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As cidades contemporâneas são produzidas continuamente a partir de diversos agentes e interesses: o Estado, grandes empresas de iniciativa privada, a população de modo geral e particularmente aquela sem acesso ao mercado formal de habitação (e que realiza autoprodução de moradias e ambientes urbanos). Elas são também determinadas pelos códigos e planos urbanos; pelas necessidades impostas à população em contextos de precariedade; e fundamentalmente pela

! Apenas 35% de mulheres com filhos possuem trabalho, quando 56% de mulheres sem filhos estão 25

disponibilidade de capital e pelo interesse dos que o detêm. Em geral, o interesse do último grupo não se pauta pelas necessidades comuns aos habitantes da cidade, ou mesmo pela eficiência em termos de sustentabilidade econômica, social e ambiental; em outras palavras, a produção mais lucrativa dificilmente proporciona um desenvolvimento urbano justo, com respeito à diversidade de modos de vida.

No contexto brasileiro, os grandes centros urbanos apresentam vários inconvenientes causados por esta hierarquização de prioridades e interesses: zoneamentos segregadores, gerando grandes distâncias entre habitação e serviços essenciais; pressão imobiliária e periferização, agravada pelo baixo investimento em transporte público; espaços domésticos diminutos e ruptura de laços de solidariedade impostas pelas políticas habitacionais; violência urbana etc.

Todos estes aspectos impactam negativamente na vida de todos os moradores das cidades, em diferentes graus determinados pela sua localização espacial e social. Porém eles são sensivelmente mais negativos para as mulheres que para os homens, uma vez que são elas em grande medida que precisam compensar estas desvantagens a partir do trabalho de reprodução social que mantém a cidade produtiva. O planejamento urbano pode, portanto, reforçar ou renovar as relações sociais patriarcais na maneira como determina ou restringe as possibilidades de movimento das mulheres no espaço público, seja pelas ideologias implícitas em normas e códigos de uso do solo urbano ou pela distribuição desigual de recursos materiais na cidade.

A arquiteta estadunidense Dolores Hayden (2000) analisa diversas políticas aplicadas no planejamento urbano nos EUA e seus efeitos na restrição do livre acesso à cidade pelas mulheres. Sua crítica se centra principalmente na fixação do papel da mulher como "dona de casa”, responsável pelo trabalho de reprodução, que culmina na implantação de subúrbios isolados dos centros urbanos e pouco integrados com serviços coletivos de apoio à vida – como creches, mercados e mesmo postos de trabalho.

Hayden cita ainda diversas leis que proibiram a criação de espaços comuns entre casas particulares para evitar o adensamento excessivo, mas que tiveram efeitos diretos na individualização e na sobrecarga do trabalho de reprodução sobre as mulheres. Um dos principais preceitos do urbanismo modernista é justo a

separação de usos – residencial, comercial, industrial – em espaços distintos da cidade, conectados por vias expressas, o que dificulta que atividades cotidianas distintas se integrem na escala de vizinhança.

A solução para diminuir o tempo de deslocamento diário implicado no zoneamento modernista foi a individualização da mobilidade, aplicada em diversos países a partir do investimento em infraestrutura viária para o automóvel particular. Um problema que é gerado a partir dessa resposta é a responsabilização do indivíduo para resolver questões que necessariamente perpassam a coletividade. Um exemplo simples é a poluição gerada pelos carros, individualmente, mas que somada atinge a toda a sociedade e precisa ser tratada de forma coletiva.

Um outro exemplo seria que, em um contexto de desigualdade socioeconômica, muitos não podem arcar com o custo de um carro, de modo que o incentivo a partir de recursos públicos para o transporte individual termina por privilegiar apenas uma parcela pequena da população. Em relação à desigualdade de gênero, essa solução é ainda mais perversa, como mostram os estudos apresentados: de um lado, mulheres possuem menor autonomia e acesso ao transporte motorizado particular e público. De outro, o cuidado com populações vulneráveis e com dificuldade de locomoção, especialmente crianças e idosos, é em geral considerado sua responsabilidade.

A questão do trabalho de reprodução perpassa tanto o espaço privado como o espaço público, na medida em que a sobrecarga de trabalho doméstico limita o tempo de usufruto da vida urbana. A geógrafa britânica Gillian Rose (1993) comenta uma pesquisa realizada em 1985 por Jackie Tivers, observando mães com crianças de até cinco anos no sul de Londres.

Tivers descobriu que mulheres frequentemente desejavam trabalhar fora de casa por salários, mas eram muitas vezes impedidas de fazê-lo pela falta de creches e equipamentos sociais próximos para crianças. Mesmo idas às compras não eram fáceis para elas, uma vez que o transporte público e os centros comerciais não eram arquitetados para mulheres carregarem bolsas pesadas e bebês. (Rose, 1993, p. 24, tradução minha) 26

Rose argumenta a necessidade de se pensar a relação da mulher com o espaço urbano para além do dualismo entre trabalho de produção e trabalho de reprodução, a partir de uma perspectiva mais complexa. A autora cita diversas pesquisas que avançam neste sentido, revelando o protagonismo de mulheres em criar e incentivar novas redes de suporte social atreladas à moradia e ao trabalho. Estas soluções variam desde empreendimentos imobiliários integrados a creches comunitárias e redes de atenção à saúde e à educação, à priorização do trabalho em casa.

A falta de equipamentos públicos ou coletivos de apoio a estas atividades é patente em diversas cidades no Brasil, principalmente em regiões periféricas. Entretanto, é preciso ressalvar que muitos dos textos críticos à produção espacial hegemônica e sexista consideram unicamente a mulher heterossexual, branca e de classe média; muito distinta daquelas que compõem a maior parte da população nas cidades brasileiras e de outros países periféricos.

Há uma grande diversidade no grupo que denominamos mulheres e diferentes graus de restrições que as afetam em suas vivências particulares. É preciso considerar que fatores como etnia, sexualidade e classe social podem colocar mulheres em posições muito distintas em relação às possibilidades de acesso à cidade, ao trabalho e à política . Quando se discute, por exemplo, o peso do 27

! No original: "Tivers discovered that women often did want to work outside the home for wages, but that they 26

were frequently prevented from doing so by the lack of local childcare facilities. Even shopping trips were not easy for them, as public transport and shopping centres were not designed for women carrying heavy bags and young children."

! Diversos autores utilizam o conceito de interseccionalidade como uma forma de analisar as diferentes 27

inserções sociais de cada indivíduo ou grupo e como o conjunto delas os afeta de modo distinto. Este conceito é apresentado e aprofundado mais à frente, no próximo capítulo. A discussão inicial sobre esta perspectiva é feita por feministas negras nos Estados Unidos na década de 1970 e 1980, ao questionarem o universalismo da categoria “mulher”. Posteriormente, Kimberly Crenshaw (2002), jurista negra estadunidense, desenvolve mais precisamente o conceito.

trabalho de reprodução na vida das mulheres e a restrição temporal e espacial que acarreta na sua experiência urbana, é preciso observar qual o recorte social proposto.

O cotidiano de uma mulher branca de classe média, que possui carro e pode pagar por serviços doméstico, por exemplo, difere bastante daquele de mulheres negras, pobres e moradoras de regiões periféricas – que sofrem com o racismo estrutural e dependem de transporte e serviços públicos em geral; ou ainda de mulheres transexuais, marginalizadas e sem acesso a emprego formal, dentre outros exemplos. Assim, também é desigual a voz e a visibilidade destas mulheres na esfera pública, a atenção e a representatividade possível para cada uma delas, ainda que o sexismo esteja sempre presente em suas vidas em algum grau.

Neste sentido, Rose argumenta que a vivência de mulheres negras estadunidenses diferia bastante daquela apresentada como feminina pelo discurso acadêmico no campo da Geografia. A própria noção de público e privado poderia guardar significados muitos distintos em comunidades brancas de classe média, onde mulheres relatavam se sentir isoladas e oprimidas pelo cotidiano doméstico, e comunidades negras pobres, onde os ambientes privados muitas vezes eram vistos como "os espaços da comunidade negra, longe do acesso de pessoas brancas” (Rose, 1993, p. 126) e portanto significava um recurso importante para as mulheres trabalhadoras, que cultivavam laços de solidariedade e apoio para cumprir as tarefas domésticas.

Os casos citados por Hayden (2000) e Rose (1993) apontam para a necessidade de um olhar transversal, próximo e aberto à complexidade. Olhar para as mulheres na cidade a partir desta perspectiva implica considerar suas vivências particulares, reconhecer a diferença e estar atento às diversas opressões, restrições e acolhimentos possíveis em cada espaço. Será preciso questionar qualquer modelo de produção das cidades pensado a partir um sujeito universal, à revelia daqueles não cabem na norma: cidades que impossibilitam a diversidade, a autonomia, o acesso igualitário aos espaços de discussão e deliberação sobre sua produção.

Benzer Belgeler