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Ortak Girişimin Bağımsız Bir İktisadi Varlık

4.2. TAM İŞLEVSEL/TAM İŞLEVSEL OLMAYAN ORTAK

4.2.1. Tam İşlevsel Ortak Girişimler

4.2.1.1. Ortak Girişimin Bağımsız Bir İktisadi Varlık

Em termos de práticas de gerenciamento no âmbito da conciliação, notou-se a prevalência, nas três esferas estudadas, de sistemáticas de “mutirões” de pautas concentradas (ou pautas específicas), que consistem no agrupamento de disputas (pré-processual) ou processos (processual) levando-se em consideração o envolvimento de determinado grande litigante e/ou a temática envolvida na disputa/processo. Essa agregação de disputas a partir de características em comum ocorre tanto em mutirões esporádicos quanto de forma sistemática, havendo diversos programas e centros judiciais que organizam suas pautas de audiências somente dessa forma.

Os mutirões e pautas concentradas assemelham-se, de certo modo, ao tratamento gerencial conferido a mass torts nas cortes americanas, onde o reconhecimento de que tais disputas decorrem de um mesmo evento danoso, como um acidente, um produto defeituoso, ou atos em geral que afetem uma coletividade (discriminação no ambiente trabalho, antitruste, valores mobiliários, consumo de modo geral) leva o Judiciário a lidar com esses processos de forma agregada400.

Sobre as possíveis formas de agregação, Judith Resnik distingue a agregação formal, prevista em lei, da informal, que é essencialmente gerencial401.

Seriam mecanismos formais as class actions; a “consolidação” prevista pela Rule 42402, que permite a reunião de feitos ou a realização de atos ou audiências em conjunto em casos envolvendo questões de fato ou de direito semelhantes; a joinder of claims, em que partes e disputas podem ser reunidas para processamento em conjunto403; a multidistrict litigation; dentre outros previstos em leis específicas.

Os mecanismos informais, por seu turno, consistem em atividades de gerenciamento que criam procedimentos agregados para lidar com disputas semelhantes, como a centralização de casos envolvendo um determinando evento ou um réu específico em um único juízo para que realize procedimentos em conjunto (coleta de provas, audiências na fase do pretrial, designação de magistrate judges404 ou special masters, etc.). A parte demandante

400 MENKEL-MEADOW, Carrie J.; LOVE, Lela Porter; SCHNEIDER, Andrea Kupfer; STERNLIGHT, Jean R., 2005, p. 655-656.

401 RESNIK, Judith. From “cases” to “litigation”. Law & Contemporary Problems, v. 54, p. 5-68, 1991. p. 24. 402 “Rule 42. (a) Consolidation. If actions before the court involve a common question of law or fact, the court

may: (1) join for hearing or trial any or all matters at issue in the actions; (2) consolidate the actions; or (3) issue any other orders to avoid unnecessary cost or delay”.

403 Vide regras 18 a 20 das Federal Rules of Civil Procedure.

404 Os magistrate judges são auxiliares do juízo apontados pelos próprios juízes para exercerem um mandato limitado e auxiliarem os juízes em variadas atividades jurisdicionais. Sobre os magistrate judges, vide Título

pode indicar se há outros casos relacionados no juízo, havendo, ainda, a possibilidade de cooperação informal entre juízes que estejam processando casos semelhantes para realização de determinados atos em conjunto405.

Outra forma de agregação informal seria a criação de instalações ou iniciativas específicas para processar demandas similares, em que poderiam ser oferecidos aos litigantes diversos tipos de procedimento, incluindo a mediação, conciliação ou arbitragem406. Um exemplo citado pela autora é a “Asbestos Claims Facility”, em que um grupo de réus envolvidos nos casos de indenização por danos decorrentes do uso de amianto (asbestos) na construção civil (fabricantes e seguradoras) reuniu-se para montar um sistema para avaliação dos casos, tratativas de acordo e pagamento e contratação de advogados para defesa nos processos existentes e vindouros407.

No Brasil, o espectro de disputas repetitivas não se restringe às demandas indenizatórias análogas às torts americanas, compreendendo também um significativo volume de demandas nas quais o litigante repetitivo é autor, tais como as cobranças de dívidas bancárias e as execuções de débitos fiscais. Ainda assim, os programas e centros judiciais de solução de conflitos vêm se utilizando de práticas de gerenciamento similares aos mecanismos informais de agregação usados nas experiências relatadas referentes à mass torts, ao reunir em uma mesma sede, dotada de um juiz coordenador, contingentes de disputas agregadas em função das partes envolvidas (mormente o grande litigante, como autor ou réu) e das questões de fato e de direito suscitadas.

Os atores envolvidos com os programas judiciais de mediação e conciliação no Brasil relataram diversas vantagens na agregação de disputas e demandas por meio dos mutirões e pautas concentradas. Foram ressaltados aspectos atinentes à eficiência dessa prática e à possibilidade de se promover soluções mais uniformes aos litigantes envolvidos, permitindo, ainda, que se tenha uma noção mais clara do contingente de disputas similares, de modo a que sejam buscadas soluções efetivas para que a causa dessas disputas seja reconhecida e enfrentada.

28, Parte III, Capítulo 43 do United States Code. Sobre seu papel nas settlement conferences e na mediação judicial nos EUA, vide GABBAY, Daniela Monteiro, 2013, p. 144-151.

405 “The linchpin here is centralization via assignment to a single judge. Sometimes a judge is assigned all cases that involve a particular event or a specific defendant. One vehicle for discovery of the ‘relatedness’ of new cases to those already pending is the federal civil cover sheet, a form that must accompany the filing of all civil complaints. The person who files a complaint is required to state whether the case being filed is ‘related’ to any pending cases. Once such a statement of relatedness is provided, courts often assign the newly-filed case to the same judge who has the ‘related’ case”. (RESNIK, Judith, 1991, p. 37).

406 RESNIK, Judith, 1991, p. 38.

407 Sobre o “Asbestos Claims Facility”, vide FITZPATRICK, Lawrence. The Center for Claims Resolution.

Entrevistados relataram que, além de facilitar a realização de diligências burocráticas (ex.: a intimação do grande litigante para comparecimento em todos os casos), os mutirões e pautas concentradas fazem com que o grande litigante tenha uma dimensão melhor de seu contingente de processos, identificando quais práticas, dispositivos contratuais, produtos, etc., são mais frequentemente objeto de disputas judiciais. Idealmente, esses litigantes poderiam repensar essas práticas, de modo a reduzir efetivamente o volume de demandas nas quais estão envolvidos. Ao visualizar seu passivo de processos com maior clareza, esses litigantes conseguiriam apresentar propostas mais flexíveis, objetivando uma redução significativa dos custos decorrentes da condução dessas demandas.

As entrevistas também apontaram que a agregação permite o encaminhamento de representante das empresas ou entes públicos com poderes mais amplos de transação, facilitando-se as tratativas de acordo durante as audiências. Ao invés de enviar prepostos diversos todos os dias ao fórum, o grande litigante pode encaminhar representantes mais bem preparados nesses dias específicos, sabendo com antecedência quais serão as disputas e temáticas envolvidas nas sessões conciliatórias.

Os mutirões e pautas concentradas também fomentam um contato prévio entre o Judiciário e os grandes litigantes em que as condições gerais e margens de acordo para cada tipo de disputa repetitiva passam a ser discutidas antes das audiências. Os atores ouvidos no estudo empírico ressaltam que essas tratativas visam a assegurar melhores condições aos litigantes ocasionais, resguardando-se também sua autonomia para transacionar os termos específicos de cada acordo. Em muitos casos, a participação do litigante repetitivo nos mutirões chega a ser condicionada a apresentação de propostas significantemente mais vantajosas do que aquelas que seriam submetidas no caso individual ou extrajudicialmente.

É também através dessas práticas de triagem e gerenciamento, que envolvem um exame prévio das características de cada litigância repetitiva, partes e questões de fato e de direito envolvidas, que o Judiciário poderá decidir pela formulação de programas específicos para lidar com a litigância repetitiva, envolvendo outros atores e salvaguardas para os litigantes ocasionais, além de incentivos para os litigantes repetitivos.

É isso que se verificou nos programas de mortgage foreclosure, nos EUA, e no projeto de Superindividamento (CEJUSC-SP), nos quais não somente práticas de gerenciamento, mas todo o desenho do programa, capacitação dos mediadores/conciliadores, envolvimento de outros auxiliares e demais escolhas pertinentes a estruturação da iniciativa foram pensadas a partir de um determinado contingente de disputas repetitivas (ou cada litigância repetitiva).

Se a agregação apresenta diversas vantagens ao Judiciário, ao litigante repetitivo e ao litigante ocasional, há também riscos que devem ser levados em consideração.

Para justificar a realização desses mutirões e promover incentivos para adesão dos grandes litigantes, o Judiciário acaba enfatizando demasiadamente o volume de acordos realizados, propiciando uma abordagem mais incisiva por parte dos conciliadores. Há também situações nas quais estes e demais funcionários aproximam-se do litigante repetitivo, que se torna um verdadeiro “parceiro” do centro ou programa judicial. Todos esses fatores podem contribuir para que o litigante ocasional sinta-se pressionado para transigir contra a sua vontade ou sem dispor de informações suficientes para tomar uma decisão consciente quando da celebração do acordo.

Nessa parceria entre o Judiciário e o grande litigante, é comum que este relacione quais disputas (reclamações, cobranças, etc.) ou processos serão remetidos para o mutirão ou inseridos em determinadas pautas concentradas. Essa ingerência do grande litigante sobre o encaminhamento de casos à conciliação certamente lhe será mais vantajosa do que para o litigante ocasional. Afinal, o litigante repetitivo consegue optar por remeter aos mutirões somente casos em que sua perspectiva de êxito é mais remota, ao passo que o litigante ocasional não conhece suficientemente a jurisprudência e tampouco possui uma dimensão dos desdobramentos da litigância repetitiva para traçar um prognóstico de êxito fundamentado.

Deste modo, verifica-se agregação de disputas repetitivas não será uma prática gerencial efetiva se o encaminhamento para vias consensuais for realizado unicamente à critério do litigante repetitivo, sem se considerar se esse é o tratamento mais adequado ao contingente de disputas em questão. Ademais, os mutirões e pautas concentradas também não podem inviabilizar o exame, ainda que preliminar, das peculiaridades de casos individuais e dos verdadeiros interesses e necessidades dos envolvidos, em especial do litigante ocasional, de modo a proporcionar as condições necessárias para que os acordos firmados verdadeiramente reflitam um resultado considerado justo pelas partes.