• Sonuç bulunamadı

Entrevista concedida por Nathalie Danif Moreira de Faria do Departamento de Desenvolvimento de Produtos Turísticos da Belotur, órgão da administração indireta da Prefeitura de Belo Horizonte, responsável pelo turismo na cidade.

Com relação à área de atuação da instituição, referente à primeira pergunta do questionário, a entrevistada relatou que a Belotur, criada há mais de 30 anos, é responsável pelas atividades turísticas no município de Belo Horizonte. A instituição possuía como principal foco de atuação a área de eventos; porém, na última década, passou a desenvolver o turismo de uma forma diferente considerando a cidade como um pólo de atração turística, sem que seja exclusivamente sob o viés da realização de eventos. A Copa do Mundo FIFA 2014 foi citada como parte da preocupação em planejar e projetar a cidade para esse grande evento, em que é esperado um legado para a cidade após a sua realização, bem como a expectativa de que a cidade continue objetivando o desenvolvimento turístico.

Ainda neste bloco de perguntas, quando questionada sobre a existência de um departamento específico na estrutura organizacional da Belotur, com projetos e ações voltados para os monumentos em Belo Horizonte, a entrevistada informou que devido à inexistência da Fundação Municipal de Cultura –FMC – e, posteriormente, de um departamento com pleno

funcionamento no órgão, a Belotur desenvolveu alguns trabalhos para a valorização dos monumentos. Um desses trabalhos foi a criação de um inventário dos monumentos. Quando houve a implantação da Fundação Municipal de Cultura, os trabalhos da Belotur foram repassados para a fundação, já que em entendimento conjunto entre as duas instituições, ficou claro que este trabalho de gestão e manutenção do patrimônio deveria ser conduzido pela FMC.

Dentre as perguntas específicas sobre monumentos, questionou-se sobre os instrumentos utilizados para sua conservação e gestão e a resposta obtida foi a de que a Belotur desenvolvia projetos de acordo com a demanda. Uma vez que existe um departamento na FMC, a entrevistada desconhece os instrumentos utilizados pela fundação e não soube dizer se o inventário foi atualizado. Sua resposta foi justificada pelo fato de que a FMC é hoje a responsável por essa atribuição.

Quanto ao procedimento para implantação de monumentos no espaço urbano, ela informou que essa deveria ser autorizada por um órgão público, que já existiu na estrutura organizacional da Prefeitura de Belo Horizonte, mas que já extinto antes mesmo da criação da FMC. A entrevistada disse que o usual era comunicar a esse departamento e, posteriormente, sua efetivação seria através de uma publicação34. Sobre o procedimento atual,

ela não soube informar, mas disse que deve ser feito no mínimo uma notificação junto ao órgão competente para que haja uma publicação específica.

As próximas perguntas foram divididas em dois tópicos: gestão e conservação. Essa diferenciação foi feita já que não existe uma prerrogativa de que o mesmo órgão/instituição seja responsável pelos dois itens.

34 Neste caso, vale à pena esclarecer que a publicação a qual a entrevistada se refere é a publicação no Diário Oficial do Município, seguindo o princípio da transparência e publicidade dos atos públicos.

A entrevistada atribuiu a responsabilidade pela gestão dos monumentos à FMC, que possui um departamento responsável por esse assunto. Entretanto, ela fez uma ressalva de que como os assuntos estão interligados e trata-se de uma questão abordada em âmbito municipal, quando existe a necessidade de alguma informação, a FMC e a Belotur têm uma boa interlocução.

Sobre a instituição responsável pela manutenção, conservação e restauração, a entrevistada também deu como resposta a FMC e reafirmou que não existe nenhum impedimento de repasse de demanda para outro órgão municipal, já que as instituições estão ligadas à Prefeitura. Ela frisou que, devido à realização de alguns jogos da Copa do Mundo em Belo Horizonte, uma série de levantamentos sobre os atrativos e os monumentos está sendo feita e que essas ações tornam-se fontes de informações, inclusive sobre o seu estado de conservação. Ressaltou a importância da participação conjunta em determinados momentos.

Um dos objetivos desta entrevista foi avaliar a existência de legislação específica para os monumentos. Neste caso, ela não soube informar o número da lei que estabelece o tombamento, mas a citou como uma documentação oficial que legisla sobre a proteção municipal dos monumentos.

Como a entrevistada apontou o tombamento como um instrumento contido na legislação para a proteção do patrimônio, foi perguntado se o tombamento é um dos principais instrumentos para alcançar esse objetivo. A resposta foi que ele é, oficialmente, o principal instrumento, mas não significa que seja o mais eficaz, já que o tombamento pode ocorrer mesmo sem a participação da população. Ela expôs que, apesar do objeto estar tombado, não significa que será lembrado. Foi exposto que hoje são comuns casas destruídas pela própria ação do tempo, mesmo que tombadas, uma vez que ninguém sabe quem viveu ali ou até mesmo porque foi tombada. O “Pirulito da Praça Sete” foi citado como um caso em que as pessoas sabem que existe, prestam mais atenção, mesmo que não saibam sua história, ao

contrário do caso em que uma casa recentemente destruída no bairro Funcionários, mesmo sendo tombada.

A entrevistada descreveu como principal marco na história da gestão e proteção dos monumentos no Brasil o ano de 1937, quando os tombamentos tiveram início na busca pelo nacionalismo. Apontou que a gestão do patrimônio foi fortalecida nesta época, já que as escolhas políticas foram feitas neste período. Essas marcaram o patrimônio como algo antigo, o que, de acordo com a entrevistada, é justamente a causa das pessoas não prestarem muita atenção ao patrimônio atual. Para ela, Belo Horizonte possui muitos marcos monumentais do período de fundação da cidade e cita como exemplo a última casa do arraial, onde é hoje o Museu Abílio Barreto; os monumentos na Avenida João Pinheiro e na Escola de Direito da UFMG, em que existem vários bustos dedicados a jornalistas da época; e o monumento à Terra Mineira na Praça da Estação. Em sua explanação, foi colocado que busca-se memorar o que Belo Horizonte foi ou quais eram as pessoas importantes do passado e disse que não saberia informar quais são os monumentos que foram colocados na cidade nos últimos dois anos, tradução de um sentimento de que a história da capital está mais ligada à sua fundação aliada ao conceito de que a cidade é moderna, contemporânea, que liga o antigo ao atual, mesmo que esse atual não seja lembrado

Sobre as problemáticas vividas atualmente, ela alegou que a questão conceitual de que patrimônio é coisa antiga está implícita, mesmo que não seja algo embutido na FMC e na Belotur. Expôs, ainda, que sente falta de pessoas especializadas cuidando da conservação e manutenção do patrimônio. A entrevistada informou que não é comum ver os monumentos sendo limpos ou mesmo de saber da existência de pesquisas que levantem o estado de conservação dos monumentos, assim como considerou incomum pesquisas neste ramo. Como cidadã, não consegue avaliar o impacto dos monumentos na vida das pessoas, já que não eles não são referências para os belo-horizontinos. Sendo uma problemática da própria

ideologia, do conceito de patrimônio, ela disse que não existe um trabalho direto com a população e que isso distancia o povo da história da cidade. As duas últimas perguntas que abordam a relação dos monumentos com a cidade e o turismo foram respondidas como tendo uma relação direta. No caso da cidade, ela disse que o que acontece primeiro é a história da cidade e o monumento vem para registrar esse momento, essa ideologia, essa personalidade que aqui atuou. Dessa forma, o monumento conta um fato, conta a história da urbe. É através dos monumentos que se fica sabendo sobre um período da história ou sobre uma personalidade. Para ela, o monumento é o reflexo da cidade.

Sobre a relação com o turismo, relatou que quando se visita uma cidade, é preciso ser capaz de entendê-la através dos monumentos: a partir deles, se faz uma leitura dos fatos. Esses elementos situam o turista ou mesmo o habitante da cidade na história daquele local. Para ela, quanto melhor trabalhado o monumento, quanto mais informação se tiver dele, mais interessante é a visita e mais elementos poderão ser agregados ao conhecimento da história da urbe.