É bem triste viver sem fazer saber92.
Como vimos, a obra de Beppe Fenoglio pode dialogar com os dois conceitos, gerando em ambas as aproximações um fio teórico condutor importante. Porém, o fato de que sua aproximação tanto ao conceito de Erfahrung quanto ao de Erlebnis resulte produtiva, chama a atenção para o ―entre‖ que ela ocupa. De onde deriva o paradoxo sobre o lugar em que pode ser localizada a obra de Beppe Fenoglio diante da problemática benjaminiana ligada à experiência.
A ideia desenvolvida a seguir coloca a obra de Beppe Fenoglio, principalmente os
Appunti, lidando dialeticamente com o conceito de ―experiência‖ e de ―vivência‖, numa guerra com essas duas dimensões que leva a uma terceira dimensão, ligada ao conceito de ―rememoração‖ (Eingedenken), como solução a esse embate, solução aqui nunca pacífica, vale relembrar.
Se o autômato é o homem que perdeu toda experiência e memória, a ligação entre a Erfahrung, a teologia e o materialismo histórico é para Benjamin a rememoração (Eingedenken) (...). [e cita W. Benjamin:] ―Na rememoração fazemos uma experiência (Erfahrung) que nos impede de conceber a história de uma forma radicalmente ateológica93.
O conceito de rememoração em Walter Benjamin é discutido em diversos pontos de sua obra, embora abertamente apresentado em raros momentos, como, por exemplo, no item 13 do texto ―O Narrador‖. Nele, a partir da relação entre o ouvinte e o narrador, Benjamin afirma que essa ―ingênua relação é dominada pelo interesse em conservar o
92
Sobrevivente de um campo de concentração (PAVONE, 1991).
93
que foi narrado‖94. Essa ―memória abrangente‖ e efêmera viabilizava a existência da poesia épica e era evocada pelos gregos pela musa Mnemosyne, deusa da reminiscência.
Aqui Benjamin introduz o conceito de reminiscência, ligado em sua forma mais antiga à epopeia, e o caracteriza como sendo o que ―funda a cadeia da tradição, que transmite os acontecimentos de geração em geração‖95. A epopeia, segundo Benjamin, em seu cerne, já continha a narrativa e o germe do romance. Em ritmos geológicos, o ―romance começou a emergir do seio da epopéia‖ e foi possível perceber que sua musa se diferenciou da musa da epopeia e não era mais a musa épica – a reminiscência.
Agora, num processo de separação, a reminiscência se dividiu entre uma musa da narrativa (―memória‖), ligada à ―breve memória do narrador de muitos fatos difusos‖, e uma musa do romance (―rememoração‖), ligada à ―memória perpetuadora do romancista‖, que já habitava a epopeia, mas que agora se diferencia dela e ―é consagrada a um herói, uma peregrinação, um combate‖.
A questão que se coloca nesse ponto da discussão trata da diferença, para Benjamin, entre ―experiência‖ e ―memória‖ e ―vivência‖ e ―rememoração‖. Se a ―memória‖ é a musa da narrativa e na narrativa partilha-se uma ―experiência‖, os dois termos poderiam ser correspondentes. Bem como se a ―rememoração‖ é a musa do romance e o romance trata da narrativa de uma ―vivência‖, os dois termos estariam profundamente ligados.
E estão, já que em Benjamin tudo acontece em ―ritmos geológicos‖ e a apreensão de conceitos nunca é estanque. Mas levanto aqui a hipótese de que a segunda dupla de conceitos, respectivamente ―memória‖ e ―rememoração‖, é pelo autor concebida para agregar distinções substanciais à discussão.
A distinção fundamental, acredito, diz respeito ao fato de a primeira dupla de conceitos, aquele da ―experiência‖ e da ―vivência‖, estar localizada na apreensão dos eventos. Enquanto que os conceitos de ―memória‖ e ―rememoração‖ dizem respeito ao ato de narrá-los. 94 BENJAMIN (1994a, p. 210). 95 BENJAMIN (1994a, p. 211).
A experiência (Erfahrung) não se confunde [para Benjamin] com a experiência vivida [vivência] (Erlebnis): enquanto que a primeira é um traço cultural enraizado na tradição, a segunda situa-se a um nível psicológico imediato, que não tem, de modo algum, a mesma significação96.
Assim, para Benjamin, os modernos estavam – por todos os motivos históricos e sociais anteriormente discutidos – impossibilitados de experienciar e limitados a vivenciar. Porém, no ato de transposição literária havia uma escolha a ser realizada. E já que a ―memória‖, musa da narrativa, estava em vias de extinção, o narrador moderno, negando como única solução a vivência solitária e burguesa do herói da Erlebnis, deveria se servir da ―rememoração‖.
A evocação de uma musa já presente na ―reminiscência‖era a postura adequada para o narrador que pretendesse recuperar o irrecuperável de uma experiência não mais partilhável. Era a postura adequada para o grande homem de seu tempo que percebesse antecipadamente a pobreza de experiências partilháveis de que dispunha e pretendesse não aceitar como única saída à impossibilidade da narração de uma ―experiência‖ o enclausuramento numa ―vivência‖.
Evocar a ―rememoração‖, musa oriunda da ―reminiscência‖, e tê-la presente enquanto musa do romance, forma de que dispunha o narrador moderno, era a postura adequada ao narrador e ao historiador materialista, preocupado em atualizar o passado na apropriação de uma ―reminiscência‖. Uma postura adequada àqueles que pretendiam olhar de frente sua pobreza, escovar a história a contrapelo, trazer dos escombros as sombras e fazer emergir disso ―uma forma narrativa diferente das baseadas na prioridade da Erlebnis‖.
Em Fenoglio e nos seus Appunti, a apreensão da experiência parte sim de um ―eu‖ solitário, mas o exercício de contação se propõe partilhável, numa extensão daquela ―tradição oral‖ de contação de histórias na beira da fogueira. É claro, ao longo das páginas dos Appunti,que essa tentativa permanece no embate e não consegue se realizar.
96
E a postura de Fenoglio nos Appunti nunca é a do narrador que aceita a impossibilidade daquela partilha. Fenoglio opta por um narrador que, a partir da apropriação de uma ―reminiscência‖, tendo como musa a ―rememoração‖, recorre a ―muitos fatos difusos‖97
que tentam, a todo tempo e sem sucesso, fundar uma experiência partilhável.
A experiência (Erfahrung) pertence à ordem da tradição, tanto na vida coletiva como na vida privada. Ela se constitui menos de dados isolados, rigorosamente fixados pela memória, que de dados acumulados, quase sempre inconscientes, que nela se concentram98.
Na narrativa de Beppe Fenoglio a limitação da impossibilidade de partilha não é aceita e o autor não se conforma em narrar uma vivência burguesa, solitária, ―de um herói, de uma peregrinação, de um combate‖. Para ele, a Resistência representa um hiato numa continuidade baseada na fé no progresso. Com a Resistência, pela primeira e única vez na história da Itália unida, acreditou-se que seria possível, literária e socialmente, dar dois passos para trás e voltar a um cenário de experiências partilhadas. Fenoglio agarrou-se a essa interrupção e fez daquela ―reminiscência‖ a pedra fundamental de sua literatura, que se propunha, única bem sucedida no propósito entre os neorrealistas, como literatura épico-popular.
Fenoglio dispunha dos dois ingredientes necessários para a elaboração de um projeto épico-popular, que, segundo Maria Corti, ele teria atingido: tinha acesso àquela tradição oral, assim como fazia parte dela, e dispunha de uma memória comum adquirida na experiência/vivência da Resistência italiana. Ao mesmo tempo, Fenoglio pertencia à modernidade, com as suas consequências e impossibilidades. Sua postura diante dessas impossibilidades e pobrezas não foi limitar-se à narração de uma Erlebnis, mas a partir de outro ponto de vista, optou por narrar a guerra voluntária da Resistência e não a guerra dos exércitos oficiais, com a língua falada pelos italianos em guerra nas montanhas do norte da Itália, não com a língua oficial, a partir de uma relação quase banal com a morte, sem escândalos ou impedimentos. Foi o autor que tentou elaborar
97
BENJAMIN (1994a, p. 211).
98
em sua narrativa uma cantata popolare99, exatamente partindo do pressuposto da partilha daquela ―experiência‖.
Beppe Fenoglio, assim como Kafka, deu a seu narrador ―todas as qualidades que o narrador tradicional tirava da rica tradição na qual se enraizava – não intervir na narrativa, não pretender originalidade, ser uma voz neutra‖ –, porém ambos ―conquistaram essas qualidades a duras penas no terreno solapado de uma tradição morta e de uma identidade em migalhas‖100.
4 Os Appunti partigiani, uma vida, uma obra e uma guerra
Fruto de uma tradição morta – aliada a uma recém constituída tradição oral da Resistência – e de uma identidade em migalhas – com o suspiro de esperança com que se apresentava a Resistência italiana – é o livro Appunti partigiani, de Beppe Fenoglio. Texto publicado postumamente, escrito logo após o fim da Guerra, já com estrutura, forma e sequência narrativa, mas ainda pouco mediado. Pouco mediado pelo tempo, que afastaria um pouco o autor de certa crença na Resistência e na partilha de sua experiência; pouco mediado pelo próprio exercício literário, que agregaria outras problemáticas à obra de Fenoglio, como o uso do inglês em seus textos; pouco mediado pelas reescrituras, usualmente realizadas pelo autor, que iam podando certa esperança do narrador fenogliano; e pouco mediado pela crítica, já que o livro foi publicado apenas em 1994, sem a mediação de quase cinquenta anos de interpretações.
Os Appunti nos alcançam quase límpidos, escritos na horizontal sobre as colunas das cadernetas de contabilidade do açougue do Fenoglio pai, divididas em: data, carne (subdividido em quilo e grama), preço e valor total. Nelas Fenoglio escreveu seu primeiro enredo.
4.1 Os Appunti de uma vida 99
O termo é de Lorenzo Mondo, no prefácio aos Appunti partigiani.
100