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Em seu relatório apresentado ao presidente Antonio Gonçalves Chaves, em 1883, o Inspetor Geral da Instrução Pública de Minas Gerais, João Vieira de Azeredo Coutinho, traz referências ao escritor belga, radicado na França, Émile de Laveleye (1822-1892):

A má distribuição das cadeiras existentes, a incúria criminosa dos pais de família pela instrução dos filhos e o mais absoluto indiferentismo que professam pelas condições morais e materiais da escola, a falta de um professorado habilitado para o ensino e que bem compreenda a tarefa de “paciência, de perseverança e de virtude”[...] são ao meu ver as principais causas de nosso atraso em assunto tão vital como a instrução popular, e que constitui, na frase verdadeira de Laveleye, a questão mais importante e urgente do

nosso tempo. (MINAS GERAIS: Relatório de 1883, Anexo Inspetoria da Instrução Pública, p. 11).

Quer a leitura tenha se dado pelo contato direto com a obra, ou por meio de outros autores, a citação acima certamente diz respeito ao livro L’instruction du Peuple, editado pela primeira vez em Paris em 1872. Seu autor, Laveleye,

economista, era belga, mas estudou e trabalhou na França.

Conforme já tratado na subseção 3.4.1, Oliveira (1867) faz recomendações sobre a leitura do trabalho de Laveleye para aqueles que se interessarem pelo tema da educação nos Estados Unidos, fato que vem demonstrar a circulação das ideias desse autor no Brasil. “De l’Instruction du peuple au XIXème por Emilio Lavelye (REVUE DE DEUX MONDES), folheto de 15 de novembro de sendo 1865; que nos folhetos de 15 janeiro e 15 de abril de 1866 trata o autor da inst. pub. na Europa, etc.” (OLIVEIRA, 1867, p.125-126, grifos do autor).

Um dos trabalhos de Laveleye indicados por Oliveira na Revue de Deux

Mondes traz o título “L’instruction du peuple au XIXe siècle” e trata, no primeiro tópico, L’enseignement populaire dans les écoles américaines51, de questões sobre

as condições da instrução popular, como ele mesmo, propõe, no mundo inteiro, proclamando-se sempre a necessidade de profundas reformas. (LAVELEYE, 1865, p. 273)52.

Na Austrália, no Canadá, no Chile e no Brasil, nos países de origem latina, não menos que naqueles de origem anglo-saxã, as pessoas se colocaram seriamente ao trabalho. Por toda parte se procura meios de expandir as luzes, de tornar a instrução acessível a todos e mesmo obrigatória para todos; visa-se aperfeiçoar os métodos, organiza-se o ensino normal, multiplicam-se os estabelecimentos escolares, eleva-se a posição do professor primário, e quase em parte alguma se recua diante das necessidades de dinheiro que tais melhorias impõem. (LAVELEYE, 1865, p. 274, tradução nossa).

Aqui, Laveleye aprecia o poder das ciências modernas e da racionalidade a serviço do futuro das nações. É no domínio da natureza que ele encontrará sua emancipação. E a instrução é a mediadora para transformação do homem selvagem no homem esclarecido e civilizado.

51 O ensino popular nas escolas americanas (tradução nossa).

É que, de fato, precisaria ser cego para não ver que o futuro das nações depende de grau de instrução que elas atingirem. (...) Conhecemos a admirável frase de Bacon: knowledge is power53;

“ciência é poder”. Nada é mais verdadeiro, na ordem econômica principalmente. O que torna o trabalho produtivo é o conhecimento das leis naturais. O homem selvagem, com os sentidos muito afiados e um corpo endurecido por todos os tipos de fadiga, vive miserável e morre frequentemente por causa da penúria. As forças da natureza o destroem e o matam; ele as ignora. O homem civilizado, após cinco mil anos de estudos e descobertas penetrou o segredo delas e as colocou a seu serviço, e doravante, com o trabalho abreviado ele reina sobre a matéria. (LAVELEYE, 1865, p. 274, grifos nossos).

A instrução é condição indispensável para o progresso e riqueza das nações. E o povo mais rico, segundo avalia, será aquele que colocar mais conhecimento no trabalho. Nessas considerações, Laveleye deixa nítidas suas reflexões de economista que era. Mas, mesmo com os benefícios advindos do trabalho em nada lucrará o homem sem o esclarecimento e a racionalidade; horizontes de suas condutas. E nesse sentido, a instrução é o meio de ensinar o homem a fazer bom uso das riquezas que produz. Assim, o homem racional deve se sobrepor ao homem sensível.

Quase em toda parte o salário é insuficiente para satisfazer suas necessidades racionais, e, entretanto, que grande parte ele não consagra à despesas inúteis e mesmo nocivas! Incapaz de prever, o espírito limitado no presente, ele não aprecia o poder emancipatório da economia. Ávido de excitações violentas e sensuais, muito frequentemente ele não encontra prazer senão na embriaguês. Se ele ganhasse mais, seria somente para beber mais. Se quisermos que o aumento do salário do trabalhador seja um meio de emancipá- lo, precisamos dar-lhe, pelo meio da instrução o gosto dos prazeres do espírito e a capacidade de prever. (LAVELEYE, 1865, p. 274. Tradução nossa).

O exemplo dos norte-americanos sobre os benefícios de ser ter trabalhadores instruídos:

Nos Estados Unidos eles dizem que podem enfrentar a concorrência da Europa, mesmo que tenham que pagar salários duas vezes mais elevados, porque seus operários, mais instruídos, trabalham mais rápido, melhor, e sabem tirar melhor partido das máquinas. (LAVELEYE, 1865, p. 275, tradução nossa).

53

Knowledge is power, saber é poder, frase que marca o pensamento baconiano, ganha aqui no pensamento de Laveleye a tradução de “ciência é poder”; certamente no desejo de enfatizar o poder dessa (nota e tradução nossas).

Laveleye tece elogios à nação norte-americana: a pátria em que “todos os seus cidadãos sabem ler” (p.276). A pátria instruída, letrada, esclarecida e, consequentemente, rica. Tudo isso, promovido pela prática da leitura; conforme suas apreciações. E a escola primária — gratuita e para todos, de todas as classes — como garantia da pátria norte-americana, avaliada como realidade posta:

A escola primária, todos os Americanos declaram, é a base do estado, o cimento da federação. Gratuita para todos, aberta a todos, recebe sobre seus bancos os filhos de todas as classes e de todos os cultos, ela faz esquecer as diferenças sociais, atenua as animosidades religiosas, arranca os preconceitos e as antipatias, e inspira a cada um o amor da pátria comum e o respeito das instituições livres. É surpreendente ver essas massas de estrangeiros que a imigração traz, tão rapidamente absorvidas na nacionalidade americana. É a escola que, desde a primeira geração lhes imprime o emblema dos costumes nacionais, lhes comunica as ideias reinantes, e assim os tornam capazes de exercer os direitos de cidadão. Sem a escola, a União teria deixado de existir há muito tempo, esfacelada por facções, aniquilada sob as massas de ignorância que lhes enviam incessantemente a Alemanha e sobretudo a Irlanda. (LAVELEYE, 1865, p.276-277).

As citações acima destacadas nos possibilita ver, em Laveleye, um culto à nação norte-americana por seus feitos no campo da instrução pública; a razão do progresso “grande povo americano”, conforme seu juízo. Não diferente do que propõe os escritos de Édouard de Laboulaye, já tratados.

Benzer Belgeler