A igualdade é que possibilita uma combinação entre conflito e democracia (ESTEVES, 2007). A segunda âncora cognitiva é “Todos são responsáveis”, que tem suporte formal na responsabilidade legal, compartilhada por todos os cooperados, pelos bons e maus resultados da cooperativa. A “regra” é utilizada na cobrança de atitudes e comprometimento mútuo, manifesta-se como uma preocupação cotidiana com as condições do empreendimento. A responsabilidade obriga o cooperado a controlar seu próprio trabalho, e o municia de autoridade para controlar o trabalho de todos (ESTEVES, 2007). A terceira âncora cognitiva é “Todos estão no mesmo barco”, seu suporte formal é a própria sociedade cooperativa, enquanto entidade legal que congrega os cooperados. A “regra” é utilizada para manter coesão e unidade do grupo. Entendida como adesão ao projeto, o significado é de um destino comum, com riscos e benefícios compartilhados. A regra define uma sociedade de pessoas, uma vez que ninguém pode ser expulso à revelia e sem motivo grave, fica subentendido que são estas as pessoas com que se deve contar para realizar o quer que seja.
A seguir vêm as “características psicossociais dos cooperados” (ESTEVES, 2007), que traduzem o comportamento observado pelo pesquisador e os relaciona a cada uma das “regras”. Tais características aparecem como modos de subjetivação das “regras”, que se deixam observar ao ensejar elementos performativos presentes no processo de compartilhamento dos entendimentos com o grupo. A cada regra se associa uma característica
psicossocial geradora de uma disposição interior (subjetiva) e uma intenção para a ação (elemento performativo) dos cooperados.
A primeira característica psicossocial é “Os cooperados se preocupam com a cooperativa” associada à regra “Todos são iguais”. Seu elemento performativo é manter a cooperativa na mente dos cooperados, fazê-los “ocupados e pré-ocupados com ela” (ESTEVES, 2007, p.166). O que significa pensar na situação econômica, no futuro e no grupo, nos conflitos de interesse presentes e em negociação, nos assuntos do momento, na atuação da administração, dos vendedores, etc. É uma disposição subjetiva que garante o investimento pessoal no empreendimento. A segunda característica psicossocial é “Os cooperados controlam a cooperativa”, associada à regra “Todos são responsáveis”. Seu elemento performativo é garantir o controle da cooperativa por parte dos cooperados; o controle visual, atenção e vigilância sobre o que acontece, a exigência de esclarecimento quando julgarem necessário. Atenção e controle mantêm um clima social tenso no cotidiano da cooperativa. A terceira característica psicossocial é “Os cooperados se sentem membros da cooperativa”, associada à regra “Todos estão no mesmo barco”. Seu elemento performativo é um “sentimento próprio da condição de pertencimento a um coletivo” (ESTEVES, 2007, p. 167). Os cooperados vivenciam sua situação como associados, e não donos do empreendimento, como alguém que zela pelo lhe foi e é caro. Justifica-se por esta condição a preocupação que sentem, e o controle que exercem sobre a cooperativa aparece novamente, agora no registro do pertencimento.
Finalmente, define-se a “condição simbólica” dos cooperados; entendida como uma construção resultante das singularidades da vivência dos sujeitos na cooperativa. Isto quer dizer que não há prescrição possível nesse caso, mas apenas uma descrição limitada e condicionada pelo contexto da pesquisa:
Esta pesquisa evidencia e nomeia uma das condições simbólicas dos cooperados. É uma condição necessária (quiçá entre outras) para que um trabalhador seja cooperado pleno, capaz de viver o cotidiano da cooperativa e nele negociar seus interesses pessoais e coletivos [...] a alternância de posições. (ESTEVES, 2007, p. 167).
Três posições são definidas para explicar a dinâmica dos processos sociais da cooperativa pesquisada. A primeira é a posição de defesa da cooperativa, definida pelos interesses dos
sócios do empreendimento, incorporada nos papéis de direção e coordenação, e desempenhada pelos seus ocupantes. A segunda posição é a do cooperado, definida pelos interesses dos trabalhadores cooperativados, desempenhada por eles no cotidiano, e também nos eventos em que sua participação é solicitada – reuniões e assembléias. Há, ainda, a terceira posição de pessoa, estampada nos interesses pessoais dos cooperados, à vida fora do empreendimento. Esta posição fica “encoberta e geralmente invisível” (ESTEVES, 2007, p. 169), mas os interesses pessoais são tratados como legítimos nas negociações e entendimentos:
[Há...] duas maneira pelas quais a posição de ‘pessoa’ se interpõe nas negociações entre as posições ‘da cooperativa’ e ‘do cooperado’. A primeira diz respeito à comparação entre vida pessoal e cooperativa, a segunda à perspectiva de futuro [...] (ESTEVES, 2007, 169).
Esta exigência de alternância de posições na vivência cotidiana das negociações produz intranqüilidade. O processo é experimentado com dificuldade, pois envolve “exposição pessoal, atritos entre cooperados, conflitos de interesses que resultam em divisões do grupo, pressões sobre a administração...” (ESTEVES, 2007, p. 170).
Manifestam-se a esperança e a desesperança numa combinação ambígua e pendular. A esperança é o desejo de que interesses se coadunem espontaneamente, a representação da identidade entre a cooperativa e o grupo de cooperados faz coincidir o um e o múltiplo. A ilusão desta coincidência não tarda a tornar-se evidente e os cooperados se des-iludem com a cooperativa. Neste processo ambíguo, alternam-se sentimentos contraditórios “freqüentemente em um mesmo mês, conforme o momento por que passa a cooperativa”, como descreve Esteves (2007, p. 170).