O Conselho trabalha em conjunto com outras instituições, com o intuito de tornar mais célere e acessível o acesso ao material genético e aos conhecimentos tradicionais. Atualmente, existem três instituições credenciadas, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos
101 FERRO, Ana Flávia Portilho. Oportunidades tecnológicas, estratégias competitivas e marco regulatório: o uso sustentável da biodiversidade por empresas brasileiras. 2006. 152 f. Dissertação (Pós-graduação em Política Científica e Tecnológica), Instituto de Geociências, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2006. p. 55.
Naturais Renováveis (IBAMA) e o Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional (IPHAN).
O IBAMA ficou responsável por emitir autorizações de acesso ao patrimônio genético sem acesso ao conhecimento tradicional associado, para fins de pesquisa científica. O CNPq ficou responsável por emitir autorizações de acesso ao patrimônio genético sem acesso ao conhecimento tradicional associado para qualquer das finalidades. O IPHAN, por sua vez, ficou responsável por emitir autorizações de acesso ao conhecimento tradicional sem acesso ao patrimônio genético para fins de pesquisa científica.
O CGEN ficou responsável por todos os cenários restantes, tais como projetos híbridos, conhecimentos tradicionais associados ao patrimônio genético, conhecimentos tradicionais para fins de bioprospecção ou desenvolvimento tecnológico.
O IBAMA, credenciado desde 2003, mostra-se bastante prolífico em suas atividades. Desde o seu credenciamento, já autorizou mais de 400 projetos de pesquisa científica. Apenas em 2012, foi responsável por seis autorizações especiais de acesso e de remessa de amostra de componente do patrimônio genético para fins de pesquisa científica, seis autorizações de acesso e de remessa de amostra de componente do patrimônio genético para fins de pesquisa científica e 12 autorizações de regularização de atividades de acesso, além de incluídos 91 projetos de pesquisa em portfólios de autorizações especiais de acesso e de remessa de amostra de componente do patrimônio genético para fins de pesquisa científica. Tal instituição é, também, a responsável pela repressão à biopirataria, tendo lavrado 220 autos de infração em 2012. Segundo dados da assessoria de comunicação do órgão, as empresas punidas são, em maior parte, multinacionais cosméticas e farmacêuticas que foram autuadas por não repartir benefícios corretamente ou por prestar informações falsas.102
O CNPq, apenas credenciado em 2010, tem sido cada vez mais procurado. Segundo dados do Ministério do Meio Ambiente, o órgão emitiu 09 autorizações no primeiro ano, 27 no ano seguinte, e 61 em 2012. Destaque-se que todas as autorizações emitidas tiveram como finalidade a pesquisa científica. Interessa destacar, ainda, que no âmbito dessa instituição, o processo é totalmente informatizado, em uma plataforma semelhante à do currículo lattes, com a qual os pesquisadores já possuem familiaridade.103 Dessa forma, é
102IBAMA. Operação novos rumos II autua 35 empresas por exploração irregular da biodiversidade. Disponível em: <http://www.ibama.gov.br/publicadas/operacao-novos-rumos-ii-autua-35-empresas-por- exploracao-irregular-da-biodiversidade->. Acesso em: 31 de maio de 2013.
103 CASTRO, Fábio. Avanços possíveis. Agência FAPESP. Disponível em: <http://agencia.fapesp.br/14317>. Acesso em: 31 de maio de 2013.
dispensado o envio de qualquer documento em papel, o que agiliza e moderniza bastante a gestão do patrimônio genético brasileiro.
O IPHAN, o último a ter sido credenciado, já analisou 32 solicitações de autorização de acesso ao conhecimento tradicional associado para fins de pesquisa científica. Destas, 12 foram autorizadas, sendo que 06 delas ainda devem ser regularizadas, sob o rito previsto na Resolução n° 35/2011 do CGEN.
Acredita-se que, apesar de todas as medidas tomadas pelo Conselho para desburocratizar o sistema vigente, ainda há muito que ser feito, pois o número de deliberações está longe de atender ao número de solicitações, o que acaba por prejudicar inúmeros projetos. Deve-se observar, ainda, que o número de projetos de pesquisa é superior ao número de projetos com potencial de uso econômico, e que, segundo Derani, a maioria dessas solicitações pertence ao mesmo grupo de empresas. Isso poderia indicar que a maioria dos empreendedores que realizam atividades de acesso prefere descumprir a legislação a enfrentar a burocracia imposta por ela.104 Por isso, e por tudo mais dito neste capítulo, verifica-se a premente necessidade da elaboração de uma nova legislação de acesso e repartição de benefícios no Brasil.
104 DERANI, Cristiane. ABS in practice: navigating access and benefit sharing procedures in brazil. Disponível em: < http://www.ethicalbiotrade.org/dl/UEBT_ABS_CRIS_DERANI_final.pdf>. Acesso em: 15 de maio de 2013.
4 PROTOCOLO DE NAGOYA: PERSPECTIVA DE EVOLUÇÃO NAS NORMAS DE ACESSO E REPARTIÇÃO DE BENEFÍCIOS?
O Protocolo de Nagoya foi adotado em outubro de 2010, durante a décima Conferência das Partes, com o objetivo de auxiliar na implementação de um dos objetivos da CDB, o acesso e a repartição equitativa de benefícios oriundos da biodiversidade, mediante a previsão de uma estrutura legal de maior segurança e transparência dentro do tema, que estabelecesse condições mais previsíveis para o acesso a recursos genéticos e assegurasse a repartição de benefícios quando necessário.
Embora o acordo tenha sido assinado apenas em 2010, as negociações que o antecederam datam de 2004, quando a Conferência das Partes solicitou que o grupo de trabalho ad hoc de composição aberta sobre acesso e repartição de benefícios elaborasse um regime internacional concernente ao tema.105 No âmbito do grupo, surgiram inúmeras divergências entre os países detentores de biotecnologia e aqueles ricos em biodiversidade.
Inicialmente, os primeiros chegaram a sustentar que o Protocolo seria desnecessário, frente à possibilidade de solução das questões pendentes através de contratos particulares. Num segundo momento, esses países buscaram obter, através do novo texto legal, a maior liberdade possível em termos de acesso aos recursos biológicos, enquanto os países em desenvolvimento ressaltavam a necessidade de medidas protetivas para assegurar que tal acesso não ocorresse sem a devida contraprestação. Apesar do longo período de negociação, muitas questões restaram controversas até as vésperas da adoção do Protocolo, que acabou sendo aprovado a despeito de muitos países.106
A ideia do Protocolo surgiu em um contexto de pouca efetividade da CDB, tendo em vista que, mais de quinze anos após a sua entrada em vigor, poucos países haviam aprovado legislações relativas a acesso e repartição de benefícios, e aqueles que aprovaram, em sua maioria provedores de biodiversidade, fizeram-no de forma superrestritiva, inibindo a pesquisa e o desenvolvimento tecnológico, o que ia de encontro ao próprio espírito da Convenção.107 Dessa forma, o Protocolo poderia representar um grande avanço para a
105 THE CONFERENCE OF THE PARTIES TO THE CONVENTION ON BIOLOGICAL DIVERSITY. Decision VII-19. Disponível em: <http://www.cbd.int/decision/cop/default.shtml?id=7756>. Acesso em: 22 de maio de 2013.
106 NIJAR, Gurdial Singh. The nagoya protocol on access and benefit sharing of genetic resources: an analysis. Malásia: CEBLAW, 2011, p. 13 – 15.
107 FEDDER, Bevis; KAMAU, Evanson Chege; WINTER, Gerd. The nagoya protocol on access to genetic resources and benefit sharing: what is new and what are the implications for provider and user countries and the
temática, através da instituição de novas normas que estabelecessem diretrizes claras e específicas, a fim de orientar os países na edição de suas próprias legislações.
Contudo, o acordo falha em atender às principais demandas dos países em desenvolvimento, reduzindo-se, majoritariamente, a um texto repleto de normas vagas e não vinculantes, as quais pouco contribuem em termos de segurança jurídica. Singh Nijar ressalta que o Protocolo não acrescentou muito ao texto da CDB, apenas ratificando e dando ênfase àquilo já dito anteriormente, ficando, inclusive, aquém da Convenção em alguns aspectos.108 Deve-se ressaltar, todavia, que o acordo possui força política, por reafirmar, internacionalmente, a necessidade de implementação de normas internas já previstas pela Convenção. Ademais, traz algumas poucas inovações, das quais trataremos neste capítulo.