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O Ciberespaço const it ui uma vida comunit ária regulada por int erações, e não por leis, decret os ou port arias. Os seres orgânicos das comunidades virt uais, desvencilhados da coincidência hist órica ent re espaço e t empo, f azem valer o salvo-condut o para est ar em t oda part e sem sair do lugar. Longe de dispensar os indivíduos de deveres ét icos, o Ciberespaço propõe uma coexist ência aut o- organizada, em const ant es revisões. Longe de padronizar condut as com base numa "maioria moral" (normas e int erdições a serviço das t ot alidades dominant es), a “ ciberét ica” apóia-se em regras e valores consensuais est abelecidos pelas células de indivíduos, respeit ando-se a pluralidade de cont ext os, os proj et os societ ários e, acima de t udo, a liberdade de manif est ação do pensament o.

Por sua nat ureza dest errit orializada e desordenada, o Ciberespaço resist e a qualquer f orma de regulament ação ext erna ou de censura. A ausência de dit ames governament ais represent a o pont o de Arquimedes para assegurar à rede virt ual condição de consolidar-se como canal de comunicação, inf ormações e idéias, em moldes int erat ivos e descent ralizados. O campo de bat alha delimit a-se. De um lado, elit es obst inadas em est ender à Web, sob variados pret ext os, a gama de comandos que exercem na quot idianidade. De out ro, as f orças sociais t ransf ormadoras, que anseiam proj et ar o Ciberespaço como ambient e propício a uma ét ica de reciprocidades ent re os indivíduos comunicant es.

Não nos parece dif ícil discernir de que lado est á as perspect ivas de uma práxis f undada em processos de colaboração por af inidades, sem monopólios ou coerções. Comunidades virt uais, ent relaçadas às ações concret as dos moviment os colet ivos são como grãos que aspiram correlat ar-se para t ecer dinâmicas ét icas solidárias e f ormas evoluídas de opinião pública muit a além da int erat ividade propiciada pela rede.

Para além das possibilidades int erat ivas do Ciberespaço, as experiências relat adas nos most ram que o f undament al nest e processo são as out ras reapropriações que cada recept or/ usuário int erat ivos elaboram e que se const it uem em uma permanent e negociação de sent idos envolvendo os aspect os cult urais, econômico e sociais.

Como essas reapropriações não se caract erizam como algo próprio de uma das part es, uma vez que elas se manif est am t ant o pelo emissor como pelo recept or, é possível af irmar que est a dinâmica result a numa imbricação de sent idos que f avorecem o surgiment o do “ sincret ismo” do qual nos f ala Canevacci (1996). Assim, o processo de int eração ent re os element os cult urais exist ent es t ant o na recepção como na emissão, não devem ser vist os na perspect iva da anulação dos primeiros e sim como algo que proporciona uma t roca ent re os dois lados, seria a mult iplicidade que precede a unidade. É est e moment o de t roca que possibilit a o enriqueciment o da int erat ividade no sent ido das int erações sociais que ela pode vir a desencadear. Como argument a Sant os (1990), o suj eit o do conheciment o das int erações sociais é mais sábio do que o suj eit o de conheciment o das int erações f ísicas, ou est rit ament e lógicas, pela razão element ar de que ignora mais e vive, port ant o, em permanent e est ado de descobert a.

Por out ro lado, as experiências relat adas most rando as mobilidades do recept or int erat ivo vêm comprovar que a supost a hegemonia do mundo t ecnologizado não se ef et iva, o que coloca em quest ionament o as discussões cent radas nas duas vert ent es t eóricas: uma que t raça um discurso de exort ação aos novos disposit ivos t écnico-inf ormacionais e out ra que, numa visão apocalípt ica, só vislumbra os danos que est es novos meios t rarão à humanidade. As nossas ref lexões visam apont ar uma out ra f orma de olhar a relação homem/ máquina, sist ema/ ambient e e sist ema/ sist ema t endo como base a negociação que se est abelece ent re eles. A propost a, assim, é a de que ao ampliarmos o nosso olhar, passemos a observar como o indivíduo cont emporâneo empreende as suas invenções e const at ar que é na microest rut ura social e na dimensão relacional do quot idiano que se pode f azer out ras releit uras do processo dinâmico comunicat ivo inst aurado pelo Ciberespaço, enf at izando aqui a sociocomunicação. Para t ant o, t orna-se necessário ef et ivar mudanças t eórico-met odológicas e incorporar out ras f ormas de ver o homem no seu cont ext o sócio-cult ural, que na sociedade cont emporânea não se limit a apenas ao recept or ou ao emissor mas na int eração dest es em um out ro l ocus, ou sej a na dimensão da f ert ilidade proporcionada pelo colet ivo.

Ao t ent armos concret izar esse espaço de inf ormação e t orná-lo ao mesmo t empo um espaço de pensament o e um lugar de sociabilidade, procuramos const ruir um out ro mundo, dif erent e da represent ação t radicional de espaço f ísico — um ambient e de palavras que são t ambém conceit os. Conceit os, no ent ant o, não se def inem sozinhos e só ganham signif icado a part ir de sua associação com out ros conceit os. Segundo Deleuze; Guat t ari (1997), cada conceit o será, pois, considerado como pont o de coincidência, de condensação ou de acumulação de seus próprios component es. Plano de conceit os, ilimit ado e curvo, const ruído at ravés de pont es e bif urcações, sempre mudando, em moviment o const ant e, dependendo das conexões e associações que apareçam. Desse modo, os element os que f ormam a est rut ura do mundo são palavras, let ras: a int erf ace do pensament o. Isso é uma t ent at iva de conceit ualizar o Ciberespaço, criar uma int erf ace a part ir dessa conceit ualização e devolver um mundo de pesquisas sobre Cibercult uras para o indivíduo — um mundo que ele t ambém possa habit ar e int eragir com out ras pessoas, como é caract eríst ico desse espaço digit al.

Dest a f orma, o mundo (aut o)-organiza-se em t orno de dois pont os principais: o mundo como palavras e o mundo como pensament o, sendo palavras, a int erf ace gráf ica do pensament o. Pensamos por conceit os, por associação de conceit os. E t ambém pensamos hipert ext ualment e. Recent es est udos de neurociências sugerem que nossa maneira de pensar, de f at o, ocorre em rede. O modelo do hipert ext o é análogo ao modo como o cérebro t rabalha: uma int rincada rede de neurônios conect ados por t rilhas de energia elét rica, gerando inf ormação mais das conexões do que das ident idades f ixas. Os neurônios f uncionam como se f ossem blocos de const rução dest a rede, mas o pensament o acont ece quando os caminhos são percorridos pela rede elét rica. As idéias emergem de milhões de neurônios e de suas combinações. O hipert ext o t ambém é a f orma da WWW. Para dar consist ência ao pensament o represent ado por palavras, em f orma de conceit os, buscamos na f ilosof ia a criação de arquit et uras do pensament o e da elaboração de conceit os.

A f ilosof ia quase sempre se valeu de cenas e met áf oras para criar conceit os, desenvolver idéias e represent ar o pensament o. Desde Plat ão e a alegoria da caverna, Leibniz e as séries incompossíveis, Niet zsche e Zarat ust ra, Deleuze e o plano de imanência, o pensament o é represent ado no espaço; ou

ainda, como um espaço onde algo acont ece. Ut iliza cenas, personagens e descreve experiências para exemplif icar e represent ar conceit os. Seguindo est a idéia, pret endemos const ruir um palco, como um espaço onde cenas ocorrem. Não um palco newt oniano, desconect ado dos personagens que nele at uam, mas um palco moderno, onde a ação de cada indivíduo serviria para mudar esse espaço e est ivesse int imament e ligada à f ormação dest e. O palco como uma vast a membrana, que incluísse mat éria e espaço — no ent ant o, num mundo onde não exist e mat éria, que é const it uído de f luxo de inf ormações, t ant o palco quant o personagens são f ormados com o mesmo princípio; nesse sent ido, são o mesmo. Cada conceit o, ent ão, não t eria uma única def inição: part imos do princípio deleuziano de que cada conceit o só se f orma na associação com out ros conceit os e, para associá-los, seria preciso percorrer esse espaço e viver experiências. Qual seria, ent ão, a ligação ent re o espaço de pensament o e o espaço digit al? At ravés da art iculação ent re represent ação, espaço e suj eit o, é possível ent ender que o modo como o ser humano percebe e (aut o)-organiza o espaço f ísico est á diret ament e relacionado à represent ação de nosso espaço de pensament o.

Habit amos espaços dif erenciados. Espaços, f ísicos, imaginados, represent ados… Ciberespaço. São espaços produzidos pela cult ura e pela t écnica. Mas t ambém somos produzidos pelo espaço em que vivemos. O homem medieval habit ava a Terra, mas vivia ameaçado pela idéia de ser enviado para o Inf erno ou com a esperança de ao Paraíso. Esperança… Foram lugares de esperança e de liberdade ao longo da hist ória, espaços def inidos t ant o pela cult ura quant o pela ciência, que moldaram nossa presença no mundo f ísico. Além do espaço celest e medieval, a crença numa quart a dimensão, nas maravilhas do Ciberespaço… O homem nunca se conf ormou em habit ar apenas um t ipo de espaço e sonhou f reqüent ement e com lugares de liberdade, do corpo e da alma. At ualment e, est a percepção de um espaço de liberdade é deslocada para o espaço digit al. Um lugar sem mat éria, longe das leis do mundo f ísico, onde cada um pode ser quem quiser e const ruir o espaço como melhor lhe convier. O Ciberespaço é um espaço em const rução. Espaço de liberdade ou não, o modo como ele será const ruído e como est aremos present es nele dependerá da compreensão do que é esse espaço digit al.

Em sínt ese, diant e de cenários t ão indecif ráveis no âmbit o do Ciberespaço a aproximação da Ciência da Inf ormação, Ciberespaço, t eoria dos sist emas sociais, comunicação, aut o-organização e aut opoiese nos levou a algumas const at ações:

Que o pensament o sist êmico e complexo, via mét odos como o do const rut ivismo radical, nos parece como o mais adequado para a observação de processos de mudanças;

Que as abordagens cognit ivist as podem e devem ser mais aplicadas aos est udos de Ciência da Inf ormação, Ciberespaço e comunicação;

Que o conceit o de aut opoiese, desde Mat urana e Varela e, sobret udo Luhmann, pode cont ribuir para a compreensão dos processos de const rução de sent ido e de ident idade, não só nos sist emas vivos e psíquicos, mas t ambém nos sist emas sociais e ciberespaciais;

Que a t ese de Luhmann de que os sist emas são const it uídos de redes aut opoét icas de comunicação amplia, em muit o, as opções de análise no campo da comunicação no Ciberespaço, por exemplo, ao libert ar a comunicação de seu carát er ut ilit ário e inst rument al;

Que o t rat ament o dispensado à comunicação nas comunidades virt uais precisa superar a razão inst rument al e linear e subst it uir os modelos de t ransmissão e cont role por modelos mais dialógicos, mais int erat ivos e menos cont rolados.

Quant o à const rução de sent ido no mut ável ambient e ciberespacial, vimos que se dá em novas bases, no campo da f ront eira do relacionament o homem/ máquina, sist ema/ ambient e e sist ema/ sist ema. A const rução de sent ido é inf luenciada pela própria aut o-ref erencialidade, em int eração com as inf ormações emanadas pelo ambient e, e aparece como uma seleção, result ant e de cognição, na busca de reduzir a complexidade. É um processo circular, dialógico, que ocorre, quase sempre, à margem das redes of iciais de comunicação. Por isso, não é possível af irmar que essas mudanças só geram reações negat ivas, uma vez que f oi possível perceber, nesse processo cognit ivo de percepção, int erpret ação e seleção, que alguns mecanismos e comport ament os podem emergir, como adapt ação evolut iva, o dist anciament o irônico, a libert ação criat iva e at é mesmo a anulação ou eliminação, dependendo da est rut ura do sist ema naquele dado moment o.

A part ir da aut opoiese, via det erminismo est rut ural, f oi possível ident if icar o recurso à aut o-ref erencialidade e a ident idade como reação as mudanças. Ainda que em um sist ema a est rut ura mude o t empo t odo, num processo de adapt ação às modif icações t ambém cont ínuas do ambient e, o invariant e, aqui, seria organização. Se desest rut urada, pode levar à ext inção do sist ema.

Por out ro lado, quando t rabalhamos com a sociocomunicação enquant o processo sócio-biogenét ico, t emos de most rar o seu carát er casuíst ico e selet ivo. Há de se f ocalizar os moment os e os lugares em que ruído passa a dar lugar a inf ormação. Para t al, não podemos t omar os comunicandos (emissor e/ ou recept or) como subsist emas de um sist ema cult ural j á preest abelecido. Um t al sist ema, caso exist a, não passa, por sua vez, de um produt or de ruído, a part ir do qual surge a dif erença ent re sist ema de sent ido e ambient e de signos e sinais. Est a dif erença é insuperável porque as combinações possíveis sempre excedem as combinações at ualizadas, em cada moment o. É por isso que sist emas sociocomunicacionais evoluem e não podem permanecer em equilíbrio. Eles mudam quando percebem inf ormação selet iva, em f orma de novidades, em seus ambient es. Dif erent e da seleção biológica, nas escolhas sociais o ambient e nat ural dá lugar a um ambient e virt ual que deve ser considerado uma criação int erna do próprio sist ema em desenvolviment o. Ele próprio exibe variações permanent es para si próprio. A relação social sist ema/ ambient e é considerada conseqüent ement e como uma relação ent re sist emas de comunicação, e não uma relação ent re cult ura e ação individual.

A relação provém de acont eciment os casuíst icos, de f lut uações, que lhe conf erem um cert o grau de improbabilidade, nomeadament e em t rês níveis: a) que a mensagem alcance out ros; b) que, ao encont rar out ros, a mensagem sej a ent endida; c)e que ela - se recebida e ent endida - sej a aceit ada.

Apenas quando a sociocomunicação deixa de ser vist a como uma t roca de pensament os, de sent iment os ou de qualquer f orma de experiência pessoal no sent ido mais largo, ela pode ser capt ada como um f enômeno emergent e em relação a sist emas psicológicos (seres humanos, observadores). Ela represent a um nível dif erent e de organização, t al como os sist emas biológicos se dist inguem em relação a sist emas f ísicos.

No ent ant o, enquant o a sociocomunicação ocorre, sist emas psicológicos cont inuam a experienciar, sent ir e pensar. Se f icassem com os comunicados do sist ema social, a sua experiência t erminaria, e com ela mat éria prima das comunicações. Nada mais haveria que pudesse ser “ irrit ado” , “ desvirt uado” , aproveit ado e usado em processos de sociocomunicacionais. De f orma análoga, a mat éria f ísica precisa cont inuar a se reproduzir para que a vida biológica possa cont inuar.

A experiência do ser humano (pensament o, percepções ref let idas, et c) não se conf unde com a comunicação, mas f az part e unicament e da sua vida psíquica, t al qual a exist ência de element os químicos não se conf unde com a vida biológica, embora f orneça cert os element os para ela. Ou, dit o de out ra maneira: quando uma experiência psíquica f or exibida, t rat a-se j á de comunicação e não mais de experiência pessoal. Para poder ent rar como element o no processo comunicat ivo ela precisa ser recodif icada e adapt ada para t al. Ela precisa ressurgir em f orma de linguagem audível e em f orma de gest os e sinais visíveis. Só depois dest a t ransf ormação de element o psíquico para element o comunicat ivo a experiência pessoal pode ser processada pelo sist ema social. Est e lhe pode at ribuir um signif icado bem dif erent e do int encionado pelo sist ema psíquico, t al qual um corpo biológico, para usar out ra met áf ora, f uncionaliza as suas células, usando-as t ant o para const it uir a pele como para f ormar o cérebro. A sociocomunicação usa as ações comunicat ivas dos part icipant es para criar o seu próprio sist ema. Ele as usa, abusa, esgot a as cont ribuições dos part icipant es na sua própria dinâmica de processar inf ormações.

O acoplament o ent re sist emas psíquicos possibilit a a comunicação, mas ainda não é sociocomunicação. A promessa "Eu vou lhe cont ar algo" nada diz sobre o que vai ser cont ado. E não se sabe de ant emão se essa "promessa" não signif icará, na verdade, uma "ameaça". A sociocomunicação est á suj eit a a suas próprias leis. Ela é um f enômeno emergent e, com seus próprios processos biogenét icos embora ut ilize os sist emas psicológicos no ambient e como element os de sua const rução. Sociocomunicação não é, port ant o, apenas uma f orma de int eração at ribuída a uma ação individual, mas uma f orma de surgiment o, dif erenciação e aut orenovação de sist emas sociais.

O que at é aqui conj et uramos é a possibilidade de se pensar o humano como um híbrido ani mal -t ecnol ogi a, que desde o seu apareciment o sobre a Terra t raz como est igma a invenção permanent e de si, af et ando o seu meio e sendo af et ado e const it uído por est e mesmo meio, deixando, ao longo da sua j ornada, rest os e t esouros que, ora se denomina cult ura, ora t ecnologia, ambos const it uindo as r eal i dades que permeiam a própria exist ência humana.

É assim que se pode enxergar o cenário cont emporâneo, onde as t ecnologias são (re)invent adas com t amanha velocidade que os ef eit os sobre uma humanidade sempre volát il e cambiant e nem sempre podem ser apreendidos na mesma velocidade. E diant e do desconhecido, ou melhor, do ainda não conhecido, sent e-se apreensão, medo mesmo; ou ao cont rário, f az-se apost as de ganhos e lucros.

Talvez, nos dias de hoj e, possamos salient ar que o que há de mais radical, quando se compara est a com out ras realidades, sej a a idéia de um novo espaço, ent endido como virt ual, j á amplament e conhecido com o nome de Ciberespaço. Vêm dest a singular zona espacial e t emporal promovida pelas chamadas novas t ecnologiasa novidade para o que se pode chamar de uma recent e experiência de habit ação no mundo para o humano. Ou sej a, mant endo os t ermos das ref lexões iniciais dest e t ext o, vem do Ciberespaço a possibilidade de um novo exer cíci o humano. Lembre-se, um exercício nem mais verdadeiro nem def init ivo que aqueles t ant os que o ant ecederam, apenas um out ro exercício, uma out ra f ace que se desvela.

Nesse sent ido, r epr ovamos, aqui, cont udo, as abordagens que, desde uma perspect iva da racionalidade linear e econômica, que se apropriam dos conceit os

Benzer Belgeler