Os profissionais elaboram o cálculo terapêutico a partir das probabilidades já experimentadas na realização de suas práticas de cuidados. Com base nessa experiência, eles conseguem prever, antecipar os imprevistos que possam surgir. O
cálculo é marcado, então, pelas probabilidades de erros e acertos do cuidado. Assim, o cálculo — que pode ser feito por um profissional ou produzido de forma coletiva em
discussões de equipe — parte de um fato ou de um acontecimento que permite deduzir
possíveis reações dos pacientes a determinadas intervenções. Ao mesmo tempo, ele permite ao profissional presumir sua posição na intervenção terapêutica.
Para demonstrar um cálculo feito por um profissional no CAPS, descreverei, de forma breve, um fato ocorrido na oficina de caminhada conduzida pela psicóloga Beatriz toda segunda-feira de manhã. Os pacientes eram chamados para nela participar, saindo do CAPS em direção ao Centro de Convivência que fica a cerca de dez quarteirões da instituição. Ao chegar neste destino, a psicóloga percebeu que um
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ele também não estava ali e permaneceu desaparecido nos dois dias subsequentes. Depois desse acontecimento, a equipe e a psicóloga que acompanhava a oficina
calcularam que algumas medidas de segurança deveriam ser acionadas. A partir de
então, toda vez que o referido paciente está presente, a psicóloga caminha ao lado dele durante todo o percurso, para não correr o risco de ele se perder novamente.
O cálculo pode igualmente ser feito em relação às pequenas condutas no interior da instituição. Às vezes, ele prescreve um comportamento do profissional, em outras palavras, sua atuação deve se pautar no cálculo, visando a um determinado fim. Em uma reunião de miniequipe, pude observar os profissionais discutindo o caso de uma
paciente que havia passado por uma supervisão alguns dias antes. A equipe falava sobre
a posição dos profissionais em relação ao caso. Vejamos, a seguir, um fragmento do meu caderno de campo:
Enfermeira: É uma psicose gravíssima, e eu não sei como lidar com isso. Quando a Dr. Ângela
falou em não medicar, eu conversei com a paciente, e não teve como não medicar. Ela [paciente] ficou muito feliz, disse que precisaria ver a mãe se ela fosse ficar [no leito noite]. ―Amanhã é outro dia‖, e não devemos tomá-la como retardada. Enquanto a equipe, cada um a seu tempo, na psiquiatria ou na psicanálise, deve escutá-la. O que tem me norteado são como as coisas se desenrolam [acontecem] ao longo do dia. Se ela sente saudades da mãe. Como uma boa psicótica, ela pensa à noite e atazana o dia. Ela sempre pediu para ficar na instituição e ver a família no fim de semana. Eu acredito que ela faça transferência com a instituição, e é melhor que a loucura dela apareça aqui no CAPS. Quando ela fala que precisa do remédio, ela toma e fica tranquila à tarde. É preciso que esses elementos apareçam aos nossos olhos. E esse nervoso que ela fala. A mãe diz que esse nervoso é frescura. Os pacientes estão falando que ela não é louca.
Psicóloga: A gente tem que deixar cair a Elisa retardada.
Enfermeira: A gente tem que construir o caso, e isso tem que fazer eco na equipe. Médica psiquiatra: Não falar para a Elisa o que é melhor ela fazer.
Enfermeira: É muito complicado quando a pessoa se coloca no lugar de ―eu sei‖.
Médica psiquiatra: Eu mesma já falei: ―esse tratamento é melhor para você‖.
Enfermeira: É muito diferente cuidar de um caso de paranóide.45 Quando é uma neurose, somos capazes de interpretar o desejo. Na psicose, o que vem é um grande enigma por não conseguir interpretar o desejo de cada um. Por não ter sustentado o caso, nós chegamos nesse ponto de angústia. A gente tem que conseguir alinhar o caso. É preciso que as medicações sejam orientadas pelo que ela fala. Na psicose, o saber está do lado do paciente. Quando sua mãe chegar, é preciso
acolhê-la para orientá-la. Não podemos dizer: ―porque você não veio antes!‖.
45 O DSM (Manual de Diagnósticos e Estatísticas das Perturbações Mentais) descreve a perturbação paranóide da personalidade por manifestações do comportamento ligadas a um sentimento de desconfiança e de suspeita persistentes. Pessoas com esse diagnóstico têm dificuldades em estabelecer relações próximas. São indivíduos excessivamente vigilantes e desprendidos de sentimentos afetuosos. (http://pt.shvoong.com/social-sciences/psychology/1672314-que-%C3%A9-perturba%C3%A7%C3%A3o-
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Este fragmento foi parte de uma discussão entre os profissionais por ocasião de uma reunião de miniequipe, mais especificamente depois da supervisão clínica do caso. Assim, pode-se perceber os profissionais refletindo sobre o que é necessário fazer para ajudar a paciente. O cálculo aparece nos momentos em que eles têm de tomar alguma atitude e se posicionar, como no caso da enfermeira que conversou com a paciente e verificou que ela deveria tomar a medicação. A discussão sobre seu retardo aconteceu na supervisão. A avaliação feita nesta ocasião apontou para o fato de que a equipe limitava suas práticas e para a dificuldade que a paciente tinha de se comunicar e de falar sobre si. Por isso, a ênfase no discurso transcrito acima, que pode ser percebidas em frases como: ―deixar cair a Elisa retardada‖ ou ―não devemos tomá-la como retardada‖. Para que a equipe observasse os elementos que a ligavam a um quadro de psicose foi necessário que a paciente permanecesse mais tempo internada no leito noite. A posição dos profissionais na relação com a mãe da paciente também foi calculada. Assim, eles afirmaram que ela não deveria ser repreendida por não ter ido antes à instituição, ao contrário, deveria ser acolhida para que a equipe conseguisse orientá-la e
responsabilizá-la pelo cuidado com a paciente.
No trecho acima citado, pode-se observar ainda a preocupação da equipe em elaborar uma posição que não seja de imposição de um saber, como afirmado pela médica: ―Não falar para Elisa o que é melhor ela fazer‖ ou, ainda, ―na psicose, o saber está do lado do paciente e não da gente‖. De fato, é a partir desse saber que os
profissionais elaboram as intervenções terapêuticas, que não visam apenas adaptar os sujeitos para que possam encontrar um ―lugar de existência‖. É necessário, portanto,
que os profissionais, a instituição, as práticas de cuidados e o controle se moldem às particularidades de cada sujeito tratado. É o que demonstrarei no tópico a seguir, sobre a terapêutica.
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