Acaso ou coincidência const it ui uma qualidade de sist emas complexos em sua relação com o ambient e. Sob acaso ent endemos uma f orma de conexão ent re sist ema e ambient e, que f oge do cont role pelo sist ema. Nenhum sist ema pode levar em cont a t odas as causalidades possíveis. Acaso é a capacidade de um sist ema de
usar event os não produzidos ou coordenados por ele mesmo. Nest e sent ido, acasos signif icam perigos, chances, possibilidades. (LUHMANN, 1996).
Acasos levam a surpresas e novidades. Ora, a novidade é const it ut iva para a emergência e manut enção t ant o de sist emas sociais como virt uais. Em princípio, cada mensagem aparece com um mínimo de surpresa, quer dizer dest aca-se da ant erior, at ribuindo-lhe uma individualidade. A incert eza passa a const it uir uma condição est rut ural.
Variações aparecem em massa – mas apenas poucas "sobrevivem". A maioria delas desaparece sem t er sido f uncionalizada, j á que não exist e ligação f uncional ent re variação e seleção. Se variações ocorressem apenas t endo em vist a suas chances de seleção, a sociedade est aria expost a a um elevadíssimo risco de decepção, j á que a realidade social é ext remament e conservadora e não t roca t ão f acilment e o exist ent e e comprovado por algo ainda desconhecido (LUHMANN, 1996).
Mesmo que a maioria das variações não sej a f uncionalizada e assim est abelecida no sist ema, ocorre, ao longo do t empo, uma ampliação hist órica das possibilidades de variação social, mudando o conceit o de realidade. A realidade que era t omada como o inegável em si, t orna-se suspeit a de ser mera criação, mera aparência, mero correlat o da consciência, ou, para usar out ra expressão: mera const rução.
É no reconheciment o e processament o de f lut uações "casuíst icas" enquant o inf ormação que o sist ema social e o sist ema virt ual - a rede - ref orçam mut uament e suas condições sócio-genét icas e sua criat ividade. Quando est as condições est ão preenchidas aparece um comport ament o selet ivo.
Flut uações t idas como casuais aparecem com regularidade e se acumulam quando um colet ivo se comunica num espaço de inf ormação22 relat ivament e grande por um período de t empo mais duradouro. A const rução e evolução de novos sent idos e signif icados at ravés do aproveit ament o de t ais f lut uações deve, port ant o, ser considerada um f enômeno de ef eit os acoplados. Sabe-se que sist emas sociais sem possibilidades de perf azer ações colet ivas não podem ult rapassar um nível de desenvolviment o ínf imo (LUHMANN, 1996).
22 Espaço de inf ormação quer dizer det erminadas seqüências de códigos que represent am
O Ciberespaço represent a t ais ações e comunicações colet ivas que valorizam e avaliam (int erpret am) inf ormações, f ormando sent idos (signif icados) a part ir de ref erências próprias. Nele exist em padrões visuais que dist inguem quais as int erpret ações mais apt as ou menos apt as a serem selecionadas para f ormar uma est rut ura comunicat iva (por exemplo numa list a de discussão ou numa home-page que chamam mais at enção ou menos at enção).
Seleção, nest e sent ido, não signif ica um dest aque ou at ribuição de um privilégio qualquer, mas sim uma f orma bem det erminada de dest aque ou privilégio, que se orient a numa escala de valores, se delimit a clarament e da concorrência, const rói um espect ro de modif icações orient ado naqueles valores e organiza e cont rola a variedade complexa. Enquant o na sociedade "real" est es valores t êm apenas validade local, sendo a localidade assegurada por limit es t errit oriais e/ ou cult urais, na sociedade "virt ual" eles se ref erem às f unções que as mensagens assumem dent ro de um colet ivo não-local, cuj os limit es variam permanent ement e em f unção de moviment os no espaço cibercult ural.
Isso aument a as possibilidades de seleção de det erminadas mensagens e inf ormações, at ravés de um processo parecido ao que conhecemos da vida biológica, ou sej a, pela "sobrevivência do mais apt o". Sobrevivência, nest e cont ext o, é um f at o que se expressa em números relat ivos de ocorrência (por exemplo, quant idade de acessos de uma det erminada homepage ou de mensagens enviadas para uma list a de discussão), números que apresent am uma medida exat a. Est a quant idade represent a, ao mesmo t empo, uma qualidade "est rut ural" do colet ivo: quant as comunicações (mensagens) são necessárias para a reprodução de uma (sub)cult ura no Ciberespaço?
Por out ro lado, o que é "mais apt o" é det erminado por uma f unção de valor. Est a se baseia em parâmet ros dinâmicos que independem da quant idade de element os envolvidos no processo de comunicação. Essa f unção de valor pode ser vist a como "capacidade de f uncionament o", que por sua vez corresponde a cert o "cont eúdo inf ormacional". O sist ema de comunicação é avaliado por seu "grau de int eligência": será ele capaz ou não de aproveit ar a (energia de) inf ormação exist ent e e agir ("f uncionar") dent ro de um ambient e dado? E qual o desempenho dele em relação a out ros sist emas concorrent es?
A qualidade de "est ar apt o" é comparável com a capacidade de um genót ipo biológico (genoma), que codif ica f unções de um f enót ipo colet ivo (um ser, um corpo, uma organização, et c.). Tal processo de codif icação represent a um esf orço "int elect ual" de um sist ema, esf orço que produz est rut uras de inf ormação.
Qualquer seleção de um sist ema social ou virt ual (em f unção do esf orço de avaliação) signif ica uma f ocalização numa seqüência de mensagens (assunt os, t emas) que dominam a comunicação, f ormando campos de int eresse especiais que se sobrepõem a out ros. O princípio da evolução por seleção t rat a, port ant o, da ot imização da ef iciência f uncional de um sist ema de comunicação dent ro de um conj unt o de sist emas concorrent es. Tal ot imização ocorre pela seleção de det erminadas f unções dent ro de uma rede de reação ou cooperação, que apresent a uma divisão de t aref as. Nest a, as t aref as são mant idas e int ermediadas por processos de inf ormação. Ou sej a: o sist ema apresent a cert o grau de int eligência, uma qualidade que depende da ef icácia com que o conj unt o processa inf ormações.
A t eoria clássica da evolução biológica (Darwin) at ribui t al esf orço (de produzir inf ormação selet iva) ao acaso, j á que ele não pôde ser reconhecido com a t écnica ent ão exist ent e. Ele se passava escondido. Os t eóricos de ent ão pensavam, desconhecendo suas causas, que alt erações no código genét ico ("mut ações") f ossem geradas pelo puro acaso, por f lut uações est at íst icas, que não eram, de j eit o nenhum, previsíveis ou inf luenciáveis. A biologia molecular de hoj e, no ent ant o, é capaz de cont rolar mut ações e produzir réplicas f ieis de mut ant es, após t er analisado em det alhes a dist ribuição deles numa det erminada população.
O result ado é int eressant e e deixa espaço para uma int erpret ação sociológica. Enquant o se pressupunha ant es que exist ia um t ipo genét ico predominant e em qualquer sist ema-espécie (predominant e t ambém em quant idade), sabe-se hoj e que ele em muit as espécies nem exist e enquant o t ipo individual, mas é apenas a expressão de uma média compost a por qualidades do conj unt o t odo. O comport ament o predominant e de um sist ema não result a da ação de alguns (t ipos de) indivíduos "privilegiados", mas da int eração de um conj unt o de códigos genét icos ant es vist os como "neut ros" (não-dominant es), sem ou com pouca inf luência na evolução do f enót ipo (do "ser adult o"). O t ipo dominant e, t ido como indivíduo, se most rou ser um colet ivo, um sist ema biogenét ico, por assim dizer.
Os t ipos genét icos ant es vist os como neut ros aparecem, de repent e, valorizados e f uncionalizados. Nest e novo modelo, cada t ipo individual é avaliado exat ament e segundo seu grau de apt idão relat iva, t endo em cont a as condições locais de sua exist ência.
Algo semelhant e ocorre, comparavelment e, em relação a sist emas sociais. A inf ormação sócio-genét ica (de ordem int elect ual, emocional, cult ural) responsável pela regulação e condução de um sist ema t inha sido at ribuída apenas a alguns poucos "t ipos dominant es" (lideranças, elit es), enquant o o pensament o e as opiniões da maioria da população eram vist os como neut ralizados e/ ou subordinados. Ignorância e desinf ormação, manipuláveis pela elit e dominant e, eram at ribut os de "gent e comum".
Com o advent o da mass medi a e da comunicação elet rônica a inf luência da opinião pública (inf ormação ant es t ida como "neut ra") no rumo de sist emas democrát icos se t orna visível e preponderant e (MCGARRY, 1999).
Na sociedade de inf ormação os caract eres sociais "comuns" ganham suma import ância. Eles f ormam a grande maioria, represent am a inf ormação do t ipo dominant e sem (individualment e) serem idênt ica a ela, servindo de base excelent e para a f ormação de sist emas sociais (grupos, subcult uras, organizações et c.) que apresent am comport ament o alt erado. Uma grande variedade de mundos e est ilos de vida surge, desenvolvidas a part ir de um padrão ant es dominant e. A sua gênese pode ser explicada passo a passo:
•
Os códigos da inf ormação dominant e são reproduzidos de maneira semelhant e, mas não idênt ica, devido a f lut uações int ernas e ext ernas. Por isso aparecem mudanças do comport ament o-padrão que são selecionados ou não, conf orme sua apt idão f uncional. Tais mudanças surgem inevit avelment e ao longo do t empo, e são ref orçadas e aceleradas por inf ormações adicionais que aliment am o espaço de comunicação provindas, sobret udo, da mídia e da Rede;•
Novas f ormas de pensament o e comport ament o se t ornam f uncionais quando "f azem moda", por exemplo, ou quando chamam at enção de uma opinião pública mais ou menos dif undida. Est as novas f ormas se t ornam at rat ores à medida que abrangem uma população maior. Novos est ilos de vida surgem;•
Um "ef eit o de massa" parece que dá a cert os grupos e a cert as organizações a possibilidade de reproduzir det erminados valores novos, inicialment e a nível local, mas suj eit os à dif usão no Ciberespaço e modif icados ainda mais pelas int erpret ações que nele ocorrem;•
Est rut ura-se uma paisagem de valores sociais cada vez mais diversif icados, j á que as modif icações produzem sucessivament e e por sua vez out ras mudanças de valor, cada vez mais dist ant es dos valores ant es t ido como "cert os" e dominant es;•
Grupos t idos como "marginalizados", que f ormam sua ident idade a part ir de inf ormação alt erada, ocupam pont os de dest aque na nova paisagem social e deslocam o espect ro de valores a seu f avor. Assim, est es grupos ant es à margem da sociedade acabam f icando cada vez mais aceit es - ainda que nem sempre int egrados - apt os a inovar o conj unt o e mudar o sist ema;•
Em conseqüência se produz um direcionament o do processo de evolução social, processo est e ref orçado pelo aparat o comunicat ivo ent re os element os modif icados;•
Sob condições de incert eza, quando o sist ema busca probabilidades mais elevadas de seleção para sua (sobre)vivência, o surgiment o de um comport ament o inconf ormado, inovador e desviant e se t orna vit al;•
Os sist emas inovadores se conect am at ravés de realiment ação cíclica, se t ornam mais sensíveis para reagir a f lut uações, que ant es simplesment e f oram reprimidas quando t ocaram no st at us quo, ou simplesment e ignoradas quando não colocaram em perigo o "equilíbrio do desequilíbrio" social. Um hiperciclo - uma rede de reações cíclicas - se const rói, no qual se ef et ua um f echament o anelar das ligações ent re t odos os part icipant es do sist ema;•
Processos de aut o-organização democrát ica proporcionam a uma massa deelement os ant es t idos como "neut ros" possibilidades de inf luência, que é exercida at ravés de regras modif icadas de reprodução social;
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Mesmo mundos de vida 23 que apareciam muit as vezes apenas como áreas marginais de uma sociedade global pós-capit alist a - por exemplo o mundo indígena, são reat ivados, desreprimidos24;23 Enquant o represent ant es de um provisionament o de padrões de int erpret ação cult uralment e
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Inf ormações replicadoras da "vida cot idiana" - ant es vist as como passivas e neut ras - reiniciam sua part icipação na regulação e condução do sist ema, inicialment e a níveis locais, depois dif undidos pela mídia e pela rede. Eles provocam as t urbulências necessárias para a at ivação de um novo ciclo de evolução social.A comunicação horizont al, ref orçada pelas inf ormações disponíveis no Ciberespaço, t orna o sist ema social capaz de f uncionar bem pert o do limiar de criat ividade. Ou sej a: o processo de t ransf ormação cont ínua de uma est rut ura dinâmica se aproxima de um pont o ót imo ent re est abilidade e mudança. Uma variedade at é ent ão nunca vist a de campos de ação e pensament o surge. Códigos cult urais de inf ormação social, que ant es dominaram prat icament e t udo (por exemplo at ravés de est rut uras de comando cent ral), passam a t er inf luência reduzida, j á que t odas as out ras variant es possíveis de pensament o e comport ament o t ambém se f azem present e em quant idade suf icient e para garant ir sua exist ência aut ônoma. A cooperação "mult icult ural" se est abelece at ravés de int erligações cíclicas. O período de dominação de um único t ipo ou de poucos t ipos dominant es de inf ormação (de cunho ideológico, religioso, t radicional et c.) chega ao f im.
O novo conj unt o social apresent a uma preparação ót ima para muit as alt ernat ivas de mudança e cenários do f ut uro possíveis, ut ilizando as redes virt uais no Ciberespaço como campo de inf ormação ampliado.
A "quest ão do poder" t ambém se coloca agora de f orma dif erent e: não como uma decisão de t udo-ou-nada, mas dent ro de um processo de realiment ação comunicat iva, no qual t odos os grupos sociais det ent ores de inf ormação part icipam.
A rede de sist emas sociais e virt uais reage com mais sensibilidade às inf ormações dos element os e subsist emas ant es t idos como neut ros. Tais inf ormações passam a ser indispensáveis para a condução de sist emas baseados na part icipação e comunicação democrát icas, quando ant es f oi desvirt uado pelo direcionament o cult ural dominador de alguns poucos sist emas de elit e.
24 "Desrepressão: Superação de repressão, (re-)at ivação de genes reguláveis at ravés do aument o de
É isso que f az com que uma mudança geral a part ir de pensament os globais e ações locais se t ornam inevit ável. Os ciclos se t ransf ormam em hiperciclos, quando colocados em rede, semelhant e aos redeament os hipercíclicos conhecidos na evolução biogenét ica.25 A superest rut ura para t al é f ormada por redes de comunicação que conect am as variedades locais numa sociedade global.
Finalizando, sist emas sociais – organizações, inst it uições et c. – que conseguem mobilizar f unções reguladoras e dirigent es at ravés da int egração e valorização de um grande leque de inf ormação, mult iplicada pela int eração com sist emas cibernét icos, t em vant agens de desenvolviment o em relação a out ros sist emas que negligenciam est e aspect o.
As inf ormações necessárias para t al mobilização result am de uma realiment ação cíclica (hiperciclo) no espaço de inf ormação de sist emas aut o- organizados. A própria rede aparece como um dest es sist emas, co-evoluindo com sist emas sociais. O f luxo int ensif icado de inf ormações (novidades), acelerado e "f ilt rado" pela rede "viva", quebra a separação e hierarquia dominant es/ dominados, porque surge um "ef eit o de massa": idéias e ações ant es reprimidas ou vist as como insignif icant es para a reprodução e o gerenciament o do sist ema ganham f orça.
Mundos bipolarizados se t ransf ormam em mult if acet ados à medida que o f luxo de inf ormações se democrat iza. O desenvolviment o de uma ampla variedade de mundos e est ilos de vida a part ir de um campo bipolar se t orna inevit ável, porque a polarização causa t ensões que provocam permanent ement e f lut uações. Assim, aument a a possibilidade do surgiment o de variedade social.
Sociologicament e, a desrepressão assume import ância especial. Part icipação e liberalidade passam a const it uir qualidades básicas, porque propiciam a f ormação de uma vast a gama de pensament o e comport ament o. A int ernet proporciona uma base poderosa para t al. Num próximo passo, os novos mundos de vida surgidos são responsabilizados para a condução do sist ema, dent ro de uma "divisão do t rabalho" na direção social e polít ica: o sist ema experiment a um aument o do seu grau de racionalização, o que leva a uma valorização produt iva de t odas as inf ormações socialment e út eis, ref orçada pela int eração com o Ciberespaço.
25 Exist e t oda uma classe de redes de reação que denominamos de maneira geral de hiperciclos. O
hiperciclo represent a uma f orma de organização que se dest aca por qualidades signif icant ement e novas (EIGEN; WINLER, 1989).
As f unções de represent ação social passam a se basear em meios simbolicament e generalizados (dinheiro, lazer, meio ambient e et c.) dent ro de uma dif erenciação "polít ica" f uncionalizada, onde cada "corrent e" ocupa seu espaço. Dit o de f orma simplif icada: conservadores conservam, progressist as inovam, verdes cuidam das quest ões ambient ais, t rabalhist as das quest ões laborais, anarquist as anarquizam est rut uras pet rif icadas dent re out ros.
A nível macrosocial, uma nova f orma de condução de sociedade emerge, na qual coligações polít icas at ravessam as ideologias at é ent ão prevalecent es. Est a t ransf ormação leva a um abrandament o do cont role social cent ralizado, em t odos os pat amares, macro e microsociológicos. O uso do Ciberespaço permit e a busca de decisões colet ivas at ravés de consult as (por exemplo plebiscit os) rápidos e em t odos os níveis.
A part icipação social - agora result ado de um sist ema represent at ivo de alcance "popular" - é ref orçada, permit indo a condução do sist ema at ravés de novas f ormas de gerenciament o "horizont al". Exemplos bem sucedidos dest e t ipo de gerenciament o surgem em empresas, comunidades, municípios e out ras f ormas de organização social.
Forma-se uma nova consciência social que será aproveit ada por uma sociedade de inf ormação madura, local e global.