3.4 Antik Yunan Felsefesi
3.4.4 Parmenides, Pythagoras ve Herakleitos
No texto “O mal-estar na civilização”, Freud (1930/1976) refere-se várias vezes ao trabalho (Arbeit), estabelecendo relação com uma função psíquica. Destacamos algumas passagens da obra na tentativa de compreender o lugar da economia psíquica para o autor. A primeira referência é feita na segunda parte do texto, ao dizer das técnicas para afastar o sofrimento pelo deslocamento da libido por uma via sublimatória:
A tarefa aqui consiste em reorientar os objetivos pulsionais de maneira que eludam a frustração do mundo externo. Para isso, ela conta com a assistência da sublimação das pulsões. Obtém-se o máximo quando se consegue intensificar suficientemente a produção de prazer a partir das fontes do trabalho psíquico e intelectual. Quando isso acontece, o destino pouco pode fazer contra nós. Uma satisfação desse tipo, como, por exemplo, a alegria do artista em criar, em dar corpo às suas fantasias, ou a do cientista em solucionar problemas ou descobrir verdades, possui uma qualidade especial que, sem dúvida, um dia poderemos caracterizar em termos metapsicológicos. Atualmente, apenas de forma figurada podemos dizer que tais satisfações parecem “mais refinadas e mais altas”. (FREUD, 1930/1976, p. 98-99).
A sublimação das pulsões é um processo psíquico inconsciente que aponta, mostra Freud, para um deslocamento dos objetivos da pulsão para objetos não sexuais, que conotam certos valores e ideais sociais. A princípio, podemos intuir que o trabalho – ao menos esse com as qualidades que Freud destaca – pode corresponder, em um processo sublimatório, a uma atividade que permite a interiorização de coordenadas simbólicas que orientam a pulsão.
Na próxima referência ao trabalho, que aparece na terceira parte do texto, Freud aponta que os sinais da civilização não se orientam apenas pela exploração da natureza e pela proteção contra suas forças, mas por uma exigência menos prática, expressa na valorização da beleza, do asseio e da ordem, dirigida ao trabalho:
Exigimos que o homem civilizado reverencie a beleza, sempre que a perceba na natureza ou sempre que a crie nos objetos de seu trabalho manual, na medida em que é capaz disso. Mas isso está longe de exaurir nossas exigências quanto à civilização. Esperamos, ademais, ver sinais de asseio e de ordem. (FREUD, 1930/1976, p.112).
Em seguida, dizendo da ordem como “uma espécie de compulsão a ser repetida”, norma a ser seguida poupando a hesitação e a indecisão, Freud, 1930/1976, p. 112) lamenta que seus incontestáveis benefícios não tenham ocupado “[...] seu lugar nas atividades humanas desde o início e sem dificuldade”. Ao contrário:
[...] podemos ficar admirados de que isso não tenha acontecido, de que, pelo contrário, os seres humanos revelem uma tendência inata para o descuido, a irregularidade e a irresponsabilidade em seu trabalho, e de que seja necessário um laborioso treinamento para que aprendam a seguir o exemplo de seus modelos celestes. (FREUD, 1930/1976, p.113-114).
Nesse caráter inato ao descuido, à irregularidade e à irresponsabilidade, assim como a uma agressividade que Freud insiste em manter no registro do biológico, à luz de Lacan (1948/1998), vemos como Freud se prendia inicialmente à
ideologia de seu tempo. Para Lacan, toda a obra freudiana é conduzida na direção de desconstruir esse inato, o caráter biológico na experiência do humano (GUILLOT, 2011). Podemos pensar com o próprio Freud que, se um trabalho, “um laborioso treinamento” (FREUD, 1930/1976, p. 114), é necessário para a obtenção da ordem, esse trabalho deve ser realizado sobre a base de uma renúncia à satisfação pulsional.
No capítulo IV, ariscando-se em especulações nos terrenos da antropologia e fazendo referências a seu texto “Totem e tabu” (FREUD, 1912-1913/1976), Freud demonstra a força dos laços familiares em sua relação com os laços no trabalho:
Depois que o homem primevo descobriu que estava literalmente em suas mãos melhorar a sua sorte na Terra através do trabalho, não lhe pode ter sido indiferente que outro homem trabalhasse com ele ou contra ele. Esse outro homem adquiriu para ele o valor de um companheiro de trabalho, com quem era útil conviver. Em época ainda anterior, em sua pré-história simiesca, o homem adotara o hábito de formar famílias, e provavelmente os membros de sua família foram os seus primeiros auxiliares. (FREUD, 1930/1976, p.119).
A vida comunitária dos seres humanos teve, portanto, um fundamento duplo: a compulsão para o trabalho, criada pela necessidade externa, e o poder do amor, que fez o homem relutar em privar-se de seu objeto sexual – a mulher – e a mulher, em privar-se daquela parte de si própria que dela fora separada – seu filho. Eros e Ananke [Amor e Necessidade] se tornaram os pais também da civilização humana. (FREUD, 1930/1976, p.121).
O autor segue argumentando sobre como a finalidade inibida do amor sensual estende-se à família e aos vínculos sociais do trabalho:
O amor que fundou a família continua a operar na civilização, tanto em sua forma original, em que não renuncia à satisfação sexual direta, quanto em sua forma modificada, como afeição inibida em sua finalidade. Em cada uma delas, continua a realizar sua função de reunir consideráveis quantidades de pessoas, de um modo mais intensivo do que o que pode ser efetuado através do interesse pelo trabalho em comum. (FREUD, 1930/1976, p.123).
Freud também afirma que os neuróticos não podem suportar são as frustrações da vida sexual. Os sintomas, como satisfações substitutivas criadas na neurose, causam sofrimentos por si próprios ou são fontes de sofrimento pelas dificuldades que impõem na relação com o meio e com os outros. Opondo civilização e sexualidade, entra pelas dinâmicas da função do amor na civilização:
Até aqui, podemos imaginar perfeitamente uma comunidade cultural que consista em indivíduos duplos como este, que, libidinalmente satisfeitos em si mesmos, se vinculem uns aos outros através dos elos do trabalho comum e dos interesses comuns. Se assim fosse, a civilização não teria que extrair
energia alguma da sexualidade. Contudo, esse desejável estado de coisas não existe, nem nunca existiu. A realidade nos mostra que a civilização não se contenta com as ligações que até agora lhe concedemos. Visa a unir entre si os membros da comunidade também de maneira libidinal e, para tanto, emprega todos os meios. Favorece todos os caminhos pelos quais identificações fortes possam ser estabelecidas entre os membros da comunidade e, na mais ampla escala, convoca a libido inibida em sua finalidade, de modo a fortalecer o vínculo comunal através das relações de amizade. Para que esses objetivos sejam realizados, faz-se inevitável uma restrição à vida sexual. Não conseguimos, porém, entender qual necessidade força a civilização a tomar esse caminho, necessidade que provoca o seu antagonismo à sexualidade. Deve haver algum fator de perturbação que ainda não descobrimos. (FREUD, 1930/1976, p.129-130).
Nas palavras de Freud, o elemento de verdade por trás disso tudo, tão fortemente repudiado, é:
Os homens não são criaturas gentis que desejam ser amadas e que, no máximo, podem defender-se quando atacadas; pelo contrário, são criaturas entre cujos dotes instintivos deve-se levar em conta uma poderosa quota de agressividade. Em resultado disso, o seu próximo é, para eles, não apenas um ajudante potencial ou um objeto sexual, mas também alguém que os tenta a satisfazer sobre ele a sua agressividade, a explorar sua capacidade de trabalho sem compensação, utilizá-lo sexualmente sem o seu consentimento, apoderar-se de suas posses, humilhá-lo, causar-lhe sofrimento, torturá-lo e matá-lo. – Homo homini lupus. (FREUD, 1930/1976, p.133).
O texto prossegue opondo a força do interesse pelo trabalho comum à força das pulsões:
Em consequência dessa mútua hostilidade primária dos seres humanos, a sociedade civilizada se vê permanentemente ameaçada de desintegração. O interesse pelo trabalho em comum não a manteria unida; as paixões instintivas são mais fortes que os interesses razoáveis. (FREUD, 1930/1976, p.134)
Nesse sentido, Freud questiona no comunismo o ideal de homem bom e bem disposto para com o próximo, que, por ter tido sua natureza corrompida pela instituição da propriedade privada, encontraria na abolição dessa instituição a satisfação das necessidades de todos:
Ninguém teria razão alguma para encarar outrem como inimigo; todos, de boa vontade, empreenderiam o trabalho que se fizesse necessário. Não estou interessado em nenhuma crítica econômica do sistema comunista; não posso investigar se a abolição da propriedade privada é conveniente ou vantajosa. Mas sou capaz de reconhecer que as premissas psicológicas em que o sistema se baseia são uma ilusão insustentável. Abolindo a propriedade privada, privamos o amor humano da agressão de um de seus instrumentos, decerto forte, embora, decerto também, não o mais forte; de maneira alguma, porém, alteramos as diferenças em poder e influência que são mal empregadas pela agressividade, nem tampouco alteramos nada em sua natureza. A agressividade não foi criada pela propriedade. (FREUD, 1930/1976, p.135).
E é em um belo parágrafo que Freud faz sua última referência ao trabalho no texto em questão. É aí também que ele traz pela primeira vez nesse texto a noção de pulsão de morte:
Posso agora acrescentar que a civilização constitui um processo a serviço de Eros, cujo propósito é combinar indivíduos humanos isolados, depois famílias e, depois ainda, raças, povos e nações numa única grande unidade, a unidade da humanidade. Porque isso tem de acontecer, não sabemos; o trabalho de Eros é precisamente este. Essas reuniões de homens devem estar libidinalmente ligadas umas às outras. A necessidade, as vantagens do trabalho em comum, por si sós, não as manterão unidas. Mas a natural pulsão agressiva do homem, a hostilidade de cada um contra todos e a de todos contra cada um, se opõe a esse programa da civilização. Essa pulsão agressiva é o derivado e o principal representante da pulsão de morte, que descobrimos lado a lado de Eros e que com este divide o domínio do mundo. Agora, penso eu, o significado da evolução da civilização não mais nos é obscuro. Ele deve representar a luta entre Eros e a Morte, entre a pulsão de vida e a pulsão de destruição, tal como ela se elabora na espécie humana. Nessa luta consiste essencialmente toda a vida, e, portanto, a evolução da civilização pode ser simplesmente descrita como a luta da espécie humana pela vida. E é essa batalha de gigantes que nossas babás tentam apaziguar com sua cantiga de ninar sobre o Céu. (FREUD, 1930/1976, p.145).
Freud mostra duas faces da cultura como fruto da renúncia à satisfação pulsional: uma que suporta a função pacificante naquilo que veicula a possibilidade de laços simbólicos, ligados à possibilidade de união entre desejo e lei e ao estabelecimento do ideal do Eu, e outra que guarda suas relações com a pulsão de morte e a ação do superego, usando as interdições da cultura para impor uma forma de gozo deletéria.
É em uma nota de rodapé que Freud reconhece e destaca a função primordial do trabalho como fonte de satisfação e conduta que prende o indivíduo à realidade:
Nenhuma outra técnica para a conduta da vida prende o indivíduo tão firmemente à realidade quanto a ênfase concedida ao trabalho, pois este, pelo menos, fornece-lhe um lugar seguro numa parte da realidade, na comunidade humana. A possibilidade que essa técnica oferece de deslocar uma grande quantidade de componentes libidinais, sejam eles narcísicos, agressivos ou mesmo eróticos, para o trabalho profissional, e para os relacionamentos humanos a ele vinculados, empresta-lhe um valor que de maneira alguma está em segundo plano quanto ao de que goza como algo indispensável à preservação e justificação da existência em sociedade. A atividade profissional constitui fonte de satisfação especial, se for livremente escolhida, isto é, se, por meio de sublimação, tornar possível o uso de inclinações existentes, de moções pulsionais26 persistentes ou constitucionalmente reforçados. (FREUD, 1930/1976, p. 99).
26
Optamos pela expressão traduzida do texto em francês, “motions pulsionnelles”, que denota melhor o que está em jogo do que a expressão em português “impulsos instintivos”.
É inequívoco o valor indispensável atribuído aí ao trabalho para afirmar e justificar, para cada um, sua existência na sociedade. O autor deixa claro que o trabalho como fonte de satisfação inclui uma livre escolha, que define o uso de algo de si que já está lá, que persiste, que se impõe como uma inclinação, como algo constitucional, e também a sublimação, um desvio dos objetivos sexuais e agressivos que se institui sobre o constituído das moções pulsionais.
Mas será que a sublimação tem sido a via régia do trabalho hoje? Nossa civilização e as vias que os sujeitos encontram como destino para a pulsão podem ser lida como idênticas àquelas do tempo de Freud? O que há de novo na leitura do mal-estar por Lacan?