Em seu relatório de 1883, o inspetor geral da instrução pública, Antonio J. Barbosa da Silva, apresenta ao presidente João F. Meira de Vasconcellos o quadro desolador da frequência e aproveitamento escolares da província mineira. E estabelece parâmetros com a realidade norte-americana de acordo com os dados obtidos na leitura do autor francês Édouard de Laboulaye (1811-1883):
Além da diminuta frequência das escolas públicas, cumpre-se assinalar o pouco aproveitamento dos alunos. De 23 que vão à escola, apenas 2,5 terminam com aproveitamento os seus estudos, admitindo-se alguma realidade nos exames finais, ou por outras palavras, cada aluno pronto custa à província a soma fabulosa de 325$120 réis.
Nos Estados Unidos, onde a instrução é das mais dispendiosas, o ensino de cada aluno não significa tão avultado pecuniário (LABOULAYE, O Partido Liberal seu programa e futuro, página 128). (MINAS GERAIS: Relatório de 1881, Anexo Inspetoria da Instrução Pública, p. 57).
De todas as referências feitas a autores e/ou obras, essa, atribuída ao escritor francês Laboulaye, foi a mais precisa, visto que, cita-se inclusive a página. O acesso à obra me permitiu conferir a equivalência da citação. O livro em questão, O Partido
Liberal seu programa seu futuro45 foi traduzido pelo maranhense Antonio de Almeida Oliveira46 no ano de 1867, exatos quatro anos depois de sua primeira edição na França em 1863. No ano de 1865, a versão francesa já havia entrado na sua sexta edição47. Na edição brasileira, o tradutor faz uma longa nota dedicatória ao “Sr. Dr. Antônio Rego”, na qual traz reflexões sobre a pertinência da obra para a realidade do nosso país:
45 LABOULAYE, Edouard. O Partido liberal, seu programa e futuro. Tradução: Antonio de Almeida
Oliveira. São Luiz do Maranhão, 1867.
46 Sobre Antonio Almeida De Oliveira e sua atuação no campo da instrução pública no Brasil na
segunda metade do século XIX, ver CORDEIRO, Jaime Francisco Parreira Cordeiro. A instrução no Brasil no século XIX: o olhar de Antônio Almeida Oliveira. In: CONGRESSO LUSO-BRASILEIRO DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO 6, 2006. Uberlândia. Anais... Uberlândia: Universidade Federal de Uberlândia, 2006, p. 2412-2421.
Verti para a língua que falamos este interessante e substancioso trabalho, que escrito para a França, parece que o fora para nosso país”, que segundo avalia, “adoece do mesmo mal, menos na liberdade de imprensa, que a temos muito mais ampla, e na nossa Constituição, muito mais livre, embora seja em parte até hoje letra morta”. (OLIVEIRA, Dedicatória, 1867).
Ainda na dedicatória, Oliveira diz ter desinteressadamente cedido os proventos advindos da tradução ao editor; isso porque, na sua posição de “homem liberal”, segundo se avalia mais adiante, teve por mira “senão vulgarizar esses princípios tão benéficos e úteis”.
Finaliza a nota com as seguintes considerações: “Dedico-vos, pois, este trabalho, tradução de um livro que estimais em muito, e cujas doutrinas, que constitui um completo catecismo liberal, manifestastes por tantas vezes ver popularizadas”. Essa fala do tradutor já indica uma circulação da obra de Laboulaye no Brasil, no próprio idioma da publicação original.
O Presidente da Província, Antonio Gonçalves Chaves, quando se dirige à Assembleia no ano de 1883, apresenta suas reflexões sobre o que considera uma das causas da inexequibilidade da expansão da educação popular no Brasil: “A questão financeira que se resolve nos auxílios prestados à classe escolar desvalida, é a maior dificuldade que encontra o alargamento do ensino” (p.11). O presidente faz referencias à obra de Laboulaye traduzida por Oliveira (1867) quando afirma que: “Nos Estados Unidos, escreve Laboulaye, não se pede ao pai de família senão a pessoa do filho. A comuna fornece livros, papel, tinta e vestuário aos pobres.” (MINAS GERAIS: Relatório de 1883, p.11).
Ao consultar a tradução, verifiquei que a citação acima encontra-se no capítulo XI, cujo titulo é “Educação popular” (LABOULAYE, 1867, p.127). E, embora não atribuindo os créditos de suas reflexões ao autor da obra francesa, o presidente da província mineira apresenta outros argumentos — citados abaixo — sobre a instrução pública, os quais pude verificar quase textualmente no referido capítulo sobre a educação popular, entre as páginas 125 e 131 do autor francês.
A obrigatoriedade do ensino é assunto igualmente da mais viva atualidade, ponto sobre que não há capitular nem transigir.
Questão vencida em todos os países cultos, mesmo nos Estados Unidos em que a difusão da educação popular opera-se, em geral, sem meios coercitivos, graças à organização modelo das escolas
americanas, o ensino obrigatório admite-se nos Estados mais importantes da confederação, por exemplo — o Massasuchetts. É que a America do norte compreende que não pode resguardar dos cataclismos sociais suas instituições suas instituições libérrimas, senão instruindo o povo. (MINAS GERAIS: Relatório de 1883, p. 11).
No capítulo ao qual me referi —e cujo conteúdo encontra reverberações nas falas de outros dirigentes da Província de Minas Gerais — Laboulaye louva a experiência dos Estados Unidos da América no quesito educação popular. Tal experiência mostra como esse país se sobressai ao Velho Continente nesse ramo da instrução pública.
É coisa nova na França classificar-se a educação popular no número das garantias políticas; por isso que não estamos habituados ao sufrágio universal. Porem, na América, em uma nação onde é soberana a democracia, há muito que compreenderam que para a república havia nisso uma questão de vida ou de morte. O que tem feito os americanos em prol da educação sobreleva a tudo quanto de melhor se tem tentado no velho continente. (LABOULAYE, 1867, p. 125).
Os norte-americanos, em suas constatações, compreenderam que não “há liberdade possível onde os cidadãos não saibam regular por si a vida política tão bem com a vida civil”. E para isso, existiam escolas de diferentes graus em toda parte, que possibilitavam “o indivíduo, ainda que paupérrimo a receber uma instrução sólida e variada” (p. 126). E visto que todas as escolas eram inteiramente gratuitas, os Estados Unidos teriam resolvido o sistema do ensino gratuito e da excelência na Educação, questão ainda a ser sanada pela França. (LABOULAYE, 1867, p. 126-127).
Tomando o exemplo norte-americano, percebe-se nesse capítulo do livro, um ideal de formação do sujeito na perspectiva do cidadão republicano. O corpo e o espírito republicanos:
Todo americano pode, dos cinco aos quinze anos aprender a ler, escrever, contar e desenhar. Ensinar-lhe-ão mais geometria e geografia, noções usuais de física de astronomia, de história natural, de fisiologia e de higiene. Desenvolver-lhe-ão o corpo pela ginástica, formar-lhe-ão a vida civil, habituando-o a recitar, a declarar, a cantar, e desde a infância acostumá-lo-ão a respeitar a Constituição e a amar a liberdade. (LABOULAYE, 1867, p. 126).
Laboulaye utiliza como epígrafe e como frase de encerramento de sua obra O
Partido Liberal seu programa e futuro48, a citação de Goethe que diz que “o melhor
governo é aquele que ensina os homens a governarem-se a si próprios”. No prefácio, o autor afirma que não teve a intenção de oferecer ao público o programa oficial do partido liberal, definido por ele não como uma “pequena seita estreita ligada à letra de um símbolo”, mas, uma “igreja universal onde há lugar para todos quantos creem na liberdade e querem gozá-la”. E sintetiza a obra quando afirma que
Quis apenas expor quais as condições da liberdade civil, social, política entre todos os povos constitucionais. Em França muito se fala de liberdade, mas pelo pouco uso que dela fazem, talvez vejam com tal qual interesse o que praticam os povos que sem nela falarem, dela vivem.
[...]
Não fiz mais do que reunir as lições da experiência; disse como entendem e praticam a liberdade, os ingleses, os americanos, os holandeses, os belgas e os suíços: o que tudo na essência reduz-se a duas condições — deixar ao indivíduo o pleno gozo de suas faculdades, garantir esse pleno exercício por meio de instituições, que punindo a injustiça, a violência e a usurpação as impeçam. (LABOULAYE, 1867, p. 1-2).
Há na obra, segundo anuncia o autor, um pleito pela liberdade ampla do individuo: a liberdade civil, social e pública, visto que era já passado o tempo das monarquias paternais, das conquistas e das aventuras; o poder não seria mais que magistratura e uma delegação popular, a própria nação é quem deveria velar por seus destinos. Uma sociedade onde cada um é senhor dos seus direitos e comparte o governo. A isso deveria se prestar a educação, erigida como o “benefício e triunfo da civilização” (p.6). Ao construir uma relação de causa e efeito, Laboulaye concebe a “aquisição pelo povo pela maior soma de luzes, da maior soma da verdade, da maior soma da moralidade e de comodidade” como solução para expelir da política a mentira e o privilégio (p.6). Nessa perspectiva, a nação norte-americana é tomada como o locus onde jaz a liberdade e os benefícios dela provenientes.
Eis aí porque eu ligo como cidadão e como político, tanto valor à educação gratuita para todos e acessível a todos. Não há hoje obra mais cristã e mais patriótica que possa ser empreendida por uma grande sociedade do que sejam escolas: é o benefício e triunfo da civilização. Quisera que em França como na América, cada qual tivesse, assim na vida civil como na vida militar, livre carreira ante si,
e pudesse tudo esperar do seu talento, do seu trabalho e da sua honra. Jogo franco para todos, fair play, dizem os americanos. Quisera que esta enérgica palavra se entranhasse em todas as almas e lhes levasse a esperança e o ardor. (LABOULAYE, 1867, p. 6-7, grifos do autor).
Como se pode ver na Tábua de Matérias (ANEXO A), o referido livro do autor francês, cujo conteúdo é apropriado pelos relatórios que tratam da instrução pública em Minas Gerais, declina a liberdade em seus vários significados; embora a ênfase recaia em dois tipos de liberdade: a individual e a política. Isso, tomando por referência os princípios do liberalismo. Temas como a representação nacional e o
sufrágio universal também estão presentes. Porém, do livro em questão, o único
tema apropriado para as discussões presentes nos relatórios analisados foi aquele da educação popular. Trata-se aí de uma proposição recorrente para a instrução pública em Minas Gerais no século analisado, e que será tomada para uma análise mais amiudada no quarto capítulo deste estudo.
Titular da cadeira de História das legislações comparadas, de 1849 a 1883, Laboulaye estudou e admirou a América sem ter jamais atravessado o Atlântico. Uma de suas últimas realizações foi fazer executar seu projeto da Estátua da Liberdade, que viria celebrar a gloria da amizade e da cooperação política entre a França e os Estados Unidos. Fruto de iniciativas particulares, e não governamentais, o monumento foi erguido em 1886, três anos após sua morte49.
Segundo nos informa Marc Kirsch (2009), as primeiras aulas de Laboulaye no Collège de France foram dedicadas aos estudos sobre a América do Norte. Kirsh avalia que em 1850, dar aulas sobre os Estados Unidos era um tanto qaruanto inovador, quando o interesse por esse país começava a se despertar; interesse esse, do qual Laboulaye é considerado um dos precursores e catalisadores. Sobre esse olhar francês que se voltara para a América do Norte, Kirsh sintetiza: a opinião francesa já tinha sido sensibilizada sobre o tema pelo marquês de Lafayette, que ressurgia na vida política francesa em 1830; considera-se que Cousin foi quem, supostamente, incitou Laboulaye a estudar a América; Alexis de Tocqueville tinha marcado os espíritos franceses com De la Démocratie en Amérique, publicado em
49
KIRSH, Marc. Un portrait d’Édouard Laboulaye (1811-1883). La Lettre du Collège de France, 26 de junho de 2009, p. 56-58.
183550; Guizot havia escrito sobre a vida de Washington em 1839; Charles
Baudelaire publica suas traduções de Edgar Alan Poe em 1852. (KIRSH, 2009). A época em que Laboulaye começa a dar aulas no Collège de France, centrando-se no tema da legislação sobre os Estados Unidos, foi também o início dos grandes desenvolvimentos industriais do além Atlântico. Sua obra Paris en
Amérique, publicada em 1863, sob o nome Docteur René Lefebvre — uma das partes que compunham seu nome — foi um grande sucesso de edição no período. O livro atingiu a cifra de trinta e cinco edições francesas e oito em inglês. Um romance filosófico, sátira da sociedade francesa e em defesa da liberdade e do self-
governement; segundo o padrão norte-americano (KIRSCH, 2009).
Sobre a circulação da obra Paris en Amérique no Brasil, em uma nota de Oliveira (1867) — na sua tradução de O Partido Liberal seu programa e futuro — temos informações sobre a tradução feita para o português, assim como indicações de seu uso, uma vez que é recomendado
como estudo no que respeita à educação e instrução nos Estados Unidos nos capítulos XXI ao XXVII do PARIS EN AMÉRIQUE por Edouardo Laboulaye (com pseudônimo do Dr. Lefebvre), de que há uma excelente versão portuguesa pelo nosso comprovinciano P. N. L. — Tip. de B. de Mattos, 1867 (OLIVEIRA, 1867, p. 125-126, grifos do autor).
Como exposto, referências ao autor francês, Edouard de Laboulaye, são feitas nos relatórios dos presidentes da província mineira, destacou-se aí, inclusive, a citação de páginas específicas. Do mesmo modo, a dedicatória do tradutor da edição brasileira de O Partido Liberal seu programa e futuro nos fornece indícios sobre a circulação do livro no Brasil quando Antonio de Almeida Oliveira se dirige ao “Sr. Dr. Antonio Rego” para lhe dedicar tal obra, cujas doutrinas constituem “um completo catecismo liberal”, e pelas quais esse já havia manifestado por tantas vezes ver popularizadas; segundo Oliveira (1867). A propósito da circulação de ideias, uma nota do tradutor igualmente nos fornece elementos para pensar sobre outras obras e outros autores que fazem difundir no Brasil, e na América Latina, os Estados Unidos como um referencial para a educação. A esse respeito, Oliveira
50
Nesse sentido, com essa obra que repercutira em vários países — no Brasil inclusive — Alexis de Tocqueville pode ter considerado um precursor da reverberação do “modo norte-americano”, que supera o século XIX, não apenas na França.
(1867) sugere leituras das seguintes obras na nota que se encontra nas páginas 125 e 126:
Recomendamos aos nossos leitores como dignas de estudo no que respeita à educação e instrução nos Estados Unidos entre outras obras; LAS ESCUELAS, BASE DE LA PROSPERIDAD DE LOS ESTADOS UNIDOS, por Domingos S. Sarmiento, Public Instruction, por Silvestrum, traduzida do sueco para o inglês por Frederika Rowan; os capítulos XXI ao XXVII do PARIS EN AMÉRIQUE por Edouardo Laboulaye (com pseudônimo do Dr. Lefebvre), de que há uma excelente versão portuguesa pelo nosso comprovinciano P. N. L. – Tip. de B. de Mattos, 1867; De l’Instruction du peuple au XIXème por Emilio Laveleye (REVUE DE DEUX MONDES), folheto de 15 de novembro de 1865; sendo que nos folhetos de 15 janeiro e 15 de abril de 1866 trata o autor da inst. pub. na Europa, etc). Les États Unis en 1661 por George Fish; o capítulo 2º do QUELQUES MOIS AUX ETATS UNIS, por Grand-Pierre; o capítulo XXIII do PROMENADE EN AMÉRIQUE, por J. J. Ampère; AS OBRAS SOCIAIS de W. Channing, traduzidas do inglês por Laboulaye; THE HOMES OF DE NEW WORD por Frederika Bremer (do Tradutor). (OLIVEIRA, 1867, p. 125-126, grifos do autor).
Podemos considerar Antonio de Almeida Oliveira como mediador cultural pelo seu papel de tradutor e também pelas transgressões que faz na tradução: quando acrescenta notas de sugestão de leituras com vistas a ampliar o conhecimento do leitor (sobre temas tratados por Laboulaye) e estabelece ponderações entre as ideias do autor e a realidade brasileira.