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Sabe-se que os acontecimentos que caracterizavam a cultura do século XIX, dentro da literatura brasileira, sempre foram abordados por Machado de Assis de maneira especial. A

sociedade elitista brasileira do século XIX foi para o autor um dos mais importantes objetos de discussão, neste período de aceleradas mudanças, e serviu de pano de fundo e cenário literário para as suas criações. Sua consciência artística sempre teve uma enorme compreensão da alma humana e das questões históricas e filosóficas da época, como poucos escritores tiveram. Sempre foi um atento observador das questões sociais e históricas que envolvem a formação brasileira, e nada melhor do que o romance Quincas Borba para mostrarmos que, apesar de ter uma estrutura aparentemente mais bem comportada e ser considerado um romance menos inovador do que seu antecessor Memórias Póstumas de Brás Cubas – no entanto, completamente equivocada –, o livro revela detalhes da sociedade brasileira do século XIX e seus personagens que, se por vezes sutis, são bastante transgressores e reveladores também. Apesar de o romance Quincas Borba ser uma espécie de continuação de Memórias Póstumas de Brás Cubas, visto no início do capítulo IV e parte do capítulo XIII, a história de Quincas Borba é completamente outra e o ponto convergente entre as narrativas é apenas o personagem Quincas Borba e a sua teoria sobre o Humanitismo, filosofia com a qual o filósofo marcou sensivelmente Brás Cubas e tentou de todas as formas e sem sucesso ensinar a Rubião. Na realidade, a narrativa da história desse professor do interior de Minas Gerais, não passará de uma espécie de exemplificação da teoria inventada pelo filósofo. Quincas Borba nunca deixou de estar em evidência ao longo de mais de um século de sua publicação, enfrentando, assim, as vicissitudes críticas comuns à obra machadiana, o que justifica a escolha deste corpus para a análise.

A trama de Quincas Borba se passa no Segundo Império e segue um momento de grande transformação social no Brasil, bem como mantêm características muito peculiares da vinda da Família Real para o Brasil e todas as transformações políticas, sociais, econômicas e culturais que dela ocorrem. No entanto, é imprescindível que façamos um breve resumo deste período, tendo em mente o contexto europeu da época, para podemos entender o porquê destes acontecimentos serem tão significativos na narrativa machadiana e a presença da figura napoleônica ser disseminada por muitos autores em suas obras. No caso da América Latina em geral e do Brasil em particular, os eventos que se sucedem, consolidados aos processos de independência político-administrativa das várias unidades nacionais e eliminado o entrave do sistema colonial, a Inglaterra e a França passam a exercer uma influência cada vez maior sobre a América Latina. Por volta de meados do século XIX, as nações capitalistas europeias

– em particular a Inglaterra e a França – entravam na fase do seu apogeu militar, financeiro e

econômico. Quando na Europa, início do século XIX, surge Napoleão Bonaparte, braço armado e agressivo de uma burguesia francesa revolucionária, este exige que o rei de

Portugal, D. João VI, confisque todos os bens dos súditos ingleses em Portugal e corte a aliança com a Inglaterra –, país que trava uma grande guerra com a França, luta pela hegemonia continental e, apesar de traficar, por dois séculos, milhões de negros para o continente americano, agora tenta liquidar o estatuto escravista. O objetivo não é uma conversão espiritual, fundamentada em princípios humanísticos, mas buscar mercados cada vez mais amplos para seus produtos. D. João VI prontamente simula um rompimento com a Inglaterra com o intuito de ganhar tempo; Napoleão, por saber que o país lusitano serve de trampolim britânico no continente, resolve invadir Portugal. O rei, sua família e grande parte da corte portuguesa saem do seu país, partindo precipitadamente para a colônia brasileira, e fogem das investidas e do exército napoleônico. É dentro deste contexto histórico que o acordo secreto entre Inglaterra e Portugal rendeu a transferência da corte portuguesa para o Brasil, abruptamente para a cidade do Rio de Janeiro e conferindo-lhe a fisionomia de uma verdadeira capital. A presença da Corte criou condições concretas e objetivas para que a separação Brasil-Portugal fosse definitiva. Uma consequência significativa desta separação foi a abertura dos portos para o livre comércio entre países, o que rendeu grandes interesses da elite colonial e facilitou a entrada de produtos importados no país. Na medida em que a presença da Corte tornou mais sofisticada a sociedade do Rio de Janeiro, houve renovação cultural e os hábitos de consumo passaram a ficar cada vez mais refinados, associado a um processo crescente de europeização, o que culminou no aumento da distância social em relação à enorme massa popular. Segundo Flora Süssekind, em seu livro As revistas de ano e a Invenção do Rio de Janeiro (1986), a Corte brasileira é o ―teatro do cosmopolitismo e da modernização, a Capital que inventa um Brasil com fisionomia européia é, ela mesma, uma

invenção. Invenção cuidadosamente trabalhada e submetida a diversos ‗aperfeiçoamentos‘:

ora Corte Imperial, ora Capital federal, cria-se a miragem de um Rio de Janeiro, pólo de atração para migrantes diversos e imago a ser imitada pelo resto do país.‖ (SÜSSEKIND, 1986, p. 15, grifo do autor). Contudo, é o Segundo Império que nos interessa para a narrativa de Quincas Borba, a mais longa fase conservadora e europeizada vivida no país, sob o governo de um único homem, D. Pedro II, que dá mais a ideia de um monarca do Velho Mundo do que de um governante do Brasil, destinado a preservar a herança colonial pelo tempo máximo possível. Para entendermos mais especificamente a personalidade de D. Pedro II, vejamos o que diz Sérgio Alves Peixoto, em seu livro Parábolas são parábolas, nada mais que parábolas: uma leitura de Quincas Borba, de Machado de Assis (2001):

Falando no Imperador, vale a pena darmos uma olhada no comportamento de D. Pedro II, quando de sua deposição e conseqüente passagem do Brasil a República. Um historiador brasileiro nos dá o seguinte quadro da reação do monarca ao receber a notícia da sua ―forçada abdicação‖: Filosófico e distante, meteu-se a ler uma revista científica, e só interrompeu a leitura para o jantar às cinco horas da tarde. Enquanto isso, todos em volta se desesperavam. (PEIXOTO, 2001, p. 24, grifo do autor).

No Brasil, com a implantação do capitalismo burguês, empresarial, nacional, o enfraquecimento da aristocracia e a estabilização burguesa no poder, a expansão industrial e o surgimento de uma nova classe trabalhadora, a modernização econômica à sombra da prosperidade do café e o surgimento de alguns surtos, limitados, é claro, de empresas industriais e de navegação, de seguro e colonização, de mineração e gás, de transporte urbano e de linhas férreas, bancos e caixas econômicas, dentre muitas outras mudanças significativas para o desenvolvimento do país –, o Brasil parece caminhar em direção as alternativas de modernização e progresso. No entanto, a despeito de progressos evidentes, o Brasil ainda não tem ritmo para acompanhar as transformações e realizações pretendidas pelo desenvolvimento de outros países. A sociedade brasileira continua, ainda e apesar de tudo, latifundiária, conservadora, aristocrática, escravocrata, e o progresso, em termos de transformações estruturais, é relativo, sem autonomia e pouco qualitativo. Diz Schwarz (1988), se referindo ao que os autores da época escreviam sobre os problemas existentes na sociedade brasileira,

―cada um a seu modo, estes autores refletem a disparidade entre a sociedade brasileira,

escravagista, e as idéias do liberalismo europeu. Envergonhando a uns, irritando a outros, que insistem na sua hipocrisia, estas idéias – em que gregos e troianos não reconhecem o Brasil – são referências para todos. Sumariamente está montada uma comédia ideológica, diferente da européia. É claro que a liberdade do trabalho, a igualdade perante a lei e, de modo geral, o universalismo eram ideologia na Europa também; mas lá correspondiam às aparências, encobrindo o essencial – a exploração do trabalho. Entre nós, as mesmas idéias seriam falsas num sentido diverso, por assim dizer, original.‖ (SCHWARZ, 1988, pp. 13-14, grifo do autor).

É dentro deste contexto histórico do século XIX que a trama de Quincas Borba será apresentada. A sociedade elitista brasileira, movida por ganância e obcecada por ascensão social, será guiada por práticas indiscriminadas de poder, justificadas em nome de ideias liberais que não condizem com a realidade brasileira da época e importadas falsamente da Europa, principalmente vindas da França. Dessa maneira, conseguimos definir na narrativa

machadiana como esta influência europeia não é usada por Rubião como instrumento de racionalização de meios e fins.