De acordo com Rousseau et al. (1998), independente da abordagem teórica, os pesquisadores parecem concordar fundamentalmente em relação ao significado da confiança. Ela não é um comportamento (como a cooperação) ou uma escolha (como assumir riscos), mas uma condição psicológica que resulta da disposição para ser vulnerável sob condições de risco e interdependência.
Contudo, a identificação de um significado comum não implica que todas as operacionalizações do construto tenham o mesmo sentido, apenas que os elementos fundamentais de sua definição são comparáveis em pesquisas e teorias que enfocam tanto relações dentro ou fora da organização, como também em investigações baseadas em diferentes abordagens disciplinares. Os autores afirmam, portanto, que expectativa e disposição para ser vulnerável são componentes críticos presentes nas diversas definições e que a variação de qualquer uma das condições (risco e interdependência), no decorrer da relação, pode influenciar o nível e a forma da confiança. O exame dessas características possibilita individualizar o construto em questão.
a) Expectativa:
De acordo com Hosmer (1995), a confiança está relacionada a uma expectativa otimista a respeito dos resultados de um evento ou do comportamento de outro indivíduo. Essa
expectativa pelo melhor não fica imediatamente evidente no domínio das trocas econômicas e estruturas sociais, onde predomina a idéia de que as pessoas devem se proteger dos resultados e comportamentos dos demais por meio de contratos, controles hierárquicos, exigências legais e obrigações informais. Entretanto, por ser oposta a essas presunções de suspeição e de prevenção, a confiança pode ser identificada por uma expectativa positiva.
Brockner et al. (1997) também defendem que a confiança está baseada em uma expectativa de que a parte em quem se confia (trustee) irá desempenhar certos comportamentos desejados e importantes para aquele que confia (trustor). Os autores acrescentam que esse deve acreditar que a outra parte possui tanto o desejo quanto a habilidade de realizar os comportamentos em questão.
Nesse sentido, Mayer et al. (2005) relacionam as expectativas a respeito do comportamento da outra parte com três características da pessoa em quem se confia: habilidade, benevolência e integridade. O grupo de habilidades, competências e características capacitam a parte a ter influência sobre um domínio específico. Outro fator que determina a confiabilidade de uma pessoa é a benevolência que representa uma orientação positiva da pessoa em que se confia em direção à outra parte. Por sua vez, integridade envolve a percepção de que a pessoa em que se confia adere a princípios considerados aceitáveis por quem confia.
Segundo os autores, esses fatores parecem explicar a avaliação que se faz a respeito da confiabilidade de uma parte. Quanto maior a percepção da habilidade, benevolência e integridade, maior será a expectativa de que a contraparte seja confiável. Contudo, essa expectativa não deve ser entendida como uma questão de determinar se a outra parte é ou não confiável, mas como um continuum no qual esses fatores podem variar.
b) Vulnerabilidade:
Quando o termo confiança é empregado, Bigley e Pearce (1998) afirmam que ele está quase sempre associado com a idéia de vulnerabilidade. A pesquisa sobre confiança está permeada pela idéia de que os atores (indivíduos, grupos, organizações) tornam-se vulneráveis uns aos outros à medida que interagem em situações sociais, relações ou sistemas.
Aryee et al. (2002) sugerem que a vulnerabilidade se origina do risco ou da incerteza quanto à intenção de a outra parte de agir apropriadamente. O grau de vulnerabilidade aumenta em situações nas quais as partes são interdependentes, de modo que o interesse de uma das partes não pode ser alcançado sem a outra.
Por ocorrer, geralmente, sob condições de vulnerabilidade do interesse individual e dependência em relação ao comportamento de outra pessoa, Hosmer (1995) afirma que uma parte essencial do construto corresponde à noção de que as perdas, quando a confiança é quebrada, são maiores dos que os ganhos, quando a confiança é mantida. Também integra a definição do construto a crença de que a probabilidade da confiança ser quebrada é tão desconhecida, quanto fora do controle do indivíduo que confia. Caso contrário, a decisão de confiar corresponderia apenas a uma simples racionalidade econômica.
Bigley e Pearce (1998) concluem que a idéia de vulnerabilidade foi incorporada de diferentes formas pela literatura. Alguns teóricos referem-se à disposição para ser vulnerável, enquanto outros concebem a confiança como uma decisão racional dada à possibilidade de que outros a prejudiquem. Em outras palavras, a decisão de confiar está vinculada, ou à disposição para ser vulnerável, ou à exposição a prejuízos potenciais.
Os autores ainda pontuam que a relevância da vulnerabilidade para o tema da confiança não resulta, necessariamente, em uma concepção universalmente aceita, mas ajuda a estabelecer os limites do tema, bem como sugere uma explicação para o incremento do uso do construto nos estudos organizacionais.
c) Risco:
Rousseau et al. (1998) entendem o risco como a probabilidade de perda percebida pelo tomador de decisão e afirmam que esse é considerado por diferentes disciplinas como uma condição essencial para o surgimento da confiança, isto é, a confiança não seria necessária se as ações ocorressem em um contexto de total certeza e sem riscos. Portanto, o risco cria a oportunidade para a confiança que, por sua vez, conduz a assumir riscos.
Nesse sentido, Mayer et al. (2005) propõem que o nível de confiança influencia o grau de risco que aquele que confia está disposto a assumir em uma relação. Assim, se o nível de confiança supera o risco percebido, o indivíduo irá se envolver em um relacionamento de risco. Ao contrário, se o grau de risco percebido for maior do que o nível de confiança, a parte que confia não se envolverá nessa relação.
Portanto, a confiança aumenta a possibilidade de se envolver em uma relação de risco, que os autores consideram como a manifestação comportamental da confiança. A definição, se determinado risco será assumido ou não, depende tanto do nível de confiança de quem confia em relação à outra parte, quanto da percepção de risco inerente a esse comportamento.
d) Interdependência:
Assim como o risco, a interdependência é condição necessária para fazer emergir a confiança. De acordo com Rousseau et al. (1998), a interdependência implica em que o interesse de uma parte não possa ser alcançado sem a dependência de outro. A variação nos níveis de interdependência realmente altera a forma da qual a confiança assume, sendo distintas, por exemplo, a natureza da confiança que a organização deposita em trabalhadores temporários em relação à confiança depositada em funcionários veteranos e estratégicos. Essa condição fornece, assim, subsídios para uma abordagem que relaciona a confiança ao contexto das relações.