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BÖLÜM 5: İŞ KAZASI VE MESLEK HASTALIKLARI SONUCU SOSYAL

5.3. Parasal Yardımlar

RECURSOS RETÓRICOS NO CANCIONEIRO GERAL DE GARCIA

DE RESENDE

…todos os poetas, a começar por Homero, não passam de imitadores de simulacros da virtude e de tudo o mais que constitui objeto de suas composições, sem nunca atingirem a verdade, o que também se dá com o pintor...

Platão, A República, Livro X Shall I regard a farm as a model of good cultivation because its owner shows me lilies and violets and anemones and fountains of living water in place of rich crops and vines bowed beneath their clusters? Shall I prefer the barren plane and myrtles trimly clipped, to the fruitful olive and the elm that weds the vine?

Quintiliano, Institutio oratoria

Na Antiguidade, o orador servia-se da elocutio para fazer de seu discurso um rico ornato, com a intenção de convencer o auditório de que ele, orador, defendia uma tese justa e de que sua oratória era, antes de tudo, uma peça para deleite323. Já dizia Aristóteles: “de que serviria a obra do orador, se o pensamento dele se revelasse de per si, e não pelo discurso?”324. Na Idade Média, os ornamentos utilizados pelos oradores antigos continuam a fazer parte da composição poética325, acrescidos da rima, desconhecida pelos poetas da

323 Quanto a isso, Carlos Alberto Louro Fonseca, na Introdução de Defesa de Árquias, de Cícero, comenta: “prestava-se culto (...) ao brilho e ao prestígio dos dons naturais, mas juntava-se-lhes, como elementos de consistência, como forças permanentemente vivificadoras, a posse imprescindível de conhecimentos teóricos e a lição da experiência”. (In: CÍCERO. Defesa de Árquias. Lisboa/São Paulo: Verbo, [s.d.], p. 178). Assim comenta Quintiliano o papel do orador, “the orator, like the hawker who displays his wares, will set forth before his audience for their inspection, nay, almost for their handling, all his most attractive reflexions, all the brilliance that language and the charm that figures can supply, together with all the magnificence of metaphor and the elaborate art of composition that is at his disposal. For his success concerns himself, and not his cause. But when it is a question of facts, and he is confronted by the hard realities of battle, his last thought will be for his personal glory”. (Cf. QUINTILIANO. Institutio oratoria. Livros VIII e IX. Trad. H. E. Butler. Ed. Bill Thyer. Disponível em:

<http://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Quintilian/Institutio_Oratotia/home.html>, VIII, II, 12- 13. Acesso em 14 abr., 2010. Grifo meu).

324 ARISTÓTELES. Poética. Trad. Eudoro de Sousa. 3. ed. [Maia]: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, [1992], Capítulo XIX, 113, p. 131.

325 Quanto a esse fato, assim comenta Lênia Márcia Mongelli: “Das cinco partes em que estas obras [De

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Antiguidade. Os humanistas medievais, então, no seu culto à civilização antiga, transpõem para o ato de poetar os mesmos elementos e preocupações característicos dos oradores passados326. Para Silvia Magnavacca, “si hubo en el seno del movimiento humanístico una ‘batalla de las artes’ fue (...) la que se dio entre las disciplinas más estrechamente vinculadas con la poesía entendida (...) en su significado más amplio: la retórica y la filología”327. Assim, para se entender a poética do CGGR, são necessárias, além da observação minuciosa de sua estrutura conteudística e genológica, uma atenção também minuciosa aos artifícios retóricos, parte dessa estrutura.

Diferentemente do que se fez nos capítulos anteriores, aqui nem todos os poemas serão apresentados integralmente, mas apenas os versos e estrofes em que determinado artifício retórico tenha sido usado no desenvolvimento do poema.

De acordo com R. M. Rosado Fernandes, na “Breve introdução aos estudos retóricos em Portugal”,

em Portugal (...) o ensino da retórica deve ter-se feito, logo de início, em dois sentidos diferentes. O primeiro, de ordem profana, era observado por todos os que se ocupavam em escrever e desejavam formar o estilo, ou seja, pelos poetas e prosadores da época [Idade Média, séculos XII-XV]. Trata-se, portanto, de uma mescla de retórica e poética, imbuída talvez de conceitos gramaticais328.

Para Rosado Fernandes, a Retórica antiga vai conhecer seu auge e aplicação a partir do século XVI, “insuflada pelo ensino dos humanistas que, de agora em diante, se inspiram directamente dos bons textos clássicos, quer de Homero e Demóstenes, quer de Virgílio e de Cícero”329. No entanto, assim como o fizeram os contemporâneos castelhanos, os poetas palacianos portugueses se valiam de teorias retóricas que eram ensinadas nas universidades ou eram estudadas nos officia dos mosteiros, tal como o de Alcobaça, ou ainda faziam parte do acervo dos monarcas, cortesãos e poetas eruditos. Basta observar o numeroso uso dos ornamentos oratórios no CGGR. Relembre-se também que o infante D. Henrique, irmão de inventio, dispositio, elocutio, memoria e actio – com vistas (...) a preparar o cidadão para bem falar nos tribunais, a Idade Média retomou com mais insistência a elocutio, desdobrada em requintamentos estilísticos e dividida em numerosas sub-categorias e classificações de linguagem”. (A arte retórica e a ciência da paixão. In: DE BONI, Luiz Alberto [Org.] A Ciência e a Organização dos Saberes na Idade Média. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2000, p.138).

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“Uma vista d’olhos pelas poéticas medievais denuncia o arsenal de estratégias estilísticas à disposição do trovador para se fazer ouvir – com ênfase nos tropos”. (MONGELLI, 2000, op. cit., p. 139).

327 Ibidem, p. 369. Grifo da autora.

328 In LAUSBERG, op.cit., p. 14. O segundo sentido estaria ligado à arte de pregar. 329

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D. Duarte e D. Pedro, todos da Casa de Avis, ampliou a Universidade de Coimbra (1431), dando ênfase aos estudos da Retórica, completando o trivium330. Ademais, nas artes poéticas castelhanas, mais especificamente nos “proêmios” das obras dos mais influentes poetas dos Quatrocentos e Quinhentos, a alusão aos colores do discurso é frequente. Juan Alfonso de Baena, em seu Prologus baenensis, afirma que os reis, príncipes e grandes senhores apreciam ler e entender livros e escritos dos feitos notáveis e magníficos, além das doutrinas santas e proveitosas, redigidas pelos antigos, “los quales libros e otras escryturas por muchos ser e de cosas nuevas e diuersas, son conparadas con los muchos e nobles e preciosos paños e vestiduras, ca por ser de diuersos colores e trajos nuevos e non vistos, agradan e aplazen mucho las voluntades de los señores”331” Implicitamente, alude o poeta

aos ornamentos retóricos, comparando-os à vestimenta e, mais adiante, a todos os “fechos” e “plazeres” desfrutados pelos monarcas e nobres cortesãos, para, na seção dedicada especificamente à poesia, declarar:

El arte de la poetrya e gaya çiençia es vna escryptura e conpusyçion muy sotil e byen graciosa, e es dulce e muy agradable a todos los oponientes e rrespondientes d’ella e conponedores e oyentes; la qual çiençia e avisaçion e dotrina que d’ella depende e es avida e rreçebida e a[l]cançada por graçia infusa del señor Dios que la da e la enbya e influye en aquel o aquellos que byen e sabya e sotyl e derechamente la saben fazer e ordenar e conponer e limar e escandir e medir por sus pies e pausas, e por sus consonantes e sylabas e acentos, e por artes sotiles e de muy diuersas e syngulares nobranças.332

Neste trecho, o poeta refere-se às “artes sotiles”, i.e., à Retórica como parte da composição poética. Para Baena, ainda, esta arte deve ser de “tan sotil engeño” e de “muy altas e sotiles inuençiones” que permitam ao poeta “que sea amador, e que siempre se preçie e se finja de

ser enamorado”333, numa clara alusão aos artifícios retóricos. Percebe-se ainda que admite ser fictício o sentimento de amor na poesia dos novos tempos, nada mais do que pretexto para o poeta desenvolver sua retórica. Essa atitude será constante nas poéticas

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Cf. PAIVA, Dulce de Faria. História da Língua Portuguesa, II, Século XV e meados do século XVI. São Paulo: Ática, 1988, p. 15. Informa ainda a autora que a Retórica era conhecida pelos religiosos e leigos; aqueles, para fins de pregação; estes, para a preleção política sob pretexto religioso (como em Fernão Lopes e Zurara), ou como recurso para aperfeiçoamento do estilo de prosadores e poetas. (Ibidem, p. 16).

331 In: LÓPEZ ESTRADA, op.cit., p. 35. Grifos meus. 332

Ibidem, p. 37. Grifos meus.

333 Ibidem, p. 37-38. Grifos meus. O editor de “El dezir a las syete virtudes” y otros poemas, de Micer Francisco Imperial, comenta que o termo “sotil” (e “sotiles/sotilmente”) era “guardado por Baena para todo lo que estimaba excelente en cualquier aspecto del arte de la ‘gaya çiençia’”. Teria também o sentido de discurso obscuro, difícil. (IMPERIAL, op.cit., p. LXI).

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quatrocentistas e quinhentistas, como no vilancete seguido de trovas 577, uma ajuda, em que o tema é exatamente o do fingimento de amores334, como se pode constatar no “fim” de Francisco da Silveira:

Nisto nom haja debate, ante todos seja crido que quem quiser d'arremate grande bem sem ser fengido, 5 este tal será perdido.

E por isso quem quiser d'amores querer alguem, fengido lhe queira bem.

O mesmo procedimento relativo à Retórica usa o Marquês de Santillana em sua carta-proêmio. De acordo com Francisco López Estrada, “coinciden en el Proemio la exposición de los conocimientos teóricos del Marqués sobre la literatura, la experiencia de sus lecturas y una defensa de la poesía, realizada de acuerdo con las normas de la retórica”335. Para o Marquês de Santillana, poesia é “un fingimiento de cosas útyles, cubiertas o ueladas con muy fermosa cobertura, conpuestas, distinguidas e scandidas por

çierto cuento, peso e medida”336. É dessa forma que, para exaltar a poesia (que é “eloquencia dulçe e fermosa fabla”337) em sua preeminência sobre a prosa, o Marquês refere-se àquela pela alusão aos vários eminentes poetas da Antiguidade, desde os da Bíblia, até os contemporâneos dele, passando pelos provençais, franceses, italianos e catalães, valencianos, aragoneses e galegos, velhos e novos. A poesia, enfim, é imitação dos grandes autores. Santillana refere-se, ainda, aos três graus da gaia ciência – sublime, medíocre, ínfimo:

Sublime se podría deçir por aquéllos que las sus obras escrevieron en lengua griega o latina, digo metrificando. Mediocre usaron aquéllos que en vulgar escrevieron, asy como Guydo Janunçello, bolonés, e Arnaldo Daniel, proençal.

334 Nas trovas no. 361, a didascália diz: “Fingimento d’amores feito / per Diogo Brandam”; nessas trovas percebe-se que a denominação “fingimento de amores” está estritamente ligada às visões por que passa o amante.

335 LÓPEZ ESTRADA, op.cit., p. 42. 336 Ibidem, p. 52. Grifos meus. 337

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(...) Ínfimos son aquéllos que sin ningún orden, regla nin cuento façen éstos romances e cantares, de que las gentes de baxa e servil condiçión se alegran338. Ele certamente conceituou esses três graus baseado na Retórica a Herênio, que assim se expressa:

há três gêneros, que denominamos figuras, aos quais todo discurso não vicioso se reduz: um chamado grave, outro médio e o terceiro tênue. O grave é composto de palavras graves em construção leve e ornada. O médio constitui-se de uma categoria de palavras mais humilde, todavia não absolutamente baixa e comum. O atenuado desce ao costume mais usual da simples conversa339.

No CGGR, tais graus revelam-se tanto nas composições cultas como nas sátiras, apesar de, como pregava a consuetudo antiga, pertencerem estas ao gênero “tênue”. Daí que, ao emularem as auctoritates, os poetas palacianos releem-nas e inovam.

Em sua Arte de Poesía, Juan del Encina, como convém a todas as artes poeticae, inicia seu proêmio com louvores a Cícero, Catão, Túlio e Ciro, numa clara homenagem às

auctoritates340. O prólogo de Encina é o que mais se refere às artes retóricas, preocupando- se em diferenciar a poesia do “trobar”, a distinção entre poeta e trovador, o que é necessário para aprender a trovar, a medida e exame dos pés, as maneiras de trovar, as sílabas consoantes e assonantes, a diversidade dos versos e “coplas”, as licenças e “colores poéticos” e como se deve escrever e ler as “coplas”341. Quanto aos colores, ensina que há cinco “galas en el trobar”: encadenado, correspondente ao leixa-pren; retrocado, que seria o quiasmo342; redoblado, i.e. o poliptoto; multiplicado, que corresponde ao homeoteleuto, e o reyterado, comparado à anáfora. E recomenda o poeta: “mas no las devemos usar muy a menudo, que el guisado con mucha miel no es bueno sin algún sabor de vinagre”343 – receita não muito observada pelos poetas quatrocentistas e quinhentistas.

Apesar de não se tratar de uma “arte poética”, nos moldes dos casos anteriores, a

Gramática de la lengua castellana de Antonio de Nebrija dedica os capítulos quinto a

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SANTILLANA, Marquês de. (Íñigo López de Mendonza). Comiença el prohemio e carta quel Marqués de Santillana envio al Condestable de Portugal con las obras suyas. In: _____. Obras. Ed. Augusto Cortina. Madri: Espasa-Calpe, 1956. p. 33).

339Retórica...op.cit., 2005, Livro IV, [11]). 340 ENCINA, op.cit., p. 77.

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Ibidem, p. 82-93.

342 Francisco López Estrada, valendo-se de Pierre Le Gentil, diz que “retrocado” “se relaciona con los rims

retrogradatz per dictios de las Leys provenzales, que son versos que pueden leerse en ambos sentidos”. (Op.cit, p. 132).

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décimo do Livro Segundo, e os capítulos sexto e sétimo do Livro Quarto, às questões de Retórica poética. No caso do Livro Segundo, o enfoque dá-se na composição dos versos; no Livro Quarto, nas figuras, elencando 63 delas. Como todas as artes medievais, a de Nebrija vem antecedida por um prólogo dedicando sua Gramática à rainha D. Isabel, a Católica, com louvações bíblicas, mais especificamente à língua hebraica, e históricas, especialmente à grega e romana, além de algumas ao árabe.

Essas referências a três artes poéticas castelhanas e à arte da gramática de Nebrija são provas incontestes de que o conhecimento da antiga oratória era patente e que dela se valeram os poetas palacianos portugueses, através do intercâmbio cultural e social com seus contemporâneos ibéricos – e mesmo com as viagens constantes de intelectuais portugueses à Itália e França, cujo caminho inverso era também conhecido.

No Livro IV da Retórica a Herênio, o autor divide as figuras em dois grupos: as de dicção344, sendo os tropos uma subclasse, e as figuras de pensamento. Em sua Institutio

oratoria, no Livro IX, Quintiliano concilia as teorias de Aristóteles e do pseudo-Cícero,

distinguindo “figuras” de “tropos”. Para Quintiliano, as figuras estariam ligadas à forma, especificamente à linguagem em que, diferentemente dos tropos, não há alteração de ordem ou de sentido das palavras345. Nos tropos, partindo do conceito de metáfora definido por Aristóteles no Capítulo XXI de sua Poética, as palavras adquirem sentido distinto de sua expressão original, denotativa346. Ambos, no entanto, partilham do mesmo objetivo que é dar ornamento à elocução discursiva. Tendo em vista esta classificação, parece-me necessário estudar de quais artifícios retóricos se valeram os poetas palacianos portugueses, seguindo esses mesmos conceitos, uma vez que tanto Cícero como Quintiliano foram

344 No seu A commentary on Aristotle’s Poetics, O. B. Hardison diz que Aristóteles “treats diction as an active concept and relates it closely to the poet’s command of the meters. It is not ‘metrical composition’ but ‘the act… of making metrical compositions’ (l.13). This narrow definition is later expanded (Chapters XX-XXII) to include not only metrical composition but also word usage and imagery”. (ARISTÓTELES. Poetics. A translation and commentary for students of Litterature. Trad. Leon Golden. Comentários por O. B. Hardison, Jr. Tallahasee: Florida State University Press, [1981], p. 121). O conceito de dicção expande-se, então, de arte de compor os metros para um processo de se produzir um texto literário (Ibidem, p. 121).

345 Para as figuras, Edmond Faral usa o termo “ornement facile”, i.e., o ornatus facilis das poéticas medievais, e consiste “d’une part, dans l’emploi des ‘couleurs de rhétorique’ (figures de mots et de pensée) ; d’autre part, dans un certain usage de la ‘determination’", que Vinsauf e Garlande consideravam um "nouveau procédé" (Op.cit, p. 91;97).

346 Edmond Faral escreve que o ornatus difficilis se caracteriza pelo uso dos tropos, cujo princípio é empregar palavras num sentido diferente de sua própria significação (do denotativo para o conotativo). Matthieu de Vendôme enumera a metáfora, a antítese, a metonímia, a sinédoque, a perífrase, a alegoria e suas variações e o enigma, como tropos. (Op.cit., p. 89).

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respeitados na Idade Média. Portanto, numa primeira parte, dedicar-me-ei à observação dos recursos ligados à linguagem, estudando como os poetas desenvolveram a dicção; numa segunda parte, como procederam em relação aos tropos. No entanto, registre-se que a separação entre ambos os conceitos e usos é muito tênue347.

OS COLORES DA DICÇÃO: TRADIÇÃO E OUSADIAS DOS POETAS PALACIANOS

Dulce de Faria Paiva informa, em seu História da Língua Portuguesa, II, Século XV

e meados do século XVI, que por volta do século XIV, “em razão de diversos

acontecimentos históricos, o galego-português cedeu lugar à língua portuguesa”348. Com a independência de Portugal, a instituição da nova nacionalidade supõe circunstâncias sociais, econômicas e culturais que o galego-português não mais sustentará. Com “o eixo político da nação a deslocar-se do Norte para o Sul do país”, formou-se uma “língua de trânsito entre as camadas sociais, denominada comum (coiné) por Serafim da Silva Neto”349. Centralizada ora em Lisboa ora em Coimbra e outras cidades do Sul, a corte serviu-se desse português comum para o desenvolvimento da prosa, inclusive a literária. As fontes mais importantes foram as traduções do latim, empreendidas nos mosteiros de Alcobaça e de Santa Cruz, contribuindo para o enriquecimento da nova língua e cultura. Isso estendeu-se à expressão poética, como se pode constatar nas composições da Compilação resendiana, mas muito das contribuições viera justamente das conquistas ultramarinas. Servem-se os poetas não só dos arcaísmos, mas também dos neologismos, principalmente os ocasionais, como mitrar (tornar-se bispo ou abade), ou eruditos, como

pryminencia (proeminência)350. Usam ainda os poetas portugueses dos castelhanismos e de palavras de outras fontes, tais como do francês, do hebreu, do italiano, do rico vocabulário que forneceu a cultura muçulmana e, ainda, das imitações das falas dos escravos negros.

347 Quanto a isso, Heinrich Lausberg faz menções frequentes à retórica literária (Cf. Elementos... op.cit). Também se refere o autor à dificuldade de sistematizar as figurae sententiae (Ibidem, p. 214). Quintiliano, por sua vez, comenta que “the resemblance between the two is so close that it is not easy to distinguish between them”. (Op.cit., IX, I, 3). Jean Cohen, em nota, diz que “a terminologia da retórica não era fixa. Alguns opõem tropos a figuras, outros tomam um dos termos como a espécie do outro”; o estudioso opta por este último critério, considerando figura um termo genérico e o tropo, a espécie lexical. (op.cit., p. 40).

348 PAIVA, op.cit., 1988, p. 8. 349 Ibidem, p. 8.

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Note-se, no entanto, que a grande influência ainda eram os textos latinos, que, a partir dos mosteiros, formaram a base da língua portuguesa – basta a leitura do CGGR para que se constate tal fato; sem aqueles textos seria impensável a formação da língua351. A esta, que começava por se normatizar, acrescente-se a colaboração dos artifícios retóricos na elocução literária.

Aristóteles, em sua Retórica, Livro III, dedica-se aos aspectos formais do discurso, mais especificamente às formas de expressão dos argumentos e ao lugar – a ordem das partes – que deve ser atribuído a eles. Estuda a adequação do discurso ao cenário, a clareza como virtude, a frialdade da expressão, os símiles, o bom estilo e bom uso da língua, a majestade do estilo, a expressão apropriada a cada tema, como o ritmo, os aspectos fônicos e sintáticos, os ditos engenhosos, o modo de comover o público, os jogos de palavras, os chistes e hipérboles, a diferença entre escrita e fala, tudo isso antes de ocupar-se da ordem das partes do discurso, o que faz nos capítulos 13 a 19352. Relativamente a isso, à elocução retórica, Quintiliano em sua Institutio oratoria, Livro VIII, começa por definir “retórica”: ciência do bem falar, a qual, além de útil, é mais do que uma arte, é uma virtude. Consiste a retórica, ainda, em tudo aquilo de que o orador se serve para discursar em qualquer das três espécies da oratória – a demonstrativa, a deliberativa e a jurídica. Um discurso se compõe de matéria e de palavras; quanto àquela, deve-se estudar a inventio; quanto a estas, o estilo; e quanto às duas, deve-se estudar o arranjo, sua disposição no discurso, pois é trabalho da memória apreender e discorrer a fim de tornar o resultado atraente. Comenta ainda que, quanto à graça deste, apesar de residir nos fatos e nas palavras, sua especial esfera é a do

Benzer Belgeler