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PEŞİN ÖDENMİŞ GİDERLER VE ERTELENMİŞ GELİRLER

Nos Estados nacionais que se constituíram ao longo do século XIX, os agentes da unificação tiveram de arcar com a presença, antagônica e/ou complementar, das identidades políticas regionais: em estudos sobre a Terceira República na França, Anne-Marie Thiesse percebe nuances na relação entre regionalismos e identidade nacional. No caso francês, as identidades regionais não se desenvolveram em oposição ao nacionalismo emergente, mas sobrevieram como forma consensual que buscava evitar os excessos da centralização.170

Sob essa ótica, a nação constituía-se um conjunto harmonioso de regionalismos complementares, fundamentados na máxima: ―A unidade (nacional) é rica por suas diversidades (regionais)‖.171 No processo de construção do Estado nacional francês, o ensino público primário foi uma das instituições responsáveis por promover a imagem da França como síntese ideal do continente europeu, nação composta por diferentes regiões que, em conjunto, perfaziam uma totalidade harmônica. Os sentimentos patrióticos também eram ensinados aos franceses, que aprendiam desde cedo que, no amor pela ―pequena pátria‖, ou região, residia o respeito pela ―grande pátria‖, ou nação.172

169 Ibidem, p. X.

170 THIESSE, 1995, p. 5. 171 Idem, 2009, p. 15.

172 Para Thiesse, a ―pequena pátria‖ era o espaço familiar no qual a criança fazia suas primeiras

descobertas e ao qual ela estava espontaneamente ligada. Nesse sentido, o ensino regional deveria ser ao mesmo tempo uma educação intelectual, estética e afetiva. Na escola, as crianças aprendiam a perceber o espaço familiar não somente como terreno agrícola, local de trabalho

A relação entre Estado nacional e regionalismos políticos no Brasil aproxima-se da experiência francesa na tentativa de manutenção da unidade. No Brasil do século XIX, o regionalismo não se desenvolveu antagonicamente ao sentimento de identidade nacional, mas, sim, sob o signo de um pacto político de privilégios e concessões firmado entre as províncias e o governo central.

A inserção da visão corográfica nos projetos educacionais do Império foi, também, recurso bastante utilizado para forjar a nacionalidade brasileira em congruência com as identidades políticas provinciais. Não raramente, manuais de história e geografia eram os primeiros e únicos livros aos quais os alunos das instituições de ensino tinham acesso. Ademais, lembremos que, se hodiernamente os livros didáticos transparecem como fonte de referência marginal, no passado, essas publicações faziam parte da vida cultural brasileira, sendo investidas de autoridade que transcendia o âmbito escolar.173

As próximas corografias que analisamos foram elaboradas sob a forma de compêndios didáticos para serem utilizadas em instituições de ensino no Império. Seus conteúdos organizaram-se de acordo com as diretrizes da pedagogia da nacionalidade, objetivando lapidar o sentimento patriótico dos alunos em relação ao Império e às províncias natais.

Primeiramente destacamos a Corographia ou abreviada História

Geographica do Império do Brasil (1829), de Domingos José Antonio Rebello. Escrita por um negociante local, essa obra foi oferecida especialmente aos alunos do Colégio dos Órfãos de São Joaquim, da cidade de Salvador.

No prefácio da Corographia ou abreviada História Geographica, Rebello esclarece a motivação de seu empreendimento, que era o ―grande, e verdadeiro amor da Patria‖, cuidando de apresentar o método que havia escolhido para cumprir o programa de sua obra:

Servir-me-há só de desculpa o grande, e verdadeiro amor da Patria, que me inflamma, e me excitou a emprehender animoso a coordinação desta Corographia Brasílica, na qual procurei aproximar-me a melhor methodo para clara intelligencia, e mais facil percepção dos principiantes; servindo a mesma de idéias preliminares de todo este Imperio nas suas 19 Provincias, designadas nas 19 Estrelas da nossa auri-verde Bandeira

dos pais, mas também como uma bela paisagem: ―Tratava-se de uma conversão do olhar, substituindo o ponto de vista do trabalhador pelos do artista ou do turista‖. Ibidem, p. 19.

Nacional, e só particularmente extensa nas quatro Comarcas, que compõem esta Provincia, principalmente a de S. Salvador da Bahia, nossa dilecta, leal e valorosa Patria, com noticias circunstanciadas dos seos Templos, Estabelecimentos Publicos, e o mais que lhe he concernente.174

A intenção de Rebello era, portanto, apresentar ―uma idéia aproximada em geral do Brasil, e em particular da Provincia da Bahia, isto é, do mais notável, e essencial á seu respeito‖. Nisso se revela a lógica de percepção espacial do autor, que vai da totalidade do continente americano à especificidade municipal.

A exposição desse conteúdo não deveria ser extensa ou demasiadamente complexa, mas, sim, de ―clara intelligencia, e mais fácil percepção‖, abreviadas na medida certa para principiantes da visão corográfica.

Percebemos o valor utilitário do conhecimento do espaço, empregado na lapidação do patriotismo e na introdução dos estudantes no mundo da leitura. No juízo do autor, o estudo pormenorizado da província era ponto de partida para a ampliação dos horizontes estudantis, devendo ser empreendido antes de se conhecer a história e a geografia de outras nações:

É notável que senão aprenda, e saiba primeiro que nenhuma outra, a história do nosso belo Paiz natal, tratando-se em menos cabo aquilo que antes de tudo deve-se ler para conhecer-se a riqueza imensa das produções do nosso terreno admirável, para então seguir-se á dos Paises Estrangeiros.175

Assim, ao reconhecer o Brasil como um país, mais especificamente o ―país natal‖ tanto do autor quanto dos leitores, a Corographia ou abreviada História

Geographica direcionava a perspectiva dos alunos de maneira a fazê-los perceber os particularismos de que se compunha a totalidade. Tal maneira de ver o mundo é certamente um dos elementos mais importantes na construção de qualquer identidade nacional, pois molda, desde tenra idade, a percepção espacial do sujeito, fazendo-o remeter-se sempre aos referenciais regionais e locais.

Para Rebello, era indesculpável que se ignorasse a grandeza do território nacional. A qualidade e a diversidade dos produtos naturais eram sinais evidentes da prosperidade nacional, as quais faziam do Brasil um ―mimo da Natureza‖:

174REBELLO, 1829, p. 1.

Não he pois o intenso amor da Patria quem agora falla he a Natureza prodigiosa, e que espanta ver a sua constante producção neste Paiz delicioso, e ameno nos tres Reinos Mineral, Animal, e Vegetal; onde quase sempre existe (pode-se assim dizer) huma continuada Primavera, e Outono, porque em todo o anno ha fructas, flores, todos os legumes, e hortaliças.176 Outra obra concebida para servir de guia à ―mocidade estudiosa‖ foi o

Ensaio Corografico do Império do Brasil (1854), escrito por Alexandre José de Mello Moraes177 e Ignácio Accioli de Cerqueira e Silva.178 Esses autores, cuja produção intelectual foi profícua e muito conhecida durante o século XIX, autointitulavam-se, respectivamente, ―Doutor em Medicina e membro de diversas sociedades scientificas‖ e ―Commendador da Ordem da Rosa, Cavalleiro da Imperial do Cruzeiro, e da de Christo, Chronista do Imperio, &c.‖.179 Esse arrolamento de títulos sugere-nos que vínculos institucionais e nobiliárquicos eram credenciais que autorizavam esses homens a descrever o Império.

Chama-nos atenção o método utilizado pelos autores na elaboração da obra, segundo eles, um ―opúsculo, extraído do que mais digno de atenção se há escrito acerca do Brasil‖.180 Essa definição sugere que o Ensaio Corografico seja, na verdade, como a Corographia Brasílica: um estado da arte sobre o que fora produzido até então, e não produto exclusivamente de observação empírica.

A compilação de informações certamente estava submetida a critérios de seleção, o que fica subentendido na seguinte advertência: ―nele [no opúsculo] compendiamos tudo quanto achamos digno de atenção ou de nota, remetendo ao silencio aquilo que não nos pareceu credor de merecimento por qualquer motivo‖. Assim, como num jogo de luz e sombra, o Ensaio Corografico revelava ao leitor uma imagem de Império aparentemente única, sob a qual se ocultavam camadas

176 Ibidem, p. 33.

177 Alexandre José de Mello Moraes (1816 – 1882) foi um dos divulgadores da medicina

homeopática no Brasil. No Rio de Janeiro, foi médico do Convento de Santo Antonio, tendo se ocupado, nos últimos anos de sua vida, a escrever sobre a história pátria. Constam, dentre sua produção intelectual: Guia Prático de Medicina Homeopática para uso do povo (1860);

Chronica geral e minuciosa do imperio do Brazil (1882); Genealogia de algumas famílias do

Brazil (1878). BLAKE, 1883, v1, p. 34 – 38.

178 Ignácio Accioli de Cerqueira e Silva (1808 – 1865) participou ativamente do processo de

independência do Brasil, tendo sido Comendador da Ordem da Rosa, Cavaleiro das Ordens de Cristo e do Cruzeiro, sócio do IHGB, da Biblioteca Clássica Portuguesa da Bahia, da Politécnica Prática de Paris e da dos Antiquários do Norte da Dinamarca. Destacamos seus seguintes títulos: Corographia paraense (1833); Memórias Históricas da provincia da Bahia (1852) e Ensaio Chorographico do Imperio do Brazil (1854). Idem, 1893, v.2, p. 256 – 259.

179 MORAES; SILVA, 1854. 180 Ibidem, p. 1.

de perspectivas, escolhas teóricas e projetos políticos.

Na segunda metade do século XIX, a falta de consenso entre os governos provinciais e a emergência de regionalismos eram fatores que dificultavam o delineamento de um mapa definitivo do território nacional. Portanto, mesmo buscando compor uma imagem harmônica do Brasil, os autores não ignoram o caráter indefinido das fronteiras interprovinciais:

As alterações a que ora estão sujeitas as províncias do Brasil com as annuaes resoluções de suas respectivas assembléias legislativas, não permittem quasi fixar-se com segurança sua divisão interna.181

Quanto a Minas, os autores definem-na como a província mais montanhosa do Império. À uberdade do solo mineiro, onde ―vegetam prodigiosamente os grãos‖, eles acrescentam a proficuidade dos habitantes dessa província nas artes e nas letras:

Esta provincia é também notavel pelos gênios que tem apresentado, e frequentemente apresenta nos ramos scientificos, sendo patria do celebre fr. José de Santa Rita Durão, autor do poema Caramuru, e foi nella que compoz o doutor Thomaz Antonio Gonzaga a bellissima canção Marília de Dirceo.182

O legado cultural dos mineiros foi importante ingrediente na formação da identidade nacional. No século XIX, Minas era vista como uma síntese histórica do Brasil, terra de passado glorioso pela obstinada oposição de seus habitantes à opressão metropolitana. Aos mineiros, era atribuído papel de destaque na preservação das instituições políticas do país. Personagens da Inconfidência de 1789, como Tomaz Antonio Gonzaga, tiveram sua verve libertária filtrada pelos agentes construtores do Estado nacional. Nas palavras de Maria Arminda do Nascimento Arruda: ―a alusão antiga à rebeldia dos mineiros transmutou-se, assim, nas falas de ordem, de equilíbrio e de preservação da unidade‖.183

No Brasil, a visão corográfica esteve frequentemente relacionada a uma

181 Ibidem, p. 15. 182 Ibidem, p. 179.

concepção de história que atribuía à natureza o prognóstico da grandiosidade nacional. Específico dessa perspectiva é o comentário de Mello Moraes em outra obra de sua autoria, a Corographia historica, chronographica, genealógica,

nobiliária e politica do Império do Brasil (1863):

Parece que a Providencia Divina tinha encaminhado a Pedro Álvares Cabral, na descoberta de um vastíssimo continente, para servir de refugio, mais tarde a dynastia dos Bourbons, e de amparo á nação portugueza. O modo como foi descoberto este grande imperio do Brasil, revela um milagre que claramente nos demonstra os mysterios de Deos, quando ao porvir das nações. Depois que principiou o Brasil a ser colonizado, [...] na côrte de Lisboa homens leaes e pensadores, pelos conhecimentos que adquerirão do continente brasileiro, olharão para o Brasil, não como um territorio de especulação mercantil, porem como a taboa de salvação da monarquia portugueza.184

Nessa passagem, chama-nos atenção a associação semântica que o autor estabelece entre os termos continente, império e nação. Primeiramente, ele faz referencia à descoberta de um ―vastíssimo continente‖, que teria servido posteriormente de refúgio à dinastia bourbonica e amparo à ―nação portuguesa‖. Na frase seguinte, o objeto da descoberta passa a ser o ―grande império do Brasil‖, como se este precedesse ao continente americano. O comentário completa-se com uma menção ao ―continente brasileiro‖, que teria servido de experiência aos aventureiros e tábua de salvação para a ―monarquia portuguesa‖.

Longe de se ser fortuita, a aparente indistinção entre termos geográficos (continente) e conceitos políticos (nação, império, monarquia) indica um modo de conceber a história do país. Para Mello Moraes, o que Cabral e seus companheiros descobriram foi um ―vastíssimo continente‖, que se tornou ―continente brasileiro‖ por meio da ação dos homens que o batizaram como tal. Nesse raciocínio, os limites do território nacional confundem-se com a vastidão dos limites naturais da América do Sul. Notemos que, em momento algum, o autor faz menção às relações de fronteira entre o Brasil e outros países da América do Sul. Sob essa perspectiva centrada no grande Império do Brasil, Portugal era como um náufrago frágil que chega às costas brasileiras e nelas deposita os resquícios de seu passado e as esperanças de seu futuro.

184 MORAES, 1863, p. 12.

1.2.3 Joaquim Manoel de Macedo, uma imagem de Brasil para se mostrar ao

Benzer Belgeler