• Sonuç bulunamadı

O ponto de partida da pesquisa para esta dissertação foi o meu interesse em entender melhor como as mulheres usam e ocupam a cidade. No início, meu olhar estava voltado para a questão do assédio sexual e da insegurança experimentada pelas mulheres nas ruas, principalmente no transporte público. Comecei com a intenção de descobrir em que medida elas são afetadas pela violência de gênero e como lidam com as restrições que lhes são impostas.

No processo de aprofundamento na literatura e nas minhas primeiras conversas com mulheres em ônibus, metrôs, pontos de parada e terminais, certas dificuldades cotidianas se sobrepuseram ao tema do assédio sexual, tais como as distâncias entre moradia e serviços públicos ou locais de trabalho, a sobrecarga de responsabilidades domésticas e a desigualdade na distribuição dos recursos familiares. A explicação mais imediata para isso é que o assédio, por sua ocorrência apenas eventual, seria uma questão menor quando comparado a tais dificuldades cotidianas das usuárias do transporte público.

Porém, também percebi um círculo vicioso. A discussão sobre a violência de gênero na forma mais imediata do assédio, embora seja hoje relativamente ampla e internacionalizada, não está numa esfera a que a maioria das mulheres tenha acesso. Constatei que muitas delas simplesmente não frequentam os lugares urbanos de socialização e organização coletiva em que essa discussão se manifesta, porque seu tempo é consumido nos trabalhos de produção e reprodução e seu espaço está restrito a periferias precárias e a percursos impostos por tais trabalhos.

Ao mesmo tempo, essa distância do debate público parece reforçar entre elas o que grupos feministas denominam “cultura do estupro”, isto é, uma cultura que não

repreende hábitos machistas ou a ideia de que o corpo da mulher possa ser violado, e que se expressa, por exemplo, na opinião de que cantadas de rua seriam elogiosas ou de que uma vítima de violência sexual seria culpada por estar vestindo essa ou aquela roupa. A cultura do estupro implica que muitas mulheres tenham dificuldade de falar sobre o assunto, talvez naturalizando a violência, mas certamente tratando-a como algo de foro íntimo e evitando a discussão. Em outras palavras, mulheres que são cerceadas na liberdade de ir e vir são cerceadas também no estabelecimento de vínculos que lhes permitiriam participar em organizações coletivas para combater esse cerceamento, tanto no âmbito emocional ou psíquico, quanto nos âmbitos social e político.

Passei a ver o assédio sexual como uma de muitas formas de violência de gênero, que se reforçam mutuamente. Não que isso o torne menos relevante, mas para a minha pesquisa significou ampliar as perguntas e tentar compreender melhor essas diversas formas diretas e indiretas de violência de gênero no espaço urbano e condicionadas pela configuração desse espaço.

Defini como sujeitos da pesquisa mulheres que prestassem serviços remunerados de limpeza doméstica, sem vínculo empregatício – as faxineiras ou diaristas, como costumam se identificar . A natureza de seu trabalho implica um grande número 30 de deslocamentos para diferentes lugares, tornando sua experiência bastante rica no que toca a qualidade da mobilidade urbana, principalmente quando as distâncias trabalho-casa alcançam uma escala metropolitana.

Esta escolha se deu também pela precariedade a que estas mulheres estão submetidas. O trabalho doméstico remunerado é uma das categorias laborais com menor média salarial no Brasil e cujos direitos trabalhistas foram reconhecidos apenas recentemente. Ele também costuma evidenciar a grande desigualdade social e racial em que vivemos, por sua herança ligada ao nosso passado escravocrata que ainda reverbera hoje no dado de que a maioria absoluta de trabalhadores domésticos sejam mulheres negras (Fraga, 2010; Monticelli, 2013). A possibilidade de pagar pelo trabalho doméstico representa na verdade a compra de tempo livre para realizar atividades intelectuais (não-braçais), como formação educacional e trabalhos mais valorizados socialmente. Sem a quebra deste ciclo

! O termo “diarista" pode se referir a diversos trabalhadores que trabalham com remuneração por dia de 30

serviço, sem um salário ou jornada de trabalho fixo, como é o caso de cuidadores de pessoas idosas, motoristas, prestadores de serviços gerais e faxinas domésticas. Entretanto, este último grupo ser chamado e se identificar como “diaristas” somente. Portanto, adoto esse termo no texto para me referir às participantes da pesquisa.

que reforça diferenças entre classe sociais pelo valor do trabalho que realizam e pelo tempo livre que dispõem, dificilmente é possível reverter o quadro de desigualdade social e racial em que vivemos. Aprofundo esta discussão mais à frente na análise da pesquisa empírica.

Um segundo critério de delimitação do recorte da pesquisa foi que essas mulheres se deslocassem no transporte público e a pé entre Belo Horizonte e outros municípios da Região Metropolitana (RMBH). Este critério se justifica por esses modais implicarem menor liberdade de escolha e maior precariedade nos percursos realizados na RMBH. O transporte público possui trajetos e horários definidos e oferece pouca possibilidade de conexão direta entre moradia e trabalho (ou outros destinos), obrigando a caminhadas longas e nem sempre seguras. A periferização da moradia em relação ao trabalho e serviços essenciais implica desse modo restrições não só espaciais, mas também temporais. O tempo e a energia gastos para realizar esses descolamentos provoca uma marginalização que perpassa diferentes esferas da vida de uma pessoa: dificulta a socialização coletiva, o uso lúdico dos espaços públicos, a organização política e comunitária, o investimento em saúde, educação e qualidade de vida.

Essas escolhas têm como intenção perceber como mulheres que sofrem mais intensamente os impactos da má estrutura de mobilidade urbana manejam suas necessidades de acesso à cidade com as dificuldades impostas pelo sistema de transporte urbano, e que implicações seu planejamento e sua gestão têm nos seus cotidianos.

Benzer Belgeler