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3.3. O-1 Otoyolu Km: 17+088 Üstgeçit Köprüsü

Foi a visão que os outros (africanos, asiáticos e americanos) tiveram dos europeus foram de espanto.

Frei Bernardino de Sahagun, espanhol, assim descreveu a visão que índios de região do México tiveram dos europeus ao desembarcarem de seus navios: “... têm o corpo envolto, somente as caras aparecem. São brancos, como se fossem cal. Têm cabelo amarelo, embora alguns o tenham preto. Sua barba é grande...” (AMADO e GARCIA, 1989: 41-42).

A surpresa dos europeus em relação aos índios foi digna de nota por Américo Vespúcio, em carta a Francisco de Medici, datada de 19 de julho de 1500:

Não têm barba nenhuma nem vestem vestimenta nenhum assim os homens como as mulheres, que como saíram do ventre de suas mães assim vão, que não cobrem vergonha alguma; e assim pela diversidade da cor, que eles são de cor como parda... e nós brancos; de modo que sentindo medo de nós, todos se meteram no bosque (AMADO E GARCIA,op. cit: 42).

No primeiro relato, o do outro, percebe-se que a preocupação do índio era a de simplesmente identificá-los enquanto grupo humano diferentes dos seus; no segundo caso, já se percebe claramente que os europeus já buscavam identificar qualidades, como valentia e medo; diversidade cultural pela cor; e, questões ideológicas que iriam ser profundamente exploradas pelos colonizadores, como os costumes de andarem nus que passariam a ser vistos como algo vergonhoso e anticristão e até demoníaco.

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Sobre os animais encontrados no Novo Mundo, o relato de Jean de Lery (1990: 18), do século XVI, mostra a admiração com animais nunca vistos. “... tatus são quase como leitões: têm um casco como de cágado... têm um rabo comprido todo coberto do mesmo casco. O focinho é como de leitão, ainda que mais delgado e só botam fora do casco a cabeça. Têm as pernas baixas e se criam em covas como coelhos”.

Américo Vespúcio ficou deslumbrado com as aves das Américas:

... pássaros de diversas formas, e cores, e tantos papagaios que eram deslumbrantes; alguns corados como carmim, outros verdes e cor de limão e outros negros, e encarnados, e o canto dos pássaros que estavam nas árvores era coisa tão suave, e de tanta melodia, que nos acontece muitas vezes estarmos parados pela doçura deles (VESPÚCIO, 1984).

As plumagens dos índios que tanta cobiça despertaram entre os comerciantes europeus tinham uma explicação: a grande profusão de aves multicoloridas do Novo Mundo.

Ainda é Pero de Magalhães de Gândavo em escritos de 1576 (1995) que faz menção a vegetação exuberante do Brasil, seu clima e hidrografia, totalmente diferentes da Europa:

É a vista muita deliciosa e fusca: está toda vestida de muito alto e espesso arvoredo, regado com as águas de muitas e mui preciosas ribeiras de que abundantemente participa toda a terra, onde permanece sempre a verdura com aquela temperança da primavera que cá (na Europa) nos oferece abril e maio. Não há lá frios, nem ruínas de inverno que ofendam as plantas, como cá ofendem as nossas. É de tal maneira comedida na temperança dos ares que nunca nela se sente frio nem quentura excessiva. As fontes que há na terra são infinitas, cujas águas fazem crescer muitos grandes rios que por esta costa... entram no oceano.

Este prelúdio sobre as belezas naturais do Brasil já havia sido percebido desde muito pelos portugueses que aproveitaram os bons solos, a hidrografia, a fauna e flora exuberantes e o clima não tão hostil para darem início as monoculturas, essenciais para o enriquecimento de comerciantes e da Coroa Lusa. Em contrapartida, em pouco tempo, tudo foi destruído, inclusive seus habitantes humanos.

Desde o início, os europeus buscaram conhecer a natureza e principalmente as fraquezas dos habitantes dos territórios invadidos.

Com relação ao Brasil, as crônicas são inúmeras e visam a mostrar quais os reais interesses lusos sobre a terra recém “descoberta” e seus milenares habitantes: “

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Andam nus, nem cobertura alguma. Não fazem o menor caso em encobrir ou de mostrar suas vergonhas; e nisso têm tanta inocência como um mostrar o rosto...” (CAMINHA, 1985).

Gândavo (1995: 39) interessa-se em mostrar como viviam e de que viviam: mantimentos, como plantavam e quais poderiam ser utilizados para abastecimento dos colonos e tropas de ocupação:

Os mantimentos que plantam em suas roças, com que se sustentam... são mandioca e milho. Além deste, ajudam-se da carne de muitos animais que matam... também se sustentam de muito marisco e peixes que vão pescar pela costa em jangadas...

Obvio que Gândavo referia-se aos índios do Litoral, provavelmente Tupis, mas dá para se ter uma ideia de uma vida no mínimo semissedentária desses grupos, pois necessitavam de tempo para o plantio e colheita da mandioca e milho, portanto, sem dúvida, podemos afirmar tratar-se de povos horticultores, mas sem dispensar a caça e a coleta.

Jean de Lery (1990) continua a fornecer informações sobre os costumes dos índios observados por ele quando esteve no Brasil, notadamente acerca dos usos e costumes do cotidiano indígena. Sobre a suposta antropofagia, os relatos dos cronistas são muitos.

Em carta do Padre Jesuíta Antônio Navarro, datada de 1553, este relata que “para o ano, se não nos comerem os índios, vos escreverei mais...” (AMADO e GARCIA, 1989: 47). Na verdade, a antropofagia não passava de um costume de certos grupos étnicos que praticavam rituais mágicos/religiosos em que se matavam e comiam, via sacrifícios ritualísticos, aqueles pertencentes a tribos inimigas.

Alguns cronistas, a exemplo de Frei Vicente Salvador (1937), acabaram por dar uma conotação pejorativa sobre a antropofagia: “Morrendo este preso, logo as velhas o despedaçam e lhe tiram as tripas, que mal lavadas cozem para comer, e reparte-se a carne por todas as casas e pelos hóspedes e dela comem logo assada e cozida...”

Tais colocações foram essenciais para a grande missão europeia no Novo Mundo: o massacre dos índios, a expropriação de suas terras, a servidão e a

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imposição dos traços culturais europeus, especialmente a fé cristã. Relatos como este serviam de justificativa para as guerras justas e descimentos forçados.

Já outros relatos sobre a antropofagia são menos exploratório, como o de Antônio Pigafetto (SANTOS, 2000: 24), do Diário da Expedição de Fernão de Magalhães, datado de 1519-1522. Nele, coloca-se que:

... os homens e as mulheres (de uma tribo do Brasil) são fortes e bem conformados como nós. Comem algumas vezes carne humana, porém somente a de seus inimigos. Mas não é por gosto ou apetite que a comem... Não os comem nos campos de batalhas, nem tampouco vivos.

Temos um processo de amenização de uma das questões mais polêmicas do Brasil Colonial com relação aos índios. Se alguns grupos étnicos, no pós-contato, praticaram a antropofagia com o homem branco é porque o viram como bravo, de grande valentia nas batalhas, honrado, daí o privilégio, na visão desses índios, em consumi-los para absorver sua força e coragem, ou então como já se conhece atualmente, comê-lo para depois excretá-lo, como forma de repugnância e ódio pelo mal que lhes causava.

A visão que os europeus tiveram dos povos recém-contactados apresentou uma dicotomia: de um lado, povos que viviam na Idade da Pedra; de outro, povos com cultura tecnológica avançada, mas incapazes de fazer frente ao poderio bélico dos invasores. Hans Staden (s.d.) em sua viagem ao Brasil, 1557, assim os via: “... não há divisão de bens entre eles (os índios brasileiros). Nada sabem de dinheiro. Suas riquezas são apenas de pássaros; e quem tem muitos é que é rico. Quem traz pedras nos lábios, entre eles, é dos mais ricos...”

João de Scantimburgo (1971: 17) diz que a ‘raça’ portuguesa “ se impôs hegemônicamente” sobre as outras raças formadoras do Brasil. O Brasil, a partir dessa visão demagoga, procede da raça forte, a portuguesa, num total esquecimento dos outros: “incalculável é a herança que Portugal nos legou. Pode-se mesmo afirmar que nossa cultura nada mais é que a cultura portuguesa...” (SCANTIMBURGO, 1971: 20).

Os índios num primeiro momento ficaram maravilhados com os europeus. As armas de fogo e o estrago que faziam chamavam a atenção. Cristóvão Colombo (1986: 33) em seu Diário de Viagem de 1492, assim relata um contato que teve com índios da América Central: “... fez disparos uma bombarda e uma espingarda e (o Cacique),

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vendo o efeito causado pelo estrondo, ficou maravilhado. E quando a população ouviu os tiros, caiu toda no chão.”

Era o som da artilharia, dos canhões e seu estrago, que chamavam a atenção dos índios em toda a América. O canhão era visto como algo diabólico pelo seu elevado poder de matar. De forma muito rápida, os índios das Américas foram persuadidos a ceder frente a invasão capitalista que se iniciava no Novo Mundo.

O sodomismo não passou despercebido pelos cronistas que escreveram sobre a

terra e a gente do Brasil, a beleza física das índias. Os relatos, quase sempre extravagante, como observou o cronista Pigafetta (SANTOS, 2000: 26): “uma delas apanhou um prego de ferro da dimensão de um dedo e o introduziu (tranquilamente) na vagina. Pigafetta confessa não ter entendido o propósito: roubo ou enfeite? Mas observou “de qualquer forma extravagante...”

Kunz Dittmer (1960: 17) afirma que não foi difícil os europeus adquerirem uma

visão pejorativa dos indígenas das Américas, levando-se em consideração parâmetros de povos mais desenvolvidos, como os maometanos e os cristãos europeus:

No fue difícil exagerar el estado “selvaje” y “animal” (canibalismo) de índios y negros, y aprovecharlo como justificacion moral para efectuar, incluso hasta el siglo XX, la más cruel apresión y explotación, y em algumos casos hasta el extermínio, de estos pueblos.

O estereótipo criado pelos colonizadores sobre os índios fora deveras

extravagante. Presos ao rigor religioso do medievo europeu, ao se depararam com o nu feminino, os conquistadores trataram em (re)adotar seus antigos costumes, deixar extravasar a libido, os sonhos, o furor visto no Velho Mundo como pecaminoso. Talvez num primeiro momento, a visão do nu, do selvagem, fosse visto e tido como o paraíso bíblico, depois, com o contato, o pecado e o sodomismo, fizeram dos colonizadores seres bestiais, que estupravam e matavam.

O europeu esteriotipava o índio do Brasil antes mesmo de conhecê-lo. O próprio

von Martius (1938) critica tal posição e afirma que só depois de longa convivência com os índios é que passou a ter outra concepção cultural sobre os mesmos. Temos uma antítese de modelos: de um lado, o Novo Mundo com suas belezas naturais e toda a nudez e falta de pudor dos índios; do outro, o mundo civilizado ou o Velho Mundo. A visão do europeu sobre o Novo Mundo mudava de acordo com o modelo vigente de

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concepção de mundo europeu. No século XVI, por exemplo, o índio passou a ser visto como um ser que estava ligado diretamente ao paraíso, com traços fortes do pitoresco e do romântico. Nesse período, bem como nos séculos anteriores, o retrato do negro e do índio, mesmo que retratados de forma esteriotipada, prevaleceu, talvez como forma de mostrar o exótico, necessariamente sem ser o belo.

O índio do Brasil, seja nas xilogravuras ou em textos, fora passado como sendo

o bom selvagem. Átala de Chateaubriand tenta passar, especialmente nas xilogravuras, a visão de um índio passivo, face angelical, incapaz de esboçar reação. Esse estereótipo descrevia, na verdade, o irreal, pois o índio sempre reagiu, de várias formas às tentativas de imposições do branco conquistador.

Na visão do branco europeu, o índio das Américas, fosse nas regiões tropicais

ou nas áreas temperadas, fora pintado genericamente nu e reconhecido como tal. Sinal de selvageria, de povos sem pudor. As pinturas de artistas que visitaram o Brasil, nos séculos passados, abordaram com frequência o nu índio: de Eckout a Pedro Américo, a nudez sempre esteve presente com intensa força plástica, chamando a atenção da falta de pudor do índio.

O nu indígena foi fruto de cobiça e proibição da Igreja. Nas missões religiosas,

proibia-se a quelquer custo o nu como forma de conter os pensamentos e atitudes pouco cristãos dos que ali viviam.

O índio quando retratado com o objetivo de mostrar-lhe a raça, sua ignorância e

selvageria, aparecia em bandos ou isolados. Nos grandes acontecimentos de nossa história (Independência e Guerra do Paraguai, por exemplo), os artistas que pintaram as grandes batalhas (Havaí, Riachuelo, etc.), não retrataram o índio, como se esse não existisse, não fizesse parte desses momentos cruciais do Brasil. No quadro de Vitor Meirelles, A Primeira Missa, o índio apareceu como mero coadjuvante, passivo, alheio ao que se passava no momento, imitando o que se via.

Berta Ribeiro (1987), de forma enfática, afirma que fora o índio que deu o grande contributo para a formação da “proto célula” da nação brasileira que surgia, pois o negro da África só começa a aparecer, esporadicamente, a partir de 1538. Foi o branco que dominou, mesmo necessitando de todo o aparato “tecnológico” o índio, foi o branco que instalou a monocultura, a escravidão e um novo sistema agrário que desnorteou o

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sistema de equilíbrio natural que, há milhares de anos, funcionava sem grandes impactos nas terras do Brasil.

Ideologicamente, reinou a Igreja Católica, mas não antes de incorporar traços místicos indígena e negros, o que faz do catolicismo do Brasil sui generis, único no mundo.

O modelo econômico implantado pela Coroa lusa e espanhola em toda a América voltava-se a exploração desumana dos recursos naturais da terra ou aquilo que ela pudesse oferecer e foi a partir do que cada região poderia oferecer em termos de bens de valor para o europeu, que determinou o modo de vida dos recantos do Brasil, estabelecendo variantes culturais, hábitos e costumes que, até certo ponto, diferenciam o povo brasileiro. São as várias culturas advindas principalmente com o contato indígena (crioula, caipira, sertanejas, cabocla e gaúcha), que Darcy Ribeiro (1984) atribui ao resultado do contato branco/índio de cada parte do Brasil. A resultante dessas culturas é que temos atualmente no Brasil, especialmente no meio rural.

A formação mística do Brasil deveu-se ao próprio sistema imperialista da época. As mulheres brancas praticamente não vinham para o Brasil e isso contribuiu para os amancebos entre colonos e índios, tão criticados pelos Jesuítas e outros Padres missioneiros. Dai, surgem o misticismo e a população acaboclada. As raízes da formulação e criação da sociedade brasileira pós-contato estão no campo. Foram os produtos do campo, inicialmente o açúcar, depois o ouro, o tabaco, o café, o algodão, o couro, que deram os primeiros passos da economia latente do Brasil, mas óbvio, sem perder os vínculos iniciais com a metrópole e, nesse contexto, surge rapidamente o Brasil, enquanto sociedade mista, fornecedora de produtos para a metrópole, na medida em que era intenso o processo de consumir bens manufaturados europeus.

Gilberto Freyre em Casa Grande & Senzala (1973), atribui ao encantamento da mulher morena (negra, índia ou moura) pelos portugueses, que a procuravam para os relacionamentos extraconjugais. Na verdade, isso irá acontecer mais por dois motivos: primeiro, a falta de mulher branca; segundo, a submissão dessa gente ao colono branco. A partir desse contato, forçado, tem-se início a formação de uma “raça” crioula nas Américas. Este esteriótipo criado por Darcy Ribeiro (1984), o crioulo, irá se

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desenvolver mais nas margens litorâneas, no primeiro contato entre índios e brancos, depois acrescido o negro.

Já com relação ao que Darcy Ribeiro chamou de Cultura sertaneja, essa começa nas bordas interioranas do Agreste e se enfurna nos Sertões, domínios da caatinga. Foi nesta região que se desenvolveu, a partir do século XVII, a “Civilização do Couro” (ABREU, 1976: 127). Tal estilo mesclado com a herança indígena, criou um novo sistema de vida baseado na adaptação ao meio. Essa área era de domínio dos Tapuias Cariris e Tarairiús.

A cultura cabocla (do Tupi: Caá-boc = tirado ou procedente do mato), desenvolveu-se basicamente no Norte do Brasil, em áreas onde os índios estavam adaptados à floresta tropical.

A cultura caipira ou caiçara conserva as características indígenas e de seus primeiros descendentes na região de São Paulo: são os mamelucos. Paulista, nos primeiros séculos da colonização, era sinônimo de mameluco, bandeirante, preador e escravizador de índios.

Os caiçaras, sinônimo para o caboclo, guarda ainda hoje, segundo Berta G. Ribeiro (1987: 108), “...muito de indígena, algo de português e nada de africanos”... A cultura caiçara preservou alguns dos principais costumes indígenas: a caça, a pesca, a coleta, e a pequena roça.

A cultura gaúcha surge da transfiguração étnica das populações mestiças oriundas dos espanhóis e portugueses, além da figura do índio Guarani. Esse tipo cultural especializou-se na criação de gado, mas não desprezou os ensinamentos indígenas: a boleadeira com o laço, antes utilizada pelos Guaranis para pegar especialmente veados, sobrevive com adaptações para o apresamento de rês.

Montado o sistema de produção de manufaturas no Brasil, todo e qualquer entrave deveria ser removido, extinto. Neste sentido, os índios foram vistos assim, daí a brutal destruição de suas culturas, fazendo desaparecer rapidamente povos adaptados desde muitos séculos, àquele ambiente. Quando necessário se fazia, incorporavam-se técnicas vitais de sobrevivência há muito utilizadas pelos índios no

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sistema mercantilista europeu; quando não, o resultado era a invasão de aldeias, missões, a desapropriação das terras e a morte ou escravidão dos gentios.

Para Bartira Ferraz Barbosa (2007), os europeus, especialmente os

portugueses, criaram uma infraestrutura militar capaz de conhecer para dominar os índios, tudo isso através da criação de mapas onde se localizavam as aldeias indígenas. Tal conhecimento era importante instrumento de controle para possíveis ofensivas ou alianças com o gentio, à medida em que se estruturava a colonização. Os portugueses sabiam bem o que queriam naquele momento em que deram início a colonização do Brasil, capazes de transformarem o mundo para benefício próprio, mesmo que a história, a cultura, enfim o outro fosse apagado. Bartira Barbosa vê a ação colonizadora como uma atividade predatória, no sentido de que o desenvolvimento da economia portuguesa, no período, dependia do que fosse capaz de se produzir no Brasil. Para tal, era necessário mão-de-obra. A busca pelos índios do Litoral foi intensa a ponto de a partir de 1570, na capitania de Pernambuco, já existir desde muito tempo a necessidade de apresar índios Tapuias, que viviam muitas léguas do Litoral, nos confins do Sertão. Subentende-se que a lavoura inicial, principalmente de cana-de-açúcar, e sua formidável indústria sustentavam-se na servidão indígena, ao ponto que em 1570, já se buscava a mão-de-obra escrava negra devido o elevado grau predatório imposto pelos lusos aos índios, inviabilizando a capacidade de reprodução destes, o que começava a acarretar problemas de falta de mão-de-obra, justamente num momento de extrema necessidade, pois aumentava vertiginosamente a produção de açúcar no Brasil, tendo em vista a forte demanda no mercado europeu.

É impossível, hoje, não destacar o importante papel do índio no processo de

conquista e colonização do Brasil. No entanto, existe uma escassez de estudos Etnohistóricos e arqueológicos que resgatem a história do outro, principalmente realizando um resgate através de sua própria visão. Os índios não foram meros sujeitos passivos no processo de colonização, mas sim foram extremamente ativos.

Pierre Moreau e Roulax Baro (1979) mostram a importância de reconhecer outros povos, aprender e respeitar seus costumes. Lamentável que portugueses, espanhóis, franceses, ingleses e holandeses não levaram isso a sério quando de suas invasões às Américas, África, Ásia e Oceania:

122 Pela experiência, os costumes dos povos, fornecem-nos mil exemplos e diversas aventuras em que aparecem estados inteiros, famílias e indivíduos e nos possibilitam o julgamento das ações alheias. Assim, só dependerá de nós próprios tornarmo-nos mais sábios e mais bem avisados à sua custa (MOREAU E BARO, 1979: 17).

Fala-se de relacionamento harmônico, de trocas culturais, de respeito. Três coisas que não aconteceram com o contato, ao menos como realmente deveriam acontecer, aceitando o outro (o índio) como ele era, sem interferir demasiado em sua vida, levando-o, inclusive, a extinção.

Os cronistas no momento em que falam da ferocidade dos Tapuias, veem-nos como valentes, aguerridos, corajosos, mas selvagens, capazes de devorarem os colonos que se aventuravam para os Sertões. Assim como os portugueses e espanhóis, os holandeses também viam os Tapuias como tais por falta de Deus, vivendo de acordo com suas “fantasias” e não como homens civilizados.

É interessante de nota a reação dos Tapuias liderados pelo alemão Jacó Rabi, que lhes servia de Capitão quando se dirigiram num domingo para Cunhaú, uma aldeia no Rio Grande, e lá massacraram os portugueses que estavam a ouvir missa. Essa reação dos Tapuias mostra-nos a aversão que estes tinham aos portugueses, pois, tal ataque seguido de massacre ocorreu quando os índios tomaram conhecimento das

Benzer Belgeler