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Diferentemente de família, a entidade familiar consiste na comunidade formada pelos pais, que vivem em união estável, ou por qualquer dos pais e descendentes, como prescreve o art. 226, §§ 3º e 4º da Constituição Federal, independentemente de existir o vínculo conjugal, que a originou, perdendo o status de sociedade de fato.
Tradicionalmente, o termo concubinato era empregado
(etimologicamente concubanus deriva do verbo concubar), significando comunhão de leito. Contudo, as referências contidas no Código Civil, todas em sentido negativo, geraram carga de preconceito, discriminação e tratamento odioso dispensado às uniões extramatrimoniais, assemelhado ao termo “desquite”.
Assim, a lei, ao alterar a nomenclatura, adotando o termo união
estável, não fez o mais recomendável, pois o referido adjetivo, caracteriza
que somente este tipo de união é dotado de estabilidade, excluindo, por exemplo, a união matrimonial de tal solidez, o que não é verdade. Propõe- se, assim, o termo companheirismo na designação do presente instituto. Conceitua-se, portanto, companheirismo a união extramatrimonial monogâmica entre o homem e a mulher desimpedidos, como vínculo formador e mantenedor da família, estabelecendo uma comunhão de vida e de almas, nos moldes do casamento, de forma duradoura, contínua, notória e estável33.
Etimologicamente, o termo exprime a idéia de comunidade de leito34, ou seja, do latim concubans, concubantis, o que quer dizer dorme, se deita
com. Em sentido comum, significa o estado entre um homem e uma mulher,
os quais vivem juntos, maritalmente, sem o vínculo do matrimônio. Isto pode ocorrer sob o mesmo teto ou sob tetos diferentes, sem o laço matrimonial.
Segundo conceituação de Maria Helena Diniz, “a união estável consiste numa união livre e estável de pessoas livres de sexos diferentes, que não estão ligadas entre si por casamento civil”.35
Assim, na concepção de Nomia Alves Fardin36, união estável é a relação de um casal que vive como marido e mulher sem o vínculo do matrimônio.
De acordo com o conceito dado pelo Novo Dicionário Jurídico
Brasileiro, de José Náufel (1988), citado por Noemia Alves Fardin37, diz-se que concubinato, o qual hoje conceituamos como união estável, é a união ostensiva de duas pessoas de sexos diferentes, que, embora não estando ligadas entre si por casamento válido ou putativo, vivem como se fossem marido e mulher, sob o mesmo teto, na maioria dos casos.
No mesmo sentido, para Washington de Barros Monteiro38 é a união entre o homem e a mulher, sem casamento. Por outras palavras, é a ausência de matrimônio para o casal que viva como marido e mulher.
Por fim, aludindo o mesmo tema, Gustavo A. Bossert
la comunicación o trato de la mujer que habita com algún hombre como si fuera su marido, siendo ambos libres y solteros, y pudiendo contraer entre si legítimo matrimonio. Coincidiendo com lo esencial de esa definición, y teniendo em cuenta la
34 FARDIN, Noemia Alves.Op.cit, p. 35. 35 DINIZ, Maria Helena. Op.cit., p. 373. 36 Op.cit, p. 35
37 Op. cit, p. 36
características que presenta frente al derecho la figura, y sin pretender dar uma definición precisa, entendemos que puede considerarse que el concubinato es la unión permanente de um hombre y yna mujer, que sin estar unidos por matrimonio, mantienen uma comunidad de habitación y de vida, de modo similar a la que existe entre los cónyuges. 39
Assim, insta ressaltar que o concubinato puro ou qualificado é a união estável entre um homem e uma mulher, que não estejam ligados entre si por matrimônio legal, vivendo sob o mesmo teto ou sob tetos diferentes.
Edgar Moura Bittencourt40 define a união estável em dois sentidos: um amplo ou lato e outro estrito. No sentido amplo, define a união estável como união entre homem e mulher sob o mesmo teto ou sob tetos diferentes, configurando a forma primitiva das uniões sexuais estáveis e o estado intermediário entre a união fugaz e passageira e o matrimônio. Em sentido estrito, é a convivência more uxório, ou seja, o convívio como se fossem marido e mulher, a união de fato, implicando não somente as relações sexuais, mas também a prolongada comunhão de vida.
Caio Mario Silva Pereira, citando Misabel Derzi, classifica a união estável nos seguintes termos
a) alternativa, para os separados de fato ou judicialmente, por haver impedimento para o casamento, enquanto aguardam o divórcio; b) experimental, em caso de noivos que passam a viver juntos, gerando um “casamento” por antecipação, onde procuram se conhecer melhor, averiguando qualidades e defeitos de cada um antes e convolarem núpcias; c) reativa, em que um ou ambos, em razão de traumas ou de experiências negativas, advindos de um casamento infeliz, repelem qualquer intromissão legal em suas relações; d) econômica, para obtenção de dedução de imposto sobre a renda ou de bolsa integral de estudos no exterior ou para evitar perda de pensão, na hipótese de o beneficiário ser viúvo ou filha solteira,e por fim e) tradicional, quando os conviventes por
39 Op.cit, p. 37.
40 BITTENCOURT, Edgard de Moura, Concubinato, São Paulo: Ed. Universitária de Direito, 1975,
motivo social ou psicanalítico, preferem deixar a porta aberta para um possível dissolução. 41
Formar família, segundo Rolf Madaleno42, não significa, como no passado, casar diante da lei. Isso porque família não é sinônimo de matrimônio, mas uma das opções para formação da entidade familiar, que também se constitui pela união estável e comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes e que é chamada pela doutrina de família monoparental.
Família, para João Baptista Villela, “não é apenas o conjunto de
pessoas onde uma dualidade de cônjuges ou de pais esteja configurada, senão também qualquer expressão grupal articulada por uma relação de descendência.”43 Tal como casamento, constituir família, sob a ótica da união estável, nasce do amor que tratou de primeiro unir casal heterossexual, com os propósitos e fins comuns, para que, assim afeiçoados, determinem por seu convívio, um conjunto já preexistente de recíprocos direitos e obrigações, objetivando a partilha do amor e felicidade e eventuais filhos que poderão vir.
Talvez a maior tarefa do julgador seja de uma demanda declaratória de união estável, não sendo possível o reconhecimento de entidade familiar, tendo em vista o objetivo de uma união livre e consciente entre si. A proteção do Estado da caracterização da união estável se dá pela semelhança ao casamento e em plena comunidade de vida, coabitando ou não, a realizarem um propósito único de viver um pelo outro, inexistindo relações paralelas.
41 DERZI, Misabel apud DINIZ, Maria Helena. Curso de Direito Civil Brasileiro. V5. 22ª ed. São
Paulo:Saraiva, p.353.
42 MADALENO, Rolf. A União (Ins)Estável – Relações Paralelas. Disponível em:
www.flaviotartuce.adv.br, acessado em 20/02/2008.
43 VILLELA, João Baptista. As novas relações de família, In: PEREIRA, Rodrigo da Cunha, In
José Lamartine Corrêa de Oliveira, juntamente com Francisco José Ferreira Muniz44, define que
A relação de fato entra igualmente no âmbito do juridicamente relevante. A rigor não é essencial o nexo família-matrimônio: a família não se funda necessariamente no casamento. Isto significa, portanto, que casamento e família são realidades diversas,(...)a família de fato, que nasce espontaneamente, na sociedade precisa cercar-se de garantias jurídicas, para que não só o respeito humano entre seus membros, mas a responsabilidade, possam nortear suas vidas.
O reconhecimento da união estável como entidade familiar não constitui estímulo ao concubinato e sim um incentivo à sua conversão em matrimônio, visto que, família é o gênero da qual entidade familiar é espécie.
Na ótica de Eduardo de Oliveira Leite45, o atual Código Civil endossou, de certa forma, alargando a proposta constitucional no sentido da família, na medida em que procurou equiparar a união estável ao casamento quando, em momento algum, o constituinte de 1988 pretendeu igualar as duas realidades jurídicas. Para tanto, é necessário que se frise que, para a Constituição, é reconhecida a união estável entre homem e mulher como entidade familiar, devendo a lei facilitar a sua conversão em casamento.
Assim, se a lei infraconstitucional deve facilitar sua conversão, fica evidente que apesar da norma constitucional reconhecer a união estável como uma nova forma de conjugalidade46, continua prevalecendo o casamento, haja vista a tratativa da Constituição Federal em seu artigo 226, § 3º.
44 OLIVEIRA, José Lamartine Corrêa, MUNIZ, Francisco José Ferreira. Curso de direito de família,
2ª ed.Curitiba: Juruá, 1998, p. 363.
45 LEITE, Eduardo de Oliveira. Comentários ao Novo Código Civil no direito das sucessões. V.
XXI, Rio de Janeiro: Editora Forense, 2005, p. 51.
Assim, o Tribunal de Justiça de São Paulo, regulamentou através do Provimento nº. 10/1996, atualizado pelo Provimento nº 14/200647, a formalizar a conversão da união estável em casamento. No mesmo sentido, o Provimento 133/CGJ/2005 e 138/CGJ/200548, o Tribunal de Justiça de
47 PROVIMENTO Nº. 14/2006
Ementa: Trata da lavratura do assento da conversão da união estável em casamento, independentemente de qualquer solenidade, prescindindo o ato da celebração do matrimônio. Altera a redação dos subitens 87.2 e 87.3, Capítulo XVII, das Normas de Serviço da Corregedoria Geral da Justiça.
Altera a redação dos subitens 87.2 e 87.3, do Capítulo XVII, das Normas de Serviço da Corregedoria Geral da Justiça.
O DESEMBARGADOR GILBERTO PASSOS DE FREITAS, CORREGEDOR GERAL DA JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO, no uso de suas atribuições legais;
CONSIDERANDO a necessidade de aperfeiçoamento do texto da normatização administrativa; CONSIDERANDO o sugerido, exposto e decidido nos autos do Protocolado CG. n° 44.825/2005 - DEGE 2.1;
RESOLVE:
Artigo 1º - O subitem 87.2 do Capítulo XVII das Normas de Serviço da Corregedoria Geral da Justiça passa a ter a seguinte redação:
87.2. Decorrido o prazo legal do edital, os autos serão encaminhados ao Juiz Corregedor Permanente, salvo se este houver editado portaria nos moldes previstos no item 66 supra.
Artigo 2º - O subitem 87.3 do Capítulo XVII das Normas de Serviço da Corregedoria Geral da Justiça passa a ter a seguinte redação:
87.3. Estando em termos o pedido, será lavrado o assento da conversão da união estável em casamento, independentemente de qualquer solenidade, prescindindo o ato da celebração do matrimônio.
Artigo 3º - Este Provimento entrará em vigor na data da publicação, revogadas as disposições em sentido contrário.
São Paulo, 12 de junho de 2006. a)GILBERTO PASSOS DE FREITAS CORREGEDOR GERAL DA JUSTIÇA DJE, de 19.06.2006