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BÖLÜM II YAPISAL KONTROL SİSTEMLERİ

2.4 Pasif Kontrol Sistemlerinin Sınıflandırılması

partilha daquela ―experiência‖.

Beppe Fenoglio, assim como Kafka, deu a seu narrador ―todas as qualidades que o narrador tradicional tirava da rica tradição na qual se enraizava – não intervir na narrativa, não pretender originalidade, ser uma voz neutra‖ –, porém ambos ―conquistaram essas qualidades a duras penas no terreno solapado de uma tradição morta e de uma identidade em migalhas‖100.

4 Os Appunti partigiani, uma vida, uma obra e uma guerra

Fruto de uma tradição morta – aliada a uma recém constituída tradição oral da Resistência – e de uma identidade em migalhas – com o suspiro de esperança com que se apresentava a Resistência italiana – é o livro Appunti partigiani, de Beppe Fenoglio. Texto publicado postumamente, escrito logo após o fim da Guerra, já com estrutura, forma e sequência narrativa, mas ainda pouco mediado. Pouco mediado pelo tempo, que afastaria um pouco o autor de certa crença na Resistência e na partilha de sua experiência; pouco mediado pelo próprio exercício literário, que agregaria outras problemáticas à obra de Fenoglio, como o uso do inglês em seus textos; pouco mediado pelas reescrituras, usualmente realizadas pelo autor, que iam podando certa esperança do narrador fenogliano; e pouco mediado pela crítica, já que o livro foi publicado apenas em 1994, sem a mediação de quase cinquenta anos de interpretações.

Os Appunti nos alcançam quase límpidos, escritos na horizontal sobre as colunas das cadernetas de contabilidade do açougue do Fenoglio pai, divididas em: data, carne (subdividido em quilo e grama), preço e valor total. Nelas Fenoglio escreveu seu primeiro enredo.

4.1 Os Appunti de uma vida 99

O termo é de Lorenzo Mondo, no prefácio aos Appunti partigiani.

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A diferenciação entre Giuseppe e Beppe, no caso de Fenoglio, não fica muito clara, e talvez essa distinção seja mesmo incoerente. Não somente por Giuseppe ser apenas seu nome de batismo, nunca tendo sido usado por ele, mas principalmente porque o homem, o autor e o personagem aqui tratados se misturam frequentemente num enredo ficcional- neorrealista que brinca com vida e obra num só projeto: narrar a partir de um mecanismo de transposição literária experiências vividas em primeira pessoa.

Fenoglio, durante o período de guerrilha nas Langhe, era um dos poucos que não usava um nome de batalha: Beppe era Beppe também como partigiano101, e o seria também como escritor. Os nomes anglófanos das personagens alter ego das obras da maturidade chegariam depois. Contaram seus companheiros de guerrilha que ele tomava notas numa caderneta durante a guerra civil e tinha sonetos de Shakespeare escritos no forro do casaco que usava nas montanhas.

No final da Guerra, passou a se debruçar durante horas sobre aquelas memórias e anotações – appunti. Já se valia do método que depois o identificaria como escritor: escrevia e reescrevia, começava de novo, reescrevia mais uma vez, uma, duas, três, quatro versões do mesmo livro, num laboratório desconhecido do público e da crítica durante os primeiros sete anos de pós-guerra, ao longo dos quais muito foi publicado sobre a Resistência.

Beppe Fenoglio foi um solitário escritor. Era inexplicavelmente amante to England and English things, amou a língua, a literatura e a história inglesa e também americana, admirou Cromwell, afirmando muitas vezes querer ter sido ―um soldado de Cromwell com a bíblia na mochila‖102. Foi profundo conhecedor de Shakespeare, leu também T. E. Lawrence, T. Hardy, C. Fith, R. Kipling, T. De Quincey, R. L. Stevenson, Wilkie Collins,

101 ―Dessacralizante é a motivação que um sobrevivente de uma das formações constituídas na Iugoslávia

dá da escolha do nome Garibaldi [como nome de batalha]: Mazzini era republicano demais, Matteotti político demais, enquanto ‗Garibaldi, digamos francamente, dá certo pra tudo e dava certo pra nós também, e nos tornamos Divisione partigiana Italia Garibaldi‘‖ (PAVONE, p. 185).

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Oliver Cromwell (1599-1658) foi um militar e político britânico, conhecido como um dos líderes da Guerra Civil inglesa, movimento que derrubou Carlos I e levou à instauração de uma república puritana na Grã-Bretanha (LAJOLO, 1978, p. 139).

John Bunyan, D. H. Lawrence, Emily Bronte, Marlowe, Robert Browning, Ernest Hemingway, Herman Melville, Edgar Allan Poe, Edgar Lee Masters e James Joyce103. Traduziu T. S. Eliot e S. T. Coleridge.

Nós descobrimos a Itália – este é o ponto – procurando os homens e as palavras na América e na Rússia, na França, na Espanha. (...) Este mundo ele [Fenoglio] o reviveu fantasticamente, mas detidamente para buscar sua formação longe do clima esquálido do fascismo104.

Sua atividade como literário acontecia, porém, sempre no isolamento voluntário da cidade de Alba, onde ele escolheu permanecer ao fim da Guerra e de onde escreveria sobre a Resistência nas Langhe, com ironia e sarcasmo, deixando mais mórbido o horror daquela guerra, das condições de vida dos habitantes daquela região.

Fenoglio obtém na sua narrativa o controle feroz dos sentimentos. A vida dos pobres camponeses deste Sul [da Itália] do Piemonte [localizado no Norte], com pouca água, com o granizo que quase todo ano se abate sobre os persistentes vinhedos, com os bosques amarelos pela seca ou alagados pela chuva em excesso, com os parasitas que devoram malvados as últimas fileiras [de plantação], com a febre aftosa que colhe o rebanho nos estábulos, a tosse seca, a tuberculose que leva amarelos ao túmulo mesmo as mulheres e homens ainda úteis para o trabalho, Fenoglio narra esta vida, não a descreve, vivendo-a com uma atrocidade que não se encontra nem mesmo em Verga105.

Seu primeiro livro I ventitre giorni della città di Alba, publicado pela Einaudi, apenas em 1952, foi recebido pela crítica de modo divergente; houve quem timidamente afirmasse ser aquela uma voz distinta no cenário da literatura italiana do pós-guerra, mas também houve quem se chocasse pela dessacralização e pela violência de seu texto. O livro que conta a ocupação da cidade de Alba pelos partigiani durante a Resistência – que durou 23 dias – realiza duas operações contrárias: expõe a violência em si mesma voltada para a mitificação e descreve o partigiano não mitificado, ambas com um ritmo

103―Estivemos na casa de Fenoglio (…). Ali encontramos (…)‖ e segue a descrição dos autores. Alguns

nomes foram acrescidos à lista por outras fontes (LAJOLO, 1978).

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PAVESE apud LAJOLO (1978, p. 132).

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e num estilo ainda inédito para a Itália, que se agarrava à figura do herói-partigiano para seu exame de consciência do pós-guerra. Esse estranhamento causado pelo estilo de Fenoglio iria se repetir em todos os seus textos.

Em vida, por uma querela editorial106, só teve tempo de ver outros dois livros publicados, em 1954, La malora (um conto longo), ainda pela Einaudi, e em 1959,

Primavera di bellezza (romance com primeira versão escrita toda em língua inglesa, seguida de outras duas em língua italiana, a terceira versão constitui o texto publicado), já pela Editora Garzanti. Seus dois romances mais importantes são póstumos: Una questiona privata único com tradução para o português – e Il partigiano Johnny

(ambos com primeira versão em inglês)107.

O mecanismo de uso da língua inglesa na obra de Fenoglio foi se tornando ao longo do tempo cada vez mais decisiva, alcançando seu ápice na operação estilística realizada em

Primavera di bellezza: a versão em inglês foi sendo reescrita até alcançar uma versão italiana, com poucas palavras em inglês remanescentes. Nos livros póstumos a presença da língua é ainda mais maciça, mas há que se levar em conta que o autor, ao longo das muitas versões escritas, ia tirando as palavras em inglês para que, no final, apenas as que lhe parecessem de fato intraduzíveis permanecesse no idioma. Nas obras póstumas ele não pôde concluir essas operações e elas vieram a público com uma quantidade de inglês explícito que talvez não mantivessem, se Fenoglio as tivesse preparado para publicação em vida.

A função do uso do inglês numa obra italiana era de natureza anárquica e provocatória, já que a tradição literária da península de inúmeros dialetos tinha sua raiz e seu

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Elio Vittorini escreveu, na apresentação de Primavera di belleza (1960), que o livro reforçava o medo de que os jovens escritores italianos, assim que não mais escrevessem sobre coisas experimentadas pessoalmente, não conseguissem transcender à universalidade e se expressassem com ―afrodisíacos dialetais‖. Fenoglio ficou profundamente irritado com a apresentação. Depois do desentendimento, o autor assinou um contrato com o editor Livio Garzanti. Infelizmente, a Editora Einaudi ainda possuía direito sobre suas obras e a questão se prolongou até a sua morte, impedindo-o de publicar tanto por uma quanto por outra editora.

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Quando da morte do autor, todo o material inédito foi levado à Einaudi e os leitores da editora, Calvino inclusive, devolveram tudo afirmando não haver nada publicável. Deve-se ao estudioso da obra de Beppe Fenoglio, Lorenzo Mondo, a publicação de suas muitas obras póstumas.

desenrolar a partir da socialmente problemática e literariamente magnífica invenção linguística moldada pelo toscano Dante Alighieri. Além disso, desempenhava o papel de

romper com a língua literária que havia feito ritmo com a retórica, liberar-se das suas amarras e dos seus vínculos, não usar palavras que haviam distorcido os significados, voltar como virgem à língua italiana através da lição recebida por uma língua estrangeira108.

Foi o único a insistir na temática da Resistência por quase vinte anos, até sua morte precoce – mesmo quando ninguém mais achava que aquele fosse um tema pertinente. As temáticas de Fenoglio são sempre a Resistência, os agricultores da região de Alba, a dificuldade dos partigiani com o pós-guerra. É do autor a classificação de seus contos em ―Contos da guerra civil‖, ―Contos do parentesco e do vilarejo‖, ―Contos do pós- guerra‖, divisão essa que só se concretizou postumamente (com o adendo dos raríssimos ―Contos fantásticos‖, em sua maioria inéditos). Também os romances são sobre a Resistência, e Fenoglio foi, inclusive, acusado de ter insistido demais no tema num momento em que a Itália, com o discurso em prol de acalmar os ânimos, realizava uma cruzada contra os resistentes, acusando-os de comunistas e excessivamente violentos.

Com muita frequência a obra de Fenoglio é aproximada da obra do seu coetâneo Cesare Pavese, também nascido no Piemonte, também considerado neorrealista, cujos livros também são ambientados nas Langhe, cuja morte também foi prematura. Mas as distinções profundas no esqueleto de suas obras são tão profundas que essa aproximação se perde sempre em algo de biográfico e nunca avança ao estilo ou às temáticas dos dois autores. Pavese viveu e escreveu quase que em oposição à Fenoglio, ou vice-versa. Pavese não lutou na Resistência e essa matriz temática da culpa e da falta serão força motriz de sua obra; tinha o projeto literário de criar uma Itália mítica, ambientada nas Langhe, nostálgico em relação àquela paisagem e saudosista no que dizia respeito à infância. Fenoglio narra uma Resistência adulta, sem nostalgias ou saudosismos, nem pela paisagem nem pela infância, sem mitos para um país, sem mulheres idealizadas, sem um projeto literário para uma nação.

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A literatura de Fenoglio não era mística, e nela a representação da Igreja e de Deus acontece a partir do ponto de vista de seus personagens, temerosamente ligados a Deus e frequentemente explorados pela Igreja. Um deles pronuncia gritando a frase ―Dio non fu mai con noi‖109. A violência é a via de acesso ao que era sacro, frequentemente servindo-se de certa pitada de ironia.

Seus narradores evoluem muito ao longo de sua obra. Os primeiros textos têm um narrador em primeira pessoa, ainda com uma visão italiana dos fatos. Depois, sua escrita evolui para um narrador anglófono de olhar destacado para tudo que era folclore latino ou italiano em demasia, no fascismo ou na Resistência. As descrições do fascismo recaem no grotesco, no dessacralizante. E toda seriedade é guardada para os motivos profundos e a violência da escolha pela Resistência. Seu texto é irônico e econômico, nele o controle dos sentimentos e a secura funcionam como esconderijo para a piedade e a compaixão, que nunca são explícitas.

Beppe Fenoglio foi autor de poucas palavras fora dos seus livros, os poucos críticos que o conheceram tiveram que ir encontrá-lo em Alba. Falou muito pouco sobre si, todo o resto deixou dito em sua obra literária.

Porquanto eu possa procurar, não encontro nenhuma anedota de algum sabor relativo à gênese e à publicação dos meus livros. Poderá talvez interessar esta pequena revelação: Primavera di belleza foi concebido e escrito em língua inglesa. O texto tal como o conhecem os leitores italianos é então uma mera tradução. A crítica me seguiu e me segue com certa atenção, em medida superior, devo dizer, à expectativa de um escritor apartado amateur-likeque eu sou. (…)

Escrevo por uma infinidade de motivos. Por vocação (…), também para justificar os meus dezesseis anos de estudos não coroados pela formatura, também por espírito agonístico, também para me devolver sensações passadas; por uma infinidade de razões, em suma. Não certo por diversão. Dou um duro danado. A mais fácil das minhas páginas sai simples após dezenas de penosas reescrituras. Escrevo with a deep distrust and a deeper faith110.

109―Deus nunca esteve conosco‖ (LAJOLO, 1978, p. 64).

110 ―Escrevo com profunda descrença e ainda mais profunda fé‖ (ACCROCCA, 1960, apud FENOGLIO,

Benzer Belgeler