é possível humanizar os homens mediante o uso das tecnologias e do acesso ao conhecimento sob a lógica do capital, que, para todos eles, não existiria mais.
2.2 Conhecimento: a suposta base da produção da riqueza na dita sociedade do conhecimento
Como fora mencionado, a referida tese advoga que, no contexto histórico atual, o conhecimento teria adquirido a centralidade no desenvolvimento histórico dos homens e não mais o trabalho seria a categoria central que possibilitou o salto de ruptura entre os homens e os animais. Agora, o conhecimento seria essa categoria, que, inclusive, distinguiria os homens uns dos outros, como podemos verificar na epígrafe de James Wolfensohn que iniciou este capítulo.
Toffler e Toffler42 (1995, p. 19), por exemplo, dizem que “uma nova civilização está emergindo em nossas vidas, e os cegos – que existem em toda parte – estão tentando suprimi-la”. Para eles, essa nova civilização, que denominaram “Terceira Onda”, traria “[...] consigo novos estilos de família; maneiras diferentes de trabalhar, amar e viver; uma nova economia; novos conflitos políticos; e acima de tudo uma consciência modificada” (idem, ibidem).
Os autores supracitados (2007, p. 141) – que também defendem a ideia de que vivemos numa sociedade para além do capitalismo e do “socialismo” –, afirmam que o novo sistema de riquezas seria “[...] resultado não apenas das mudanças dramáticas ocorridas em nosso relacionamento com o tempo e o espaço como também da maneira como nos relacionamos com um terceiro e poderoso fundamento profundo: o conhecimento”43, o
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Alvin Toffler (1983, p. 207) afirma que já foi marxista quando estava na casa dos 20 anos. Afirma, porém, que quanto mais conhecia a sociedade e observava a realidade, bem como as mudanças provocadas pela alta tecnologia, mais julgava “ultrapassada e enganosa a teoria marxista”. O autor acrescenta na página seguinte que “Metade da população do planeta trata suas palavras [de Marx] como se fossem a Sagrada Escritura. O próprio Marx, porém, foi expressão de uma sociedade clássica de Segunda Onda, ou industrial, formada pelos seus pressupostos – e muitos destes simplesmente não se sustentam mais”, como, por exemplo, “o primado da economia” (idem, ibidem). Acrescenta ainda que essa visão é unidimensional, inclusive no que se refere à luta de classes (bastaria pensarmos na complexidade da sociedade e verificarmos o conflito sexual, racial, político, comunitário, etc. para vermos quão multidimensional seria o conflito de classes).
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Os autores chamam de “fundamentos profundos” os elementos centrais no processo de criação da riqueza. Seriam “[...] aqueles fatores e forças que regem a atividade econômica desde que éramos apenas caçadores-
“recurso mais ardiloso e difícil de mensurar” (idem, p. 166). A economia baseada no conhecimento seria, portanto, a “[...] mais revolucionária onda de mudança na criação de riquezas desde o século 18” (idem, p. 198). Essa nova sociedade, de acordo com Toffler (1983, p. 31), “[...] está estreitamente ligada à desmassificação da economia e ao nível crescente da diversidade social”.
A origem dessa nova riqueza, conforme Toffler e Toffler, remontar-se-ia a 1956, ano em que os “colarinhos brancos” teriam ultrapassado o número dos “colarinhos azuis” nos Estados Unidos (alusão ao que seria a substituição do trabalho manual pelo intelectual), mudando qualitativamente a composição da força de trabalho que, antes, era baseada no trabalho manual, mas, a partir dessa data, teria sido baseada em trabalho intelectual. Esse fato teria gerado o novo sistema de produção da riqueza, agora baseada no conhecimento, que, por sua vez, estaria mudando os papéis sociais nos países que realizam essa revolução.
As revoluções, acrescentam os autores, podem destruir fronteiras que antes não eram definidas claramente. Por ocasião da Revolução Industrial, por exemplo, havia uma “[...] fronteira nítida entre a vida do indivíduo em casa e a vida dele no trabalho” (2007, p. 23). Essa fronteira estaria sendo derrubada. Apontam, inclusive, que estaria difícil sabermos hoje “quem trabalha para quem” (idem), visto que uma “verdadeira revolução está em andamento. E a civilização que emerge com ela desafia e contradiz tudo o que pensamos ou acreditamos saber sobre riqueza” (idem, p. 29).
Drucker (1993), mais uma vez, acerca desse novo momento histórico, aponta também que a nova sociedade em que estaríamos vivendo somente foi possível após o “[...] colapso do marxismo como ideologia e do comunismo como sistema”44, configurando-se como diferente daquela que dominou nos últimos cento e cinquenta anos. Nessa “nova” sociedade denominada pós-capitalista – nem anticapitalista nem não-capitalista, em que o livre mercado seria o mecanismo comprovado de integração econômica –, o “fator de produção” seria o conhecimento, cujas classes, supostamente, não seriam mais “capitalistas e proletários”, mas “[...] os trabalhadores do conhecimento e os trabalhadores em serviços” (1993, p. XV). Tendo como “desafio social a dignidade dessa segunda classe”, que constituiria a maioria, a nova sociedade, dividida por uma “dicotomia de valores e percepções estéticas”, deveria garantir “uma educação necessária para que eles sejam trabalhadores do conhecimento” (idem, p. XVII), visando à construção de “uma nova síntese” social.
coletores nômades” (2007, p. 198). Além do conhecimento, o espaço e o tempo seriam os fundamentos profundos que regem a atual “revolução da riqueza” (idem, p. 199).
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Drucker garante que o “colapso do marxismo e do comunismo” foi “previsto” por ele em sua obra Novas Realidades, de 1986.
Referido autor, ao contrário do que dissera antes acerca da já presente sociedade pós-capitalista, afirmou que estaríamos num período de transição – que chegaria ao fim, segundo ele, entre 2010 e 2020. Após esse fim, o mundo conheceria novos “milagres econômicos”, através dos quais “os países pobres e atrasados do Terceiro Mundo se transformar[iam], virtualmente da noite para o dia, em potências econômicas em rápido crescimento” (idem, ibidem).
Castells, por sua vez, para analisar a transição entre a sociedade moderna, baseada na indústria, e a sociedade em rede, baseada na informação e no conhecimento, parte da compreensão de que “[...] a tecnologia não determina a sociedade. Nem a sociedade escreve o curso da transformação tecnológica” (1999, p. 43). Para ele, fatores como criatividade e iniciativa empreendedora “[...] intervêm no processo de descoberta científica, inovação tecnológica e aplicações sociais, de forma que o resultado final depende de um complexo padrão interativo” (idem, ibidem).
Drucker fez a “fantástica” descoberta de que essa “nova realidade” exigiria outros desempenhos econômicos, visando aumentar mais depressa a produtividade do capital (idem, p. 124-125), resultado da produtividade humana no trabalho. Entretanto, para o autor (1977, p. 123), já “não é possível esperar-se que o ‘sistema’ – seja lá o que isso possa ser – vá cuidar das relações entre trabalhador, grupo de trabalho, tarefa e administração. Já não é mais possível adiar o momento de começar a compreender e a enfrentar o problema”, visto que “a força de trabalho está mudando rapidamente” e significa não mais produtividade do trabalho manual, mas do trabalho intelectual (idem, p. 125). Acrescenta ainda que “trabalho intelectual é trabalho. Os mesmos princípios usados para tornar o trabalho manual produtivo também se aplicam ao trabalho intelectual”. Este teórico da Administração, cujo “brilhantismo” é considerado um fenômeno em todo o mundo, em seu livro Sociedade pós-capitalista, aponta quais são as novas bases dessa sociedade que está para além do socialismo e do capitalismo.
Ao contrário da sociedade industrial, a pós-capitalista seria muito mais complexa e representaria a possibilidade de construção da felicidade humana na Terra. Já na introdução do referido livro (p. XIV), Drucker afirma que, até algumas “[...] décadas atrás, todos ‘sabiam’ que uma sociedade pós-capitalista seria certamente marxista. Hoje todos sabemos que marxista é a única coisa que a próxima sociedade não será”, visto que os países estariam se transformando em sociedades com novas classes que não representariam, necessariamente, as classes no “sentido tradicional” do termo. Tentando comprovar sua tese, Drucker intenta apontar que a
[...] sociedade capitalista era dominada por duas classes sociais: os capitalistas, que possuíam e controlavam os meios de produção, e os trabalhadores – os “proletários” de Karl Marx, alienados, explorados, dependentes. Os proletários formaram inicialmente a classe média “afluente”, como resultado da “Revolução da Produtividade” – a revolução que começou por ocasião da morte de Marx em 1883 e atingiu seu clímax em todos os países desenvolvidos pouco depois da Segunda Guerra Mundial. Por volta de 1950, o trabalhador industrial – não mais um “proletário”, mas ainda “mão-de-obra” – parecia dominar a política e a sociedade em todos os países desenvolvidos. Mas, então, com o início da “Revolução Gerencial”, os operários da indústria manufatureira começaram a declinar rapidamente em número e, de forma ainda mais perceptível, em poder e status. Por volta do ano 2000, em nenhum país desenvolvido os trabalhadores tradicionais, que produzem e representam bens, irão representar mais que um sexto ou um oitavo da força de trabalho (1993, p. XIV).
Toffler (1983, p. 41), acerca dessa questão, afirmou “[...] que são obsoletas nossas idéias sobre o trabalho. Elas retroagem a Adam Smith e a Marx sobre divisão do trabalho e alienação” e não se aplicariam ao novo sistema de riqueza. Para a elaboração de seus estudos sobre o trabalho, passou “anos realizando alguns dos piores trabalhos fabris que existem. Trabalho de operário. De linha de montagem [...]”, penetrando “[...] em algumas fábricas e escritórios mais avançados do mundo [...]” para estudar como o trabalho se constituiria na nova economia. Aponta ainda que o trabalhador da chamada “Terceira Onda” não seria “[...] mais um apêndice da máquina” (1983, p. 45), seria o “dono dos meios de produção” (idem, p. 46), e o “próprio capital [seria] cada vez mais baseado em intangíveis” (TOFFLER & TOFFLER, 1995, p. 51). Esses intangíveis seriam contrários ao que é material. Aliás, na posição desses autores, a raiz da infelicidade humana estaria exatamente
[...] na palavra “material” – que é o oposto de “intangível”. Assim, à medida que tanto a economia monetária quanto sua contraparte, a economia não-monetária, afastam-se do trabalho mecânico e caminham em direção a uma economia cuja criação de riqueza baseia-se no conhecimento e na intangibilidade associada a tal cenário, vemos outra mudança histórica acontecer: a da ressurreição de antigos valores que voltam a ser a preocupação central dos seres humanos (TOFFLER; TOFFLER, 2007, p. 321).
Esses acontecimentos, incluindo a “ressurreição de antigos valores”, segundo Toffler e Toffler (2007), não seriam isolados, mas fariam parte de uma “[...] falência verdadeiramente sistêmica [...]”, motivada pela obsolescência das instituições de um modo geral, inclusive a Organização das Nações Unidas (ONU), o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a Organização Mundial do Comércio (OMC), com seus casos de escândalos de diversos tipos. A explicação para essa falência sistêmica global, os autores encontraram-na em Tocqueville, cujas palavras foram postas numa epígrafe (2007, p. 295): “O novo cenário que surge no horizonte ainda está semi-encoberto pelas ruínas do antigo mundo em decadência... e ninguém pode saber quais das antigas instituições sobreviverão, e quais, no final, sobreviverão de vez” na nova sociedade.
O “[...] aparecimento de uma nova espécie de sociedade”, no entendimento de Bell (1976), “[...] põe em questão a distribuição da riqueza, do poder e do status”. Nessa nova sociedade, “[...] riqueza, poder e status não são dimensões de classe, mas sim valores buscados ou conquistados por classes” (idem, p. 60). Nela, a estrutura de classes do século XIX tenderia a desaparecer ao mesmo tempo em que também desapareceria a instituição do empresariado privado (idem, p. 66) – “daí a incerteza que afeta tão grande parte do pensamento político corrente” (idem, p. 67). Por isso, Bell aponta que o significado da sociedade pós-industrial é o seguinte:
1. Ela reforça o papel da Ciência e dos valores cognitivos, como necessidade institucional básica da sociedade; 2. Ao tomar decisões de maneira mais técnica, ela traz o cientista ou o economista mais diretamente para dentro do processo político; 3. Aprofundando as tendências já existentes, que levam à burocratização do trabalho intelectual, ela cria um conjunto de pressões para as maneiras tradicionais de definir os objetivos e valores intelectuais; 4. Criando e dando maior campo à inteligentsia técnica, ela suscita questões fundamentais, com referência às relações entre o técnico e o intelectual literário (1973, p. 60).
Nesse processo de mudança da estrutura social, Castells (1999, p. 55) acrescenta que a reestruturação do capitalismo, positivamente, envidou esforços a favor da “desregulamentação, da privatização e do desmantelamento do contrato social entre capital e trabalho”. Nesse sentido, promoveu reformas que possuíam quatro objetivos principais:
[...] aprofundar a lógica capitalista em busca de lucro nas relações capital/trabalho; aumentar a produtividade do trabalho e do capital; globalizar a produção, circulação e mercados [...]; direcionar o apoio estatal para ganhos de produtividade e competitividade das economias nacionais, frequentemente em detrimento da proteção social e das normas de interesse público.
Para ele, a eficiência dessa reestruturação teria sido garantida pela adaptabilidade e pela flexibilidade, próprias da tecnologia informacional. Por isso, afirma Castells que não estaríamos numa sociedade pós-capitalista, mas capitalista mesmo, na qual o informacionalismo estaria ligado ao rejuvenescimento dessa sociedade (idem, ibidem), que provocou também a “derrota política das organizações dos trabalhadores” (idem, p. 56). Todavia, os países reagiram de modos diferentes à difusão do informacionalismo, visto que possuem uma diversidade cultural e institucional exorbitante. É essa diversidade que garantiria a um determinado país produzir conhecimentos e informações “[...] conectados às redes globais de riqueza, poder e símbolos que funcionam sob essa lógica” (idem, p. 57), o que teria tornado possível a existência de uma sociedade marcada pela racionalidade técnica cujo pilar de sustentação seria o desenvolvimento das tecnologias da comunicação e da informação.
Afirmam ainda Toffler e Toffler (2007) que, na economia do conhecimento, surgiria uma nova categoria que, na verdade, só existe na cabeça de quem a inventou: prosumidor. Dizem os autores:
Todos os dias, uma parte da força de trabalho se aposenta ou morre, e precisa ser substituída. Uma nova geração prepara-se para entrar enquanto outra sai do mercado de trabalho. Se esse processo terminasse, a economia “remunerada”, em algum ponto, estancaria irremediavelmente. Não haveria ninguém para fazer o trabalho remunerado, e o que os marxistas chamaram de “reprodução” econômica deixaria de existir. As pessoas, então, teriam de voltar-se completamente para as necessidades prosumidoras45, como nossos ancestrais faziam (TOFFLER; TOFFLER, 2007, p. 215).
Toffler e Toffler intentam fornecer-nos dados para ilusoriamente “comprovar” que os trabalhadores remunerados estariam sendo rapidamente substituídos pelos prosumidores. Na ótica dos próprios autores,
Em 2002, 17 milhões de famílias americanas investiram no mercado de ações por meio de home brokers, e quase 40 milhões de clientes fizeram suas reservas para viajar via internet (sic). Ao todo, só nos Estados Unidos foram quase 360 milhões de aquisições on-line. Em cada uma dessas transações, os prosumidores agiram como seus próprios corretores, agentes de viagem e vendedores, enquanto as companhias reduziam (e terceirizavam para o próprio cliente) o custo de mão-de-obra.
Drucker, por sua vez, fala na sociedade de empregados para explicar a caracterização dos trabalhadores na economia do conhecimento. Referido autor afirma que, há cinquenta anos, na sociedade de empregados, a palavra “empregado” raramente era usada. Em seu lugar, usavam-se “capital e trabalho” – ou “gerência e trabalhador” (1993, p. 38). Nos tempos hodiernos, o referido termo se refere (ao contrário do que sugere) a pessoas que, autoempregadas em organizações, trabalham sem receber pagamento, não sendo empregadas no sentido legal – e o “fato de serem pagas ou não é secundário” (idem, p. 39). Em vez de salários, recebem “honorários”. Assim, nas posições do autor, quanto maior a educação e a posição social do indivíduo, maior seria sua chance de entrar nessas organizações. Por isso, sociedade pós-capitalista ou sociedade de empregados seriam, para ele, a única e mesma coisa.
No que se refere aos empregados em ocupações inferiores e subalternas – ocupações em serviços – sua posição “não pode ser muito diferente do assalariado, do ‘trabalhador’ de ontem, de quem descendem diretamente” (idem, p. 139-140). Por essa razão, “sua posição, sua produtividade e sua dignidade são problemas sociais básicos da sociedade pós-capitalista” (idem, ibidem), que precisariam ser superados.
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Prosumidor: pro, de produzir; sumidor, de consumir. Prosumidor, portanto, é aquele que produz para seu próprio consumo, segundo Toffler e Toffler (2007).
Marx, segundo Drucker, acreditava que a “alienação” do trabalhador fosse a maior mudança da sociedade capitalista, visto que ele, trabalhador, não possuía mais os instrumentos de produção. Na sociedade do conhecimento, porém, o empregado do conhecimento necessita de ferramentas, cujo custo seria maior em relação às ferramentas do primeiro – visto que o investimento na educação do trabalhador manual é muito menor do que o aplicado sobre a educação do empregado do conhecimento.
Além da qualificação, o empregado do conhecimento não seria totalmente dependente das máquinas. Estas seriam improdutivas porque o conhecimento seria de quem as opera. Empregado e máquinas seriam interdependentes. Esses empregados – ou trabalhadores do conhecimento – não poderiam ser supervisionados – como eram os trabalhadores sob o capitalismo – e carregariam consigo os meios de produção, ou seja, seu conhecimento. Como seriam proprietários dos meios de produção, o capital, no atual contexto histórico, serviria aos empregados. Toffler e Toffler (1995, p. 53) afirmam também que a “mão-de-obra de baixa qualificação, essencialmente braçal e intercambiável, sustentou a Segunda Onda”. A “Terceira Onda”, para eles, seria marcada por uma exigência cada vez maior de qualificação.
Drucker acrescenta que um país que investe em “trabalhadores do conhecimento para projetar e comercializar seus produtos não terá dificuldade para fabricá-los a baixo custo e com alta qualidade” (1993, p. 45). Apesar desse investimento, referido autor, contradizendo a própria tese da sociedade sem trabalho, afirma que “sempre serão necessárias muitas pessoas daquelas que somente podem trazer seus músculos ao trabalho” (1993, p. 47). Com treinamento, elas poderiam tornar-se “produtivas em funções tradicionais” (idem, ibidem), pois, embora a tendência, nas próximas décadas, seja a da existência de “técnicos”, é necessário que existam pessoas que apliquem “aptidões manuais ao trabalho” (idem, ibidem). “Adverte”, porém, que o “trabalho manual, por mais barato que seja, não poderá competir com o trabalho do conhecimento, por melhor remunerado que este seja” (idem, p. 47).
Drucker também “anuncia” que o aumento da produtividade dos trabalhadores atualmente teria superado “[...] o pesadelo do ‘conflito de classes’ do século dezenove” (idem, p. 65). Todavia, seria preciso um “rápido aumento na produtividade dos trabalhadores em serviços para evitar o perigo de um novo ‘conflito de classes’ entre os dois novos grupos dominantes na sociedade pós-capitalista: os trabalhadores do conhecimento e os trabalhadores em serviços” (idem, ibidem) – embora ambas não constituam “classes” no sentido tradicional, acrescenta Drucker. Portanto, para evitar o risco de a sociedade pós-capitalista tornar-se uma sociedade de classes, seria necessário que esse aumento se tornasse, ao mesmo tempo, uma “prioridade social” e uma “prioridade econômica”.
Acrescenta ainda Drucker que a produtividade das classes que comporiam a sociedade pós-capitalista somente poderia ser aumentada com a aplicação do conhecimento ao trabalho, pois máquinas e capital não poderão fazê-lo. Aliás, avisa que estes dois últimos, mais do que criar produtividade, teriam maior probabilidade de impedi-la. Para ele, no atual contexto histórico, seria apenas aparentemente que a economia parece ter permanecido capitalista. Como as “aparências enganam” (1993, p. 139), uma análise mais acurada da questão possibilitar-nos-ia perceber, segundo o autor, que viveríamos numa sociedade diferente, para além do capitalismo, cuja “ordem mundial de ontem est[aria] indo embora depressa, enquanto o amanhã não emergiu” (1993, p. 81). Afirma ainda que logicamente a economia continuará sendo “uma economia de mercado – e mundial” –, que teria alcance ainda maior no atual contexto histórico. Afinal de contas, segundo ele, foi Marx,
[...] um anticapitalista, que disse, há mais de cem anos, que o mercado, apesar das suas imperfeições, ainda é muito superior a todas as outras formas de organização da atividade econômica – um fato que os últimos quarenta anos comprovaram amplamente (1993, p. 139).
O que tornaria o mercado superior, para Drucker, seria “organizar a atividade econômica ao redor da informação” (idem, p. 139 – grifos do autor). O autor “alerta” que, na economia do conhecimento, “não há sinais de um Adam Smith ou David Ricardo” (idem, p. 141). Para ele, os economistas ignoravam, até a Segunda Guerra Mundial, a produtividade do dinheiro. Eles – e Marx inclusive – teriam pensado em termos da quantidade de capital e não da sua produtividade.
Toffler e Toffler (2007) também fazem “estudos” acerca da temática em questão. Os autores da obra em análise “anunciam” em seu livro Riqueza revolucionária: o significado
da riqueza no futuro que a revolução da riqueza possibilitaria oportunidades para a construção
de um futuro brilhante, baseado no extermínio da pobreza no mundo. Todavia, “advertem” que os riscos existentes estão aumentando vertiginosamente. Portanto, esse “[...] futuro que se aproxima não [seria] para os fracos de coração!” (2007, p. 19).
No mundo que se “anuncia”, o caos que vivemos hoje, conforme os autores, pareceria ser diferente diante dos nossos olhos, pois muitas oportunidades que não foram percebidas surgiriam diante de nós. Esse caos seria parte da história, pois, “[...] per se, gera novas idéias” (idem, ibidem).
Essa “revolução silenciosa”, segundo Toffler e Toffler (idem), estaria afetando bilhões de vida no planeta, fazendo com que regiões inteiras do globo definhem ou prosperem. Os Estados Unidos, por exemplo, país que teria adotado o novo sistema de
riqueza, ameaça os “velhos interesses políticos, sociais e financeiros da comunidade global”,