Neste momento, prosseguiremos à análise dos relatórios anuais do CGEN100, com o intuito de estudar a evolução das atividades desenvolvidas pelo órgão desde a sua criação. No ano de 2002, verificamos a autuação de 43 processos, dos quais apenas 07 foram objeto de deliberação pelo plenário. Dentre esses processos, 27 tinham como finalidade pesquisa científica, 16 bioprospecção, e apenas 02 deles envolviam conhecimentos tradicionais associados. No ano seguinte, verificamos um total de 43 processos autuados, dos quais 33 envolviam pesquisa, 04 bioprospecção e 02 conhecimentos tradicionais associados. Ressalte- se que nesse ano, apenas 05 desses processos foram deliberados pelo CGEN.
Em 2004, 17 processos foram autuados, sendo 09 deles relativos a pesquisa e 08 relativos a bioprospecção ou desenvolvimento. Nesse ano, apenas 05 processos foram deliberados, e 10 envolveram acesso a conhecimentos tracionais associados. Observa-se, nesses três primeiros anos, um baixo índice de deliberações realizadas pelo Conselho. Todavia, acredita-se que tal fato esteja relacionado às dificuldades procedimentais e legislativas encontradas pelos conselheiros no início de suas atividades. Outro ponto a ser observado é a redução do número de solicitações relativas a pesquisa, no ano de 2004. Segundo o relatório de atividades emitido pelo MMA, tal redução deve-se ao credenciamento do IBAMA, assunto que será melhor explanado posteriormente.
Em 2005, 28 processos foram autuados, 09 envolvendo pesquisa, 18 bioprospecção ou desenvolvimento tecnológico, e 01 coleção ex situ com potencial de uso econômico. Nesse ano, 12 processos foram objeto de deliberação e 11 envolveram acesso a conhecimentos tradicionais associados. Ressalte-se que, de acordo com os dados disponibilizados, esse foi o primeiro ano em que se autuaram processos referentes exclusivamente a desenvolvimento tecnológico.
No ano seguinte, verificou-se um grande aumento no número de processos autuados, que subiu de 28 para 67, e também, no número de autorizações, que subiu de 12 para 20. Tal aumento demonstra certo amadurecimento do sistema. Dentre os processos autuados, 20 tinham como finalidade pesquisa científica, 45 bioprospecção ou desenvolvimento tecnológico e 02 coleção ex situ com potencial de uso econômico. Ressalte- se ainda que 26 deles envolviam acesso a conhecimentos tradicionais associados.
Em 2007, 33 processos foram autuados, dos quais 11 possuíam como finalidade a pesquisa científica, 22 estavam relacionados a bioprospecção ou desenvolvimento tecnológico
100 Todos os relatórios analisados encontram-se disponíveis para acesso na página eletrônica do Conselho: <http://www.mma.gov.br/patrimonio-genetico/conselho-de-gestao-do-patrimonio-genetico/relatorios-de-
e 14 envolviam conhecimento tradicional associado. Nesse ano, o Conselho emitiu 16 autorizações e anuiu 11 CURBs, dos quais 04 foram firmados pelo presidente do Conselho em nome da União, e 07 referiam-se ao acesso de patrimônio genético em áreas particulares.
Em 2008, 44 processos foram autuados, dos quais 16 envolviam pesquisa, 28 estavam relacionados a bioprospecção ou desenvolvimento desenvolvimento tecnológico, e 16 incluiam conhecimentos tradicionais associados. Nesse ano, 13 processos foram autorizados e 02 CURBs foram anuidos, ressaltando-se que um deles envolvia conhecimento tradicional provido por comunidade ribeirinha.
Em 2009, 36 processos foram autuados, dos quais 11 tinham como finalidade pesquisa, 25 abrangiam bioprospecção ou desenvolvimento e 11 envolviam conhecimentos tradicionais associados. Nesse ano, foram emitidas 11 autorizações e apenas 01 CURB foi anuído. No ano seguinte, o número de autuações permaneceu o mesmo, sendo 11 dos processos direcionados à pesquisa científica, 25 à bioprospecção ou ao desenvolvimento e 14 deles envolviam conhecimentos tradicionais. Nesse ano, 07 processos foram deliberados e 02 CURBs foram anuidos.
Nos últimos anos, observou-se grande adesão ao sistema de autorizações do Conselho, apesar de tal número não levar em consideração os processos direcionados a instituições credenciadas. Em 2011, 76 processos foram autuados, 15 com finalidade de pesquisa científica, 60 bioprospecção ou desenvolvimento tecnológico, e 01 visando constituir coleção ex situ com potencial de uso econômico. Ressalte-se que 14 deles envolviam conhecimentos tradicionais associados. Nesse ano, 24 processos foram autorizados e 4 CURBs foram anuídos. Já em 2012, 64 processos foram autuados, dos quais 20 possuíam finalidade de pesquisa, 44 bioprospeção ou desenvolvimento tecnológico e 22 envolviam conhecimentos tradicionais associados. Nesse ano, 35 processos foram autorizados, o que revela um aumento de diligência nas deliberações. Todavia, apesar deste aumento, o Conselho ainda tem muito que evoluir nesse sentido, visto que o número de deliberações ainda é muito distante do número de processos autuados todos os anos.
Destaque-se que, apenas em 2012, o CGEN anuiu mais CURBs do que havia anuído em toda a sua história. Podemos verificar tal contraste através da análise do seguinte gráfico:
Destaque-se, ainda, que o número de CURBs anuídos não possui relação direta com o número de autorizações emitidas pelo CGEN, visto que os projetos com finalidade de pesquisa científica prescindem da celebração de contrato de repartição de benefícios. Quanto às autorizações, verificamos que, em todos esses anos, a porcentagem de autorizações simples emitidas sobrepõe-se, em muito, à porcentagem de autorizações especiais, em qualquer de suas finalidades.
Dentre as autorizações simples, 36% possuem como finalidade a pesquisa científica envolvendo conhecimentos tradicionais, 11% possuem como finalidade a pesquisa científica sem conhecimentos tradicionais, totalizando a maior parte das autorizações Gráfico 6 – CURBs anuídos pelo CGEN. Fonte: <http://www.mma.gov.br/images/arquivo/80043/relatorio-
cgen-2012.pdf.> Acesso em: 18 de maio de 2013.
Gráfico 7 – Autorizações concedidas pelo CGEN. Fonte: <http://www.mma.gov.br/images/arquivo/80043/relatorio- cgen-2012.pdf.> Acesso em: 18 de maio de 2013
concedidas. Os casos de bioprospeção de componentes do patrimônio genético chegam a 9%, enquanto os casos envolvendo conhecimentos tradicionais totalizam apenas 2%. Os casos de desenvolvimento tecnológico sem CTA chegam a 18%, enquanto a porcentagem de projetos envolvendo CTA totalizam apenas 1%. Os projetos híbridos, que contam com mais de uma finalidade, totalizam 23% do total de autorizações.
Outra importante atividade desenvolvida pelo Conselho é o credenciamento de instituições como fiéis depositárias de subamostras do patrimônio genético. Com o passar dos anos, o CGEN credenciou 158 instituições, as quais abrigam, atualmente, 317 coleções.
Gráfico 5 – Credenciamento de instituições fiéis depositárias. Fonte:
<http://www.mma.gov.br/images/arquivo/80043/relatorio-cgen-2012.pdf.> Acesso em: 18 de maio de 2013. Gráfico 8 – Autorizações simples concedidas pelo CGEN. Fonte:
No entanto, deve-se ressaltar que muitas dessas instituições não estão preparadas para o exercício da função. De acordo com Portilho Ferro:
[…] Para que se possa garantir a rastreabilidade do material biológico em conformidade com as regras estabelecidas pela CDB, é necessário desenvolver capacidade institucional (infra-estrutura e recursos humanos) para atender às novas demandas associadas ao depósito de material biológico em coleções nacionais. Souza, Canhos e Félix (2005) apontam a necessidade de certificação (avaliação da conformidade) de material biológico organizado em bases técnicas consistentes. Além disso, ressaltam a falta de capacitação dos órgãos nacionais, dentre eles o CGEN, de monitorar e avaliar o desempenho das instituições credenciadas para o depósito deste material. Ainda assim, os processos mais expeditos pelo CGEN são aqueles relativos às solicitações de instituições para atuarem como fiéis depositárias de amostras do patrimônio genético. […]101
Além da apreciação dos processos de autorização e credenciamento, acima mencionados, o Conselho desenvolve inúmeras outras atividades, como o atendimento, o apoio técnico a iniciativas diplomáticas para harmonização entre os acordos internacionais sobre direitos de propriedade intelectual e a Convenção sobre diversidade biológica; a estruturação de políticas e ações para combate à biopirataria, com ações de capacitação de fiscais e a integração entre ações de investigação e fiscalização; políticas de proteção dos conhecimentos tradicionais associados, destacando-se o convênio realizado com a organização não-governamental Amazonlink para a realização do projeto “aldeias vigilantes” no estado do Acre e a realização de oficinas de formação junto a comunidades locais e indígenas; o acompanhamento a processos judiciais e outros litígios; a participação em eventos, como reuniões e seminários com interlocutores da sociedade civil, congressos, conferências internacionais relativas à CDB; e a produção de material informativo acerca do tema.