4. ARAŞTIRMA SONUÇLARI VE TARTIŞMA
4.2. Pasif Akış Kontrol Çalışmaları
O posicionamento de todas elas em relação ao fato também foi o de condenar a atitude do bispo de Olinda. Uma delas questiona: “Como excomungar médicos que tinham diante de si um quadro dos mais angustiantes, lembrando que [...] muitos são pais e mães? Para outra esse bispo naturalmente não tem filhas, nem netas e não deve ter apreço por nenhuma criança nesta idade”. As leitoras valorizam a harmonia
132
Trecho extraído de outra carta: “uma posição tão radical demonstra que nossa igreja parou no tempo; a excomunhão, na concepção do bispo, está ultrapassada e antiquada”.
familiar, ao apelar para sua configuração – pai, mãe e filhos –, e a inocência infantil. Posicionam o ato do aborto como perdoável quando a grávida é uma criança vítima de estupro, fato moralmente inaceitável. Isso pode ser visto mais claramente no exemplo: “Sou contra o aborto provocado, mas nesse caso seria trocar a vida da menina pela dos embriões”133. A vítima do estupro e do aborto é um “ente vivo, ainda imaturo” e deve-se considerar primeiro seu bem estar físico e emocional.
Interessante observar que duas delas levantaram a bandeira da liberdade da mulher para fazer da vida o que desejam. Da forma como escrevem, defendem a não ingerência, tanto da igreja quanto do Estado, sobre seus corpos. Nota-se aqui o lugar da pessoa, ao destacar seu direito à autonomia, e a colocação da decisão individual acima daquilo que a sociedade civil ou a igreja acreditam ser o melhor para a mulher.
Uma leitora ainda questiona: “como excomungar alguém que foi traída como mãe, mulher e esposa?”, referindo-se à mãe da menina de nove anos. A frase destaca um valor - a moral da mãe, sua autoestima, e de mulher-esposa -, cujo marido foi capaz de trocá-la por outra que era sua própria filha. O padrasto foi infiel e desleal em todos os aspectos também na visão de outra carta: “O bispo deveria sim ter manifestado mais seriamente sobre o estuprador, real criminoso nesta história toda”.
A deslealdade está presente também entre os membros da própria igreja, segundo o julgamento das leitoras. Elas questionam com que autoridade moral a igreja julga seus fiéis visto que “todos os pedófilos do mundo deveriam ser excomungados e não é bem assim que tem acontecido”, dando a entender que a própria igreja não é capaz de condenar seus membros acusados de pedofilia.
Uma das cartas recorre a outro fato semelhante noticiado pelo jornal na mesma época sobre o qual a igreja preferiu não se posicionar: “E porque a CNBB não excomungou o estuprador do Paraná que matou uma jovem de 20 anos e deixou paraplégica uma jovem cheia de vida?” Através da comparação, a leitora tenta dar credibilidade às suas palavras; quer transparecer que tem conhecimento dos “pecados” da própria igreja, o que a têm levado ao descrédito junto aos seus fiéis.
133
Trechos extraídos de outras cartas: “Não estou aqui fazendo apologia ao aborto pura e simplesmente, apenas defendo o direito das mulheres de levarem uma vida normal”; “Independente de sua idade, a mulher tem direito ao aborto, no caso de uma gravidez decorrente de violência sexual”.
Duas cartas mostram claramente a hierarquização estabelecida pelas leitoras em relação à sua posição de crente e sua posição de cidadã. Exemplo: “Sou católica fervorosa e foi com muita tristeza que soube do pronunciamento do bispo”134. Ao transferir o problema para as questões internas do Vaticano, nos parece que as leitoras, principalmente as que se declararam católicas, buscam trazer para si o “perdão” para sua posição a favor do aborto. Isso fica mais claro na seguinte frase de uma delas: “Sei que muitos ao lerem minha opinião também vão querer me excomungar, mas, como mulher, mãe e avó, acho que está na hora das religiões reverem seus dogmas”.
Uma entre as quatro cartas constrói sua argumentação com base nas leis civis. Percebe-se que um valor - a vida - é mais valorizado que outro - a fé.
O aborto é qualificado pelo Vaticano135 como pecado de extrema gravidade, particularmente perverso e abominável; um crime passível de excomunhão em qualquer circunstância. Já para a justiça brasileira136 é considerado crime, exceto em duas situações: de estupro e de risco de vida materno. No caso das leitoras, mesmo as que se declararam católicas, as regras religiosas devem ficar restritas ao âmbito da igreja e as leis civis devem ficar restritas ao âmbito do Estado. Uma delas acrescenta um terceiro sujeito à discussão, o que contribui para dar ao Estado um
status de maior valor que o dado à religião: “A atitude incompreensível teria o
objetivo de proibir a ciência de discordar de dogmas fundamentalistas, para que não incitem outros a refletir sobre a posição da Igreja?”
No “Caso de Pernambuco”, as questões espirituais foram sobrepostas por valores como a liberdade de escolha e o direito à justiça. Elas se posicionaram como leitoras solidárias e preocupadas mais com a questão da cidadania do que com o que a religiosidade lhes reserva caso suas regras não sejam cumpridas. Duas delas colocam a profissão que exercem: assistente social e advogada.
134
Trecho extraído de outra carta: “Sou católica, mas me assusta a posição do clero diante de tal atrocidade”.
135
Ver a 58a encíclica do Evangelium Vitae, de autoria do Papa João Paulo II, 1995. Disponível em: <www.vatican.va>. Acesso em: 15 nov. 10.
136
Artigo 125 do Código Penal Brasileiro. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del2848.htm>. Acesso em: 15 nov. 10.
7.1.3.3 As cartas editadas
A tabela abaixo mostra quantas cartas foram enviadas e publicadas sobre cada um dos subtemas que envolvem a igreja Católica. Interessante observar que casos diversos de estupro e aborto foram tema de 18 matérias e receberam apenas uma carta. Já o “Caso de Pernambuco” foi foco de seis reportagens137 e recebeu 14 cartas, sendo que três delas foram publicadas, duas masculinas e uma feminina. A íntegra dos textos dessas cartas se encontra no APÊNDICE F.
Tabela 27 - Igreja – Matérias X Cartas publicadas no Estado de Minas – fev./mar 2009 Matérias Cartas Enviadas Cartas Publicadas Holocausto 6 5 4 Laicismo 0 1 1
Casos de Estupro e Aborto 18 1 1
Aborto/Excomunhão 6 14 3
Totais 30 21 9
Fonte: Dados da pesquisa.
A edição da primeira carta manteve seus três pontos centrais. Primeiro, o de transmitir a indignação do leitor em relação à excomunhão: “Estranhamos a rapidez como a Igreja agiu para o julgamento, não respeitaram o que Jesus disse, Não julgueis para não seres julgado. Pergunto e ele se excomungou o do padrasto”. Segundo, o de condenar o padrasto: “a vítima do terrível horror foi uma inocente criança de 9 anos, nascida em Alagoinha, Pe. que foi estuprada e engravidou de gêmeos do Padrasto”, apesar de ter retirado o adjetivo que o qualificava: “um monstro”. E, terceiro, o de condenar também a forma com a qual a igreja vem lidando com os escândalos sexuais envolvendo seus membros: “E como ficam os milhares de Padres, Bispos, tidos como Pedófilos”. O tom de tristeza e decepção, com toda a situação gerada desde o estupro ao aborto e a polêmica em torno dele, também se fez presente, mantendo os valores pretendidos pelo leitor. Porém, um ponto central que introduz a polêmica foi retirado. Observa-se que o editor da coluna
137
Datas e títulos das matérias: 28.02 – ABUSO SEXUAL – Preso suspeito de estupro; 02.03 – ABUSO SEXUAL – Gestação será interrompida; 05.03 – ABUSO SEXUAL - Menina de nove anos tem gravidez interrompida; 07.03 – POLÊMICA – Arcebispo considera aborto pior que estupro; 07.03 – POLÊMICA – Lula defende médicos e critica excomunhão; 08.03 – POLÊMICA – Arcebispo rebate críticas de Lula.
optou por excluir a referência aos grupos de defesa dos direitos humanos e ao Vaticano e aos homossexuais na tentativa de igualá-los aos pedófilos. Foi retirada também do texto original parte da descrição dos fatos: “pela medicina foi atestado que a inocente criança ficou grávida de gêmeos e que corria risco”.
Os editores deixaram o leitor defender apenas a fragilidade dela em decorrência da sua idade, ao cortar grande parte da segunda carta, a começar pelos adjetivos com os quais o autor descreve a menina: “criança, imatura ainda, fraca fisicamente e inapta para tamanho sacrifício”, e toda a argumentação baseada nos termos da lei: “o art. 128 do Código Penal Brasileiro prevê o aborto necessário ou terapêutico”. Permanece o valor presente na argumentação, porém sem a hierarquia explícita da lei civil em relação à religiosa. Inclusive a edição retirou um drama do leitor que é católico: “não quero discutir os dogmas e mandamentos da religião”.
Na terceira carta, o editor optou por suprimir os exemplos pessoais da autora: “Olho para minhas netinhas e não consigo nem imaginar que tal mal possa ocorrer com elas”, assim como e a solução que ela dá ao problema: “Acho que todos os pedófilos do mundo deveriam ser excomungados e não é bem assim que tem acontecido”. Apesar disso, manteve o sentido de solidário da carta.
Ficaram de fora da coluna principalmente os seguintes argumentos presentes nas cartas descartadas pela edição: a crítica feita à interpretação de um articulista sobre a laicidade, a falta de condição física da menina para levar adiante a gravidez, as referências às leis civis, ou seja, aos valores como a separação da igreja do Estado; e referências a outros casos de violência sexual.
As três cartas não sofreram acréscimos para publicação, porém tiveram palavras removidas. A que sofreu maior interferência foi a carta 2 que teve 75% de suas palavras retiradas. Abaixo tabela indicando a quantidade de palavras contidas na íntegra da carta, a quantidade acrescentada e o número de palavras contido no texto publicado.
Tabela 28 - Número de palavras por carta – Aborto/Excomunhão – fev./mar. 2009 Na íntegra das cartas Removidas pela edição Acrescentadas pela edição Publicadas Carta 1 344 104 0 240 Carta 2 268 202 0 66 Carta 3 162 40 0 122
Fonte: Dados da pesquisa.