As tentativas de golpe institucional ao longo do período democrático (1945-1964) tiveram como pano de fundo o cenário da guerra fria e seus dilemas políticos em torno do nacionalismo, do imperialismo e da revolução socialista. Tais questões se apresentaram no Brasil a partir da mobilização política das classes sociais brasileiras em torno de seus interesses de classe. Nesse período, o próprio caráter do desenvolvimento nacional adquiriu contornos mais evidentes de luta política, uma vez que o processo de industrialização transformou-se num ponto de disputa entre diferentes grupos políticos, gerando agitação social e política em relação a seu financiamento (estatal ou privado, nacional ou internacional. Em meio a esse acirramento político, em 1964 Fernando Henrique Cardoso (1964) lança Empresariado Industrial e Desenvolvimento Econômico. Essa obra pode ser definida como o primeiro modelo que supera as suposições quanto ao comportamento de classe imputado à burguesia industrial no desenvolvimento brasileiro. A partir de análise sociológica, Cardoso (1964) procurou investigar de maneira profunda as características da burguesia industrial do país.
O autor questionava a ideia de consolidação de um desenvolvimento industrial autodinâmico capaz de substituir, de maneira endógena, os bens de produção. Cardoso (1964) problematizou quais seriam, de fato, os setores sociais com condições e interesses em promover um capitalismo industrial que gerasse a autonomia nacional. Para isso, antecipava, seria preciso identificar, de maneira específica, os grupos nacionais e internacionais que controlavam a indústria, deslocando o debate sobre a economia nacional para a política. Haveria, de fato, uma burguesia interessada em desenvolver um capitalismo autônomo e genuinamente nacional? Pois, por mais que Furtado (1961) não vislumbrasse uma revolução burguesa nacionalista, sua defesa de um planejamento econômico estatal não dava conta de reconhecer a força e a capacidade de articulação dos grupos ligados ao capital estrangeiro junto ao empresariado nacional.
A crítica de Cardoso (1964) estendia-se também às clivagens formuladas no Iseb, mais precisamente ao pensamento de Hélio Jaguaribe. A partir de sua pesquisa, o sociólogo negou
a ideia de “setor modernizante” brasileiro, comandado pela burguesia industrial em aliança com o proletariado e os intelectuais. Para Cardoso (1964), essa ideia não correspondia à realidade do pensamento dos industriais, pouco preocupados em defender planos desenvolvimentistas em nível nacional.
Desse modo, a despeito do aumento de seu peso na economia do país, Cardoso (1964) observou que o empresariado industrial nacional não se propunha a realizar um projeto de poder que lhe fosse próprio. Para o autor, a ausência desse projeto justificava-se pela ainda incipiente formação da classe, o que dificultava a sua ação coletiva.
Os industriais brasileiros constituem uma camada social recente e heterogênea. Por isso, se no conjunto ainda não reagem como grupo aos problemas que se defrontam, é preciso considerar que “a situação comum de classe é recente” [...] Estes fatores dificultam a decantação de modos uniformes de pensar sentir e agir e dificultam a formação de uma ideologia industrial capaz de nortear a ação de todos em função dos interesses comuns [...]. Por isso, são ainda limitados os grupos empresariais capazes de postular uma política agressiva de desenvolvimento que aumente o controle político e econômico da burguesia industrial. (CARDOSO, 1964, p. 60)
Para Cardoso (1964), a participação do empresariado industrial no governo e na política configurava-se pela busca por vias individuais, sendo fracas as suas representações de classe. O jogo político era marcado por ações que visavam ao contato direto com representantes da burocracia do Executivo e com o Legislativo, a fim de garantir os interesses de um determinado setor industrial ou grupo empresarial.
A ausência de uma visão de classe sobre a conjuntura nacional impedia, portanto, o empresariado nacional de avaliar seu próprio crescimento e a dimensão de seu peso político, num país em intensa transformação social e econômica. Isso empurrava o empresariado para uma aliança conservadora com as classes políticas tradicionais que hegemonizavam o controle do Estado, na medida em que o empresariado buscava segurança para o desenvolvimento de seus negócios.
O preço maior que os industriais pagam enquanto grupo, por esta situação, é a vassalagem a que se veem reduzidos diante dos que manipulam o aparelho estatal. Vítimas de pressões de várias ordens, os industriais atemorizam-se com a possibilidade de “transformações radicais” e, por isso, muitas vezes apoiam pontos de vista que, objetivamente, não coincidem com seus interesses de classe. [...] À crescente expansão do mercado e, consequentemente, ao aumento do poderio econômico da burguesia industrial, não tem seguido, pelo menos no mesmo ritmo, a desagregação da antiga ordem político-social pré-industrial. A burguesia industrial se acomoda em larga medida à dominação tradicional. Queixa-se da política clientelística do Estado, mas exige, em troca de apoio a esta mesma política, favores, privilégios e concessões [...]. (CARDOSO, 1964, p. 170)
Estava claro para Cardoso (1964) que o empresariado nacional possuía uma atuação vacilante no cenário político, mesmo com o aumento de sua participação na economia. Sua opinião sugeria um posicionamento contraditório, em que a opção por políticas conservadoras que não dessem margens às transformações profundas sustentava uma ordem que, ao mesmo tempo, não condizia com seus interesses de classe.
Espremida entre certos grupos econômicos com ascendência no aparelho estatal – latifundiários, grandes comerciantes, exportadores, banqueiros ligados ao sistema financeiro internacional – e as empresas multinacionais, que puxavam o crescimento econômico da indústria nacional, o empresariado industrial brasileiro comportava-se de maneira ambígua. Exigia uma nova postura do Estado que privilegiasse o desenvolvimento industrial e que lhe desse maior espaço político, ao mesmo tempo em que recusava aliar-se aos grupos populares que demandavam uma nova organização do Estado e da sociedade brasileira e que avançasse na modernização do país, na medida em que temia ser alijado do processo político. Nesse sentido, o espectro dos movimentos revolucionários latino-americanos, em especial a Revolução Cubana (1959), deixou um rastro de receio em relação a qualquer tipo de aliança interna, além de reforçar o alinhamento junto ao capital estrangeiro.
Assim, o que interessava a Cardoso (1964) era a reflexão sobre as reais condições de desenvolvimento industrial no Brasil e sobre o controle político desse processo que, a partir do governo de Juscelino Kubitschek (1955-1960), constituiu-se em outro estágio, no qual as indústrias multinacionais consolidaram sua participação na produção de bens duráveis e de bens de produção. Para o autor, a partir desse momento, tornava-se evidente o apoio da burguesia nacional ao capital estrangeiro, efetivado por meio das associações.
Desse modo, a opção da burguesia pela aliança com esses setores, além de revelar sua incapacidade, como classe, de assumir a hegemonia do Estado, tornou-a sócia da ordem estabelecida na condição de parceira do capitalismo internacional e dos setores da empresa agrícola do país. Essa posição do empresariado industrial certamente contribuiu para o acirramento das tensões existentes no Brasil do período democrático, sobretudo para seu desfecho. Colocando-se, por um lado, a favor do “capitalismo e da democracia” e contra as tendências estatizantes e supostamente socializantes das políticas representadas pelas “reformas de base” do então presidente João Goulart, e, por outro, temendo a pressão dos movimentos sociais organizados do campo e da cidade sobre o governo, o empresariado nacional organizou e aderiu, quase que em sua totalidade, ao golpe de Estado desferido por setores das forças armadas à democracia brasileira.