ISD, por se inscrever nos princípios do interacionismo social, bem como contar com as contribuições das Ciências Humanas e sociais, não se insere em um quadro completamente linguístico, nem mesmo completamente psicológico ou sociológico, mas busca ser tomado como “uma corrente da ciência do humano” [grifo do autor] (BRONCKART, 2006, p. 10). Como base de estudos dessa ciência, o ISD tem como objetivo demonstrar que o desenvolvimento humano, no que diz respeito à aquisição de conhecimento quanto às capacidades de agir, se dá através das práticas linguageiras situadas que, consequentemente, geram textos-discursos. Além disso, pensa que o ser humano se constitui através das ações sociais que o cercam.
Não são as capacidades cognitivas do sujeito o objeto primeiro de análise, pois o conhecimento é aprendido sempre em atividades coletivas sociais e mediatizadas por interações verbais. Assim, se o pensamento deriva da ação e da linguagem, o objeto de análise deve ser essas ações de linguagem, relacionadas às representações do agente do contexto da ação, em seus aspectos físicos, sociais e subjetivos (CRISTOVÃO, 2001, p. 19).
Deste modo, o ISD surge das pesquisas desenvolvidas por Jean-Paul Bronckart na década de 80, juntamente com pesquisadores como Bernard Schneuwly, Joaquim Dolz, Daniel Bain, Itziar Plazaola e outros, que compuseram a Unidade de Didática de Línguas da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Genebra.
No Brasil, esse pressuposto teórico-metodológico chega em 1999, com a tradução da obra Activité langagière, textes et discours. Pour um interactionisme sócio-discursif, escrita por
Jean-Paul Bronckart e lançada em 1997, cuja tradução é Atividade de linguagem, textos e discursos. Num primeiro momento, as pesquisas desse quadro teórico voltavam-se para a elaboração de sequências didáticas e de um modelo teórico que desse conta da prática de ensino. Num segundo momento, objetivou o aperfeiçoamento do modelo teórico inicial e o estabelecimento da importância da atividade de linguagem no desenvolvimento humano (GUIMARÃES e MACHADO, 2007).
Antes mesmo da chegada da tradução dessa obra em nosso país, pesquisadores brasileiros do Programa de Estudos Pós-graduados em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem (LAEL) da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) entraram em contato com essa teoria, segundo Jacob (2013), na I Conference for Social-Cultural Research em Madri, especificamente na conferência dada por Bronckart, intitulada Action Theory and Analysis in Action in Education. Em 1994, um acordo institucional entre a PUC-SP e a Universidade de Genebra é firmado e, em 1995, Anna Rachel Machado defende a primeira tese escrita com base nesse pressuposto teórico-metodológico, tendo como co-orientador Jean-Paul Bronckart.
A partir disso, pesquisadores brasileiros passam a desenvolver trabalhos dentro dessa linha teórica, o que resultou na formação e consolidação do grupo de pesquisa ALTER (Análise de Linguagem, Trabalho Educacional e suas Relações) que, segundo Guimarães e Machado (2007), contava com pesquisadores das mais diversas universidades, inclusive de universidades argentinas e portuguesas.
Bronckart, em entrevista a Machado (2004, p. 232), explica que os trabalhos desse pressuposto teórico-metodológico podem ser divididos em cinco grandes tipos:
1. Pesquisas que visavam a construir um modelo da estrutura e do funcionamento dos textos/discursos do francês, o que culminou na publicação do livro Le fonctionnement des discours. Anos mais tarde, esse modelo passa a ser aplicado em
outras línguas e o resultado dessas pesquisas foi apresentado na obra Activité langagière, textes et discours, que, como mencionada, foi a obra que amplamente divulgou as pesquisas nessa área;
2. Pesquisas voltadas para a aprendizagem de elementos da organização textual, por crianças falantes de diversas línguas. Entre esses elementos, estão os tempos verbais, os organizadores textuais e os procedimentos de modalização;
3. Pesquisas em didática de línguas, que buscavam a reforma do ensino da Suíça francófona, a elaboração de materiais e sequências didáticas;
4. Pesquisas de cunho teórico voltadas para a epistemologia das ciências humanas e para os estudos da teoria dos signos de Saussure e das teorias da ação;
5. Pesquisas sobre a análise do agir e dos discursos em situação de trabalho, no qual foi formado um grupo denominado LAF (Langage – Action – Formation), que, além de Bronckart, contava com pesquisadores internacionais, como o Prof. Dr. Yves Clot (CNAM/Paris), o Prof. Dr. Daniel Faïta (IUFM/Marselha) e a Prof. Anna Rachel Machado (LAEL – PUC-SP).
Em relação às pesquisas do grupo ALTER- LAEL sobre o agir docente, Machado (2007, p. 94) explica que, ao buscar analisar e identificar as mais diferentes representações do agir docente, expressas em textos produzidos em inúmeras situações que envolvem o ambiente educacional, percebeu-se que “o verdadeiro ‘déficit’ não está no professor, mas nas próprias prescrições ou nas condições de trabalho, que impedem a realização de seu agir profissional e, portanto, o seu desenvolvimento particular”.
Machado (2004), ao entrevistar Bronckart, aponta que, embora tenha algumas divergências teóricas, a característica em comum com as pesquisas brasileiras se dá devido à “perspectiva de intervenção na educação, imediata ou prospectivamente” (p. 312). Jacob (2013, p. 35), em seu levantamento sobre as pesquisas dentro do ISD, reitera que elas são de ordem
didática, envolvendo trabalhos sobre formação e desenvolvimento de crianças, jovens e adultos; transposição didática dos gêneros textuais, elaboração e avaliação de materiais didáticos e formação de professores, levando em conta o agir docente.
Com relação ao item cinco, Bronckart (2008) explica que, nos últimos anos, devido a demandas sociais, há o surgimento de novas disciplinas de caráter interventivo, como a Ergonomia, a Análise do Trabalho (Clínica da Atividade), as didáticas profissionais e as didáticas escolares. As primeiras discutem a formação e o trabalho de adultos e as concepções da filosofia do agir em ambientes de atividades industriais, ao passo que a última delas estuda a questão da adaptação dos programas de ensino e, com o tempo, passou a analisar a representação do trabalho do professor. Conforma afirma Bronckart (ibidem, p. 10), “estabeleceu-se um novo campo de estudos transversais, que desenvolve seus próprios conceitos e métodos e que reformula a questão do papel que o conjunto das dimensões do agir profissional desempenha no desenvolvimento privado e social das pessoas”.
Assim, como já mencionado, surge o grupo de trabalho LAF em 2000, reunindo pesquisadores de várias disciplinas, entre elas das Ciências da Educação, Psicologia, Filosofia, Sociologia e Linguística, a fim de abordar quatro problemáticas principais com relação ao agir em situação de trabalho, como aponta Bronckart (ibidem, p. 11):
(i) “Análise epistemológica e metodológica do estatuto, da pertinência e das condições de descrição dos fenômenos ou unidades da natureza praxiológica (agir, atividade, ação etc.)”;
(ii) “Análise das condições de ‘formatação’ do agir humano em diferentes gêneros de textos produzidos sobre situações de trabalho (documentos de prescrição, entrevistas, textos produzidos em autoconfrontação etc.)”;
(iii) “Análise linguística das unidades, estruturas e processos textuais que desempenham um papel particular na expressão das diferentes dimensões do agir”;
(iv) “O desenvolvimento de dispositivos e processos de formação, explorando os resultados de pesquisas empíricas”
Maiores explicações sobre essa área de estudos que se voltam para o trabalho, especificamente o trabalho docente, um dos focos atuais dos estudos do ISD atualmente, serão dadas subsequentemente. A seção seguinte abordará as concepções que subjazem a concepção do quadro teórico metodológico do ISD.