4. ARAŞTIRMA SONUÇLARI VE TARTIŞMA
4.1. Performans özellikleri
As obras pertencentes à segunda categoria de quadrinhos digitais na Internet diferem bastante daquelas que se agrupam entre os Herdeiros, tanto em termos formais como em termos de narrativa e estética, por uma série de razões. Em primeiro lugar, a tendência dessa segunda categoria, cujos quadrinhos chamarei de Híbridos, é romper o máximo possível com os paradigmas do meio impresso, mantendo, entretanto, os elementos que fundamentam a linguagem das histórias em quadrinhos (página — transformada em tela —, vinheta e elipse). A diagramação, a composição dos elementos e as dimensões da página são pensadas para exibição direta em um monitor, o que reduz o problema de cortes e do aparecimento de barras de rolagem.
A ruptura se potencializa pelas novas possibilidades que a tecnologia de criação em meio digital dá ao quadrinho: a Informática permite que essa forma de arte incorpore elementos que, antes, lhe eram completamente alheios, como o cinema de animação, o som, a reorganização dinâmica da composição da página, o emprego de linguagem de computadores
84 e o simples ato de navegar com enorme facilidade — de permitir ao leitor escolher que caminho tomar no decorrer da narrativa, e de acessar links que o levem a outros lugares com assuntos que se relacionem ou mesmo extrapolem o tema inicial abordado pelo quadrinho. Os quadrinhos Híbridos exploram mais largamente as características da Internet, não somente para divulgar o trabalho e estreitar o contato entre autor e leitor-internauta, mas para enriquecer sua própria capacidade expressiva, como se verá adiante nesta dissertação. Trata- se, portanto, de um tipo de arte digital cujo objetivo é o de existir apenas dentro da Internet, usufruindo o máximo possível dos recursos multimidiáticos, não-lineares e mesmo interativos que somente um ambiente virtual em uma rede sociotécnica pode congregar.
Esse tipo de quadrinho é uma experiência ainda muito recente. Um dos primeiros autores a perceber que a world wide web, com novas possibilidades expressivas e estéticas, poderia ser mais que um espaço extra para a existência da arte quadrinizada foi Charley Parker, estadunidense que, em 1995, punha em rede sua série experimental Argon Zark!47. Devido a pouca idade — ou talvez por causa da falta de percepção de grande parte dos autores em enxergar na rede um veículo de propriedades únicas, e não simplesmente um meio de divulgação, conforme McCLOUD disserta longamente na segunda parte de Reinventando os
quadrinhos (2006) —, os quadrinhos para a Internet que buscam extrapolar as convenções da
imprensa não são muito fáceis de encontrar, se comparados com a quantidade de quadrinhos Herdeiros, mais fiéis às impressoras e ao papel. Os Híbridos procuram uma identidade que se firme no meio digital em rede, e por isso mesmo são extremamente experimentais, ao menos no que tange à apresentação formal: cada um dos autores propõe os seus ensaios (com animações, sons etc.) e, depois, separam o que acreditam ser mais adequado para suas narrativas, seja em termos de forma, seja em termos de viabilidade tecnológica.
Os Híbridos incorporam à sua forma elementos pertencentes a outras manifestações artísticas, como a música e o cinema de animação. Também é típica dos Híbridos a utilização freqüente do hipertexto e das linguagens de marcação e programação (HTML, Java, JavaScript e ActionScript) como potencializadores de sua narratividade — e não somente como recipientes, como ocorre entre os Herdeiros. Essa convergência de qualidades é simultaneamente controversa e admirável. Há quem defenda que esses quadrinhos, possíveis apenas na Internet, não são mais uma obra de arte quadrinizada, e sim outra coisa para a qual ainda carecemos de definição; uma forma de expressão cujo nome e cuja classificação artística somente o tempo, as pesquisas e a recepção dos leitores-internautas
85 poderão definir, visto que há vários elementos que podem se misturar em apenas um trabalho: animação, som síncrono e assíncrono, música, interatividade, onomatopéias escritas, linhas de movimento e balões. Por outro lado, existem pessoas que classificam perfeitamente como quadrinhos tais obras, uma vez que elas, se bem que congreguem muitas características oriundas de outros meios, ainda mantêm a estrutura fundamental de estabelecer narrativas por meio de imagens em seqüência dentro de uma dada área (a página, ou a tela, que lhe corresponde), acompanhadas ou não de texto escrito.
Na tentativa de encontrar um norte, é normal que surjam outros nomes para colaborar com a definição desse novo tipo de trabalho artístico. Na rede, como uma diferenciação do termo webcomic (usado genericamente, a partir de 1995, para qualquer quadrinho veiculado na Internet, independentemente de estar entre os Herdeiros ou os Híbridos), vem se tornando comum encontrar o termo hypercomic para classificar os quadrinhos que utilizam elementos de animação ou permitem múltiplas escolhas de caminhos narrativos ao leitor-internauta. Edgar FRANCO inventa um nome diferente para os Híbridos:
HQtrônicas. E assim defende o batismo:
[...] propõe-se então o neologismo “HQtrônicas” — formado pela contração da abreviação “HQ” (histórias em quadrinhos), usada comumente para referir-se aos quadrinhos no Brasil, com o termo “eletrônicas”, referindo-se ao novo suporte. Esse neologismo é uma tradução livre do termo americano electronic comics, que também nos parece falho devido à palavra comics (cômicos), que faz uso de um gênero para definir as histórias em quadrinhos. Diante disso, acreditamos que o nome HQtrônicas seja um termo mais interessante para batizarmos o estágio atual em que se encontra essa forma híbrida. Devemos salientar que a definição do que nomeamos HQtrônicas inclui efetivamente todos os trabalhos que unem um (ou mais) dos códigos da linguagem tradicional das HQs no suporte papel [...] com uma (ou mais) das novas possibilidades abertas pela hipermídia [...] (2004, p. 170-171) As “novas possibilidades” às quais FRANCO se refere vêm, exatamente, da capacidade que a tecnologia de criação informatizada oferece aos quadrinhos, possibilitando- os incorporar características alheias à sua linguagem original, que se desenvolveu durante dezenas de anos no meio impresso e, agora, se vê confrontada com a convergência para o digital. No capítulo a seguir, detalharei tais incorporações — ou hibridismos —, levantadas, primeiramente, pelo próprio FRANCO e por Scott McCLOUD.
86