Durante as primeiras fases de expansão imperial romana, na região da Hispânia, o planejamento colonial sofreu com a pacificação e a guerra. À medida que as operações militares penetravam pelo território, se implantava os processos de assentamentos urbanos e, em seguida, se exigia ampliação e melhorias na rede de estradas para as regiões conquistadas (MORRIS, 1984). Esta necessidade permitiu que o exército desempenhasse um papel fundamental na conquista e administração
das províncias da Hispânia. Uma vez que após a submissão do território, o exército ficava encarregado de exercer tarefas de controle e polícia, se converteu, ao longo do tempo, em um corpo de exploração da engenharia, passando a realizar projetos de obras militares e civis. A expansão e o domínio militar romano das províncias esteve muito ligado ao objetivo de controle do território e na rapidez do movimento das tropas (SÁNCHEZ, 2009).
Desta maneira, o emprego das forças militares se somava às funções para a economia, ao assegurar o desenvolvimento do transporte de mercadorias entre as povoações; além de ser também utilizadas na construção de estradas, que adquirem importância como canais de expansão da romanização (Idem, 2009). A construção de novas estradas e a manutenção do sistema existente demandavam uma atividade contínua. No período de Augusto o exército construiu estradas militares e adicionou novas vias comerciais, além de se renovar as já existentes, uma vez que as vias se tornavam fundamentais por permitirem as relações militares e econômicas. A dinastia Júlio-claudiana contribuiu para o progresso hispânico ao investir na extensão e melhoria viária essenciais para as necessidades militares e econômicas (MORRIS, 1984).
A construção de estradas romanas tivera fins militares, mas logo as vias se converteram em artérias da romanização e comércio, revelando-se elementos importantes para a civilização (TOVAR; BLÁZQUEZ, 1975). As estradas romanas permitiam que exércitos e mensageiros oficiais se deslocassem rapidamente, em caso de emergência, assim se constituíram como rápidos meios de comunicação que venciam as distâncias. Por causa de tais finalidades, as estradas sempre seguiam o traçado mais reto possível, podendo ser construídas em nível superior à paisagem que as cercavam para facilitar o deslocamento (RATHBONE, 2011). As vias romanas podiam atravessar todos os tipos de terrenos: pântanos, relevos, galgavam rios; superavam-se as adversidades naturais com diques e pontes, escavando montes e encostas ou desenvolvendo novas estratégias para regular a rota das estradas (STIERLIN, 1997).
Figura 3. O mapa apresenta as principais vias romanas em conexão com os assentamentos urbanos mais importantes da Hispânia. A rede de estradas das províncias peninsulares significou a integração dos territórios no mundo romano. A rede de comunicações garantia
rápidos deslocamentos de tropas e, consequentemente, estabilidade das fronteiras. (MORENO, 1988, p. 43).
As estradas eram construídas pelos soldados que escavavam uma trilha larga e profunda, em seguida comprimiam o subsolo e depois nivelavam com materiais locais: camadas de entulhos eram intercaladas com areia ou cascalho e a superfície podia ser revestida com cascalho, paralelepípedos ou escória de ferraria (RATHBONE, 2011). Assim a construção de estradas compunha-se de várias camadas ou estratos e podiam alcançar um metro de profundidade. A camada mais profunda era o statumen, de grandes pedras, seguida do rudus, com pedras de tamanho médio, somada do nucleos, com cascalho misturado com pedras menores, e em nível superior o pavimentum ou suma crusta, de grandes lajes de pedras, destinado aos transeuntes e veículos. As vias eram construídas de forma convexa para evitar acumular águas das chuvas em seu trajeto (SÁNCHEZ, 2009), além de
apresentarem valetas laterais, com boa drenagem para suportar diferentes condições meteorológicas (RATHBONE, 2011).
Figura 4. Elementos de uma seção de estrada ideal da época do Império Romano que chegaria em grandes cidades. Disponível em:
<http://www.spanisharts.com/arquitectura/imagenes/roma/calzada_romana.jpg>. Acesso em: 12/12/2014.
As redes de estradas retas com pavimento profundo caracterizaram-se como grandes realizações duradouras. As estradas romanas também foram marcadas pela organização, visto que ao longo de seus caminhos existiam os marcos miliários, a cada milha romana – mil passadas ou cerca de 1500 metros (Idem, 2011). Os marcos constituíam-se em grandes pedras com inscrições que indicavam o ponto da via que se encontrava e o nome do imperador ou magistrado que a construiu ou realizou sua manutenção (SÁNCHEZ, 2009). As estradas e marcos miliários recebiam maior atenção da política reconstrutora quando as mesmas escoavam as importantes explorações mineiras (PLÁCIDO, 2009).
A Hispânia contava com diversas vias principais que comunicavam as cidades entre si (SÁNCHEZ, 2009). Uma das principais vias da Hispânia era a estrada de Emerita Augusta (Mérida), a capital da Lusitânia, no oeste peninsular, que conectava a rede viária romana com todo o Império. A rede viária permitia intercâmbios de ideias e de mercadorias, que transformaram a Hispânia indígena com a nivelação de estruturas através da romanização. Caminhos públicos e privados se interconectavam como veículos onde a romanização podia alcançar toda a Península Ibérica (TOVAR; BLÁZQUEZ, 1975).
Desde o início do período do Império romano a Hispânia se organizava mediante o sistema viário e portuário para atender os novos intercâmbios. As estradas
potencializavam as atividades dos portos ao facilitarem as comunicações entre as diferentes localidades, os grandes centros e o Mediterrâneo (PLÁCIDO, 2009). As vias se apresentavam imprescindíveis para os intercâmbios de produtos no interior da Península Ibérica, bastante importante consistia tal comércio centrado nas diferentes cidades, estas que assumiam funções militares e de tributação, colaborando para o desenvolvimento das relações de intercâmbio. O desenvolvimento do comércio exterior mantinha relações estreitas com a reorganização, imposta por Augusto e mantida por seus sucessores, da rede viária das estradas. Grupos de estradas e rotas bordavam a planície peninsular e se ligavam aos principais pontos, que permitiam a comunicação com as regiões do interior, grandes produtoras de matérias-primas, com os mais importantes pontos de embarque, fluviais e costeiros, sobretudo com as costas mediterrâneas que asseguravam as comunicações com a Itália. O comércio de exportação se compunha essencialmente de produtos agrícolas e matérias-primas, principalmente sal, azeite e minerais; o comércio de importação constituía-se principalmente por produtos de luxo provenientes da Itália e Oriente (MORENO, 1988).