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O problema da forma é central ao “modelo adaptativo-complexo” de organizações sociais, elaborado por Ramon Moreira Garcia (1987). Este estudioso dos formatos alternativos de organização publicou a maior parte de seus trabalhos durante a década de 1980, dedicando-se ao estudo de temas tais que democracia organizacional, autogestão, cooperativismo e movimentos que naquele período eram chamados alternativos.

Garcia (1987) identifica como “setores alternativos” a economia informal e o movimento ecológico, e trata de analisar a inserção desses movimentos na dinâmica da reprodução capitalista. Em artigo sobre a trajetória do autor, Gutierrez, Freitas e Cattani (2004) descrevem preocupações intelectuais que o aproximam do tema das EAT:

Garcia acreditava no aumento da importância do que ele chama de setor informal e alternativo da economia – que hoje chamaríamos de terceiro setor ou de economia social e solidária – e em sua capacidade de apontar novas formas de organização da produção. (GUTIERREZ, FREITAS e CATTANI, 2004, p. 112).

As idéias de Ramon Garcia (1992; 1988; 1987; 1986; 1984; 1983; 1980a; 1980b; GUTIERREZ, FREITAS e CATTANI, 2004) contemplam a dimensão política implícita nos projetos organizacionais alternativos. O modelo organizacional apresentado (GARCIA, 1987) deve ser visualizado como um esforço de sintonizar organização e desenvolvimento humano, de maneira gradual e crescente. A capacidade crítica-reflexiva dos sujeitos humanos é uma característica singular dos sistemas sociais, o que põe a emancipação no centro da abordagem sistêmica adotada para a construção do modelo:

A partir de uma leitura cuidadosa e sistemática das obras de Alberto Guerreiro Ramos e Paulo Freire, o pesquisador [Garcia] percebe a realidade como uma totalidade em que o sujeito social não somente é um produto de suas circunstâncias, porém, também, graças a seu engajamento crítico, um ativo criador dessas mesmas circunstâncias. (GUTIERREZ, FREITAS e CATTANI, 2004, p.110).

O modelo adaptativo-complexo é pensado como uma configuração organizada que inclui estruturalmente sua própria transformação. O autor aborda as organizações pelo prisma da tecnologia apropriada, próxima àquela dos processos de adequação sócio-técnica (ver Capítulo 2). A tecnologia apropriada é crítica ao conceito tradicional de tecnologia, e questiona a concepção imitativa de desenvolvimento econômico.

A visão tradicional entende ser possível submeter os sistemas técnicos ao escrutínio do estado da arte, calculando uma distância ou “brecha tecnológica” para demarcar a posição relativa do sistema diante de um limiar tecnológico e evolutivo. A visão é centrada numa perspectiva econômica e quantitativa, fundada numa concepção universalista de desenvolvimento, que fornece o padrão para o cálculo das brechas.

A tecnologia apropriada, ao contrário, dispensa noções tais que imitação, padrão, ritmo ou forma de desenvolvimento, por que:

[...]busca na cultura uma fonte de inspiração para um novo estilo de desenvolvimento [...] já não se trata de distâncias físicas ou quantitativas, senão de estilos de produzir, de consumir, de viver e de trabalhar. (GARCIA, 1987, p. 28).

O sentido de “apropriada” é duplo. De um lado, compreende a idéia de pertinência (appropriateness), de outro, compreende autonomia, auto-suficiência e não-dependência. Uma tecnologia será tanto mais apropriada quanto mais “contribuir para a revalorização das condições globais de vida e produção – técnicas e sociais – de uma dada comunidade” (GARCIA, 1987, p. 28). A tecnologia se define a partir de múltiplas dimensões, é concebida como expressão dessa multiplicidade (Quadro 3.2).

A pertinência de uma tecnologia não se vincula a padrões pré-definidos de desenvolvimento, relaciona-se às combinações e arranjos distintos das múltiplas dimensões, sempre contextualizados pela emergência de problemas concretos. Tem-se, então, um conjunto de possíveis soluções dentre as quais algumas mais pertinentes que outras. Por isso “a verdadeira compreensão do que seja tecnologia apropriada implica a sua própria crítica” (GARCIA, 1987, p. 29). O aparato técnico, em si mesmo, não determina os limites de sua

instrumentalidade; ele está submetido a uma potencialidade inventiva. A técnica contribui efetivamente para a realização das formas alternativas de organização, quando orientada por interesses emancipatórios de reinvenção.

QUADRO 3.2 – Múltiplas Dimensões da Tecnologia Apropriada: Dimensão Contempla questões relativas a:

Econômica

! baixo custo de capital por pessoa empregada; ! baixo custo de capital por unidade produzida; ! utilização de recursos produtivos locais; ! escala adequada de produção;

! facilidade de fabricação, utilização e manutenção dos sistemas e equipamentos;

Sócio-cultural

! adequação aos padrões culturais da população; ! qualidade intrínseca do que é produzido;

! diminuição das desigualdades e prevenção da exploração; ! desencorajamento da alienação;

! crescimento pessoal, apoio existencial e social nos locais de trabalho.

Política

! diversificação de oportunidades à circulação local de riquezas; ! acesso, domínio e autonomia de ações;

! ampliação da auto-suficiência e autoconfiança (self-reliance); ! redução da dependência externa;

! revalorização dos setores ditos tradicionais; ! modificação da organização social do trabalho.

Científico- Tecnológica

! estímulo à capacidade inovadora local; ! revalorização de tarefas e papéis produtivos; ! estímulo à pesquisa e experimentação tecnológica;

! melhoria do desempenho e competência científico-tecnológica.

Ecológica

! poluição e exaustão dos recursos não renováveis; ! equilíbrio ecológico e balanço energético;

! harmonia com a natureza e limites críticos do desenvolvimento.

Adaptado pelo autor a partir de Garcia (1987)

A tradição tende a reduzir a tecnologia a seus aspectos materiais; entretanto, é indispensável considerar a dimensão não material, expandindo a concepção para aspectos tais que “o conhecimento, a habilidade, a experiência, o ensino e as formas de organização” (GARCIA, 1987, p. 29). A abrangência do fenômeno tecnológico é camuflada pela visão tradicional, o

reducionismo da técnica é parte da sua naturalização. A fetichização e a naturalização da tecnologia já foram apontadas como empecilhos à transformação dos processos de trabalho (ver Capítulo 2, item 2.3.2). O imperativo da técnica é uma das mais potentes ferramentas de manutenção do status quo. A alienação do trabalhador é um dos resultados mais efetivos desse reducionismo. “As razões técnicas inerentes ao processo de trabalho” são impostas aos trabalhadores, mas suavizadas pelo argumento ‘legítimo’ da inevitabilidade técnica. Assim, se esconde um modo de “regulação social” portador de um “código autoritário” (FARIA, 1985, p. 58). O aparato técnico demanda mobilização cognitiva e comportamental no registro de interesses de acumulação, e o inevitável impacto nos operadores humanos é mitigado pelas tais razões técnicas. Ou seja, em nome da tecnologia, as relações sociais são orientadas por interesses específicos:

[...]a racionalidade da regulamentação social se converte em racionalidade das técnicas para controlar um comportamento necessariamente conflitual e para induzi-los a cooperar com objetivos que lhes são estranhos. (FARIA, 1985, p. 58).

A tecnologia apropriada recusa submeter o social à técnica, preferindo tomá-la por expressão humana situada socialmente e, em princípio, aberta a inúmeras possibilidades. Esta concepção leva em conta que todo o contexto é tributário de uma trajetória que não se fecha em pré- determinações. A tecnologia em si mesma “não é nem apropriada nem imprópria”, a valorização das “condições globais de produção” tem como implicação que a pertinência de uma tecnologia somente será definida face a “circunstâncias econômicas, sociais, culturais e políticas” da coletividade que dela se apropria (GARCIA, 1987, p. 29)..

Garcia (1987) reivindica o estatuto da tecnologia como “ato de cultura”, ao contestar a perspectiva “mecânico-fatalista”, fazendo referência à visão tradicional. O contraponto desenha a perspectiva da “invenção social”:

A visualização da tecnologia como uma ‘invenção social’, ou melhor, como um ‘ato de cultura’, na qual interferem inúmeras dimensões, constitui, sem dúvida, um novo paradigma. Como tal, coexiste com as visões economicistas mais tradicionais da tecnologia como fator de produção ou como elemento privilegiado dos processos globais de acumulação e transferência de capital. (GARCIA, 1987, 31).

A dimensão cognitiva que subjaz a todo ato técnico é, assim, enfatizada. Garcia pensa a presença do novo como reconfiguração da técnica, numa nova Gestalt (GARCIA, 1987, p. 31). O “novo” deve ser entendido como “forma de pensamento inteiramente diferente”, resultante de “um princípio que sempre existiu, e do qual não nos apercebemos... que escancara portas e janelas a novas explorações” (GARCIA, 1987, p. 31). Esta aproximação possibilita abordar a dimensão processual das rupturas estruturais, a transformação é vista como processo social.

Vale esclarecer que esta abordagem gradualista das transformações sociais deriva de uma compreensão muito específica da teoria dos sistemas. Como apontam Gutierrez, Freitas e Catani (2004), o pensamento de Ramon Garcia inverte o raciocínio do equilíbrio dos sistemas, entendendo que o desequilíbrio permanente rege seu funcionamento:

A partir da leitura de um texto da década de 1930, de Ludwig Von Bertalanffy, [Garcia] sustenta que o equilíbrio não é fruto de mecanismos de controle, mas sim da manutenção do desequilíbrio.... Para as ciências naturais, segundo a leitura que faz de Bertalanffy, a vida não é manutenção ou restabelecimento do equilíbrio, mas essencialmente a manutenção do desequilíbrio.(GUTIERREZ, FREITAS e CATANI, 2004, p.111).

Do ponto de vista do pensamento social, este permanente estado de desequilíbrio se mostra pela emergência de diferentes formas de organização, própria da dinâmica inerente aos sistemas sociais. As totalidades são suficientemente complexas, diferenciadas e contraditórias para produzirem sua própria transformação. A transformação da totalidade social é pensada como reorganização interna à própria totalidade, por um processo de interações dialéticas. A atenção especial dada pelo autor ao setor informal e alternativo da economia denota esta aproximação pelo flanco da complexidade; a emergência de novas formas de organização nesse setor é indicativa de uma potencial transformação do todo social. A emancipação humana é o motor crítico a partir do qual a abordagem sistêmica é incorporada.

A criação do modelo adaptativo-complexo se faz a partir desta orientação teórica, que associa tecnologia apropriada, formas de organização e nova gestalt. A preocupação é construir um modelo de organização que inclua estruturalmente sua própria transformação (GARCIA, 1992, p. 168). A transformação na organização é pensada como processo de aprendizado

coletivo para a autodeterminação, com ponto de partida na reflexão dos sujeitos sobre sua realidade econômica, social e política.

Nesse sentido, a autogestão enquanto projeto transformador é o resultado de um processo reflexivo orientado por valores substantivos direcionados à emancipação dos sujeitos participantes. A nova gestalt orientadora do projeto é, antes de mais nada, garantida por valores substantivos. A autogestão não resulta do voluntarismo ou boa vontade dos participantes, mas do desenho de um projeto ético que lhe é subjacente: “a subordinação das regras aos valores substantivos de um projeto ético claramente definido” (GUTIERREZ, FREITAS e CATANI, 2004, p. 109).

Os fundamentos do modelo adaptativo-complexo constituem o “paradigma dos processos socioculturais” ou “paradigma-emancipador” (GARCIA, 1992). O texto em que esta proposta é descrita toma como referência o problema dos acidentes em sistemas industriais complexos. A escolha deste fenômeno tem função heurística, o acidente é uma proto-organização alternativa que emerge da dinâmica organizacional; é um evento carregado de significações que permite por em questão os limites da organicidade dos sistemas, indagar sua aleatoriedade, resíduos, etc.. Por outro lado, a carga simbólica negativa atribuída aos acidentes é tributária de abordagens teóricas parciais, incapazes de traduzir os sinais de desequilíbrio ou transformação potencial emitidos. A apresentação do “paradigma-emancipador” é antecedida por comentários a respeito dessas abordagens parciais – os paradigmas da teoria dos sistemas.

A abordagem funcionalista clássica, referida por “paradigma mecânico-fatalista”, atribui ao acidente “uma origem desconhecida, quase mágica” (GARCIA, 1992, p. 163). Os sistemas sociais são entendidos como orientados pelo equilíbrio, sendo sua estabilidade resultante de uma “física social”, regida por princípios análogos aos da mecânica clássica. Os acidentes são significados como perturbações, imprevisibilidade, desvios, catástrofe, etc.; e uma vez que a condição normal dos sistemas é o equilíbrio, as tais perturbações são interpretadas como tendo origem externa; é freqüente a atribuição da causa às falhas humanas (GARCIA, 1992, p. 164).

A perspectiva mecânico-fatalista é inadequada à apreensão dos fenômenos sociais. Por estar centrada no princípio da estabilidade – tão bem representado no conceito de inércia – esta visão dificulta a compreensão da dinâmica transformadora das interações humanas. Ao

contrário dos sistemas mecânicos, as estruturas e os limites dos sistemas sociais são cambiantes:

[...] a noção de totalidade passa a ser um conceito-chave, pois... os sistemas sociais elaboram suas próprias estruturas, criam relações novas e mais complexas... progridem através de processos que lhes são peculiares, para novos níveis de integridade estrutural. (GARCIA, 1992, p.165).

Garcia (1992) designa “paradigma organísmico-totalizador” a proposta da teoria dos sistemas, cuja referencia é o trabalho de Von Bertalanffy. Enfatiza a recusa à causalidade unidirecional como ponto nodal da crítica desta abordagem à anterior (mecânico-fatalista). As ciências da natureza necessitam conceitos diferentes, tais como “complexidade organizada”, e seus correlatos – totalidade, holismo, organismo, gestalt. Uma noção inovadora é a do equilíbrio dinâmico – homeostase – para diferenciar o estado fixo e imutável dos sistemas mecânicos do estado variável, cambiante e constante dos sistemas naturais. De acordo com a noção de homeostase dinâmica:

[...] o organismo não só é capaz de promover um novo equilíbrio, mas, também, sob certas condições, consegue reconhecer certos sinais do meio externo e interno e, assim, se antecipar a possíveis distúrbios. (GARCIA, 1992, p. 166).

O conceito permite a Garcia (1992) fundamentar sua interpretação a respeito do desequilíbrio como constante dinâmica dos sistemas. “O equilíbrio é obtido por meio de interações dinâmicas e não pelo concurso de mecanismos especiais de controle...”. As características dos sistemas complexos contradizem a hipótese da existência de variáveis autônomas e independentes, sobretudo quando se trata de estudar “fenômenos relativos à adaptação e à evolução” (GARCIA, 1992, p. 166). Essas interações dinâmicas definem-se por não- determinação, isto é, não se trata de buscar princípios transcendentes que lhes dêem sentido, mas de enfrentar os fenômenos em sua indeterminação, para compreender seu significado. Este é o sentido da afirmação sobre o desequilíbrio:

Para as ciências naturais, diz Bertalanffy, a vida não é a manutenção e/ou o restabelecimento do equilíbrio, mas essencialmente a manutenção do desequilíbrio[...] (GARCIA, 1992, p. 166).

Os acidentes são, então, interpretados como intrínsecos aos processos homeostáticos. Os processos de ajustamento que os antecedem fazem parte integrante da estrutura do sistema. A própria dinâmica estabilizadora da estrutura viva resulta de interações que podem produzir excessos.

A crítica a esta perspectiva reside no pressuposto de subordinação das partes à totalidade, no “conceito de supra-determinação do todo em relação às suas partes constituintes” (GARCIA, 1992, p. 166). Isto implica entender que os processos dinâmicos de equilíbrio seriam portadores de uma finalidade invariável que, exceto em condições extremas, conformaria a totalidade, mantendo-a numa forma original. Admite-se diferentes caminhos para este fim, mas, não diferentes fins para diferentes caminhos. Por isso, o “paradigma organísmico- totalizador” tem forte acento teleológico, ainda que seja crítico à causalidade unidirecional.

Desse modo, possíveis diferenciações internas podem não ser apreendidas e significadas pela teoria, em especial, as contradições entre padrões de estabilidade e transgressão, evidenciadas pela produção dos acidentes. Se as interações dinâmicas podem produzir excessos, há uma dialética interior ao sistema que põe em cheque sua finalidade, o que significa que no lugar da noção de “eqüifinalidade” encontra-se o que se poderia chamar “multifinalidade” (GARCIA,1992, p.117).

As interações dinâmicas... podem conduzir ao advento de uma nova forma, à gênese de um ser inteiramente distinto. Dentro dessas condições, o paradigma organísmico transformar-se-ia em uma concepção adaptativo- complexa, mais próxima, portanto, das exigências dos processos e manifestações dos sistemas sociais. (GARCIA,1992, p.117).

O modelo adaptativo-complexo caracteriza os sistemas sociais, e exige uma abordagem comparativa em que a ênfase seja dada na originalidade e singularidade dos sistemas, e não na similaridade:

Nesses termos, é seguramente o mundo simbólico o que distingue a existência humana das demais formas de existência. O homem é o único ser que produz significados. Vive, luta, vai à guerra, e morre, em defesa desses ideais. Assim, o homem ao produzir as condições materiais de sua existência produz também os símbolos que confirmam ou infirmam essa mesma existência. (GARCIA, 1992, p. 168).

O que é original nos sistemas sociais está naquilo que distingue a existência humana das demais formas de existência: o mundo simbólico. Em todo sistema social, a produção de significados é correlata à produção das condições de existência. É possível, então, caracterizar as organizações – os sistemas humano-sociais – de maneira aberta, para identificar suas características enquanto sistemas adaptativo-complexos.

A primeira característica exclusiva dos sistemas sociais é a significação. Os sistemas tecnológicos são sistemas epistemológicos, no limite não há fatos sociais, mas interpretação, os fatos são impregnados de significados. “Não constituem o fato bruto dos modelos mecânico e/ou organísmico” (GARCIA, 1992, p.168). A segunda característica é a autodeterminação, pois “os sistemas sócio-técnicos exibem uma estratégia de autodeterminação em relação ao seu meio ambiente”. A seleção de elementos do ambiente é marcada por particularidades e singularidades centrais à significação e compreensão dos ‘fatos’ do ambiente:

Os sistemas sócio-técnicos... internalizam as características de determinado ramo de negócios... por intermédio de certa particularidade ou ‘cultura organizacional’. (GARCIA, 1992, p.168).

A terceira característica é a “lei da variedade requerida”; uma noção da cibernética que correlaciona a variabilidade interna do sistema com a variabilidade externa do ambiente. Os mapas cognitivos resultantes do processo de significação do ambiente não são fixos e imutáveis, caso contrário, seriam incapazes de captar as variações e mudanças do ambiente e da estrutura. A estabilidade dinâmica dos sistemas sócio-técnicos:

[...] é obtida através de processos que propiciam uma variedade interna que funciona como fundo potencial de aprendizado, comum e adaptativo, indispensável ao mapeamento das variedades internas e externas. (GARCIA, 1992, p.169).

Os acidentes acontecem e são internalizados, o que sugere a existência de “tipos de acidentes altamente favoráveis” ao aprendizado, que elevariam o potencial cognitivo do sistema. Evidentemente, seriam favoráveis desde que não dizimassem os humanos e a natureza, mas ainda assim integrariam o fundo comum de aprendizado. A quarta característica decorre da

terceira e é o aprendizado constante. A preocupação com processos de institucionalização do aprendizado, para formar um “fundo comum de variedade” de elevada significação e eficácia. Por exemplo, a seleção e retenção de critérios e processos mais eficazes na prevenção de acidentes.

A quinta característica é uma espécie de síntese de todas as demais, expressa num formato organizacional que presentifica as qualidades dos sistemas adaptativo-complexos, dando origem a um modelo organizacional específico:

Em face da variedade requerida... surge a necessidade de criar-se uma forma distinta de organização, capaz de preservar ou propagar aqueles mapeamentos ‘mais bem-sucedidos’. Desse modo, os critérios de anti- rigidez, o de gestão participativa e de governo democrático aparecem como requisitos estruturais de um sistema sociotécnico qualquer, e não como princípios doutrinários, abstratamente estabelecidos. (GARCIA, 1992, p. 169).

Os desdobramentos do modelo adaptativo-complexo são claramente enunciados:

Tal perspectiva abre caminho para estudos relacionados com as formas alternativas de organização e dos processos institucionais necessários à sua implantação. As questões relativas ao poder, de modo geral, e ao poder democrático, de modo particular, são também de extrema importância.(GARCIA, 1992, p. 169).

Infelizmente Ramon Garcia não pôde desenvolver estas questões, faleceu em 1995. Mas deixou um legado de ampla significação. Contribuições que serão aqui retidas como fundo de aprendizado para elucidar a dinâmica das EAT. Desde o início, a questão da forma foi apontada como nuclear, tem-se agora uma aproximação dinâmica das formas, que permite acessar sua trans-formação. O modelo adaptativo-complexo contempla a idéia de transição, tomando-a como elemento intrínseco à dinâmica organizacional, que tem no fenômeno do acidente um protótipo.

Dada esta concepção dos processos dinâmicos em sistemas sociais complexos, é possível acessar a variedade emergente de formas alternativas de organização, sem o rótulo da ‘anomalia’ ou desvio de finalidade. A valorização da singularidade dá ensejo a uma noção de “estilo organizacional” (GARCIA, 1992, p. 184), que enfatiza as peculiaridades do processo

de significação e aprendizado, e certa independência da forma organizacional em relação a requisitos pré-definidos

De um ponto de vista epistemológico, a tecnologia apropriada acessa as organizações para enfatizar suas particularidades, o fenômeno organizacional é examinado pela ótica da diferença. Do ponto de vista sistêmico (da dinâmica organizacional), a tecnologia apropriada tem o sentido de capacitar a geração do aprendizado necessário à incorporação gradativa dos elementos transformadores da estrutura organizacional. Aqui, a dimensão ética revela sua centralidade: a emancipação humana é orientadora do projeto, há, portanto, uma teleologia implícita no modelo adaptativo-complexo.

Nesse sentido, os acidentes têm um conteúdo objetivo, indicador da funcionalidade progressiva dos sistemas organizacionais:

[...] na perspectiva por nós adotada, [os acidentes] constituem indicadores privilegiados (ou se quiserem, um pretexto metodológico) para se aferir o estilo organizacional, nos termos de algumas características estratégicas essenciais, como a significação, a autodeterminação ou identidade, a variedade requerida, o aprendizado constante e o governo democrático. Nossa hipótese fundamental de trabalho seria, portanto, a seguinte: quanto ‘melhores’ forem estas características menores serão os índices de acidente. (GARCIA, 1992, p. 184).

Como argumentam Gutierrez, Freitas e Catani (2004, p. 110), dada a grande importância do

Benzer Belgeler