Negro, careca, grande na altura e na largura: Souza, há quatro anos, o Arnold Schwarzenegger do timão. Um tipo que intimidava muito mais na aparência que na fala:
– Vocês recebem algum tipo de treinamento para ocuparem o cargo de se- guranças do Corinthians, principalmente quando a torcida vai em peso para o estádio?
– Treinamento nós temos, fazemos um curso e aprendemos a lidar com o pú- blico, né? Ou como conduzir um atleta, depende da situação! Tipo quando tem que tirar alguém do tumulto, pegar algum atleta que está no meio dos repórteres dentro de campo ou quanto tá entrando no vestiário.
– E nos dias de jogo, como é a rotina de vocês em relação a essa segurança dos jogadores?
– Depende do jogo e depende do estádio, cada um tem um procedimento. – E aqui em São Paulo?
– Aqui em São Paulo é tranquilo. O contato com time e a delegação ica meio restrito, não tem tanto a oportunidade pra chegar, só as pessoas que foram comunicadas mesmo.
– E existe algum fato que envolva a torcida e que tenha marcado você? – Tem sim, tanto no Rio, quanto aqui, aconteceram algumas coisas, né? Quando a torcida tenta invadir, por exemplo, quando a torcida tá revoltada por- que o time foi eliminado de alguma competição. Eles se revoltam e vêm cobrar. Aí a gente ica mais atento com esse tipo de coisa, porque, quando eles vêm, vêm pra fazer de tudo. Não a maioria da torcida, mas alguns querem partir pra agres- são e nós temos que resguardar o atleta.
– Você disse que não a maioria e, normalmente, a gente ouve que a Gaviões da Fiel é a torcida mais apaixonada pelo seu time, mas não a mais violente. Pelo contrário, a Independente costuma ser considerada assim. Como você acha que funciona essa relação entre paixão pelo time e violência?
– Não dá pra generalizar não. O que tem é alguns grupos de torcedores, uma meia dúzia que ica mais revoltada. O exemplo pode ser na sua casa: você é corintiano e tem um ilho corintiano, mas seu ilho pode ser mais revoltado que você e vice versa.
Meia dúzia? Acredito que um pouco mais. No entanto, o exemplo dado por Souza parecia tentar obedecer ao que Denis havia pedido no início da entrevista:
– Ó, vê se não vai falar mal da torcida, heim? Fala aí que é tranquilo, fala bem. Era uma opinião que seguia o senso comum para não dar brecha a nada que pudesse colocação a torcida contra o time.
– Eu percebi que havia alguns torcedores aqui dentro. É comum?
– Não é não. Acontece esporadicamente. Uma vez ou outra, às vezes um ami- go, ou quando é aniversário de alguma criança, o pai quer presentear de alguma forma e a gente acaba deixando.
– Você tem algum conhecimento da relação da diretoria do clube com os torcedores? Porque outras torcidas reclamam que são impedidos de fazerem ma- nifestações. E aqui?
– É tudo relativo à situação do time, né? Por exemplo, agora tá tudo tranqui- lo, porque o time tá bom. A restrição tem, porque é um local de trabalho e o tor- cedor tem que cobrar e incentivar da arquibancada. Qualquer tipo de cobrança e apoio tem que ter respeito. Então, pra não misturar as coisas, não é porque tá um momento bom que tem que abrir os portões e liberar, porque em um momento ruim eles também vão querer exigir isso, né? Não sei nos outros clubes, mas aqui não tem muito acesso não.
O que Valquíria me disse no início do dia, sobre o livre acesso dos torce- dores – brecado apenas por conta do período de término da construção do CT
– o segurança não conirmou. Perguntei–me se havia alguma diferença entre o torcedor de organizada e o comum. Talvez uma facilitação para um deles? Não sei. Valquíria ganhou a carteirinha do presidente do clube, mas estava lá fora enquanto Donizete assistia o treino de camarote, junto com outros Gaviões. Mas acredito que Souza tenha respondido a esse meu questionamento interno, mes- mo que sem querer: não é que os torcedores tinham toda liberdade para sempre irem até lá, mas estavam presentes em momentos interessantes à própria direto- ria. E Andrés, como ex-Gavião que era, sabia que esses bons momentos não eram os de crise.
– E você, acompanha o Corinthians só como segurança ou como torcedor também?
– Torcedor, claro.
– Mas você já era antes de se tornar segurança ou não? – Nunca fui fanático, mas sempre torci.
– E você frequentava o estádio?
– Não. Porque eu sou esportista, não fanático. Qualquer time que esteja jo- gando, eu to assistindo.
– Então é fácil se controlar quando o Corirhians está jogando e você traba- lhando?
– Olha, não sei. A gente acaba torcendo mais que o próprio torcedor. Quando ganha é bom pra todo mundo, mas quando perde a gente ica chateado também. Denis apareceu para avisar que já era tarde e estava na hora de eu ir embora. Agradeci aos dois e tive do assessor a garantia de que as respostas para as minhas perguntas, que foram entregues a ele na coletiva de imprensa, chegariam ao im do mês – o que não aconteceu até hoje.
Não posso dizer que saí insatisfeita, apesar de toda burocracia corintiana e de ter que enfrentar a chuva e o frio insistentes. Tive um dia diferente e acompanhar a rotina de jornalistas esportivos me inspirou, além de me dar a lição de que o mundo do futebol não é tão simples quanto parece. Fui embora com muitas impressões sobre aquele lugar, mas uma prevaleceu ao im do dia: a torcida do Corinthians era muito mais organizada que a equipe de seu próprio time. Sobre a receptividade iquei dividida. Todo trabalho que tive para ser “aceita” na Gaviões, foi o mesmo no clube corintiano; mudou apenas o glamour ao redor de quem frequentava cada lugar, o que na sede era bem menor.