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Sob os governos e obras de César e Augusto ocorre um importante avanço na política de urbanização da Hispânia, tal impulso se centrava no processo de desenvolvimento urbanizador romano, por meio de fundações de várias colônias e municípios romanos no território peninsular (SÁNCHEZ, 2009). Com os problemas sociais e econômicos que causariam a queda da República, a emigração de cidadãos romanos para as províncias revelava-se fundamental para a resolução do problema de pobreza do campesinato itálico, que enfrentava a falta de terras para cultivo na Itália (CORNELL; MATTHEWS, 2008).

A emigração de muitos italianos livres para as províncias se sucedeu em grande parte forçadamente, visto que as colônias no ultramar, antes de Júlio César, apresentavam-se numericamente poucas e desconfortáveis; contudo, segundo Suetônio – historiador latino –, com a política de colonização em grande escala liderada por César, mais de trinta províncias receberam por volta de 80000 cidadãos com suas famílias, entre proletários e veteranos (Idem, 2008). Na Hispânia, boa parte dos desempregados seguiu para a Citerior e a região da Bética Ulterior (MORRIS, 1984).

A base da colonização urbana de Hispânia foi reorganizada sob Júlio César; a ampliação do sistema colonial aliviava o desemprego em Roma, ao mesmo tempo que avançava as fronteiras dos territórios, que em sua custódia se fundavam colônias tipo semimilitar. O domínio romano sobre a área colonizada se consolidava com a fundação de redes de colônias, municípios e outros assentamentos menores, fato que também apresentava a superioridade do Império. O primeiro tipo de colônia semimilitar, requeria ser povoada com cidadãos de confiança, com preferência à classe de legionários desmobilizados, diferente das novas colônias fundadas em regiões pacíficas, que podiam contribuir para a solução do problema da plebe urbana (Idem, 1984).

Desta forma, a colonização na Itália e nas províncias, do século I a.C., final da República, se transformou também em um projeto recompensador de líderes políticos para seus partidários e veteranos militares (CORNELL; MATTHEWS, 2008). À medida que as fronteiras de Citerior e Ulterior foram adentrando progressivamente os territórios indígenas, se fundavam novas cidades (MORRIS, 1984). Muitas dessas colônias foram fundadas em locais junto às cidades nativas já existentes, portanto transformadas em cidades duplas. Durante este período, esta medida foi aplicada como caminho para solucionar conflitos e conquistar aliados (CORNELL; MATTHEWS, 2008). Assim, César focaria como objetivo entregar terras aos antigos veteranos de guerra e premiar as comunidades indígenas aliadas contra seu rival Pompeu (MORENO, 1988).

Augusto continuou a política de fundação de colônias na Hispânia, começada por César, fundando aproximadamente 75 colônias provinciais; porém, diferente do segundo que concedeu predominantemente o estatuto de colônia para muitas cidades de caráter civil, Augusto outorgava às fundações militares, sendo o mais importante exemplo Emerita Augusta (atual Mérida), fundada para os veteranos das guerras hispânicas e que brevemente se tornou capital administrativa da província da Lusitânia (TOVAR; BLÁZQUEZ, 1975). Augusto dirigiu campanhas militares, entre 26 a.C. e 25 a.C., contra as tribos celtiberas localizadas nas regiões setentrionais de Cantábria e Astúria; acreditando-se vitorioso fundou a colônia de Emerita Augusta para seus veteranos licenciados, antes de retomar as lutas que se prolongaram até 19 a.C., ano em que toda a Hispânia foi por fim conquistada (MORRIS, 1984).

Augusto aproveitava tal sistema colonial e investia em obras urbanas por muitos pontos do Império. Na Hispânia, investiu-se nas planícies setentrionais – regiões centro e norte – onde não havia existido assentamentos urbanos ou aglomerações que merecessem ser conservadas. A colonização das tribos das montanhas do norte se efetuou com a política romana de fundações de novas cidades, tais cidades romanas se constituíam como únicos assentamentos urbanos (Idem, 1984), já que a vida urbana era praticamente desconhecida pelos indígenas. Estes, por sua vez, passavam a se assentar nas vizinhanças dos acampamentos de legionários romanos. Assim, se conseguia administrar e vigiar as populações submetidas, além de formar centros urbanos, que de agrupações indígenas foram aos poucos adquirindo aspectos de cidades romanas (MORENO, 1988).

Isto se fazia possível de maneira que, como analisamos, para o estabelecimento romano nas regiões das províncias da Hispânia Ulterior e Hispânia Citerior foram empreendidas políticas de integração, governo direto, presença militar e muitas guerras que persistiram por muitos anos devido a sua longevidade – até a época de Augusto. Muitas das técnicas empregadas nas conquistas visavam a consolidação de fronteiras, para tanto os romanos se utilizavam de estabelecimentos com acampamentos de legionários e de auxiliares no lado romano da fronteira. Assim, as províncias recebiam o exército e se tornavam pontos centrais e eficazes de romanização, quando os acampamentos de legionários originavam povoações informais, as canabae, e nas proximidades geravam povoados civis, as conhecidas

municipia. A necessidade de manter exércitos na região da Hispânia proporcionou a

instalação de acampamentos fixos, que também deram origens a novas cidades coloniais (CORNELL; MATTHEWS, 2008).

Por conseguinte, as principais cidades novas correspondiam ao tipo colonia ou

municipium, e se diferenciavam por sua natureza legal, de administração local

(MORRIS, 1984). A fundação de novas colônias propiciava a concessão de estatuto de município a muitas cidades indígenas. Muitas comunidades nativas, principalmente os aglomerados ocidentais, que receberam a cidadania romana e condição de

municipi, uma vez que já mantinham contato com Roma, adequaram suas estruturas

e formas de vida a nova situação (CORNELL; MATTHEWS, 2008; SÁNCHEZ, 2009). O progresso da romanização, mediante a conquista de Roma do território da Península Ibérica, consistia na defesa dos povos pacificados daqueles que estavam livres mais ao norte e oeste da Hispânia. Através dessa concepção, Roma defendia o território urbano e provocava grande aceitação dos romanos pela aristocracia local (TOVAR; BLÁZQUEZ, 1975).

Ao longo do tempo, as povoações indígenas da Península Ibérica tenderam a imitar e adotar o padrão de organização de assentamentos romanos, organizando-se política e urbanisticamente conforme o modelo implantado pelo governo na província. Algumas comunidades autóctones que se organizavam em entidades tribais maiores tiveram suas estruturas transformadas por Roma, atendendo a criação de novos centros urbanos, via fundações de cidades. Por outro lado, a conquista romana estabeleceu assentamentos de colonos e legionários, que se agrupavam em novas cidades criadas para esse propósito no território (SÁNCHEZ, 2009).

Neste período, o território da Península Ibérica esteve formado por uma rede diversificada de novos centros urbanos fundada por Roma, e uma série de núcleos indígenas que possuíam distintos níveis de romanização, de diferentes concessões e benefícios. Tanto colônias como municípios governavam-se segundo suas próprias instituições. Os municípios podiam ser de dois tipos: bem romanos, onde se concedia cidadania a todos os habitantes e se fornecia novas instituições de governo; ou bem de direito romano, onde se possuía parte dos privilégios dos anteriores (SÁNCHEZ, 2009). No ano de 74 d.C., Vespasiano concederia o estatuto transitório do Direito latino (Ius Latii minor) a todas as cidades hispânicas, que logo adotariam as instituições da vida municipal e suas oligarquias ascenderiam à cidadania romana (MORENO, 1988).

Benzer Belgeler