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C. DEVLET OKULLARINDA DİN EĞİTİMİ

1. Ortodoks Din Eğitimi

Podemos dizer que, ao definir as especialidades da Psicologia, o CFP cria uma identidade107 para cada “tipo” de profissional: o(a) especialista em Psicologia Social seria aquele(a) que estuda a relação indivíduo-sociedade, propõe políticas públicas e intervém na área social; enquanto que o(a) especialista em trânsito desenvolveria pesquisas e interviria “[...] no campo dos processos psicológicos, psicossociais e psicofísicos relacionados aos problemas de trânsito [...]” (CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 2007, p. 19); e o(a) especialista em Psicologia Jurídica atuaria no âmbito da Justiça, “[...] centrando sua atuação na orientação do dado psicológico [...] para possibilitar a avaliação das características de personalidade e fornecer subsídios ao processo judicial, além de contribuir para a formulação, revisão e interpretação das leis [...]” (CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 2007, p. 19).

No entanto, de acordo com Dorinne Kondo (1990), não há um eu definido e estável, que está sempre em oposição ao mundo exterior. Sendo assim, não faz sentido tentarmos

107 Estamos chamando de identidade toda manifestação que, com pretensões de permanência, circunscreve e estabelece uma diferença específica em relação ao que lhe é externo (BARROS FILHO; LOPES, 2003).

delimitar a identidade do(a) psicólogo(a) social ou discutirmos em que medida ela se diferencia da de profissionais de outras áreas ou subáreas do conhecimento108. Segundo a autora, as questões que devemos colocar-nos são outras: de que modo e em que situações os eus (no plural) são construídos? Como essas construções podem ser complexificadas e alentadas pela multiplicidade e ambiguidade? E como elas moldam e são moldadas por relações de poder?

Assim como a oposição binária entre o eu e o outro, a delimitação de fronteiras entre diferentes áreas do conhecimento também não nos permite contemplar a complexidade da Psicologia Social brasileira. De acordo com Annemarie Mol (2002, p. 135, grifo da autora, tradução nossa),

as maneiras ocidentais dominantes de cingir [framing] o que pertence e o que não pertence, o que é de espécie similar e o que é de categoria diferente, são de caráter regional. Elas agrupam o que é de tipo semelhante e imaginam, ou criam, uma fronteira ao redor. O que é diferente é também pertencente a outro lugar.

No entanto, o estabelecimento desses limites nem sempre é fácil. Não é fácil, por exemplo, dizer onde começa e onde termina a Psicologia, a Sociologia e a Psicologia Social, pois as fronteiras entre essas três disciplinas (e outras tantas) frequentemente são bastante borradas. Alguns(as) pesquisadores(as) da área – como, por exemplo, Arthur Ramos (2003); Maria Cristina Ferreira (2011) e Cornelis van Stralen (2005)109 – argumentariam que essa dificuldade resulta do fato de a última estar situada na intersecção das duas primeiras. De ser, portanto, um “objeto fronteiriço”. A noção de objeto fronteiriço

[...] surge da ideia de que existem diferentes mundos sociais. Cada um desses diferentes mundos sociais tem seus códigos, hábitos, instrumentos e modos de atribuir sentido. Mas eles compartilham algo: o objeto fronteiriço. Os significados específicos que cada um atribui a este objeto são diferentes.

108 Pudemos observar claramente essa dificuldade de separar o “eu” do “outro” quando analisamos os currículos

Lattes dos(as) docentes que lecionam em cursos de pós-graduação voltados para a Psicologia Social. Dos(as) 248 professores(as), apenas 24 se autoidentificam apenas como psicólogos(as) sociais. Muitos(as) deles(as) se definiram também como psicólogos(as) da saúde, do trabalho e da educação. Outros(as) tantos(as) afirmam atuar em áreas “exteriores” à Psicologia, tais como Saúde Coletiva, Comunicação Social, Sociologia e Serviço Social (CORDEIRO; M. J. SPINK, 2011).

109 Silvia Lane (2007a, p. 13) também se refere à Psicologia Social como um objeto fronteiriço. No entanto, para a autora, esta estaria situada na intersecção da Sociologia com a Psicanálise (e não com a Psicologia) e seria permeada pela História. Em suas palavras: “por um lado a psicanálise enfatizava a história do indivíduo, a sociologia recuperava, através do materialismo histórico, a especificidade de uma totalidade histórica concreta na análise de cada sociedade. Portanto, caberia à Psicologia Social recuperar o indivíduo na intersecção de sua história com a história de sua sociedade – apenas este conhecimento nos permitiria compreender o homem enquanto produtor da história”.

Mas enquanto ninguém enfatiza essas diferenças, o objeto fronteiriço não parece ser dois ou três objetos diferentes. Ele permanece suficientemente borrado [fuzzy] para absorver as possíveis tensões. É um objeto comum, compartilhado por grupos sociais variados. Assim, ele facilita a colaboração através das fronteiras e com isso faz com que essas fronteiras sejam menos absolutas [...] Borrar fronteiras é uma maneira de contestá-las. O que se mantém, entretanto, é a ideia de que há diferentes regiões. (MOL, 2002, p. 138, tradução nossa, grifo da autora).

Mas se observamos as práticas que enact a Psicologia Social, percebemos que elas não estão circunscritas a uma única região, mas envolvem elementos e associações “pertencentes” a diversos lugares, campos do conhecimento e instituições. Percebemos, portanto, que essa disciplina não corresponde ao espaço intermediário do diagrama que algumas vezes utilizamos para representá-la (fig. 3), mas envolve um emaranhado de materiais heterogêneos, justapostos, unidos e transformados pelas relações que estabelecem.

Figura 3: Representação gráfica da Psicologia Social como objeto fronteiriço

Além de forçar uma localização e delimitação “geográfica”, falar em “fronteiras” restringe nossas possibilidades de abordar as diferenças internas a cada “região”. Afinal, essa metáfora destaca apenas os pontos de divergência entre os diferentes lados da divisa. “Aqui ou ali, cada lugar é localizado em um lado de uma fronteira. É assim que um „dentro‟ e um „fora‟ são criados. O que é parecido está perto. O que é diferente está em outro lugar.” (MOL; LAW, 1994, p. 647, tradução nossa).

Ao definir a Psicologia Social, van Stralen (2005)110 faz esse tipo de separação:

110 Esse texto foi publicado na revista Psicologia & Sociedade em um dossiê especial sobre a criação do título de especialista em Psicologia Social.

Psicologia

Sociologia

atualmente, há bastante consenso de que a Psicologia Social como disciplina científica possui uma especificidade, não pelo seu objeto de estudo, mas antes de tudo por suas abordagens teóricas que articulam aspectos estruturais e aspectos subjetivos e integram explicações psicológicas e sociológicas. Como tal, a Psicologia Social apresenta-se como um campo de interseção

entre a Psicologia e a sociologia, no qual encontramos teorias procedentes tanto da Psicologia como da sociologia. (van STRALEN, 2005, p. 94, grifo nosso).

Para o autor, a Sociologia estuda aspectos estruturais; a Psicologia, aspectos subjetivos; e a Psicologia Social, ambos. Ao fazer essa separação “geográfica”, ele enfatiza as similaridades dentro de cada uma das regiões e as diferenças através das fronteiras.

No entanto, tal como temos argumentado nesta tese, “dentro” da Psicologia Social também há diferenças. Mas, se para pertencer à mesma “região” é preciso ser “igual”, como estabelecer os limites dessa disciplina? Será que podemos falar aqui em limites? Como, então, pensar a relação da Psicologia Social com outras áreas do conhecimento? Ela inclui explicações psicológicas ou está incluída na Psicologia? Se assumíssemos a definição de van Stralen (2005), tenderíamos a escolher a primeira opção: a Psicologia Social “[...] não se restringe ao campo da Psicologia.” (p. 93), ela é um todo, e uma de suas partes é formada por conhecimentos psicológicos. Mas se assumíssemos a postura do CFP, diríamos o contrário: a Psicologia é um todo e uma de suas partes (ou especialidades) é a Psicologia Social.

Nesta tese, tentamos não seguir nenhum desses caminhos. Tentamos pensar que um objeto pode incluir e, ao mesmo tempo, estar incluído em outro. Ou seja, tentamos pensar as áreas do conhecimento de uma forma intransitiva: não como uma matryoshka, na qual as bonecas maiores incluem as menores (fig. 4); mas, usando a metáfora proposta por Michel Serres (1994), como bolsas maleáveis que podem incluir-se mutuamente – como, por exemplo, aquelas sacolas de compras reutilizáveis (ou “ecobags”), que possuem saquinhos acoplados para guardá-las (fig. 5). Quando vamos ao supermercado, dobramos a sacola e a colocamos dentro bolsinho, mas quando precisamos utilizá-la, retiramo-la e guardamos o bolsinho dentro da sacola.

Figura 4: Forma transitiva de enact as áreas do conhecimento

Figura 5: Forma intransitiva de enact as áreas do conhecimento111

Assumir essa postura evita, entre outras coisas, problemas na hora de definir o “tamanho” das áreas, subáreas e especialidades. Afinal, o que é maior, a Psicologia Social ou a Psicologia Comunitária? Intervenção Psicossocial ou Clínica Psicanalítica? Provavelmente, muitos(as) pesquisadores(as) se deparam com essa dificuldade ao preencherem formulários ou cadastrarem seus currículos na Plataforma Lattes (lattes.cnpq.br)112 – tanto que, nessa plataforma, o escalonamento dos campos do saber não é padronizado. Alguns(as) pesquisadores(as) colocam, por exemplo, a Psicologia Comunitária como uma subárea da Psicologia, outros(as), a colocam como uma especialidade da subárea Psicologia Social (CORDEIRO; M. J. SPINK, 2011).

111 É importante ressaltamos que o fato de, nesse esquema, a bolsa menor representar a Psicologia e a maior a Psicologia Social não significa que estejamos afirmando que uma área é maior que a outra. Pelo contrário, o que estamos propondo é que não há tal relação de tamanho. O que é “maior”, ao ser dobrado torna-se “menor” e vice-versa.

112 De acordo com sua página na internet, a Plataforma Lattes (lattes.cnpq.br) foi desenvolvida pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) para integrar em um único sistema de informações bases de dados de currículos e instituições das áreas de ciência e tecnologia.

Ciências Humanas

Saúde mental do

Psicologia Social do Trabalho Psicologia Social

Psicologia

Conhecimento científico

Psicologia Social Psicologia

Mas no dia-a-dia de um(a) pesquisador(a), esse escalonamento de saberes muitas vezes não tem tanta relevância. Na tese de Mandelbaum (2004), por exemplo, a Psicologia Social e a Psicanálise não estão distribuídas hierarquicamente. Uma não está dentro da outra, mas ambas andam lado a lado. Na maior parte da tese, a autora concentra-se em fazer um bom trabalho psicanalítico: cria um espaço de “escuta”, identifica pulsões, diminui sofrimento psíquico etc. Mas, no início da parte II, abruptamente, muda seu foco para a Psicologia Social: “ser desempregado é um aspecto do real ou uma condição da vida psíquica? [...] Toda vez que lidamos com singularidades em Psicologia Social, preocupamo-nos em estabelecer o hífen entre o individual e o coletivo [...]” (MANDELBAUM, 2004, p. 189). Em tal tese, a atenção dirigida à vida psíquica é facilmente voltada ao vínculo entre individual e coletivo. Mas isso não se dá “tirando o zoom” e ampliando o escopo, mas mudando a “câmera” de lugar e focando outro objeto (MOL, 2002).

Dizer que disciplinas acadêmicas incluem-se mutuamente nos remete à discussão sobre “transdisciplinaridade” – sendo esta entendida não como a simples ação de conectar áreas afins, ou buscar enriquecer uma disciplina com contribuições oriundas de outras disciplinas; mas como a supressão de fronteiras entre diferentes ciências (IÑIGUEZ-RUEDA, 2003).

É importante ressaltarmos que transdiciplinaridade não é sinônimo de inter ou multidisciplinaridade. Afinal, a interdisciplinaridade junta disciplinas diferentes – operando mais ou menos como a Organização das Nações Unidas (ONU), “[...] na qual as nações estão associadas umas às outras, cada uma conservando sua autonomia, tentando colaborar, mas com freqüência entrando em conflito.” (MORIN, 2007, p. 24); enquanto que a multidisciplinaridade articula diferentes disciplinas e a transdiciplinaridade “[...] supera a particularidade, conjuga os saberes e faz com que aportes diferentes trabalhem por um mesmo fim.” (SILVA, J., 2007, p. 33, grifo nosso).

A dissertação de Vera Menegon (1998), por exemplo, é um trabalho de Psicologia Social, desenvolvido e defendido em um programa de pós-graduação na área. No entanto, poderia, também, ser considerado um trabalho de Saúde Coletiva. Afinal, objetiva pensar a saúde “numa perspectiva coletiva” (sic.), além de ampliar conhecimentos que subsidiam intervenções na área:

desde a época da graduação em Psicologia, pensar a saúde numa perspectiva

coletiva tem sido um desafio para mim. Nesse sentido, a opção pela Pós- Graduação em Psicologia Social representou um dos caminhos possíveis para estar trabalhando e aprofundando questionamentos antigos, que

acabaram por desencadear tantos outros. [...] Esse questionamento levou-me a pensar na importância de compreender o processo de construção dos conhecimentos e dos sentidos atribuídos à menopausa, tanto pela mulher como pela cultura na qual está inserida. Este tipo de abordagem poderia

estar ampliando os conhecimentos que subsidiam programas de saúde

destinados às mulheres de meia-idade e da chamada terceira-idade. (MENEGON, 1998, p. 12-15, grifos nossos).

Essa dissertação é, portanto, um trabalho de Psicologia Social que inclui objetos, conceitos e referenciais teóricos das “Ciências da Saúde”, ou é um trabalho de Saúde Coletiva que se apropria de métodos e autores da Psicologia Social? Talvez a resposta seja: “ambos”. Em alguns momentos, ela parece pertencer a uma área, em outros, parece pertencer à outra – como a ecobag, que assume diferentes tamanhos e formatos de acordo com a “necessidade”. A própria autora destaca a dificuldade de definir dentro de que fronteiras seu trabalho está inserido ao dizer que a forma em que ela aborda a menopausa

[...] representa uma restrição a estudos monodisciplinares e, por mais recortes que se faça, a exigência de uma perspectiva transdisciplinar estará sempre presente. No caso do estudo sobre a menopausa foi necessário estabelecermos interlocução com campos tais como: Psicologia, Biomédicas, História, Sociologia, Antropologia, Lingüística, além da Psicologia Social. (MENEGON, 1998, p. 28).

Quando não mais buscamos traçar fronteiras, complexificamos a realidade113. Permitimos que um método, uma teoria ou um objeto de estudo estabeleça diferentes relações, pertença a diferentes campos disciplinares, seja “topologicamente” múltiplo. A transdisciplinaridade transcende a lógica clássica do “sim” e do “não”, do “é” ou do “não é”,

[...] segundo a qual não cabem definições como „mais ou menos‟ ou „aproximadamente‟, expressões que ficam „entre linhas divisórias‟ e „além das linhas divisórias‟, considerando-se que há um terceiro termo no qual „é‟ se une ao „não é‟ [...]. E o que parecia contraditório em um nível da realidade, no outro, não é. (A. SANTOS, 2008, p. 74).

113 Segundo Morin (2007, p. 22), a palavra “complexo” vem do latim “complexus”, que significa aquilo que é tecido conjuntamente, aquilo que se deve enlaçar. “Nesse sentido, é certo que os conhecimentos que se encontram atualmente separados, fragmentados, enclausurados em disciplinas, não podem se ligar uns aos outros. Não se pode perceber o tecido comum. Portanto, a complexidade exige transdiciplinaridade.”

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Nesta tese, buscamos fugir do realismo que caracteriza grande parte das pesquisas científicas. Sendo assim, não falamos de uma realidade exterior, que antecede e que independe de nossas ações. Mas falamos de uma realidade que se torna real por meio de nossas práticas. Não falamos, portanto, da Psicologia Social brasileira. Falamos apenas de uma Psicologia que é Social porque assim a fizemos ser.

Ao abordarmos a multiplicidade da Psicologia Social brasileira da forma como o fizemos, deixamos de mencionar inúmeros procedimentos, autores, conceitos. Não demos conta do todo; apenas contamos histórias sobre alguns lugares em que, no Brasil, a Psicologia é Social. Afinal, por mais que quiséssemos conhecer, representar ou documentar essa área do conhecimento da forma mais completa possível, nós nunca conseguiríamos fazê-lo.

Segundo John Law (2003), essa limitação não é causada somente por uma inadequação técnica; mas, sobretudo, pelo fato de que tornar algo presente implica, necessariamente, tornar outras coisas ausentes. “Ambas [presença e ausência] andam juntas. Não poderia ser de outra forma. Presença implica ausência.” (p. 7, tradução nossa). Para o autor, essa limitação constituiria um problema se acreditássemos em sujeitos que tudo sabem, em olhos que tudo veem, em base de dados que tudo representam. No entanto, para ele, essa totalidade não passa de uma pretensão, pois

o conhecível é dependente de, está relacionado e é produzido com o não conhecível. Aquilo que está em outro lugar. Ausente. Assim, o problema não está na tentativa de conhecer. Há muitas razões para se tentar conhecer de uma forma ou de outra. Ao invés disso, está no fracasso (ou na recusa) em entender a lógica, o caráter e a política do projeto de conhecimento. No fracasso em pensar através daquilo que está implicado pelo fato de que o conhecimento é constitutivamente incompleto. (LAW, 2003, p.7, tradução nossa).

Sendo assim, para Law (2003, 2008), o problema de muitas ciências naturais e sociais não está em não mencionar ou em excluir o “outro” – isso é inerente ao processo de tornar algo presente. Mas está na negação dessa exclusão. Está na pretensão de ter um saber global, universal e totalizante. Está, também, no fato de ignorar que as práticas científicas produzem realidades.

De acordo com o autor, muitas ciências naturais e sociais partem do pressuposto de que existe uma realidade exterior e pré-determinada e que cabe a elas representar essa

realidade da forma mais fiel possível: “é uma via de mão única. A natureza é colocada no papel de quem fala por si mesma.” (LAW, 2003, p. 7, tradução nossa). No entanto, tal como dissemos nos capítulos 1 e 2, não há uma realidade anterior e independente de nossas práticas114. As ciências, portanto, não apenas representam, mas elas criam realidades. A questão que Mol (1999, 2002) nos coloca passa, então, a ser de extrema importância: qual realidade queremos enact em nossas pesquisas?

Demos pistas de nossa resposta ao longo de toda a tese. Logo na introdução, dissemos que não buscávamos encontrar uma definição única e final de Psicologia Social nem cartografar seu universo. Muito pelo contrário, assim como no trabalho de Moraes (2010, p. 46),

[...] o que fervilha entre estas linhas é a afirmação de um multiverso, isto é, um mundo livre das unificações prematuras [...], mundo comum porque múltiplo e heterogêneo. A composição deste mundo comum nos engaja na difícil tarefa de produzi-lo, a cada dia, em nossas práticas de pesquisa, nos momentos em que decidimos o que conta ou não como “dado” de pesquisa, no momento em que nos engajamos na prática de relatar aquilo que nós pesquisamos. Pesquisar é, neste sentido, engajar-se numa política ontológica que, em última instância, produz o mundo em que vivemos.

Nesta tese, portanto, não nos engajamos apenas em uma política de pesquisa, mas também em uma política de realidade (LAW, 2003). Engajamo-nos em um compromisso com um “multiverso” – ou como diria Law (2011), com um “fractiverso” (fractiverse) – no qual a realidade não passa de um efeito de relações contingenciais e heterogêneas. Engajamo-nos em uma Psicologia Social que é mais do que uma e menos do que muitas: é mais do que uma porque pode ser enacted de diferentes maneiras e menos do que muitas pois suas diferentes versões muitas vezes se relacionam.

Nesta Psicologia Social, os não humanos também têm agência: eles produzem diferenças, desvios, transformações. Sendo assim, ela não é “social” no sentido mais usual do termo, pois não fala somente de pessoas, grupos ou sociedades. Ela é social em um sentido mais amplo, o de associações. Em outras palavras, aqui, “ser social” não significa analisar, descrever ou intervir em um domínio da realidade específico, mas falar das associações, das mediações, dos vínculos entre atores humanos e não humanos. Aqui,

114 Realidades até podem ser enacted como independentes, pré-determinadas, definidas e singulares. Mas isso só é possível “[...] porque elas estão sendo feitas dessa maneira. Poderia ser o contrário. [...] Se elas estão sendo feitas desta maneira é porque a alternativa – que elas podem ser dependentes, simultâneas, indefinidas e/ou múltiplas – está sendo sistematicamente excluída [othered].” (LAW, 2003, p. 8, tradução nossa).

o que nos mantém unidos é o que está além de nossa carne. Mesclado com o linguístico, com o político, com o ideológico... Em outras palavras, [aqui] o social não é o que nos mantém juntos, mas o que é mantido. Além disso, se algo caracteriza nossos marcos de interação é o fato de eles não constituírem algo claramente demarcado e definido, de frequentemente serem redes convulsas repletas de diversos dados, lugares, artefatos, símbolos e pessoas. São, definitivamente, multiplicidades absolutas. Sendo assim, [...] o social é um assunto performativo. É impossível estabelecer a priori propriedades que sejam peculiares à vida em sociedade, ainda que na prática se faça isso. Os elementos que compõem o social são muito variados e o laço social tem propriedades extrassociais e heterogêneas; e são os atores que executam a sociedade, que definem in situ o que é social e o que não é. (TIRADO, 2011, p. 4, tradução nossa).

É importante ressaltarmos que assumir essa definição de social não nos transforma em relativistas radicais; tampouco permite que nos identifiquemos como totalmente construcionistas. Talvez, pudéssemos definir-nos como simpatizantes de uma espécie peculiar de construcionismo, chamada por Latour (2003) de “construcionismo realista” (realistic constructivism). Assim, esquivamo-nos do dilema “ou você acredita na realidade, ou adere ao construcionismo” e assumimos que o social é real justamente porque é construído (PEDRO, 2010).

Assumir essa definição de social possui, também, implicações éticas. Afinal, se a sociedade só existe por meio de nossas práticas, cabe a nós refletir sobre os efeitos daquilo que fazemos. Cabe a nós, perguntarmo-nos “o que queremos que o Social de nossas Psicologias signifique e produza?”

De acordo com Latour (2008), tomar o social como um movimento de reassociação e reagrupamento (reensamblado) de atores heterogêneos amplia a lista de membros que compõem o mundo social e, consequentemente, aumenta nossas possibilidades de intervir na realidade. Em suas palavras, nascida em um momento pouco auspicioso, a Sociologia tradicional

[...] tratou de imitar as ciências naturais no auge do cientificismo e encontrar um atalho para o devido processo político de responder às demandas