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As Constituições anteriores a 1988 declaravam que a família, constituída pelos laços do casamento indissolúvel, recebia especial proteção do Estado.
64 AZEVEDO, Álvaro Villaça. Do concubinato ao casamento de fato. 2ª ed. São Paulo: Editora
Atlas Jurídico, 2002, p.151.
65 GUIMARÃES, Luís Paulo Cotrim. Negócio jurídico sem outorga do cônjuge ou convivente. São
A Constituição Política do Império do Brasil foi omissa no assunto. Obedecendo aos modelos estrangeiros, não fez menção expressa à família, exceto no que diz respeito aos filhos, submetidos ao poder do pai de família (pátrio poder) - influência do Direito romano.
O Decreto n.º181, de 24 de janeiro de 1890, secularizou o casamento e a Constituição Republicana, de 24 de fevereiro de 1891, reconheceu, somente, o casamento civil (artigo 72, § 4º), com celebração gratuita, convertendo-se o casamento em instituição legal, passando o Estado a se tornar presente nas relações de família.
Desde a Constituição República de 1887, a proteção constitucional era destinada apenas à família legítima. O concubinato, porém, sempre se apresentou com uma realidade inegável, à margem do casamento civil.
O casamento civil, imposto pelo Estado, em 1890, pelo Decreto supra mencionado, aniquilou todas as aludidas formas naturais de constituição de família, que, há aproximadamente 4.000 anos, vinham sendo praticadas.
Nesse sentido, passa a Constituição a regular o conceito de família, originados pelo casamento, distinguindo a família legítima da ilegítima. Com a preocupação em assentar a família no instituto do casamento, a Constituição outorgada a 16 de julho de 1934 estatuiu no artigo 144 caput que "A família, constituída pelo casamento indissolúvel, está sob a proteção especial do Estado". Admitiu, assim, o casamento civil e o casamento religioso com efeitos civis, desde que registrado devidamente conforme preceitua o artigo 146.
Como podemos perceber, há discriminada proteção no que diz respeito
à família legítima, embora isentando de selos e emolumentos no reconhecimento de filhos naturais, igualando os impostos sobre a herança
que lhes caibam e aos filhos legítimos, conforme artigo 147 da Constituição de 1934.
A Constituição de 1937, no artigo 124, declarou constituída a família pelo casamento de vínculo indissolúvel, repetindo, sem alteração, o art. 144 da Constituição anterior, exceto no que diz respeito à igualdade entre os filhos legítimos e naturais. O artigo 126 da Constituição de 1937 diz: “Aos filhos naturais, facilitando-lhes o reconhecimento, a lei assegurará igualdade com os legítimos, extensivos àqueles os direitos e deveres que em relação a estes incubem aos pais”.
Assim, seguiram-se as Constituições de 1946 (artigo 163, §§ 1º e 2º) e de 1967 (artigo 167, §§ 1º, 2º e 3º) e Emenda de 1969 (artigo 175, §§ 1º, 2º e 3º), declarando que o casamento é civil, devidamente registrado.
Pode-se notar, dessa forma, que os textos constitucionais pátrios sempre primaram por declarar proteção à família constituída sob casamento; todavia, sempre silenciaram sobre a proteção da família de fato.
O que ocorria, e ocorre até os dias atuais, era a percepção de que tais uniões, que antes ocorriam de maneira clandestina e de forma oculta, hoje fazem-se ostensivamente perante a sociedade, portando-se como se casados fossem. Entre a classe mais humilde, a proliferação de uniões informais, em que o casamento não acontecia na maioria das vezes, ou por falta de desejo ou por falta de condições, haja vista que não casar é menos uma vocação de ruptura e mais uma opção tácita imposta pela dureza da vida66.
Na verdade, todas essas Constituições não se preocuparam com o
66 FACHIN, Luiz Edson. Elementos críticos do direito de familia. Rio de Janeiro: Renovar, 1999, p.
fenômeno sociológico que é a existência da chamada família dirigida, a qual não é constituída pelo casamento, mas que tem influência inegável na formação da ordem social do país.
Pontes de Miranda67, ao comentar a Constituição de 1967, doutrina: "A família é protegida como instituição; mas a alusão a casamento poderia levar a pensar-se que só existe família onde houve casamento, em que se fundasse e, ainda mais, que tal casamento há de ser indissolúvel".
Com a análise das Constituições anteriores a 1988, podemos afirmar que embora a família seja um fato natural e o casamento uma convenção social, somente pelo casamento é que se passa a ser reconhecia por “família legítima”, deixando a família de fato afastada do Direito, e assim, desprovida de proteção estatal.
Segundo Eduardo de Oliveira Leite68, o país passava de uma fase de total negação de atribuição de efeitos jurídicos ao concubinato, cuja fase inicial se estendia de 1916 a 1988, ao total reconhecimento das uniões estáveis, cuja fase intermediária se deu com a promulgação da Constituição de 1988 até 1994, quando veio a primeira publicação de uma norma infraconstitucional, vivendo atualmente uma fase de perplexidade e vacilações, da publicação da Lei 8971 de 1994 até os dias de hoje, de forma a nortear a postura definitiva da lei pátria, com rumos mais seguros.
A Constituição Federal de 1988 abriu caminho à livre escolha de convivência familiar, podendo ser escolhida a forma da união estável, protegida pelo Estado, como entidade familiar, embora esta não apresente força de matrimônio.
67 MIRANDA, Francisco Cavalcante Pontes de. Comentários à Constituição de 1967 com a
emenda nº1 de 1969. T. VI.Rio de Janeiro: Forense, 1987, p.332.
68 LEITE, Eduardo de Oliveira. Comentários ao Novo Código Civil – Do direito das sucessões. V.
A Constituição Federal paraguaia de 199269, com reformas até 2002, no artigo 49, estabelece a proteção da família inclusive na união estável do homem e a mulher aos filhos e à comunidade que se constitua, com qualquer de seus progenitores e seus descendentes.
No Direito boliviano, a Constituição de 1945, em seu artigo 21, trata do casamento de fato, que só começa a produzir efeitos jurídicos depois de dois anos de duração. O seu Código de Família de 1972 regula as uniões de fato e, em seu artigo 169, assegura à concubina, quando da ruptura desta união, a obtenção de alimentos, se carecer de meios para sobrevivência e não tiver culpa pela ruptura da união70.
A Constituição Boliviana de 194771 reconhecia o matrimônio de fato, ou seja, a união estável, desde que a convivência dos concubinos durasse mais de dois anos, sendo constatada por todos os meios legais de prova ou pelo nascimento de um filho, desde que com capacidade legal para contrair matrimônio.
Contudo, com o advento da Constituição da Bolívia72, promulgada em 2009, reconhece a união estável no artigo 63, reunindo condições de estabilidade e singularidade, entre homem e mulher sem impedimento