3.4 Antik Yunan Felsefesi
3.4.2 Anaksimandros
A pulsão é cunhada por Freud como hipótese para dar conta das fontes internas de excitação, suas múltiplas formas de satisfação e as relações objetais às quais o organismo não pode escapar. São vários os momentos da obra freudiana em que o conceito é trabalhado. Podemos destacar “Três ensaios sobre a sexualidade” (FREUD, 1905/1976), onde o termo é empregado pela primeira vez, e “As pulsões e seus destinos” (FREUD, 1915/1976), onde Freud inicia sua argumentação apontando a pulsão como conceito fundamental para a psicanálise, assim como o conceito de massa para as ciências físicas. Ela é definida como “um conceito limite entre o somático e o psíquico, como o representante psíquico dos estímulos oriundos do interior do corpo e que atingem a alma, como uma medida do trabalho imposto à psique por sua ligação com o corpo” (FREUD, 1915/1976, p. 142).
As pulsões são múltiplas, mas, segundo Freud, apresentam características comuns: fonte, pressão, objetivo e objeto.
Sua fonte (Quelle) é sempre corporal e não psíquica, sendo um “processo somático que ocorre num órgão ou parte do corpo e cuja excitação é representada na vida mental pela pulsão” (FREUD, 1915/1976, p. 143). A pulsão apoia-se sobre as funções somáticas vitais, relativas ao instinto no humano, e essa noção de apoio é chave para compreendermos o conceito de pulsão e sua diferença do instinto. Enquanto esse último designa um comportamento hereditariamente fixado, com um
objeto definido, a pulsão mostra variação quanto ao objetivo e ao objeto. Se algo do instintivo lhes serve de apoio, toda e qualquer predeterminação que caracterizaria o instinto é pervertida no humano. O clássico exemplo da atividade latente não deixa dúvida: à satisfação decorrente da ingestão do leite é somada a excitação dos lábios e da língua no contato com o seio materno. Logo, a pulsão apresenta-se como desvio em relação à função instintual, desnaturalizando-a, mas se apoiando nela como fonte, em descontinuidade aos objetivos instintuais.
Já como pressão (Drang), escreve Freud (1915/1976, p. 142), “compreendemos seu fator motor, a quantidade de força ou a medida da exigência de trabalho que ela apresenta”. A pressão como atividade da pulsão é sempre presente, mesmo quando há um objetivo passivo, como no exibicionismo ou no masoquismo. Essa exigência de trabalho marca de forma específica o aparelho psíquico enquanto pressão que impele o organismo à busca constante de eliminar toda tensão a que é submetido.
Outra característica da pulsão apresentada por Freud é que seu objetivo (Ziel) é sempre a satisfação, no sentido da redução da tensão provocada pela pressão. Freud, a princípio, distingue pelo menos dois grupos de pulsões quanto a seu objetivo: de autoconservação, que busca eliminar a tensão ligada a uma necessidade e tem seu funcionamento regido pelo princípio da realidade, e sexual, menos específica e sustentada e orientada por fantasias, sob a predominância do princípio do prazer. Sobre essa distinção, Freud afirma não ter status de postulado, sendo mais próxima de uma hipótese de trabalho (FREUD, 1915/1976).
Por fim, Freud define o objeto (Objekt) da pulsão como aquilo com que ela atinge seu objetivo, afirmando que ele é “[...] o que há de mais variável numa pulsão” (FREUD, 1915/1976, p. 143). O objeto da pulsão é, assim, o meio para atingir seu fim, como também indica o modo de relação com o objeto. Um exemplo claro é o da pulsão oral, que implica tanto o objeto oral em jogo como o modo de relação objetal, ou seja, a incorporação. É o que demonstra Freud (1905/1976) ao apresentar as fases pré-genitais da libido e seus modos próprios de relação objetal.
Mas a pulsão não é nunca completamente satisfeita, sendo seu objetivo atendido somente de maneira provisória e seu objeto sempre inadequado. Ela tem apenas o objetivo da satisfação, que não se dá nunca de forma direta, sempre modificada pela censura. Por isso, os destinos da pulsão apresentados por Freud (1915/1976) e que enumeramos a seguir são também, de alguma forma, maneiras
de organizar a exigência e o fracasso de sua satisfação. O primeiro é o recalcamento, responsável pela formação dos sintomas e moeda corrente nas descrições freudianas das neuroses. O segundo é a sublimação, próprio às pulsões sexuais, que ilustra bem a plasticidade e a distância que pode separar uma origem pulsional e seu destino final. Os outros três são a reversão ao seu oposto, o retorno em direção ao próprio Eu e a passagem da atividade para a passividade, destinos que Freud retira do campo das perversões.
O dualismo pulsional presente nas noções de pulsão de autoconservação (que Freud identifica às pulsões do ego) e de pulsão sexual (a libido) demarca a importância da ideia de conflito psíquico presente na psicanálise freudiana, conflito que também se apresenta entre as instâncias Ics-Pcs/Cs ou entre desejo e defesa, o que determina a noção de sintoma em Freud. O primeiro dualismo pulsional, que distingue a energia libidinal das energias em jogo nas necessidades do Ego, é suspenso por Freud (1914/1976) quando ele pode concluir que, no narcisismo, o próprio Eu é tomado como objeto de um investimento libidinal. Como indica Safatle (2012), Freud, ao considerar a centralidade do narcisismo e seus mecanismos de projeção e introjeção, acaba por unificar os destinos da pulsão à repetição da imagem do Eu.
A retomada do dualismo pulsional dar-se-á de forma reconfigurada a partir do texto “Além do princípio do prazer” (FREUD, 1920/1976), com as noções de pulsão de vida e pulsão de morte. As figuras de Eros e Tanatos representam esse novo dualismo. A Eros, são atribuídas tendência unificadoras em potência, que buscam preservar e aumentar a coesão em uma forma ligada da energia sexual, como nas representações do Eu. Já o recurso à Tanatos responde a uma compulsão em se retornar a algo que foi excluído ou nunca absorvido, como o recalcado, preservando uma energia livre que dá dinamismo à vida psíquica.
Nessa última teoria freudiana das pulsões, segundo Safatle (2012a, p. 135), “acrescenta-se um certo caráter teleológico que orienta a direção da pressão pulsional para as vias de uma operação de retorno”, que expressaria “[...] a inércia da vida orgânica, como exigência de trabalho em direção ao restabelecimento de um estado de supressão de tensão” que a noção de compulsão à repetição encarna.
[...] a morte em Freud não é apenas destruição da integridade do organismo biológico, mas é também o que suspende o princípio de individuação e de unidade sintética em operação no Eu. Daí porque ela pode aparecer, no caso de Freud, como fonte da dinâmica pulsional responsável por
processos como a repetição de acontecimentos traumáticos não- simbolizados e esta reação terapêutica negativa compreendida enquanto resistência aos processos de subjetivação em operação na clínica analítica. (SAFATLE, 2012a, p. 137).
O autor também afirma:
[...] uma das grandes peculiaridades de Jacques Lacan consistiu em tentar reorientar a clínica analítica através da centralidade da pulsão de morte como perspectiva de inteligibilidade da clínica. De fato, o reconhecimento de tal centralidade será visto como o motor do progresso analítico e da direção do tratamento. Pois o verdadeiro problema clínico para Lacan não consistirá em limitar o impulso de destruição da pulsão de morte a fim de permitir à vida operar processos cada vez mais amplos de unificação. Ao contrário, trata-se de produzir inicialmente uma ruptura desta unidade almejada por Eros, unidade que, para Lacan, era fundamentalmente narcísica e imaginária, pois vinculada à projeção e introjeção da imagem do Eu. Desta forma, Lacan teve o mérito de compreender a pulsão de morte para além da repetição compulsiva do instinto de destruição [...]. (SAFATLE, 2012a, p. 141-142).
A pulsão de morte, para Freud, marca a presença daquilo que não pode ser incluído em uma noção vitalista de natureza como polo positivo de doação de sentido (SAFATLE, 2012). Essa negatividade da pulsão de morte não será, contudo, incorporada como motor dos processos de cura na clínica freudiana, diz Safatle (2012). A compulsão à repetição, permanecendo como limite da cura, impediria os processos que Freud aponta como modos de subjetivação próprios de sua clínica, ou seja, a rememoração, a verbalização e a simbolização reflexiva. Assim, o caráter negativo da pulsão de morte permanece como indício, na clínica, de reações a serem eliminadas para que se leve ao fim uma análise.
Já nas palavras de Zizek (2008, p. 17) a pulsão de morte freudiana deve ser lida como o núcleo inumano do humano, que “[...] nada tem que ver com a ânsia de autoaniquilação, de retorno à ausência inorgânica de toda tensão de vida”. Pelo contrário, ela deve ser tomada como o oposto da morte, “nome da própria vida eterna [...], “terrível destino de permanecer preso no ciclo repetitivo e interminável de perambular com culpa e dor”.
Lacan, ao tomar a pulsão no singular, afirmando que “toda pulsão é virtualmente pulsão de morte” (LACAN, 1960[1964]/1998, p.863), diferencia-se de Freud. Não a compreende propriamente como um retorno ao inorgânico, mas a morte como do lado do gozo do corpo vivo que a linguagem impõe. Pensar a pulsão freudiana com Lacan passa pela compreensão disso que Freud já indicava, de que há uma diferença entre prazer e gozo. O prazer tem como oposto o sofrimento e a
dor. O gozo, satisfação paradoxal que a pulsão encontra também no sofrimento, pode incluir tanto o prazer quanto a dor. Se a pulsão é, para Freud, conceito entre o somático e o psíquico, em Lacan ela está entre o simbólico e o imaginário. É o simbólico que a articula, mas sua satisfação é imaginária. É nisso que Freud fazia reconhecer o caráter não natural ou não instintual da pulsão que, parafraseando Miller (2005, p. 103), Lacan indicará que a pulsão traduz a apreensão que o simbólico faz do que “[...] há de desnaturado no organismo humano”, seu mais íntimo. Ela não se deixa fixar como o instinto, e sua não fixidez define um caráter sempre subversivo. Essa seria a prova, para Miller (2005), de que o simbólico não é uma superestrutura, posto que a origem dos estímulos que sofrerão a representação psíquica é o corpo e é dessa tentativa de recobrimento simbólico que se produz pulsão. Como afirma Assoun (2009b, p. 179, tradução nossa), “o corpo faz trabalhar a alma e este suplemento se inscreve em pulsão24”.
Miller (1999) demonstra que o que é próprio do campo da psicanálise é esse saber sobre o gozo, que se constrói sobre a pulsão. Que haja um saber científico sobre a vida, sobre o corpo vivo, sobre as leis de regulações que nele agem, é fato que a psicanálise não ignora. O próprio Miller leva-nos a pensar a relação entre o princípio do prazer e o princípio da realidade em Freud, que conduz à regulação libidinal, como “um fato biológico por excelência [...]. [O que nos] mostra a psicologia animal é que, no animal, o princípio do prazer e o princípio da realidade são uma coisa só. No animal não há clivagem entre os dois princípios” (MILLER, 1999, p. 52). No homem, o prazer o retira da realidade (MILLER, 1999), sendo essa a marca da descoberta freudiana. “Se o homem se abandona ao princípio do prazer freudiano, ele não sobrevive” (MILLER, 1999, p. 52-53), porque ele é um princípio de gozo que “alimenta a inadequação do corpo vivo humano ao seu meio vital” (MILLER, 1999, p. 53). A vida enquanto corpo biológico, se quer alguma coisa, só quer viver, mas no humano a entrada na linguagem traz consigo esse traço inumano do gozo que é a pulsão de morte.