Projeto é a intencionalidade da decisão.104 A intenção do projeto é um pensamento, ou seja, ele pertence aos atos num sentido amplo. Tal pensamento no sentido amplo está sempre em conexão com algo. A consciência e o mundo estão sempre ligados.105 Pensamento aqui se refere a um outro nível de pensar. O pensar pode se dar de duas maneiras: o pensar no nível de auto-consciência reflexiva; ou como pensar ligado (à realidade).
O projeto é projeto de uma ação. Só posso projetar o que é possível e o que sou capaz. Um projeto está implícito num sentido que imponho em uma ação. Mas o projeto pode até ficar tão implícito que chegue a ser perdido na ação mesma; por exemplo, quando rolo um cigarro quando falo.106 Mas mesmo assim não duvido que esta minha ação seja voluntária. Assim, somente a execução coloca nossas intenções em teste. A execução é a prova de fogo das intenções. E há até, por outro lado, casos em que fico incerto quanto às minhas decisões até que eu veja a ação em prática, como o soldado de combate que não sabe do que é capaz, ou se sua determinação para ser corajoso é válida, até que receba o batismo de fogo. Assim, mesmo ações sem uma intenção forte pode nos fazer achar novas capacidades e dimensões – é o controle compartilhando-se com o novo das situações, mas ainda estou no centro. Mas seja como for, o critério ou a prova do projeto é a sua execução.
Os projetos acionam a oficina dos pensamentos. A este respeito, Ricoeur insiste que não devemos achar que não haja pensamento no desejar – a ruptura entre pensar e desejar é impossível.107 Tanto o pensar quanto o desejar são conectividades. Falamos de “percepção” e “volição” equiparando atos como coisas. Mas o fato de que “estou naquilo que eu vejo/percebo, imagino, desejo ou quero” nos impede de colocarmos o movimento do pensar quer no ‘Eu’, quer no ‘fora’. Assim, decidir é me voltar ao projeto (ao objeto da decisão); é esquecer um pouco de mim mesmo no projeto; ou mesmo estar fora de mim mesmo em tal projeto, sem gastar tempo me observando no querer. Uma intenção que mira um projeto deve ser compreendida como uma decisão que significa (designa em geral) uma ação futura que depende de mim e que está em meu poder. No querer há conectividade, relação com o percebido, imaginado e querido.
104 IDEM. Ibid., p. 41 105 IDEM. Ibid., p. 42 106 IDEM. Ibid., p. 38 107 IDEM. Ibid., p. 42
O desejo, quando incorporado num projeto, designa praticamente. Algo deve ser feito e alterar o que é ou está. Esta decisão prática de que algo deve ser feito pode ser dividida em dois momentos: ela designa categoricamente (I) uma ação pessoal (II).
3.2.4.1. O PROJETO COMO UM MODO DE ACESSAR O FUTURO
Os projetos têm um futuro como referência. O projeto é pro-jetado. O futuro aberto pela decisão pressupõe uma relação prévia da consciência com um futuro. Mas este fato nos possibilita indagar sobre o tipo de relação que é vivida entre o projeto consciente da vontade e o futuro. O futuro desejado se relaciona com o projeto como algo que é intuído ou revelado à consciência, como acontece por exemplo na consciência teórica? Ou o futuro desejado serve como base para o futuro como conhecido? Ou então, será ainda, que a consciência se relaciona com seu futuro e com o do seu mundo de um modo que seja mais fundamental que qualquer antecipação pela vontade ou conhecimento?
Temos então as seguintes perspectivas:
a) A consciência como base para o futuro, assim é base da decisão;
b) A vontade como desejo é que é base para o futuro, assim é a base da decisão;
c) O futuro (meu e do meu mundo) está implicado (relacionado) a mim de forma mais fundamental que qualquer vontade ou conhecimento possa estabelecer.
Antes de ser uma operação, o decidir é antecipar108 porque decidimos para que algo aconteça. O tipo mais marcante de decisão é aquele no qual uma demora separa o projeto de sua execução, embora a possibilidade de ter sido antecipada acompanha até formas automáticas da ação partilhando esta estrutura. O projeto é a determinação prática do que está para vir, mas este futuro é apenas pretendido. O que eu faço depende da ação presente. Já a ação não possui vãos. Ela contribui para o aumento da plenitude do tempo, cumprindo a promessa da existência. Uma ordem proposta não é uma ordem experimentada ou agida. Assim, o futuro pode ser antecipado, mas por outro lado também, pode ser algo a que devo me submeter em razão de nenhum número considerado de atos tem o poder de alcançá-lo ou lhe exercer domínio. Aí o desejo deixa de ser antecipação e torna-se expectativa – algo que me ferirá ou me confortará, só me restando a alternativa de encontrá-lo e me submeter a ele.
Na verdade, estes dois modos de ver a relação humana com o futuro e suas implicações para a vida como um todo tem sido um dos principais temas de discussão em toda a história da filosofia e da teologia. Apesar disso, vale a pena perguntar se de fato estes dois modos são irredutíveis: Ou me submeto ao acaso, ou me ergo como prepotente a ele? Bem, em primeiro lugar, é importante lembrar que os projetos são necessários pois sem eles não temos como participar nos eventos da vida. Em princípio, só faço um projeto se tiver condições de estabelecer suas condições: data, lugar, os meios para realizá-lo e um mínimo da situação. Mas não me lanço a projetos de coisas que não dependem de mim: o curso dos planetas, a ordem de um todo, etc.109 Assim, quase sempre oscilamos entre estes dois tipos de relação volitiva com o futuro:
a) A vontade que se determina como desistências de projetos ou projetos fracos. Nesta atitude, crê- se que o novo (ou o melhor) não mora ou não procede de mim, mas mora no ou procede do fortuito. Neste caso, o risco é colocar-me tão alheio que o novo fica sem ter como afetar ninguém – nem a mim mesmo, nem a qualquer outro com a mesma atitude no processo. Não me disponho a ser seu veículo. Este tipo de relação com o futuro pressupõe um conhecimento de sucessão e causalidade. O futuro não é desejado aqui na força de um projeto, mas é esperado como expectativa e não como esperança. Mas olhemos a perspectiva desta atitude mais de perto: uma expectativa assim se refere a um novo fenômeno ocorrente na própria dinâmica dos acontecimentos, e é nesta dinâmica que se encontra o futuro, que engolfa muitas coisas, inclusive o novo. Neste caso, a relação é conhecida em primeiro lugar como necessária, isto é, como um necessário não-temporal, mas a questão de como a consciência procede da necessidade não-temporal para a expectativa temporal permanece intocada. A expectativa (spectare) – pré-ver, pressupõe um futuro do mundo que se fará possível, pressupõe que a consciência se mantenha adiante de si mesma, que esteja fora de si mesma de um modo original que consista no ser-para-um-futuro, no ter-um-futuro.
b) A vontade que se determina como elaboração de projetos rígidos demais em relação ao futuro. Este é o outro extremo não menos problemático. Muita rigidez no projeto retira o elemento surpresa, o espontâneo e gracioso do futuro.