2.1 Performative Architecture
2.1.3 Performative Architecture and IE
barbarismo que eu jamais esperei
ver em um ser humano. – nesta
região inclemente, eles andam
completamente nus, e suas casas
provisórias assemelham-se às que
as crianças constroem no verão,
com galhos de árvores. Não creio
que nenhum espetáculo possa ser
mais interessante que a primeira
visão do homem em seu estado
selvagem primitivo. É interessante
que não se pode realmente
imaginar enquanto não se o
experimenta. Jamais esquecerei, ao
entrarmos na Baía de Boa
Ventura, o grito com que um
grupo nos recebeu (11 de abril de
1833, Cartas, 2009a, p. 71).
correlações, reflexões; trocas de informações com especialistas; amadurecimento de sua capacidade de sistematizar, conjeturar e testar determinado assunto, sob diversos aspectos; erros, frustrações; são aspectos intrínsecos ao conjunto de sua ciência.
Perfilhar olhares interessantes sobre o mundo natural, como a filiação comum das espécies, a descendência com modificação por meio da seleção natural e a expressão de emoções em humanos e não humanos, são algumas de suas proposições científicas inovadoras válidas ainda hoje.
Saímos da Austrália, paramos nas Ilhas Maurícias. Prosseguimos viagem. Ao aportarmos no Cabo da Boa Esperança, Darwin alugou um cabriolé para levá-lo à Cidade do Cabo, onde fez algumas excursões geológicas e conheceu aspectos da astronomia em companhia de colegas ingleses.
Junto com FitzRoy, visitou o astrônomo John Herschel (1792-1871) com quem conversou longamente sobre o mistério dos mistérios. Essa conversa não ficou registrada, mas alguns de seus biógrafos, Desmond, Moore e Browne, supõem que
questionaram: “SE AS PAISAGENS MUDAVAM GRADUALMENTE, MOLDADAS POR FORÇAS
NÃO DIFERENTES DAS DE HOJE, A VIDA NÃO DEVERIA SER ENTENDIDA DO MESMO MODO?”42
Retornamos ao Brasil. Ali, despedi-me de meu amigo, pois eu tinha outros planos. O Beagle
partiu do Brasil no dia 19 de agosto de 1836, fez rápida parada em Cabo Verde. Em 02 de outubro de 1836, ancorou no porto de Falmouth, Inglaterra. Minha amizade com meu saudoso naturalista tornou-me menos besourocêntrico; aflorando meu interesse por tudo e todos que compõem nosso universo: dos mais ínfimos seres, pedras, minerais, dos mistérios evolutivos de dinossauros, elefantes, baleias, humanos, à força do universo que influi no movimento geológico que,
Coral (Phylum Cnidaria) Disponível em: <http://naturalhistorysketches. tumblr.com/archive>..
Charles Darwin aos 24 anos. Retratado por
George Richmond (1809-1896). Disponível em: <http://cienciahoje.uol.com.br/especiais/reu niao-anual-da-sbpc-2008/o-brasil-visto-por- darwin>.
por sua vez, interfere na vida terrestre.
A tessitura do mundo natural assumiu, através dos olhos de meu amigo, notas de alta intensidade: os animais não são autômatos colocados no mundo para servir aos humanos, nem bestas brutalizadas. Somos todos seres capazes de relações complexas, inapreensíveis sem observações acuradas e universalizantes.
“Quando caminhava tranquilamente ao longo dos trilhos sombrios e admirava as vistas que se sucediam, procurava encontrar na linguagem uma expressão para as minhas ideias. Epíteto atrás de epíteto, todos me pareciam demasiado fracos para transmitirem a quem não tivesse visitado as regiões intertropicais a sensação deliciosa que o espírito nelas experimenta. Já disse que as plantas de uma estufa não são capazes de comunicar uma ideia adequada da vegetação [...]. Como desejaria tanto cada admirador da natureza contemplar, se tal fosse possível, as paisagens de um outro planeta! E contudo para qualquer habitante da Europa, pode dizer-se que à distância apenas de alguns graus do seu solo natal, os esplendores de um outro mundo se abrem diante dos seus olhos. Durante minha última excursão detive-me uma e outra vez para admirar tantas belezas e esforcei-me por fixar para sempre no espírito a impressão de cada momento. Sabia que mais cedo ou mais tarde teria de as perder. A forma da laranjeira, do coqueiro, da palmeira, da manga, do feto arbóreo e da bananeira permanecerá clara e distinta; mas os milhares de belezas que tudo isso reúne numa só paisagem perfeita irão desaparecendo, mas hão-de ficar apesar de tudo algumas das linhas confusas de um quadro cheio de figuras indistintas, mas maravilhosas, como as
HMS Beagle in Tierra del Fuego, with Mt. Sarmiento in the background, from Robert Fitzroy, Narrative of the Surveying Voyages of His Majesty's Ships Adventure and Beagle, 1839. Disponível em: <http://darwin.lindahall.org/section7.shtml>.
Rota do Beagle (traçado em vermelho) Disponível em: <http://www.sobiologia.com.br/conteudos/Evolucao/evolucao15.php>. Acesso em: 15 ago. 2014.
Ps.: Deixo as reminiscências dessas minhas aventuras ao redor do mundo, em companhia do querido e saudoso Charles Robert Darwin, aos cuidados da Sra Vivian
Catarina Dias, esperando contribuir com sua pesquisa de mestrado. Declaro abster- me de quaisquer direitos besourais.
NOTAS
1Autobiografia, 2000, p. 18. 2Autobiografia, 2000, p. 24. 3Autobiografia, 2000, p. 37. 4Autobiografia, 2000, p. 48.
5 BLAKE, William. Milton; tradução, introdução e notas Manuel Portela. São Paulo: Nova Alexandria, 2014,
p. 171.
6Autobiografia, 2000, p. 55.
7 CARSON, Rachel. Maravilhar-se, reaproximar a criança da natureza; tradução José Carlos Costa
Marques. Santa Maria da Feita, Portugal: 2012, p. 45.
8 “O arquipélago de São Pedro e São Paulo é um conjunto de pequenas ilhas rochosas que se situa na parte
central do oceano Atlântico equatorial, distando 627 quilômetros do arquipélago de Fernando de Noronha, 986 quilômetros do ponto mais próximo do continente e 1010 km a partir de Natal, no estado do Rio Grande do Norte.” Arquipélago de São Pedro e São Paulo. Disponível em: <http://www.bahia.ws/arquipelago-de- sao-pedro-e-sao-paulo/>. Acesso em: 24 ago. 2014.
9Cartas, 2009a, p. 142.
10 RUTHERFURD, Edward. A floresta; tradução Domingos Demasi. Rio de Janeiro: Record, 2002. 11Autobiografia, 2000, p. 69.
12 CARSON, 2012, p. 27. 13 Diário, 2009, p. 40-1).” 14Diário, 2009, p. 36
15 QUAMMEN, David. Monstro de Deus: feras predadoras: história, ciência e mito; tradução Maria
Guimarães. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 373.
16 MAYLE, Peter. Memórias de um cão; tradução Waldéa Barcello. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.
17 GOULD, Stephen Jay. A montanha de moluscos de Leonardo da Vinci; tradução Rejane Rubino. São
Pualo: Companhia das Letras, 2003, p. 9.
18 Fotos da página 14 e 15 disponíveis em: <http://naturalhistorysketches.tumblr.com/>. 19 Fotos da página 16 disponíveis em: <http://naturalhistorysketches.tumblr.com/>. 20Diário, 2009, p. 41.
21Diário, 2009, p. 61. 22Diário, 2009, p. 73.
23 SARMIENTO, Domingos Faustino. Facundo, ou civilização e barbárie. São Paulo: Cosac Naify, 2010, p.
422.
24Diário, 2009, p. 85.
25 Andrew Smith (1797-1872), entre os anos 1821-1837 serviu como cirurgião do exército inglês na África do
Sul. Tornou-se conhecido por seus estudos de História Natural sulafricanos, especialmente na área de zoologia.
26 Não nos esquecamos de que a maioria dos naturalistas propagava a ideia de criação independente das
espécies. Os primeiros a romperem com essa visão foram Erasmus Darwin e Lamarck, que propuseram o conceito de evolução, mas não nos mesmos termos do Sr. Charles Darwin, que propôs o mecanismo pelo qual ela ocorria: a seleção natural.
27 Autobiografia, 2000, p. 60.
28 KEYNES, 2004, p. 367.
29 Agradeço a Itamar Aparecido de Oliveira pela tradução da peça para esse trabalho. 30 KEYNES, 2004, p. 365.
31 Cf. QUAMMEN, David. O canto do dodô. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. 32 QUAMMEN, 2008, p. 285.
33 MAYR, Ernst. O que é a evolução; tradução Ronaldo Sergio de Biasi e Sergio Coutinho de Biasi. Rio de
Janeiro: Rocco, 2009.
34 COLE, K. C. Primeiro você constrói uma nuvem; tradução Elizabeth Leal; revisão técnica Alexandre
Tort. Rio de Janeiro: 2007, p. 102.
35 DARWIN. Caderno B, p. 29. In KEYNES, 2004, p. 354." 36 Diário, 2009, p. 327.
37 GOULD, Stephen Jay. Na mente do observador. In GOULD, Stephen, Jay. Dinossauro no palheiro;
tradução Carlos Afonso Malferrari. São Paulo: Companhia das Letras, 1997, p. 123-141.
38 Cartas, 2009a, p. 83. 39 Diário, 2009, p. 370.
40 BROWNE, Janet. Charles Darwin – viajando. São Paulo: Unesp, 2011ª, p. 360. 41 GOULD, 1997, p. 124.
42 DESMOND, Adrian; MOORE, James. Darwin: a vida de um evolucionista atormentadp; tradução
Cynthia Azevedo. São Paulo: Geração Editorial, 2001, p. 203.