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BÖLÜM 1: KURAMSAL ÇERÇEVE VE İGİLİ ARAŞTIRMALAR

1.1. Kuramsal Çerçeve

1.1.1. Performans

1.1.2.5. Performans Yönetim Süreçleri

1.1.2.5.1. Performans Planlama

Observando o modo pelo qual Guimarães Rosa pensa seu trabalho, especialmente nas cartas a seus tradutores, podemos observar “concepções e intenções” na lida com a palavra muito próximas as de Freud.

Primeiramente, é importante notar o apreço que o próprio autor revela pelo psicanalista quando, em sua entrevista a Günther Lorenz, afirma (Lorenz, 1983, p. 88): “Eu amo Goethe, venero e admiro Thomas Mann, Robert Musil, Franz Kafka, a musicalidade de pensamento de Rilke, a importância monstruosa, espantosa de Freud”.

Depois, identificamos verdadeiras conversas com o texto psicanalítico quando Rosa, em seu prefácio “Aletria e hermenêutica” a Tutaméia (Rosa, 1967b, p. 3) diz: “Não é o chiste rasa coisa ordinária; tanto seja porque escancha os planos da lógica, propondo-nos realidade superior e dimensões para mágicos novos sistemas de pensamento”.

Ou, ainda, quando relata a Emir Rodriguez Monegal (Rosa, 1983, p. 49) seu processo de escrita: primeiro, “escreve muito”; depois, “deixa descansar o escrito e volta mais tarde a revisar, fazendo muitas correções, cortando sem piedade”. Em outro momento, Monegal explica o dizer do autor: “para enganar o subconsciente, costuma dizer para si mesmo que esse material rejeitado não vai morrer na cesta de papéis. Ao contrário, será copiado cuidadosamente, em um caderno especial que intitula Rejectas e assim fica destinado a posteriores e talvez inexistentes obras. Desse modo o subconsciente cala e aceita”.

No plano manifesto, portanto, não só Rosa conhecera os trabalhos de Freud, como acreditava nas forças do inconsciente. Essas percepções/intuições “similares” se evidenciam também na maneira pela qual Rosa considera centrais as primeiras experiências infantis na constituição do sujeito. Nesse sentido, vemos o autor ressaltar, em entrevistas ou na correspondência com seus tradutores, a importância de fatos vividos por ele na infância, como sua miopia, recriada em Miguilim, ou o “peso” das origens, o lastro de onde emanam forças estruturantes do psiquismo. Ao explicar a origem de seu nome, por exemplo, Rosa cita a história dos suevos, um povo que emigrou para muitos lugares sem criar raízes. Daí viria a explicação sobre seu destino, sobre o porquê de seus antepassados apegarem-se “com tanto desespero àquele pedaço de terra que se chama sertão. Eu também estou apegado a ele”. E sintetiza (Lorenz, 1983, p. 66): “Portanto, pela minha origem, estou voltado para o remoto, o estranho”.

Em Rosa, observamos também a obsessão pelo deciframento de algo que não se vê, mas que é motor e centro em torno ao qual giram todas as ações e sentimentos humanos, e a

percepção apurada dos meios para atingi-lo. Para isso, Rosa pesquisa as palavras com minúcia, mas quer mostrar-se um escritor que se deixa levar pela intuição. Em entrevista a Lorenz, entretanto, deixa “escapar”: “Eu procedo assim, como um cientista” (Lorenz, 1983, p. 83). Nesse processo, incorpora saberes de diversas áreas e recria palavras dos tantos idiomas que conhece: “não cito, mas absorvo”, diz.

Os jogos de escrita usados para nomear suas personagens lembram os procedimentos de condensação e deslocamento que Freud identificou na elaboração e interpretação do sonho4. Rosa parece reconhecer que há uma palavra que “falha”, que não dá conta de nomear o Real, e daí empreende a tarefa da busca pela palavra exata, daquela que ajude a superar as falhas que intui em sua língua materna. Em suas palavras (Lorenz, 1983):

Aprendi algumas línguas estrangeiras apenas para enriquecer a minha própria e porque há demasiadas coisas intraduzíveis, pensadas em sonhos, intuitivas, cujo verdadeiro significado só pode ser encontrado no som original. […] Cada língua guarda em si uma verdade que não pode ser traduzida (p. 87).

Para Rosa, o campo da literatura, do sonho e da infância são muito similares. “Os sonhos são ainda rabiscos de crianças desatordoadas”, afirma em um de seus prefácios a

Tutaméia (1967b, p. 151) e considera o ato de escrever semelhante ao gesto do menino que

brinca de imaginar. Quanto à estrutura narrativa, as estórias também podem condensar e deslocar imagens, de maneira similar ao sonho. Os processos de associação, condensação e deslocamento aproximariam o trabalho do texto com o trabalho do sonho, portanto.

Freud, por sua vez, investiu inúmeras vezes no universo literário, pois sabia o quanto o escritor era capaz de presentificar o inconsciente5. Para o autor,

4 Os mecanismos de deslocamento e condensação teorizados por Freud foram reelaborados por Lacan, especialmente em textos como “A instância da letra no inconsciente ou a razão desde de Freud” (1998). Lacan aponta (1998, p. 515): “a Verdichtung é a estrutura de superposição dos significantes em que ganha campo a metáfora, e cujo nome, por condensar em si mesmo a Dichtung, indica a conaturalidade desse mecanismo com a poesia, a ponto de envolver a função propriamente tradicional desta. A Vershiebung ou deslocamento é, mais próxima do termo alemão, o transporte da significação que a metonímia demonstra e que, desde seu aparecimento em Freud, é apresentado como o meio mais adequado para despistar a censura”.

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Freud trabalhou com Édipo Rei e Hamlet em A interpretação dos sonhos (1900), Dostoiévski e o parricídio (1927) e Delírios e sonhos na “Gradiva” de Jensen (1906); com o Rei Lear, de Shakespeare, em O tema dos três escrínios (1913); e com Homem da Areia, de E. T. A. Hoffmann, em O estranho (1919).

[…] os escritores criativos são aliados muito valiosos, cujo testemunho deve ser levado em alta conta, pois costumam conhecer toda uma vasta gama de coisas entre o céu e a terra com as quais a nossa filosofia ainda não nos deixou sonhar (Freud, 1907, p. 20).

Sobre o papel específico da literatura, sugere:

a verdadeira satisfação que usufruímos de uma obra literária procede de uma liberação de tensões em nossas mentes. Talvez até grande parte desse efeito seja devido à possibilidade que o escritor nos oferece de, dali em diante, nos deleitarmos com nossos próprios devaneios, sem auto-acusações ou vergonha (Freud, 1907, p. 158).

Tanto em Rosa quanto em Freud a interpretação se impõe por conta da polissemia da palavra. Bento Prado Júnior (1985, p. 222), em seu estudo sobre Dão-lalalão e O recado do

morro, descreve com propriedade os “efeitos da linguagem rosiana” e nos ajuda a perceber

peculiaridades ainda mais delicadas na escrita de Rosa e aproximações com temas preciosos à psicanálise. Em suas palavras, a linguagem de Rosa

não é somente sistema de signos que permite a comunicação entre os sujeitos, nem uma maneira de dizer indiferente e exterior àquilo que é dito. (…) Essa linguagem, que desconhece a codificação estrita de uma gramática que visa à eficácia operacional, é privilegiada para quem quer retornar àquele brilho das palavras que precede toda ação e prefigura as nervuras do imaginário. [grifo do autor].

E conclui: “Aquém da escrita é que se pode encontrar uma experiência da linguagem semelhante àquela que a literatura procura restituir: esperança de captar, no puro movimento das palavras, no domínio exíguo que instauram, a verdade do mundo e da experiência” (Prado Júnior, 1985, p. 222).

Tal como o psicanalista, Rosa não procura revelar ou desvelar um sentido, mas constrói “uma densa trama de imagens nas quais a verdade, a essência, o Nome ora se

ocultam ora se desvelam” (Rosenfield, 2006, p. 203), unindo aspectos aparentemente

interpretada: “Mas o Corpo de Baile tem de ter passagens obscuras! Isto é indispensável. A excessiva iluminação, geral, só no nível do raso, da vulgaridade” (Rosa, 2003, p. 238). “Antes o obscuro que o óbvio, que o frouxo” (Lorenz, 1983, p. 83).

Como escritor, não posso seguir a receita de Hollywood, segundo a qual é preciso sempre orientar-se pelo limite mais baixo do entendimento. Portanto, torno a repetir: não do ponto de vista filológico e sim do metafísico, no sertão fala-se a língua de Goethe, Dostoiévski e Flaubert, porque o sertão é o terreno da eternidade, da solidão, onde Inneres und Aussseres sind nicht mehr zu trennen, segundo o Westöstlicher Divan6 (Lorenz, 1983, p. 86). [grifos do autor].

Esse “saber que não se sabe” que orienta nossas ações e a elaboração interior que ocorre no processo de “narrar sua própria estória” são conceitos próprios da psicanálise que aparecem escancarados inúmeras vezes nas palavras das personagens de Rosa. Em Grande

sertão: veredas (Rosa, 1965), por exemplo, Riobaldo narra:

Conto ao senhor é o que sei e o senhor não sabe; mas principal quero contar é o que eu não sei se sei, e que pode ser que o senhor saiba. (p. 175).

Tudo isto, para o senhor, meussenhor, não faz razão, nem adianta. Mas eu estou repetindo muito miudamente, vivendo o que me faltava (p. 401). Eu queria decifrar as coisas que são importantes. E estou contando não é uma vida de sertanejo, seja se for jagunço, mas a matéria vertente. Queria entender do medo e da coragem, e da gã que empurra a gente para fazer tantos atos, dar corpo ao suceder. O que induz a gente para más ações estranhas, é que a gente está pertinho do que é nosso, por direito, e não sabe, não sabe, não sabe! (p. 79).

É curioso observar também quantas são as aproximações possíveis entre o que consideram importante no fazer do escritor e no do psicanalista. O papel que o primeiro designa à palavra associa-se ao intento desse último: “Meditando sobre a palavra, ele [o leitor] se descobre a si mesmo.” (Lorenz, 1983, p. 83). Da mesma maneira, ambos valorizam a

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observação atenta aos detalhes: “E é nos detalhes, aparentemente sem importância, que estes efeitos se obtêm” (Carta a Harriet de Onís, apud Martins, 2001, p. ix) e participam de anseios semelhantes: “O que eu gostaria era de falar tanto ao inconsciente quanto à mente consciente do leitor” (idem, ibidem ). Assim como Freud, Rosa acredita numa realidade outra que não a do mundo dos objetos, aproximando-se, nesse sentido, do conceito de Real para Lacan.

Tanto a literatura como a psicanálise contribuem para que o homem possa presentificar o passado, reordenar a memória, ressignificá-la pela via da fantasia. Tanto para Freud como para Guimarães Rosa impera a aceitação inequívoca das forças do inconsciente – às quais somente vez ou outra temos acesso – e do poder da palavra capaz de instaurar sentidos nunca esgotáveis. Rosa, entretanto, crê numa força superior que nos ultrapassa. Rosa é religioso; Freud, cético.

Benzer Belgeler