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A globalização, como fenômeno multidimensional, obedece a decisões de natureza econômica e política, através das quais influenciam direta ou indiretamente diversas nações. Sabe-se que a economia não se move mecanicamente, porque depende da complexa relação das forças políticas que se estruturam em âmbito internacional. Desse modo, alguns padrões e valores socioculturais característicos da ocidentalidade, principalmente a forma europeia e a norte-americana, passaram a influenciar as formas de sociedade. Isso expressa o vaivém do processo histórico-social da ocidentalização ou modernização do mundo (IANNI, 2001).

A concepção de mundo moderno prevalece nas sociedades avançadas da Europa Ocidental e nas sociedades de fala inglesa. Assim, a tese da modernização do mundo sempre leva consigo a tese de sua ocidentalização, que envolve, principalmente, os padrões, os valores e as instituições predominantes na Europa Ocidental e nos Estados Unidos. Ela está na base de muitos estudos, debates, prognósticos, práticas e ideais relativos à mundialização (IANNI, 2001).

A partir desse cenário, percebemos que a globalização se apresenta como uma das categorias fundamentais para pensar as políticas de accountability no contexto mundial, em

especial, no Brasil. Entretanto, quase não há contexto globalizado explícito nos documentos analisados no cenário educacional de Pernambuco.

De acordo com o Apêndice B, nos 18 documentos analisados, só foram encontradas sete ocorrências da categoria 'globalização', todas localizadas no grupo de documentos políticos.Essas ocorrências não se apresentaram de modo explícito, mas implícito, pois estavam associadas à palavra ‗integração‘. Isso pode ser confirmado nos trechos seguintes, mostrados no Quadro 2, onde são expressos os valores defendidos na identidade estratégica da Secretaria de Educação do Estado de Pernambuco, como também no Plano Estadual de Educação, quando defende um discurso de ‗integração‘ de jovens e adultos no mercado de trabalho, da juventude do campo, indígena e quilombola, além de pincelar sobre a integração entre instituições de fomento à pesquisa.

Quadro 2- Trechos dos Documentos - Categoria Globalização

"Equidade, Igualdade, Solidariedade, Integração, Compromisso, Ética, Justiça Social, Transparência e Inovação" "Criar espaços de formação, visando à integração das juventudes rural e urbana".

"Criar mecanismos que fomentem a integração entre os segmentos empregadores, públicos e privados, e os sistemas de ensino, para promover a compatibilização da jornada de trabalho dos empregados e das empregadas com a oferta das ações de alfabetização e de educação de jovens e adultos".

"Fomentar a integração da educação de jovens e adultos com a educação profissional, em cursos planejados de acordo com as características e especificidades do público da educação de jovens e adultos, inclusive na modalidade de educação a distância".

"Fomentar a integração da educação de jovens e adultos com a educação profissional, em cursos planejados, de acordo com as características de público da educação de jovens e adultos e considerando as especificidades das populações de campo, indígena e quilombola".

"Estimular a integração e a atuação articulada entre a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES e as agências estaduais de fomento à pesquisa".

Isso fortalece o que afirma Ianni (2001). quando diz que, à medida que o mundo se moderniza, prossegue a generalização do pensamento pragmático ou tecnocrático. É nesse sentido que, no ideário de modernização universal, está presente o ideário de evolução progressiva, em que a mundialização é um desdobramento do processo de modernização inerente ao capital e entendido como um processo civilizatório da humanidade. Isso pode ser confirmado quando analisamos o contexto pernambucano, onde o Estado estabelece um

crescimento educacional desejável de acordo com o crescimento apresentado pelos países desenvolvidos.

Essas metas são ousadas - superiores as definidas pelo Ministério da Educação (MEC). O quadro abaixo apresenta os objetivos do Estado para 2021, por modalidade de ensino, e faz um comparativo com as metas estabelecidas pelo Ministério para Pernambuco e para o Brasil. A média 6,0 (seis), definida pelo Estado, é semelhante às apresentadas, atualmente, por países desenvolvidos (PERNAMBUCOa, p. 85).

Para Ianni (2001), está em curso a burocratização do mundo, a qual, uma vez instituída, é a mais difícil de ser destruída. As tecnocracias são vistas como organizações sistêmicas, que expressam a racionalidade instrumental predominante no capitalismo. Elas

transformam recursos científicos e tecnológicos em diretrizes, decisões, planejamentos e práticas destinados a organizar, dinamizar e modificar o jogo das forças sociais, em conformidade com os interesses prevalecentes nas estruturas de dominação política e apropriação econômica (IANNI, 2001, p. 155).

Discorrendo ainda sobre a racionalização da sociedade, Ianni (2001, p. 156-157) afirma que:

uma parte fundamental da racionalização da sociedade é desempenhada pelo direito, pela codificação jurídica das responsabilidades, normas e procedimentos, estipulando os parâmetros das ações e relações, das instituições e organizações.[...] Juntamente com a racionalização do mercado, desenvolve-se e generaliza-se o direito racional. [...] Mas cabe reconhecer que o direito se constitui em uma espécie de parâmetro universal da sociabilidade característica da ordem social capitalista. Em todas as esferas da vida social está presente o parâmetro constituído pelas disposições jurídicas que ordenam e disciplinam as ações e relações de uns e outros em moldes racionais. (IANNI, 2001, p. 156-157)

É nesse universo em que predomina o princípio da quantidade, pois, aos poucos, a qualidade se subordina à quantidade (IANNI, 2001). Assim, chega um momento em que as mercadorias produzidas precisam ser consumidas para se realizar em valor e, depois, em lucro. Para que o capital se efetive, o consumo deve se efetivar e se intensificar, o que evidencia que o princípio da quantidade está subjacente à mesma origem do capitalismo.

Para Santos (2001) a globalização traz, em si, uma nova noção de riqueza, de prosperidade e de equilíbrio macroeconômico, fundamentado no dinheiro, em que todas as economias nacionais são chamadas a se adaptar. O consumo é, pois, um denominador comum para todos os indivíduos, que atribui ao dinheiro um papel fundamental e em que o dinheiro e o consumo passam a ser reguladores da vida individual. Assim, o consumo é o grande

produtor e/ou encorajador de imobilismos, veículo de narcisismos, por meio dos seus estímulos estéticos, morais, sociais, além de aparecer como o grande fundamentalismo do nosso tempo, visto que alcança e envolve toda a gente. Por isso, "o entendimento do que é o mundo passa pelo consumo e pela competitividade, ambos fundados no mesmo sistema da ideologia" (SANTOS, 2000, p. 25).

A partir dos trechos citados acima, no quadro 01, pode-se perceber que o capitalismo se revela como um modo de produção internacional, que ocorre num processo de amplas proporções que ultrapassam fronteiras geográficas, históricas, culturais e sociais, influenciam feudos e cidades, nações e nacionalidades, culturas e civilizações. Ainda que se preservem economias de subsistência, o capitalismo exerce influência moderada ou avassaladora, dependendo do estado em que se encontra e da formação social do estado com que se defronta. Sendo assim, no curso da história da globalização do capitalismo, muito do que se encontra pelo caminho se altera, tensiona, modifica, anula, mutila, recria ou transfigura.

De acordo com Ianni (2001), é nesse contexto em que se formam e se desenvolvem as atividades econômicas nacionais e internacionais. Assim, o modo capitalista de produção pode ser visto como um todo complexo, desigual, contraditório e dinâmico, uma totalidade aberta ou propriamente histórica. Está sempre em movimento, no sentido de que se transforma e expande, entra em crise e retoma sua expansão, de maneira errática mas progressiva, com uma frequência inexorável.

Ianni (2001) assevera que as políticas de ‗modernização‘ e ‗racionalização‘, assim como as de ‗desregulação‘, ‗desestatização‘ e ‗liberalização, preconizadas pelo FMI e pelo BIRD, juntamente com as corporações transnacionais, em geral, orientadas pelo neoliberalismo, podem criar condições de se realizar o excedente econômico. Ele acrescenta que a expressão ‗planejamento‘ nem sempre está explícita, mas as políticas e as diretrizes, ou os diagnósticos e os prognósticos das organizações multilaterais e das corporações, destinam- se a orientar e a disciplinar o uso de recursos, a modernização de instituições e a racionalização de mentalidades e de práticas, a fim de aperfeiçoar e dinamizar a produtividade e a lucratividade.

Concluindo, podemos dizer que a globalização é ―um processo civilizatório que invade todo o globo, envolve o intercâmbio universal e cria as bases de um novo mundo, influenciando, destruindo ou recriando outras formas sociais de trabalho e vida, outras formas culturais e civilizatórias‖ (IANNI, 2001, p. 201). Isso pode ser percebido, mesmo que nas entrelinhas, no contexto educacional do estado de Pernambuco, visto que os documentos evidenciam a presença velada do contexto global, e a Secretaria de Educação, como órgão

estatal, é instituidora das políticas educacionais, e o Plano de Estadual de Educação é o documento norteador delas.