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Devlet Okullarında Din Eğitiminin Anayasa Mahkemesi Tarafından

C. DEVLET OKULLARINDA DİN EĞİTİMİ

3. Devlet Okullarında Din Eğitiminin Anayasa Mahkemesi Tarafından

Até o momento, argumentamos que a Psicologia Social é mais do que uma contrapondo as práticas e os conceitos utilizados em algumas pesquisas da área. Mas para falar de diversidade não temos, necessariamente, de visitar “locais” diferentes e falar do que acontece em cada um deles. Em alguns casos, um “lugar” é por si só uma arena de diversidades90.

O primeiro concurso promovido pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP) para a concessão do título de especialista na área é um bom exemplo disso91 – afinal, ele não somente fala de uma série de práticas e locais de atuação distintos, como também suscita inúmeras controvérsias sobre a definição e a delimitação dessa “especialidade” da Psicologia.

De acordo com Ana Maria Jacó-Vilela (2007) e Esther Arantes (2005), a criação do título de especialista gerou debate não somente sobre os aspectos normativos e burocráticos do exercício da profissão, como também sobre o entendimento do que é a Psicologia Social. Levantou questões como: a Psicologia Social trata da discussão subjetiva dos fenômenos sociais, da dimensão social do subjetivo ou da aplicação e investigação da Psicologia em uma perspectiva social? Ela refere-se a um ramo da Psicologia ou a um espaço de intersecção entre a Psicologia e a Sociologia?

Para Cornelis van Stralen (2005), presidente da Associação Brasileira de Psicologia Social (ABRAPSO) na gestão 2003/2005, a segunda opção é a mais pertinente. Ele afirma que, como a Psicologia Social constitui um campo de intersecção entre a Psicologia e a Sociologia, sua prática profissional não coincide com a prática profissional da Psicologia e, sendo assim, não deve sujeitar-se à ação reguladora do CFP. Para o autor, o reconhecimento da Psicologia Social como especialidade “[...] aparentemente é resultado dos esforços do CFP para ampliar o campo profissional da psicologia.” (p. 93). Já para Neuza Guareschi, presidente da ABRAPSO na gestão anterior a de van Stralen, o argumento que sustenta a não pertinência do registro do título de especialista em Psicologia Social é outro. Em ofício

90 O fato de termos argumentado que cada uma das teses e dissertações que descrevemos enact uma Psicologia Social distinta não significa que um mesmo trabalho não possa ter diferentes práticas ou enact Psicologias Sociais distintas.

91 No ano de 2000, o CFP instituiu, por meio da resolução 014/00, o título profissional de Especialista em Psicologia. Além de criar as especialidades em Psicologia Escolar e Educacional, Psicologia Organizacional e do Trabalho, Psicologia do Trânsito, Psicologia do Esporte, Psicologia Jurídica, Psicologia Hospitalar, Psicologia Clínica, Psicopedagogia e Psicomotricidade, essa resolução dispunha sobre as normas e procedimentos para o seu registro. Três anos mais tarde, o CFP baixou outra resolução, a 005/03 (anexo 3), adicionando a esta lista de especialidades a Psicologia Social. O III Concurso de Provas e Títulos, realizado em 2006, foi o primeiro a conceder o título referente a esta nova especialidade.

encaminhado ao CFP (2002)92, ela afirma que a proposta de uma especialidade em Psicologia Social não é coerente com a finalidade e a composição da Associação que presidiu, e vai de encontro

[...] aos auspícios da luta pela compreensão de que toda a Psicologia é social [...]. A posição desta direção é de não legitimar uma ação que venha depor ao contrário desta luta e, também, não contribuir para a formação de uma especialidade em Psicologia Social, correndo o risco de delimitar o compromisso ético-sócio-político que se quer para a prática de qualquer profissional como um fazer técnico somente dos profissionais especialistas nessa área. (GUARESCHI, 2002, p. 2).

Sendo assim, podemos dizer que, para Neuza Guareschi (2002), a Psicologia Social não é uma especialidade, pois ela refere-se ao comprometimento social, à reflexão crítica e ao engajamento político que todo psicólogo deve ter. Heliana de Barros Conde Rodrigues (2005, p. 84, grifos da autora), por sua vez, posiciona-se contra o registro desse título dizendo que a Psicologia Social é aquela que procura não separar a dimensão social da subjetiva. Em suas palavras,

nós, psicólogos sociais (mas... ainda saberemos quem somos nós?), temos procurado inventar/conceber coisa outra: a dimensão social desse tal subjetivo. Em termos mais precisos, aliás, temos tentado imanentizar o que fora separado. Algo sabemos da “dor e delícia” dessa utopia ativamente exercida, seja como estudiosos, profissionais ou militantes. Também temos buscado, por sinal, imanentizar essas funções ditas “especializadas”.

Seu argumento, assim como o de Guareschi (2002), de van Stralen (2005) e o do CFP (2003), indica-nos que posicionar-se no debate acerca do registro do título de especialista implica necessariamente assumir uma concepção de Psicologia Social. Desta forma, podemos dizer que a resolução 05/03 do Conselho Federal funcionou como um “incidente crítico”93,

pois fez com que profissionais da área refletissem e discutissem sobre as diferentes formas de fazer e de pensar a Psicologia Social.

Como dissemos anteriormente, essa diversidade de definições, teorias e práticas está presente não somente nos argumentos pró ou contra o título de especialista, mas também nas provas (discursiva e de conhecimentos específicos) do concurso que dá acesso a essa

92 Agradecemos à Profa. Dr a. Ana Maria Jacó-Vilela por ter permitido que tivéssemos acesso a esse material. 93 O conceito de incidente crítico foi desenvolvido pelo Núcleo de Práticas Discursivas e Produção de Sentidos da PUC-SP, para se referir aos “[...] eventos-chave que podem ilustrar aspectos que se deseja investigar, funcionando como possibilidades de micro-análises que permitem entrever processos da construção de sentido sobre um dado fenômeno.” (GALINDO, 2003, p. 30).

titulação. De acordo com o edital (anexo 4), essas provas tinham por objetivo avaliar as seguintes habilidades e conhecimentos:

1 Raízes epistemológicas da Psicologia Social. 2 Fundamentos teóricos e metodológicos da Psicologia Social. 3 Teorias e práticas de intervenção psicossocial na comunidade. 4 Grupos, organizações e instituições. 5 Categorias étnico-raciais, de gênero, geracionais, de orientação sexual e de classes sociais e suas intersecções com a Psicologia Social. 6 Psicologia Social e Movimentos Sociais. 7 Psicologia Social e Políticas Públicas. 8 Psicologia Social e Saúde Coletiva. 9 Psicologia Social e Educação. 10 Psicologia Social e Trabalho. 11 Possibilidades de intervenção psicossocial em comunidades e movimentos sociais. 12 Direitos Humanos e Psicologia Social. 13 O compromisso ético-político do psicólogo social. 14 Psicologia Social e as transformações no mundo do trabalho. (CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 2006, p. 18).

A prova de conhecimentos específicos (anexo 5) era composta de sessenta questões de múltipla escolha, com cinco alternativas cada, e o candidato tinha três horas e trinta minutos para respondê-las. Já a prova discursiva (anexo 6) tinha duas horas e meia de duração e era composta de quatro questões que abordavam situações-problema relativas à prática profissional de psicólogos sociais. O quadro 8 sintetiza as temáticas abordadas em cada uma dessas questões94.

94 É importante ressaltarmos que, para elaborar esse quadro, consideramos apenas as temáticas mencionadas nos enunciados das questões e nas alternativas de respostas corretas (de acordo com o gabarito oferecido pela Fundação VUNESP). Optamos por fazer essa delimitação a fim de evitar a inclusão, em nossa análise, de repertórios que não são considerados pelo CFP como referentes à psicologia social – um repertório presente numa resposta errada não necessariamente se refere ao que os elaboradores da prova consideram como específico da Psicologia Social.

1 Psicologia Comunitária - Grupos; consciência crítica; identidade social e individual

2 Psicologia Comunitária - Ideologia; significados; sentidos; estereótipos; relações de dominação 3 Psicologia Comunitária - Território; habitação; lócus simbólico; alteridade; possibilidades de convívio 4 Psicologia Social Comunitária - Crianças/ adolescentes em situação de risco; cidadania; projeto político-pedagógico 5 Vertente Psicossociológica Lourau

Lapassade Instituição

6 Análise Institucional Lapassade Organizações do trabalho; coletivo; alienação; condições de trabalho 7 - Bleger Sociabilidade; indiferenciação/sincretismo; grupos e instituições 8 - - Grupos operativos; estruturas estereotipadas

9 - - Grupos operativos; Experiência do Rosário

10 Psicologia - Consequências psicológicas e psicossomáticas das situações de trabalho; questionamento da sociedade (de sua direção, valores e estrutura de poder)

11 - - Violência psicológica contra crianças e adolescentes; políticas públicas na área de saúde; foro familiar 12 Psicologia Social no âmbito da saúde do trabalhador; Psicologia

Social na área sindical - Capitalismo periférico; leis; saúde do trabalhador; conhecimento prático

13 Psicologia Social; Psicologia Clínica - Serviços de saúde (utilização dos serviços e participação da comunidade em sua avaliação) 14 Psicologia Social - Processos involuntários de segregação; saúde/doença; processo de produção social 15 Psicologia Social - Trabalho; sentido; identidade

16 Psicologia Social - Mundo do trabalho; fala do trabalhador; conscientização 17 - - Desemprego; significado do trabalho

18 Psicologia Organizacional; Psicologia Ambiental; Psicologia Comunitária

- Relações no ambiente de trabalho

19 Perspectiva psicossocial Guareschi Pensamento neoliberal e liberal; sociedade industrial contemporânea; liberdade; competitividade; exclusão; culpabilização

20 Psicologia Social Martins Exclusão social; políticas econômicas; políticas de exclusão; políticas de inclusão precária 21 - - II Seminário Nacional de Psicologia e Políticas Públicas; protagonismo social do psicólogo 22 Interface SUS-Psicologia - Processos de subjetivação que ocorrem no plano coletivo; princípio de inseparabilidade 23 Campo psi Despolitização; percepção dicotomizada de sujeito

24 Psicologia (leitura exclusivamente psicológica) - Movimentos sociais

25 Pesquisa Participante; Psicologia Social - Movimentos sociais; dimensões políticas e sociais; conhecimento produzido a partir das relações e da participação 26 Psicologia Social - Identidade municipal; consciência que reflete, explica e transforma a vida do lugar

27 Psicologia Comunitária - Investigação científica; vida cotidiana na comunidade; participação subjetiva e objetiva no cotidiano 28 Psicanálise (técnica grupal de orientação psicanalítica) Grupos operativos, progresso das pessoas envolvidas

29 - - Microgrupos; mediação indivíduo e sociedade 30 Sociopsicanálise (Sociologia; Psicanálise) Marx Freud Instituições; demandas de uma classe institucional

31 - - Atitude, respostas avaliativas (cognitivas, afetivas e comportamentais)

32 - - Representação social; comunicação social (aspectos interindividuais, institucionais e midiáticos); estruturas dos sistemas de comunicação (conduta, opinião, atitude, estereótipo); difusão; propaganda; propagação

33 - - Interação social (aparência física, sinais comportamentais), comunicação interpessoal; modelo da média simples 34 Psicologia Social Experimental - Falta de compreensão da significação e historicidade dos fenômenos de natureza social e cultural; princípios formais 35 Medicina; Engenharia de Segurança - Transformações no mundo do trabalho; saúde do trabalhador; trabalho insalubre; trabalho perigoso

36 Abordagem Psicodinâmica do Trabalho - Sofrimento (insatisfação e ansiedade) 37 Psicologia Social no trabalho - Gênero, saúde e risco no cotidiano do trabalho

40 Psicologia Social Moscovici Social; processos de interação; esquema sujeito-outro-objeto

41 Teoria da Representação Social Moscovici Representações sociais; integração cognitiva do objeto representado; sistema de pensamento social pré-existente; ancoragem

42 Psicologia Social; Völkerpsychologie W. Wundt Raízes da Psicologia Social

43 - - Fórum Social Mundial; alternativa às políticas neoliberais 44 Psicologia Comunitária; Psicologia; Sociologia/Política - -

45 - H. Arendt Ordem, disciplina; violência simbólica; violência física; escola; banalidade do mal 46 Psicologia; Psicologia Social; Pragmática; Fenomenologia Lane Perspectiva histórica da Psicologia Social; duas tendências dominantes

47 Psicologia/Psicologia Social - Toda Psicologia é social 48 Nova Pedagogia (formação psicológica do educador); Psicologia

Social - Aspectos socioculturais e componentes psicológicos da ação pedagógica

49 Psicologia Social cujo foco é a comunidade - Saída dos consultórios e empresas para ir aos bairros populares; negação do passado; reconstrução; práxis, ação educativa, social e científica

50 Ética - Natureza histórica da ética 51 Psicologia Social (décadas de 60 e 70) - Psicologia Social dos EUA

52 Psicologia Social - Crise da Psicologia Social; perda da confiança na epistemologia; racionalidade científica

53 Psicologia Social Comunitária - Educação da população para compreender a natureza e a causa dos problemas psicossociais e os recursos disponíveis para lidar com eles

54 Psicologia Social - Socialização (formação de crenças, valores e significações) 55 Psicologia Social - Gênero

56 - - Influência social

57 - - Preconceito

58 Interacionsmo Simbólico (forma sociológica de Psi. Social) Blumer -

59 Construcionismo na Psicologia Social - Sujeito, objeto, construções sócio-históricas, desnaturalização, problematização 60 Escala do tipo Likert - Escala de atitudes

1d Psicologia Social Comunitária - Transformação social, ênfases teóricas e metodológicas, reconhecimento de várias formas de conhecimento 2d - - Representação social; representação social da violência

3d Psicologia Social; Materialismo Dialético - Indivíduo inserido no processo grupal

Neste quadro, podemos observar que, para o CFP, há psicólogos(as) sociais que trabalham em comunidades, em organizações, em serviços de saúde... Alguns(as) fazem análises institucionais, outros(as) fazem experimentos laboratoriais, pesquisas participantes ou ainda coordenam grupos operativos. Uns(as) são construcionistas, outros(as) preferem o Materialismo Dialético ou a Sócio-Psicanálise. O(a) especialista na área pode estudar atitudes, representações sociais, ideologia, sentidos e significados, processos grupais, fenômenos de massa, preconceitos, relações de gênero, violência, risco no trabalho processos de influência ou de transformação social...

Mas, a despeito de essa especialidade poder ser enacted de diferentes maneiras, ela é uma especialidade. E isso só é possível pois existem modos de coordenação dessa diversidade – tema do próximo capítulo.